quarta-feira, junho 11, 2014

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Entrevista a Alice Sampaio, in JLA (1963)

Entrevista publicada no Jornal de Letras e Artes, 17 de Julho de 1963, pp 1-14. Transcrita para efeitos de memória bibliográfica.

Alice Sampaio: Creio no real e busco-lhe o significado
Aventura a um tempo científica e metafísica, a intriga de «O Aquário» afirma o dom de fantasia de Alice Sampaio, que, após ter-se revelado com «A Cidade Sem Espaço», atenta observadora do quotidiano, comete agora os domínios da Humanidade futura. Arrojada aventura, que nos transporta a um mundo de robots e super-homens, cuja faculdade de amar se atrofiou, mas que conservam a nostalgia da comunicação perfeita. Obra diversa do habitual, colocará possivelmente crítica e pública numa atitude de perplexidade. Porque se trata de um romance inteligente e original, sejam quais forem os seus defeitos de composição e estilo, entendemos dever procurar Alice Sampaio, a quem começámos por perguntar:

- Qual o tema central de «O Aquário»»?

- Atendendo a que escritor, obra e leitores foram um todo, creio ser quase inútil interrogar um sem os outros. E eu gostaria de deixar ao cuidado desses leitores, se existirem, o encargo de me darem conta desse tema. Pretendi, na forma mais artística possível, contar uma história que fosse simultaneamente uma conversa inteligente – a autora simples parceira ou comparsa – e onde se pusessem perguntas, mal ou bem, a que outros deveriam responder, mal ou bem – uma larga discussão, «un amusement», se me é permitido. Quer isto dizer que me nego a colaborar na construção dum «tempo presente» válido e concreto? Nada disso! Estou convencida, sim, de que os homens de todos os tempos ajudaram a formar o homem de hoje. Então – pergunto -, por que razão não podemos colaborar na construção do homem futuro, pondo problemas do homem actual? (Tentei pôr problemas do homem actual, embora servindo-me de um mundo a mil léguas de distância, menos que hipotético mas nem por isso destituído de «real»).

E se no dizer de Bertrand Russell, o importante para o homem não é responder a todas as perguntas que porventura se ponham ao seu espirito mas sim formulá-las, se a cada era competem específicas perguntas (Copérnico não saberia interrogar-se sobre a face invisível da Lua), então – repito – que fazer de nós quando possuidores de um «spaac», ou seja do tapete-mágico? Perguntas talvez inúteis, talvez descabidas, mas que insisto em fazer. Qual o tema de «O Aquário»? Aguarda pacientmeente as respostas dos leitores.

- Considera-se uma escritora realista? Em que corrente ou tendência se sente integrada?

- Que significa ser-se classificado ou catalogado como escritor realista? Dar a primazia à solução dos problemas de ordem material, no sentido restrito e simultaneamente largo de que todos tenham pão para a boca? Sem dúvida, é isso o primeiro grande passo do homem. Contudo, afigura-se-me impossível resolvê-lo sem nos decidirmos a fazê-lo e, para que essa decisão seja tomada, há que resolver muitas outras que se nos põem simultaneamente e a diferentes níveis. Eu interrogo: Porque tudo é construir. Sou nesse caso uma escritora realista? Parece-me que sim. Tenho um Credo que enuncio: Creio na Matéria-Toda-Poderosa – no «real» portanto – e busco-lhe o significado, a dimensão, a forma, a tonalidade e a ausência de colorido, o som e o silêncio – quereria saber-me por instantes apreendendo-a totalmente, que a minha inteligência durante um ínfimo segundo compreendesse e me deixasse dizer: vejo, escuto – que a minha sensibilidade e imaginação, rodeando-a por todos os lados, às tantas acabasse mesmo por lhe desvendar um dos milhares de segredos tão ciosamente guardados. Não, um laboratório, com a sua rigorosa aparelhagem, não me seria de grande utilidade – a fantasia nega-se à rigidez dos métodos de uma investigação verdadeiramente científica. E eu desejaria sobretudo que o meu livro fosse Arte e não Pseudo-Ciência). E, porque compreender o «real» é caminhar no sentido da Metamorfose, o simplesmente Humano a transformar-se em Humano e Mental, a Irritabilidade em Inteligência, o Domínio da Natureza (longe de mim a ideia de fazer de Pitonisa, ou de Sábio-das-Sete-Partidas, ponho apenas afirmações como hipóteses, suposições como intuição poética – chamemos-lhe assim) – eu quereria compreender esse «real».

