quarta-feira, julho 09, 2014

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Sulphira & Lucyphur


António de Macedo (1995). Sulphira & Lucyphur. Lisboa: Caminho.

Não me consegui libertar da sensação de exotismo orientalista ao longo da leitura desta obra de António de Macedo. É um livro que se assume nominalmente como de ficção científica, mas que por dentro desta casca se revela algo mais exótico. As influências do esotérico e do maravilhoso são mais fortes do que a visão científica da FC. E assumidas, parece-me. Não se trata aqui de imaginar explorações espaciais em futuros distantes, mas antes criar uma sensação de forças cósmicas para lá da nossa percepção. Diga-se que é um conceito que tem o seu quê de época, esta FC pouco científica e muito esotérica herdeira da viragem cultural hippie e new age com toques do esoterismo da viragem de século.

O romance desenrola-se em dois grande cenários. Num planetóide aparentemente estéril do cosmos longínquo cinco emissários de Khalôm, essa imagem de cidade de elevação espiritual que Macedo tanto utiliza na sua obra literária e cinematográfica, descobrem-se no ponto fulcral de uma ofensiva de seres transdimensionais malévolos. Ou aparentemente malévolos, porque nestas coisas nunca há absolutos e a invasão parece ser uma tentativa de partilha que corre mal por desvarios da física hiperdimensional. Na Terra acompanhamos as aventuras de um fútil nobre lisboeta e de uma criadita engenhosa, que não são quem aparentam ser. São manifestações corporais de dois dos emissários cujos corpos se encontram no distante planetóide.

Estes cometem o crime supremo dos emissários, o apaixonar-se e quebrar com a sua dualidade a pentacularidade dos núcleos de emissários da distante Khalôm. São, no final do romance, punidos com exílio permanente na Terra, ocupando os corpos humanos que invertem lógicas sociais. Ele, por cá, é nobre e ela humilde, mas na gloriosa civilização de que são originários ela é princesa e ele humilde técnico. É um dos indícios da marcante ironia que Macedo coloca nas suas obras. A Terra, aparentemente um planeta atrasado de somenos importância, é de facto o ponto nevrálgico das guerras cósmicas que opõem as várias Khalôms e os invasores extradimensionais. O progresso científico é a arma da desespiritualização, o elemento que permite ao lado negro afirmar-se no universo. A tentação de descartar esta ideia como uma posição anti-científica do autor é grande, mas creio que errada. Macedo contrapõe com um personagem secundário que encarna tudo o que está de errado na superstição disfarçada como ciência, na figura de um médico que não se apercebe que os constantes ataques de tosse de que sofre talvez advenham do constante fumar e que prefere curar todas as maleitas com sangramentos e mezinhas. Os doentes curam-se, apesar do tratamento. Talvez o ponto onde o autor nos quer deixar a reflectir é na problemática da ética na ciência, dos excessos da hubris, nas visões dos progressos a todo o custo que não olham às consequências.

Após a leitura a sensação que fica é a de grande exotismo. Quer o onirismo do vasto cosmos quer as intrigas da Lisboa do século XIX, aqui manipuladas por forças ocultas que fazem dos homens ambiciosos os seus peões, estão mais dentro de sentimentos de deslumbre com o maravilhoso do que aventura com bases científicas. As fronteiras valem o que valem, são úteis para definir e reflectir, mas não nos deixemos espartilhar por elas. Obras que transgridem os limites de género são interessantes precisamente pela mistura de iconografias e elementos de diferentes tradições,abrindo horizontes ficcionais e, em essência, despertando sonhos. Algo que do que vou conhecendo da obra de António de Macedo, parece ser um dos seus principais pilares de força. Isso e a forte ironia que confere às suas narrativas.
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«Um Português, Autor de Ficção Científica» in JLA (1962)

Artigo em Jornal de Letras e Artes, 13 de Junho de 1962, p. 15. Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.

