segunda-feira, maio 27, 2019

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Texto de badana da peça O Nariz de Cleópatra, de Augusto Abelaira

Texto de badana da peça O Nariz de Cleópatra – Augusto Abelaira – Livraria Bertrand – 1962 [?]. Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.

«Mudemos o desfecho da Guerra de Tróia, e mudará o mundo», tal é o atrevido postulado de três personagens do século XXIII, que já possuem foguetões capazes de regressar no tempo com o maior à-vontade. Assim fazem. Os Gregos são vencidos, enquanto a raça frígia passa a dominar o mundo. E então?

... Então, deixamos o leitor seguir, passo a passo, a demonstração, cheia de invenção cénica, de Augusto Abelaira, cujo tom satírico e enredo «boulevardier» não devem iludir. Aqui é discutido o valor real dos chamados factores históricos, dos exércitos, das cidades e dos impérios, para a realização do destino humano, aqui também se põe em relevo a importância do egoísmo e da fraternidade, da cobardia (até intelectual, como na peça anterior) e da coragem, da idolatria pelo poder e pelo dinheiro – e da necessidade de uma dignidade fundamental. Problemas muito actuais são transpostos para a Antiguidade, graças a um jogo, que lembra Pirandello, nos diversos planos do tempo, da realidade psicológica, e até do absurdo.

Apesar da importância dos temas abordados, a peça desenvolve-se toda neste ritmo de farsa desvairada próprio do autor, da fantasia à solta, percorrida, no entanto, por uma lógica inflexível, que vem a ser mais uma causa de riso. As personagens, caricaturais, são fantoches cegos e solenes que julgam mudar o destino, e só sabem esbracejar, satisfazendo o seu míope egoísmo e consumindo revoluçõezinhas irrisórias.

Pois a única mudança importante, a única válida – e eis outro eco, discreto mas profundo, de A Palavra é de Oiro – é a que irão realizar os infelizes, e que os redimirá.

quarta-feira, junho 13, 2018

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Dossiê «Ficção Científica» na revista portuguesa Quo, outubro de 2002

Em Outubro de 2002, o número 85 da revista portuguesa de divulgação científica Quo incluía um dossiê «Ficção Científica», organizado por Rui Sintra, entre as páginas 81 e 94, composto por pré-publicações de romances estrangeiros e contos curtos de autores portugueses, seguindo esta ordem: Desperation de Stephen King (excerto, pp. 82-3, edição do Círculo de Leitores, sem indicação do tradutor), Reacção Profunda de Alexander Jablokov (excerto, pp 84-5, tradução de Deepdrive que seria publicado pela Devir mas cuja edição não se concretizou, indicando ainda «Tradução de João Barreiros/Colecção Portal Devir dirigida por Luís Filipe Silva»), «O Teste» de João Barreiros (conto, pp. 86-8), «Capitão Spalding - A Origem» de João Negreiros (conto, p. 89), «A Criança da Memória: Prelúdios» de Luís Filipe Silva (conto, pp 90-1), A Árvore do Verão de Guy Gavriel Kay (excerto, pp 92-3, edição de Livros do Brasil, sem indicação do tradutor), «Outros mundos» de Rui Sintra (artigo, p.94), entrevista a Maria do Rosário Monteiro (p. 94). Ilustrações de João Fazenda, Zoográfico, Juan Berrio. Aqui registado para efeitos de memória bibliográfica.
















quarta-feira, julho 09, 2014

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Sulphira & Lucyphur


António de Macedo (1995). Sulphira & Lucyphur. Lisboa: Caminho.

Não me consegui libertar da sensação de exotismo orientalista ao longo da leitura desta obra de António de Macedo. É um livro que se assume nominalmente como de ficção científica, mas que por dentro desta casca se revela algo mais exótico. As influências do esotérico e do maravilhoso são mais fortes do que a visão científica da FC. E assumidas, parece-me. Não se trata aqui de imaginar explorações espaciais em futuros distantes, mas antes criar uma sensação de forças cósmicas para lá da nossa percepção. Diga-se que é um conceito que tem o seu quê de época, esta FC pouco científica e muito esotérica herdeira da viragem cultural hippie e new age com toques do esoterismo da viragem de século.