Que podem significar entretanto os termos realistas, neo-realista, surrealista, etc, senão denominações da mesma busca, da mesma vontade deliberada de transcender-se? (Os homens de todos os tempos inventaram deuses não por brinquedo ou desejo de mergulhar no obscurantismo, antes pelo contrário... Temos necessidade dos nossos deuses, ultrapassá-los dialecticamente, reinventar outros, sempre, «ad infinitum»).

Em que escola ou tendência me sinto integrada? Aguardo que alguém de boa-vontade queira catalogar-me, arrumando-me com toda a sem-cerimónia na prateleira que for mais conveniente.

- Acredita num nexo entre o romance e o local ou o tempo em que vivemos?

- O local onde hoje vivemos é a Terra inteira, um pequeno globo que os astronautas vêem atráves de écrans-visores e dizem ser raro e fantástico esferóide girando lento e imperturbável, brilhante e escuro, para lá de querelas e diversões, mares ou continentes. O «local» do romance, o seu «tempo» apoucam-se assim, visto, através da tele-objectiva, os indivíduos dão-se conta de um universo hertziano, onda média e curta até aqui desconhecido... E os diferenciados problemas do nosso «habitat» tornam-se menos diferenciados: em toda a parte os seres se agitam no mesmo febril Movimento: crescer e transformar-se. É certo: há zonas de cultivo especiais e... experimentais, onde a vida se processa num diapasão mais vibrante, outras onde se alongam ainda abutres de miséria e vergonha – que o Céu se compadeça e as criaturas arranjem unhas se defender e livrar do Mal, «amen». São os meus votos mais ardentes.

- Não será a sua resposta ainda o resultado de um meio social...?

- Acha que isto é ainda o resultado do meio social que nos condiciona? Um processo de evasão – quando tudo deveríamos fazer para assentar bem os pés na terra (terra essa que pode ser uma nebulosa qualquer...) – dizermo-nos a cada passo que há foguetões interplanetários prontos a largar para o Cosmos e levar-nos em belíssimo pasesio [sic] Pólo-Norte-Pólo-Sul-da-Galáxia? (Que afinal a Imaginação é o elemnto perturbador da pacata ou preocupada vida burguesa). Possivelmente...

- Projectos?

- Continuar a interrogar, insistir em contar histórias a pessoas mais ou menos desinteressadas, mais – quem sabe? – talvez às tantas acabemos por levar-nos a sério, mutuaente, narrador e ouvintes.

Preparo um romance em grande-estilo, quero dizer, uma longa narrativa, à antiga, realista ou não, continuação da mesma busca – noutro tom (para não maçar demasiado). Antes disso desejaria publicar uma peça de teatro, duas peças de teatro, três peças de teatro, que aguardam numa gaveta, prontas a passar ao prelo, à falta de cena...

Faço à Humanidade esta dádiva de imaginação – que não me foi solicitada, valha a verdade. Se a Humanidade do meu breve tempo, do meu reduzido espaço a recusar – que fazer de mim?

terça-feira, junho 10, 2014

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Sulphira & Lucyphur


António de Macedo (1995). Sulphira & Lucyphur. Lisboa: Caminho.

Não me consegui libertar da sensação de exotismo orientalista ao longo da leitura desta obra de António de Macedo. É um livro que se assume nominalmente como de ficção científica, mas que por dentro desta casca se revela algo mais exótico. As influências do esotérico e do maravilhoso são mais fortes do que a visão científica da FC. E assumidas, parece-me. Não se trata aqui de imaginar explorações espaciais em futuros distantes, mas antes criar uma sensação de forças cósmicas para lá da nossa percepção. Diga-se que é um conceito que tem o seu quê de época, esta FC pouco científica e muito esotérica herdeira da viragem cultural hippie e new age com toques do esoterismo da viragem de século.

O romance desenrola-se em dois grande cenários. Num planetóide aparentemente estéril do cosmos longínquo cinco emissários de Khalôm, essa imagem de cidade de elevação espiritual que Macedo tanto utiliza na sua obra literária e cinematográfica, descobrem-se no ponto fulcral de uma ofensiva de seres transdimensionais malévolos. Ou aparentemente malévolos, porque nestas coisas nunca há absolutos e a invasão parece ser uma tentativa de partilha que corre mal por desvarios da física hiperdimensional. Na Terra acompanhamos as aventuras de um fútil nobre lisboeta e de uma criadita engenhosa, que não são quem aparentam ser. São manifestações corporais de dois dos emissários cujos corpos se encontram no distante planetóide.