 
Um Português, Autor de Ficção Científica
Que é a ficção científica, a «science-fiction», conforme foi primeiramente designada em 1926 pelo norte-americano Hugo Gernsback, esse género literário que conquistou tão grande popularidade no mundo inteiro?

A expressão, no seu significado literal de «fantasia científica», não parece corresponder ao seu verdadeiro sentido, embora tenha criado raízes no público. Seria talvez mais adequado denominar «antecipação científica» a essa corrente literária, cultivada desde há séculos por escritores e filósofos como Platão, Cyrano de Bergerac, Voltaire, Edgar Poe, Júlio Verne, André Laurie, H. G. Wells e, modernamente, por nomes como Robert Heilein, Isaac Asimov, Van Vogt, Arthur C. Clark [sic], Will Jenkins, Th. Sturgeon, etc.

Na verdade, por muito fantasistas que sejam os seus relatos, têm sempre demonstrado, quando escritos por autores conscienciosos, a preocupação de não se afastarem do conteúdo real da Ciência, ainda mesmo quando parecem transcendê-la nas suas mais ousadas concepções; além de que podem eventualmente encaminhar os cientistas na senda de novas e fecundas descobertas.

Misto de realidade e de imaginação, que fornece um meio ideal de evasão inteligente da vida, este género literário conta grandes cientistas entre os seus mais fiéis leitores.

A sua popularidade deve-se, inegavelmente, ao interesse despertado pelas espantosas realizações da ciência e da técnica modernas, nesta época de «robots» e cérebros electrónicos, de foguetões e satélites artificiais, de energia atómica e de... discos voadores.

Mais do que as histórias policiais, possui um extraordinário poder de sedução, a que não faltam acção, aventura e emoções fortes. Distrai, mas também instrui, revelando ao leitor muitos factos que eram desconhecidos e, simultâneamente, representando o género mais variado no campo do pensamento humano.
Pois esta literatura tão interessante, tão cheia de actualidade num mundo que se prepara ambiciosamente para conquistar o Universo, não tinha até há pouco tempo, que saibamos, um representante nas letras portuguesas.

Deve-se esse mérito a Luís de Mesquita, que há poucos anos se estreou com a publicação de uma novela de antecipação denominada «Mensageiro do Espaço». Inexplicavelmente, essa obra não mereceu a menor referência da crítica. Apraz-nos, portanto, preencher essa lacuna. E fazemo-lo, pois não podemos deixar de louvar a perseverança, agora que, alheio a desânimos que seriam legítimos, vai publicar o seu segundo romance do mesmo género, intitulado «A Ameaça Cósmica».

terça-feira, julho 08, 2014

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«O Homem que Vinha do Passado» in JLA (1962)

Crítica em Jornal de Letras e Artes, 30 de Maio de 1962, p. 3. Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.

O Homem que Vinha do Passado, por Theodore Sturgeon
O autor, já experiente na feitura de livros de ficção científica, patenteia mais uma vez a sua fértil imaginação criadora ao descrever-nos as curiosas e empolgantes reacções de Charlie Johns – um homem que vivia no futuro e cujo paraíso se transformou num pesadelo quando notou o paradoxo temporal em que vivia.

Correcta tradução de Mário Henrique Leiria e capa de Lima de Freitas digna de um registo muito especial.

J. V.

segunda-feira, julho 07, 2014

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«Nove Amanhãs» in JLA (1962)

Crítica em Jornal de Letras e Artes, 18 de Abril de 1962, p. 4. Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.

Nove Amanhãs, de Isaac Asimov – Tradução de Fernando de Castro Ferro – 305 páginas – Colecção Órbita – Editorial Minotauro
Se a ficção científica é já hoje aceite como um género digno de enfileirar com qualquer outro tipo de literatura de ficção, tal se deve a alguns dos seus melhores cultores, de que vem a propósito recordar Isaac Asimov.