O romance desenrola-se em dois grande cenários. Num planetóide aparentemente estéril do cosmos longínquo cinco emissários de Khalôm, essa imagem de cidade de elevação espiritual que Macedo tanto utiliza na sua obra literária e cinematográfica, descobrem-se no ponto fulcral de uma ofensiva de seres transdimensionais malévolos. Ou aparentemente malévolos, porque nestas coisas nunca há absolutos e a invasão parece ser uma tentativa de partilha que corre mal por desvarios da física hiperdimensional. Na Terra acompanhamos as aventuras de um fútil nobre lisboeta e de uma criadita engenhosa, que não são quem aparentam ser. São manifestações corporais de dois dos emissários cujos corpos se encontram no distante planetóide.

Estes cometem o crime supremo dos emissários, o apaixonar-se e quebrar com a sua dualidade a pentacularidade dos núcleos de emissários da distante Khalôm. São, no final do romance, punidos com exílio permanente na Terra, ocupando os corpos humanos que invertem lógicas sociais. Ele, por cá, é nobre e ela humilde, mas na gloriosa civilização de que são originários ela é princesa e ele humilde técnico. É um dos indícios da marcante ironia que Macedo coloca nas suas obras. A Terra, aparentemente um planeta atrasado de somenos importância, é de facto o ponto nevrálgico das guerras cósmicas que opõem as várias Khalôms e os invasores extradimensionais. O progresso científico é a arma da desespiritualização, o elemento que permite ao lado negro afirmar-se no universo. A tentação de descartar esta ideia como uma posição anti-científica do autor é grande, mas creio que errada. Macedo contrapõe com um personagem secundário que encarna tudo o que está de errado na superstição disfarçada como ciência, na figura de um médico que não se apercebe que os constantes ataques de tosse de que sofre talvez advenham do constante fumar e que prefere curar todas as maleitas com sangramentos e mezinhas. Os doentes curam-se, apesar do tratamento. Talvez o ponto onde o autor nos quer deixar a reflectir é na problemática da ética na ciência, dos excessos da hubris, nas visões dos progressos a todo o custo que não olham às consequências.

Após a leitura a sensação que fica é a de grande exotismo. Quer o onirismo do vasto cosmos quer as intrigas da Lisboa do século XIX, aqui manipuladas por forças ocultas que fazem dos homens ambiciosos os seus peões, estão mais dentro de sentimentos de deslumbre com o maravilhoso do que aventura com bases científicas. As fronteiras valem o que valem, são úteis para definir e reflectir, mas não nos deixemos espartilhar por elas. Obras que transgridem os limites de género são interessantes precisamente pela mistura de iconografias e elementos de diferentes tradições,abrindo horizontes ficcionais e, em essência, despertando sonhos. Algo que do que vou conhecendo da obra de António de Macedo, parece ser um dos seus principais pilares de força. Isso e a forte ironia que confere às suas narrativas.
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«Um Português, Autor de Ficção Científica» in JLA (1962)

Artigo em Jornal de Letras e Artes, 13 de Junho de 1962, p. 15. Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.

 
Um Português, Autor de Ficção Científica
Que é a ficção científica, a «science-fiction», conforme foi primeiramente designada em 1926 pelo norte-americano Hugo Gernsback, esse género literário que conquistou tão grande popularidade no mundo inteiro?

A expressão, no seu significado literal de «fantasia científica», não parece corresponder ao seu verdadeiro sentido, embora tenha criado raízes no público. Seria talvez mais adequado denominar «antecipação científica» a essa corrente literária, cultivada desde há séculos por escritores e filósofos como Platão, Cyrano de Bergerac, Voltaire, Edgar Poe, Júlio Verne, André Laurie, H. G. Wells e, modernamente, por nomes como Robert Heilein, Isaac Asimov, Van Vogt, Arthur C. Clark [sic], Will Jenkins, Th. Sturgeon, etc.

Na verdade, por muito fantasistas que sejam os seus relatos, têm sempre demonstrado, quando escritos por autores conscienciosos, a preocupação de não se afastarem do conteúdo real da Ciência, ainda mesmo quando parecem transcendê-la nas suas mais ousadas concepções; além de que podem eventualmente encaminhar os cientistas na senda de novas e fecundas descobertas.