Estes cometem o crime supremo dos emissários, o apaixonar-se e quebrar com a sua dualidade a pentacularidade dos núcleos de emissários da distante Khalôm. São, no final do romance, punidos com exílio permanente na Terra, ocupando os corpos humanos que invertem lógicas sociais. Ele, por cá, é nobre e ela humilde, mas na gloriosa civilização de que são originários ela é princesa e ele humilde técnico. É um dos indícios da marcante ironia que Macedo coloca nas suas obras. A Terra, aparentemente um planeta atrasado de somenos importância, é de facto o ponto nevrálgico das guerras cósmicas que opõem as várias Khalôms e os invasores extradimensionais. O progresso científico é a arma da desespiritualização, o elemento que permite ao lado negro afirmar-se no universo. A tentação de descartar esta ideia como uma posição anti-científica do autor é grande, mas creio que errada. Macedo contrapõe com um personagem secundário que encarna tudo o que está de errado na superstição disfarçada como ciência, na figura de um médico que não se apercebe que os constantes ataques de tosse de que sofre talvez advenham do constante fumar e que prefere curar todas as maleitas com sangramentos e mezinhas. Os doentes curam-se, apesar do tratamento. Talvez o ponto onde o autor nos quer deixar a reflectir é na problemática da ética na ciência, dos excessos da hubris, nas visões dos progressos a todo o custo que não olham às consequências.

Após a leitura a sensação que fica é a de grande exotismo. Quer o onirismo do vasto cosmos quer as intrigas da Lisboa do século XIX, aqui manipuladas por forças ocultas que fazem dos homens ambiciosos os seus peões, estão mais dentro de sentimentos de deslumbre com o maravilhoso do que aventura com bases científicas. As fronteiras valem o que valem, são úteis para definir e reflectir, mas não nos deixemos espartilhar por elas. Obras que transgridem os limites de género são interessantes precisamente pela mistura de iconografias e elementos de diferentes tradições,abrindo horizontes ficcionais e, em essência, despertando sonhos. Algo que do que vou conhecendo da obra de António de Macedo, parece ser um dos seus principais pilares de força. Isso e a forte ironia que confere às suas narrativas.

domingo, junho 01, 2014

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«Villiers de L’Isle-Adam – um precursor» in JLA (1965)

Texto publicado no Jornal de Letras e Artes, 3 de Março de 1965, p. 6.
Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.

Villiers de L’Isle-Adam – um precursor

Na colecção «Les plus belles page, Frantz-André Burguet apresenta Villiers de l’Isle-Adam. No seu prefácio, tão insólito como o modelo, não define a arte deste autor. Indica como um amador ideal, empenhado em apreender a sua complexidade, deve abordá-lo, pois, diz, nenhuma explicação (biográfica, histórica, psicológica) «pode esgotar a excepcional fantasia de Villiers».

Na sua selecção de textos, considerando que nenhum fragmento de «Eve future» ou de «Axel» podia dar uma ideia exacta dessas obras, que, para mais, «Eve future» constitui, na sua totalidade, «as mais belas páginas» de Villiers, preferiu propor-nos apenas narrativas integrais, bastando-se a si mesmas. Através desses contos, dessas novelas de diversa extensão, toda a variedade do talento de Villiers se impõe. E, também, toda a sua modernidade. O simbólico, o fantástico – quase já ficção científica – aliam-se num sentimento muito vivo da realidade. E, sem dúvida, perceberemos que, longe de ser um decadente, Villiers de l’Isle-Adam foi um precursor.
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«Novo filão para o cinema: a "Ficção Científica"», in JLA (1965)

Notícia in Jornal de Letras e Artes, 26 de Maio de 1965, p. 12.
Transcrita para efeitos de memória bibliográfica.

 
Novo filão para o cinema: a «Ficção Científica»


O retorno ao género «ficção-científica» pode já considerar-se um facto. Depois das primeiras películas com certo empenhamento e indubitável qualidade, realizadas nos Estados Unidos anos 1950-55, este género tinha, por assim dizer, enlanguescido, não conseguindo voltar a encontrar o nível convincente de «Quando os mundos chocam», «A guerra dos mundos» ou «A invasão dos ultracorpos», para citar apenas alguns títulos.