«Nove Amanhãs» é uma série de histórias, visões fantásticas do futuro do homem, em que Asimov revela todos os seus conhecidos dotes de imaginação, os seus conhecimentos científicos e o seu talento de escritor. As histórias, com um ambiente psicológico semelhante, põem o homem perante os problemas suscitados pelas forças materiais que ele próprio libertou, mas que não consegue dominar.

Livro excitante e imaginativo, recomendamo-lo ao público interessado neste género de literatura.

domingo, julho 06, 2014

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«H. G. Wells ressuscitado» in JLA (1961)

Notícia em Jornal de Letras e Artes, 25 de Outubro de 1961, p. 6. Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.



 
H. G. Wells ressuscitado

A célebre obra de H. G. Wells, «Outline of History», que foi publicada pela primeira vez em 1919, surgiu agora de novo numa edição completamente revista conjuntamente por Raymond Postgate e pelo filho de Wells, prof. G. P. Wells. Nesta obra fenomenal, lançada pela editorial Cassell, Wells apresenta uma história universal, escrita sob o ponto de vista de um humanismo científico e progressista, partindo da evolução da vida neste planeta, desde a idade dos répteis até à formação da Sociedade das Nações. Raymond Postgate escreveu um quadro suplementar do Mundo, até 1960.

sábado, junho 28, 2014

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Texto de abertura da edição portuguesa de City (A Cidade no Tempo), de Clifford D. Simak [1955]

Texto de abertura do n.º1 da Colecção Escalas do Futuro,  A Cidade no Tempo , Clifford D. Simak, Publicações Europa-América, 1955. Título original: City. Tradução de M. Pina e A. Margarido, capa de A. Areal. Colecção dirigida por Mário Henrique Leiria e C. Eurico da Costa.

Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.


da ficção científica em geral, de clifford d. Simak e de “a cidade no tempo” em particular
Se quiséssemos determinar o aparecimento do que hoje designamos por ficção cientifica, teríamos de retroceder na História, indo à procura do que dentro do conceito e definição, relativos à época, poderíamos englobar no termo «ciência». Mas se quisermos limitar-nos a uma definição, quanto possível literária e exacta, dos primeiros indícios da corrente que gerou a literatura de antecipação e as viagens extraterrestres teremos de nos reportar a Luciano de Samos (século II a.C.). Nas suas Histórias Verdadeiras o tema é explorado atráves de uma viagem que o herói empreende à Lua, numa barcarola à vela, meio de locomoção que correspondia inteiramente aos horizontes limitados da época, sob esse aspecto. Noutra obra posterior o herói do escritor de Samos voa para a Lua munido de um par de asas...

Na Idade Média o astrónomo Johannes Kepler descobriu as leis que regem o movimento dos planetas. E com base no seu conhecimento científico (o que o distanciava já de Luciano de Samos) escreveu um livro de ficção, Somnium, só publicado em 1964. Aqui a figura principal é transportada para a Lua por meios sobrenaturais, cuidadosa precaução para quem ainda vive numa época em que a magia vigora, e até porque Kepler, como cientista que era, sabia que os meios de locomoção conhecidos não eram suficientes para levar avante o empreendimento. Todavia, a sua descrição do aspecto local da Lua é a primeira que corresponde à realidade telescópica.

Quatro anos somente após a publicação de Somnium, na Inglaterra, isto é, em 1638, Bishop Godwin escreve Um Homem na Lua, trabalho lírico de antecipação, pois o seu herói voa para a Lua numa carruagem puxada a cisnes... No entanto, em 1640, publica Discurso sobre Um Mundo Novo, que, embora não sendo ficção, é uma discussão séria sobre o nosso satélite, sobre as suas condições físicas e estudo das possibilidades de nele se instalarem colónias humanas.