Misto de realidade e de imaginação, que fornece um meio ideal de evasão inteligente da vida, este género literário conta grandes cientistas entre os seus mais fiéis leitores.

A sua popularidade deve-se, inegavelmente, ao interesse despertado pelas espantosas realizações da ciência e da técnica modernas, nesta época de «robots» e cérebros electrónicos, de foguetões e satélites artificiais, de energia atómica e de... discos voadores.

Mais do que as histórias policiais, possui um extraordinário poder de sedução, a que não faltam acção, aventura e emoções fortes. Distrai, mas também instrui, revelando ao leitor muitos factos que eram desconhecidos e, simultâneamente, representando o género mais variado no campo do pensamento humano.
Pois esta literatura tão interessante, tão cheia de actualidade num mundo que se prepara ambiciosamente para conquistar o Universo, não tinha até há pouco tempo, que saibamos, um representante nas letras portuguesas.

Deve-se esse mérito a Luís de Mesquita, que há poucos anos se estreou com a publicação de uma novela de antecipação denominada «Mensageiro do Espaço». Inexplicavelmente, essa obra não mereceu a menor referência da crítica. Apraz-nos, portanto, preencher essa lacuna. E fazemo-lo, pois não podemos deixar de louvar a perseverança, agora que, alheio a desânimos que seriam legítimos, vai publicar o seu segundo romance do mesmo género, intitulado «A Ameaça Cósmica».

terça-feira, julho 08, 2014

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«O Homem que Vinha do Passado» in JLA (1962)

Crítica em Jornal de Letras e Artes, 30 de Maio de 1962, p. 3. Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.

O Homem que Vinha do Passado, por Theodore Sturgeon
O autor, já experiente na feitura de livros de ficção científica, patenteia mais uma vez a sua fértil imaginação criadora ao descrever-nos as curiosas e empolgantes reacções de Charlie Johns – um homem que vivia no futuro e cujo paraíso se transformou num pesadelo quando notou o paradoxo temporal em que vivia.

Correcta tradução de Mário Henrique Leiria e capa de Lima de Freitas digna de um registo muito especial.

J. V.

segunda-feira, julho 07, 2014

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«Nove Amanhãs» in JLA (1962)

Crítica em Jornal de Letras e Artes, 18 de Abril de 1962, p. 4. Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.

Nove Amanhãs, de Isaac Asimov – Tradução de Fernando de Castro Ferro – 305 páginas – Colecção Órbita – Editorial Minotauro
Se a ficção científica é já hoje aceite como um género digno de enfileirar com qualquer outro tipo de literatura de ficção, tal se deve a alguns dos seus melhores cultores, de que vem a propósito recordar Isaac Asimov.

«Nove Amanhãs» é uma série de histórias, visões fantásticas do futuro do homem, em que Asimov revela todos os seus conhecidos dotes de imaginação, os seus conhecimentos científicos e o seu talento de escritor. As histórias, com um ambiente psicológico semelhante, põem o homem perante os problemas suscitados pelas forças materiais que ele próprio libertou, mas que não consegue dominar.

Livro excitante e imaginativo, recomendamo-lo ao público interessado neste género de literatura.

domingo, julho 06, 2014

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«H. G. Wells ressuscitado» in JLA (1961)

Notícia em Jornal de Letras e Artes, 25 de Outubro de 1961, p. 6. Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.



 
H. G. Wells ressuscitado

A célebre obra de H. G. Wells, «Outline of History», que foi publicada pela primeira vez em 1919, surgiu agora de novo numa edição completamente revista conjuntamente por Raymond Postgate e pelo filho de Wells, prof. G. P. Wells. Nesta obra fenomenal, lançada pela editorial Cassell, Wells apresenta uma história universal, escrita sob o ponto de vista de um humanismo científico e progressista, partindo da evolução da vida neste planeta, desde a idade dos répteis até à formação da Sociedade das Nações. Raymond Postgate escreveu um quadro suplementar do Mundo, até 1960.