Agora, os recentes empreendimentos espaciais americanos e soviéticos e as conquistas da tecnologia, voltaram a impor com toda a actualidade uma nova orientação para a película de antecipação. É recente a notícia dos grandes preparativos que se efectuam na América para a realização de autênticos colossos que mobilizam as mais arrojadas inovações técnicas.

Mas também na Itália o novo género começou a contar com prosélitos, o que se verifica pelo anúncio de um programa que por certo não é inferior, nem em númeor nem em qualidade, ao americano. Um programa que poderá reservar muitas e gratas surpresas, dadaa alta cotização literária e crítica dos argumentos escolhidos e a grandeza dos meios empregados. Marcello Mastroianni decidiu aceitar o papel de protagonista no filme «A décida vítima», inspirado num best-seller americano.

segunda-feira, maio 26, 2014

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Crítica a «Cidadão do Universo», in JLA (1964).

Texto publicado no Jornal de Letras e Artes, 1 de Abril de 1964, pp. 3 e 14. Secção «Resensões Críticas». Transcrito para efeitos de memória bibliográfica.

Cidadão do universo («Pour Patrie, l’Espace»), de F. Carsac – Tradução de Alfredo Margarido – Capa de Lima de Freitas – 206 págs. – Colecção Argonauta – Edição «Livros do Brasil» - Lisboa
Não é apenas mais um livro de ficção científica, mas um romance romanesco de apaixonante interesse e com diversas projecções, a sociológica ao lado da científica, a estética e a política – um desenfadado, fantasioso, mas inteligente divertissement de F. Carsac sobre um mundo estelar de amanhã (após a grande catástrofe... que esperamos não venha a dar-se) em que se afrontam uma sociedade imperial planetária com o culto da força e da obediência e uma mais evoluída civilização a um tempo socialista e individualista, a dos esteleanos, foragidos da Terra, navegadores incessantes do espaço sideral, que, nas suas cidades estrelas-astronaves, se governam por si próprios, aceitando apenas a tutela de um técnico, cujos poderes são limitados, e as decisões das suas assembleias. O trabalho social de cada um reduz-se a poucas horas, nestas cidades espaciais, e cada um tem assim tempo para desenvolver harmoniosamente os seus dons pessoais numa profissão da sua eleição. É neste contexto imaginário que se entrechoca um náufrago do espaço – oficial do Império Terreste Galáctico recolhido por esse «povo das estrelas» cuja concepção da vida é tão diversa da que lhe haviam inoculado. O jovem tenente Tinkar bate-se em duelo com esses seres superiores, defronta agressores não-humanos e, por virtude do amor, aprende finalmente a viver com verdadeira coragem e segurança e a compreender os outros.

Um curioso livro, não isento, todavia, de certas puerilidades, que Alfredo Margarido traduziu de modo muito agradável.

U. T. R. [Urbano Tavares Rodrigues]

domingo, maio 25, 2014

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«A narrativa de antecipação no mundo de hoje» por Tomás Salvador, in JLA (1965)

Artigo publicado no Jornal de Letras e Artes, ano III, n.º 125, de 19 de Fevereiro de 1965, pp. 1 e 16. Transcrito para efeitos de memória bibliográfica. Preservaram-se as discordâncias gramaticas e as gralhas mais evidentes, sendo apenas actualizada a ortografia (mas não para o AO 1990).


A narrativa de antecipação no mundo de hoje
por Tomás Salvador

A literatura como antecipação
Muita gente julgada sisusa qualifica depreciativamente a chamada literatura de science-fiction, ou ficção científica. Nesta literatura, como em todas, há livros bons, menos bons e maus, sofrendo os autores a mesma classificação. Se ninguém está apto para qualificar numa literatura nacional por haver lido só folhetins ou fascículos de quiosque, sem conhecer o zénite de cada cultura, resulta igualmente temerário qualificar depreciativamente uma literatura sem os conhecimentos adequados. Tão elementar resulta que se afigura de explorar.

Os objectivos mais correntes são: 1.º Resultam intranscendentes; 2.º A sua ciência é falsa e sem fundamento; 3.º Demasiadas guerras planetárias e sobre-humanas; 4.º Não se pode alcançar o que Wells, Verne e Huxley realizaram; 5.º Entretém mas não ensina.