Depois, durante dois séculos, surgiram outras obras versando o tema das viagens interespaciais. Entre as mais engenhosas conta-se a Viagem à Lua e ao Sol, de Cyrano de Bergerac, aparecida em 1656. Ao grande escritor francês deve-se a original ideia de sugerir, como meio de locomoção no espaço, o foguete de propulsão. Fontanella, em 1686, num livro de astronomia popular, aborda a possibilidade de existência de vida noutros planetas. Voltaire, em 1752, no Micrómegas, cria os primeiros seres interastrais: o gigante Micrómegas, habitante do sistema solar de Sírio, que visita a Terra acompanhado de um saturniano. Todavia, a criação destas personagens obedece somente a um pretexto de sátira de costumes.

O primeiro verdadeiro trabalho de antecipação com base científica aparece pela pena de Júlio Verne, em 1865: Da Terra à Lua. No entanto, em 1827, J. Atterley já abordara o problema da aceleração em naves espaciais, com a criação de um metal que venceria a força da gravitação terrestre. Em 1901, H. G. Wells, o grande precursor da science-fiction, aborda o mesmo tema em Os Primeiros Homens na Lua, revelando a «cavorite», substância que anula a força da gravidade, o que lhe permite transportar os seus aventureiros numa simples esfera oca. Wells desenvolve também o tema dos seres interplanetários na história da invasão da Terra pelos Marcianos.

Em 1926 nasce a verdadeira science-fiction, tal como hoje a definimos, no magazine Amazing Stories, fundado por Hugo Gernsback, a quem se deve o termo que define a nova literatura. Em 1938 John W. Campbell lança o magazine Astounding Stories, aparecendo então a ficção científica social, de que hoje Ray Bradbury é o autor mais representativo. Entretanto, a nova literatura vai conquistando elevado número de adeptos e entusiastas do tema. Nos Estados Unidos fundam-se grupos e clubes que congregam escritores, leitores e cientistas de renome e o exemplo é também seguido pelo Canadá, U.R.S.S., Inglaterra, França e outros países. Actualmente o público leitor da ficção científica, entre o qual se encontra numeroso grupo de intelectuais e artistas, eleva-se a muitos milhões em todo o mundo.

Entretanto, dois grandes escritores, como Aldous Huxley e Alexis Tolstoi, e, mais recentemente, Elsa Triolet, interessam-se também pelo tema de antecipação e H. P. Lovecraft traça um novo caminho na literatura fantástica.

A deflagração da bomba atómica em Iroshima é o início de uma nova era para a humanidade e iria marcar uma nova etapa no desenvolvimento da ficção científica. Após a guerra surgiram nos Estados Unidos Ray Bradbury, o cientista Isaac Asimov, Van Vogt, Robert Heinlein, Clifford D. Simak, Th. Sturgeon, etc., que rapidamente se tornaram os autores favoritos de um público sempre crescente de entusiastas. Em França, Francis Carsac, Roger Sorez e o estranho escritor de tendências surrealistas Ives Touraine – que pela primeira vez coloca, no plano da antecipação social, o problema sexual – caminham na vanguarda de um grupo de novos escritores do género. Na Inglaterra, cientistas como Arthur C. Clark [sic] e Low, entre outros, inscrevem-se também como autores desta nova forma literária.

A science-fiction invadiu já o cinema, a rádio e a televisão, e promete tornar-se um dos mais representativos ramos da literatura da actualidade. Nesta escala permanente para o futuro, que é o próprio destino da humanidade, a ficção cientifica abre o caminho. Nisso reside o segredo do seu inegável êxito.

*

o autor – De Clifford D. Simak há a dizer que é um homem e que está vivo. Nasceu e há-de morrer como tantos milhões de outros homens. Quanto ao local onde existe, é mais uma coordenada geográfica a juntar a tantas que por aí há. Não são dados biográficos o que nele nos interessa; é a espantosa capacidade de sentir os problemas humanos, a riqueza poética e a força de imaginação que neste pequeno homenzinho americano nos espanta e nos conduz para além da fronteira do que fica escrito. Quando, já ultrapassada a possibilidade do espanto, abrimos os olhos ao que nos conta, é com uma espécie de ânsia e amizade que ficamos à espera que ele nos entre pela porta, vindo do outro lado do tempo, acompanhado da notícia de que já não há guerra, já não há ódio, já não há temor. Não impica isto um abandono da força de caminhar e construir; antes pelo contrário. Clifford D. Simak, quando nos conta as suas histórias, diz-nos também que nada está perdido e que a desistência é um engano. Chegar ao fim, apontadas as etapas necessárias e convenientes, é um valor que está sempre presente na obra hoje estranhamente explosiva e quase única de Clifford D. Simak neste outro novo rumo da literatura que é a ficção científica. Quanto ao resto, são possíveis confusões previamente preparadas por pessoas que não querem ou a quem não convém ver.

*

a obra – Não estamos em frente de uma obra de pura ficção científica. Esta obra ultrapassa em muito os puros dados de uma aventura de um grupo de homens em direcção a determinado planeta. Efectivamente o que encontramos é o destino de toda a humanidade. Trata-se de um jogo total, que implica o porem-se em causa todas as virtualidades da raça humana.

Com efeito vemos os homens lutarem pela solução dos seus problemas e encontramos o lendário Bounce Websters, que tenta criar uma civilização dual: homens e cães. Civilização que apenas chega a esboçar-se, pois o homem descobre em Júpiter a solução para os seus problemas. Do que acontece em Júpiter importa pouco falar, pois os homens alcançaram o estádio de super-homens.

Paralelamente o encontram homens quem ficam na Terra, pois se perdeu toda a razão dos crimes e violências de qualquer espécie, a superabundância de produtos que não encontram consumo, o excesso de propriedades que a ninguém interessam, que eliminam a causa das dissensões anteriores. O homem é, tanto em Júpiter como na Terra, um homem integral. Trata-se do homem consciente de todas as suas vivências.

O que acontece com os cães é realmente menor? Ou é realmente muito importante? Supomos que é menor, ainda que o autor nos tente mostrar um dos caminhos viáveis, mas desprezado pelo homem, para a solução dos seus problemas. A civilização geométrica e mecânica dos homens opõe o autor o sentimento psíquico dos cães. A solução intermédia, o exemplo do que vai alcançar-se, são os mutantes.

Mas o mais importante deste livro é a denúncia do caminho que deve seguir-se para eliminar as diferenças que existem entre os homens, a solução económica de todos os problemas. Com efeito, alterada a base económica, vemos que os crimes desaparecem e a doença sofre um largo revés. O crime, que é, como se sabe, uma das coordenadas mais importantes do nosso tempo, desaparece totalmente. Perde-se a tradição da violência. Cessam a miséria e a doença. O homem, tal como existe hoje, é um homem menor, diminuído, que muitas vezes encontramos pelos meandros do não ser, da não existência, a tal forçado pelas condições económicas que encontra. A liberdade que, quer em Júpiter quer em Genebra – a única cidade que continua -, os homens encontram será uma pura utopia? E não será uma rigorosa sátira a fraternidade que os cães criam entre todos os animais e os homens não parecem capazes de levar a cabo entre si?

É fora de dúvidas que este John Webster, perdido em Genebra em investigações sem interesse, assim como Sara, pintora, são símbolos dos intelectuais que se isolam dos problemas que realmente interessam e se fossilizam, procurando caminhos que não levam a parte alguma, salvo a perda dos valores vivos. Caminho que um autómato, Jenkins, nos aparece percorrendo com coerência e dignidade. Símbolo também? Sem dúvida, símbolo de um homem novo, permeável a todas as influências, que vai moldar um mundo novo. Mundo donde sairão os homens.

os directores da colecção

prefácio escrito para a edição portuguesa por um cão amigo dos tradutores

A verdade, amigos, é que é melindroso, na minha posição de cão, falar-vos de um livro que nos descreve antecipadamente o futuro da minha raça. Ainda que vindo ao encontro dos temas que nos têm preocupado e resolvendo, desde já, algumas das nossas mais fundas preocupações, é muito difícil, para mim, falar-vos deste livro.