Vamos ao debate
Sou um dos que estão convencidos de que a literatura de science-fiction é uma das mais importantes, moral e intelectualmente falando, do nosso tempo. Declaro-me mal preparado e não sei se saberei defender a acusada, mas tentarei. Não rebato todos os pontos citados, pois que começo a admitir que há uma má literatura do género; má é, simplesmente a de tiros, soco, raios desintegradores e monstros estrelares. A boa é a que se preocupa pelos problemas morais e sociais dum mundo agarrado ao debate.

Vaia! se a palavra escapou antes de tempo! Posto que está dita, sigamo-la. A ninguém se esconde que a sociedade moderna impulsionada pelos avanços tecnológicos e novos costumes delas derivadas, está sujeita a um debate. Dizer simples evolução não é suficiente. Isto indica latitude, adaptação. O debate que se prevê será enorme, consubstancial, inclusivamente assustador. Algo que não se sabe todavia girará em torno de um eixo determinado ou será uma explosão sem «contrôle» possível. Este debate – dito como palavra de fácil compreensão – transtornará o mundo moderno, ou melhor, futuro. Não é que preocupem os inventos, mas as suas consequências. Se o simples anúncio da energia nuclear dominada pelo homem provocou o nada desdenhável movimento existencialista do abandono perante o absurdo, e o medo às bombas «H» está provocando movimentos mundiais de protesto, imaginem o que pode trocar a psicologia das massas perante outras armas ou simplesmente outras reformas sociais? Não só o medo ou a morte podem provocar alterações, senão todo o contrário. Que sucederá no campo do trabalho no dia de amanhã, quando os robots, muito mais perfeitos que o homem e incansáveis, lhe roubam os postos de trabalho? Jornada de três ou quatro horas, quiçá ou menos? Possivelmente. Entretanto, que haverá com o seu ócio uma imensa humanidade desobrigada à luta? A diversão, a morte do tempo se converterá numa tarefa do Estado, quase como uma religião. Calculam as consequências morais de tudo isto.

A melhor literatura de science-fiction não trata de guerras interplanetárias, mas da estrutura moral e mental duma sociedade a que uma tecnologia avançadíssima colocará numa situação muito diferente da actual. Trata-se, simplesmente, duma teoria na sua mais ampla acepção. Se tiverem lido as narrações que o americano Walter M. Miller situa na abadia de San Leibomitz [sic] (século XXVII) compreenderiam a lógica que pode resultar uma nova Idade Média daqui a sete séculos. E lógico resulta também a sociedade monstruosamente socializada de Huxley no «Admirável mundo novo», ou a que desgarradamente descreve Ayn Rand em «Vivir». Para não falar da pura destruição intelectual de Arthur Clarke em «O fim da infância», a infância do intelecto humano, entenda-se. Tudo é possível, todas as derivações podem ocorrer, desde acabar um bairro imenso, sujeitos a racionamento estrito numa humanidade supervoada [sic], ou num mundo feliz, regido pela eutanásia e a eugenesia.

 
Inventário de incógnitas
Examinemos alguns dos pontos que condicionam a novela de ficção científica:

1.º Tecnologia em progressão geométrica; 2.º Moral estabilizada; 3.º Alto nível de vida e prolongamento da mesma; 7.º [sic] Problemas do trabalho; 8.º [sic] O Espaço como incentivo.

Não temos mencionado, propositadamente, alguns problemas políticos que deveriam tomar-se em consideração; os conflitos raciais, a coexistência do comunismo e capitalismo, o exacerbamento dos novos nacionalismos, a imigração rural, etc., que a não duvidar, e a menos de cem anos, têm de produzir conflitos. Temos afastado, também intencionalmente, os simples avanços materiais ou conquistas sociais de tipo regional, problemas que a sociedade pode resolver com os seus meios actuais. Temos desejado, pois, os que não podem considerar-se suspeitos de excessiva imaginação senão os que inexoravelmente devem produzir-se.

Ray Bradbury, em Farenheit 451 [sic], descreve uma humanidade onde possuir livros é um crime, onde caminhar a pé ou passear de noite é suspeito, onde a diversão mais generalizada é uma televisão a duas, três ou quatro paredes, até dar a impressão de estar incluido no mesmo que se está transmitindo. E são rebeldes os que não aceitam este estado de coisas. Teodoro [sic] Sturgeon, em «Mais que humano», apresenta a unidade que os alemães chamam Gestalt, ou seja a simbiose de elementos diferentes: um mongoloide calculador, um telepata, umas teleportadoras, um telequinesista. Em «Ciudad», de Clifford Simak, oferece-se o patético fim da Terra numas generalizações que chegam a uma progressiva falta de interesse pela vida a força dum aborrecimento do que tudo tem conseguido.