Com efeito, devemos pensar que estou a escrever para homens, homens que nos tratam como objectos de uso comum, alguns, de utilidade, outros, e de ócio e divertimento, outros ainda. O futuro que nos é traçado neste livro é, como se verá, longo e difícil; a nossa existência hoje é muita dura. De uma dureza cada vez maior se pensarmos que os homens roem hoje os ossos que nos deviam caber. Porém, que podem muitos homens fazer senão roer ossos?

Mas não vos falarei da minha raça. Espero que compreendais a delicada missão que me deram quando me pediram para escrever esta nota prefacial. Falarei, portanto, do homem.

Não do homem de hoje, mas do homem futuro. Não do homem roído por doenças e preocupações, mas do homem futuro. Não do homem que é presa quotidiana do medo e da fome, mas do homem livre. Não do homem coisa, que é tantas vezes menos do que um cão (e espero, amigos, que compreendais que não nos cabe culpa da posição de luxo e privilégio de que muitas vezes aparecemos ornados), mas do homem integral, do homem que será um dia nosso aliado, que criará a civilização dual, onde homens e cães poderão percorrer uma vida comum, até que os destinos se diferenciem.

Venceram-se as doenças e venceram-se as barreiras económicas, venceram-se as lutas entre irmãos (e queremos também, amigos, pedir-vos desculpas dos cães-polícias que encarregam de perseguir homens e dos cães de guerra que também perseguem homens; a verdade, amigos, é que nos não cabe a culpa: não temos de pedir desculpa ou perdão, mas os homens, esses, têm de nos pedir desculpa e perdão), os homens encontram-se numa plataforma comum, onde os problemas se discutem lado a lado. Peço que reparem no facto de que desapareceram referências a raças, credos, educação e cultura. Os homens aparecem-nos iguais. Peço que reparem também que, vencidas as superstições de vários géneros e as dificuldades económicas, a religião desapareceu. A ligação entre os cães e os homens é feita por intermédio de autómatos. Julgo a selecção justa, pois a verdade é que para os homens que já o são (finalmente!) e para os cães que ainda não são os cães a solução é o meio-homem, o homem-ferramenta (e podemos ver no autómato o homem definido em termos de geometria e mecânica).

Não me cabe aqui falar de Júpiter, ainda que um dos membros da minha raça tenha estado envolvido nessa aventura. Deixou de se tratar da raça humana: são rastejadores, uma raça nova, uma mutação.

Dos mutantes também não me cabe falar: superaram a raça humana e etraram em regiões quase desconhecidas e dificilmente frequentáveis. Outros, na altura oportuna, vos falarão de uns e de outros.

A verdade, amigos, é que pouco mais me resta para vos dizer. Lamento só que, embora sabendo o futuro, já o não alcance. Pena por mim e pelos meus irmãos. E mais pena ainda pelos homens.

Oxalá tudo corra como está escrito que acontecerá.



sexta-feira, junho 13, 2014

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Crítica a «Missão em Sidar», de Stefan Wul, in JLA (1963)

Crítica in Jornal de Letras e Artes, 2 de Outubro de 1963, p. 3. Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.
 
«Missão em Sidar», de Stefan Wul

«Missão em Sidar» é um curioso livro para os amadores de ficção científica devido à pena e à imaginação de um dos autores do género mais traduzido em Portugal. Vão-se desbobinando, num crescendo surpreendente, as aventuras de Lorrain no planeta Sidar que Wul efabulou com maestria confirmando o grande prémio do romance de ficção científica de que é detentor.

A boa tradução do Eng.º Gomes dos Santos e uma rigorosa capa de Lima de Freitas valorizam mais  este volume da Colecção Argonauta da Livros do Brasil.

J.V.