Poderíamos citar infinitos títulos. Alguns são impressionantes, pessismistas quanto ao futuro da Humanidade. Segundo esses, estamos trilhando o meso caminho que as civilizações anteriores. Charles Fort, um americano impressionante, escritor de uns livros que não se traduziram para castelhano - «Talentos salvajes», «Tierras nuevas», «La duda», «El libro de los condenados», «Lo!», possuía um arquivo com vinte e cinco mil fichas de casos ocorridos na Terra, mas em épocas passadas e outros em tempos modernos, desde chuva vermelha até cabelo crescendo no crânio de uma múmia, passando por gelo flutuante ou rodas de fogo sobre o mar.

Fort, que se está convertendo num mito entre certos círculos, idealizou certas teorias que deixavam em mantilhas a física quântica. Segundo o mesmo escritor, o tempo circula em duas direcções ou, melhor dizendo, em dois sentidos. Portanto, todo é verdade e todo é verdadeiro, desde o homem e seus circunstantes até às mesmas equações. Em consequência, a vida é contínua e descontínua, o mesmo que a luz, ou que é igual, vivemos não numa existência, que poderíamos chamar intermédia. Por existência intermédia podem dar-se equívocos, feitos do passado ou do futuro no presente, ou o contrário. «Todos os fenómenos do nosso estado intermédio – disse num dos seus epígonos, o biólogo Jacques Menétrier – o nosso quase-estado representam um intento de organização, de alcançar a realidade. Mas toda a tentativa de alcançar a realidade é posta proibitivamente pela continuidade, ou pelas forças exteriores, ou pelos feitos excluídos contínuos dos excluídos». Possivelmente encontrarão isto bastante obscuro, mas obscuro [sic] é também a aparição do homem sobre a Terra e ele está aqui. Nada se opõe a que creiamos em Deus e nos preocupem as nossas origens.

 
Retorno à Idade Média?

Contudo, nos meus anos de criança, os camponeses da minha terra costumavam chamar «pedras de raio» a certas matérias que encontravam ao arar. A ciência explica-nos bem claramente o que é uma descarga eléctrica. Mas os camponeses seguem crendo nas «pedras de raio». Porquê? Igualmente, na minha terra se crê que o cancro comia a carne, e, em consequência, um dos remédios era aplicar carne crua. A ciência explica-nos precisamente o contrário, uma proliferação de células. Mas a ciência não encontrou remédio para as mesmas teorias e os camponeses seguram-se à que adquiriram. Quer isto dizer que será cada vez maior o abismo entre o que a ciência explica e o que nós cremos? Com certeza.

Ou, o que é igual, caminhamos a passos agigantados ao que Pauwels e Bergier chamam o «retorno dos bruxos», ou será a outra Idade Média. Infinita ciência por um lado, massas embrutecidas entretidas em diversões para as manter estáveis. A ciência chegará a ser tão absurda que nos refugiaremos nas ilhas das suas crenças. Alguém inventará um pau voador e voltarão as bruxas, alguém dará a um automóvel a forma de uma carroça, alguém descobrirá a elegância de levar um espadim à cinta, e os vestidos serão túnicas gregas, e não faltarão políticos que descubram a monarquia como elemento permanente da continuidade dinástica. E os novos heróis serão os que a televisão, o cinema ou qualquer outro espectáculo descubra. Algo que agora se antecipa, mas que adquirirá caracteres monstruosos no futuro.

Alguém pensa que nestas condições os escritores de ficção-científica estão elaborando uma literatura de terceira categoria? Preocupar-se do futuro humano é perder o tempo? Instituir as terríveis condições de ser humano, ante o debate, é literatura de evasão? Os escritores de todos os tempos têm admitido o complexo filosófico da Utopia, quer dizer, o processo humano e social da humanidade em determinadas circunstâncias. Dado que o existente é o real, sonhar o perfeito é plausível, se bem que enganoso. Todas as filigranas trazidas pela Utopia, ou as deduções da sua complementar Utronia (ciência do que pode ser se o que se passou não tivesse passado), não muda a estrutura do mundo.

Da mesma forma é possível, quase certo em novecentas e noventa e nove centésimas sobre mil, que a literatura de antecipação científica não mudará o futuro. O homem é assim e gosta de se enganar repetidas vezes. Porém, imaginem o que seria literatura de Quevedo, Chaucer, Goethe, Dante, Molière e tantos outros que descreveram «antecipações». Fora os textos curiosos, eficazes ou não politicamente falando, teríamos um impressionante quadro de valores humanos e morais; poderíamos fazer comparações oportunas, teriam criado escola e quando menos esperássemos teríamos aprendido; que os problemas estéticos, sociais, morais ou filosóficos nascem antes que as circunstâncias.

Seria pueril fazer uma lista dos inventos e teorias que os escritores têm antecipado, desde Cyrano a Wells, passando por Huxley, Lovecraff [sic] ou Werfell, sem esquecer dos modernos. Particularmente, assombraram-se, e, às vezes, assustaram-me. Sofro ao pensar o que será a Humanidade dentro de cem ou duzentos anos. O que será quando os frenólogos despertarem a metade do cérebro que não utilizamos. Creio num mundo de telepatas, capacidade humana já pressentida.

 
A literatura morrera

Creio na morte da mesma literatura neste mundo, pois, que objecto terá a palavra escrita quando até a falada desaparecerá, anulada por uma superlinguagem íntima, superveloz, que necessitará de analogias em vez de palavras construidas laboriosamente letra a letra? Muitas, infinitas coisas, se levará à corrente do futuro, algumas delas muito amadas. Por isso, o mundo do futuro preocupa alguns cérebros. Nem todos acertarão nas suas teorias mas apenas alguns. Até o homem da rua, com que se para a conversar, comprenderá que «não será igual nessa altura». Porquê? Como? Quando?

Sucedeu o mesmo nos tempos passados? Horbiger, autor de «La cosmogonia glacial», assegura que há milhões de anos a terra tinha quatro luas. E que uma a uma foram caindo na Terra, provocando cenas catastróficas. E que a única que ficou cairá também. E que então a Terra, convertida em gelo, cairá no Sol. Ou será que, de certo modo, o sacrifício das luas compensava a falta de gravidade da Terra. E quando não quiser esta reserva, adeus, berço do homem. E apresenta como provas as lendas mitológicas, a lembrança de muitos heróis, ligados às mais antigas literaturas do mundo, e às incríveis estátuas da ilha de Páscoa e [ilegível] infinitos fenómenos não ostante explicados.

Em todo o caso, vivamos ou não a última civilização ecuménica é indiscutível que estamos nas fronteiras do Debate. E que a literatura de antecipação está desempenhando um papel cuja importância deixamos ao critério de cada um.

sábado, maio 24, 2014

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Carta de leitor sobre edição de obra de Ray Bradbury, in JLA (1966)

Carta de um leitor ao Jornal de Letras e Artes, n.º 256, 16 de Novembro de 1966, pp. 2 e 19.

Transcrito para efeitos de memória bibliográfica. Respeitou-se a diferença de grafias do termo «Ficção Cientifica», com e sem hífen, ambas constantes no texto original, e assinalam-se as gralhas mais evidentes.

Cuidado com Bradbury

Sr. Director:

Desculpe V. Ex.ª se venho incomodá-lo com rótulos. Mas é que os escritores têm rótulos. Por exemplo: O Sr. X há-de ser policial mesmo que depois não seja, o Sr. Y nunca será policial mesmo que depois seja. Tudo rotulado para se tornar simples e não causar maçadas nem confusões. E nos rótulos há os maiores e os menores. De acordo com isto um escritor de rótulo maior pode ser encacifado no cacifo dos rótulos menores, e vice-versa, tudo para defesa perfeita dos nomes e tranquilidade dos leitores. V. Ex.ª já estará por certo a ver que rótulos menores são esses: os da Aventura, os do Policial, os da Ficção-Científica, entre outros que ainda menores poderão ser, e que menores se tornaram pela inflacção, pela facilidade com que através deles se trataram temas, esquematizaram situações e personagens, pela tão frequente decisão de opiar aquele viajante de autocarros e comboios, aquele frequentador de praias. Apesar disto estou em dizer que mal vamos com os rótulos. Entretanto repare também V. Ex.ª que existe a tendência oposta, da qual será entre nós exemplo toda a empolgante aventura do fecundo antologiador Ross Pynn. Não duvidemos que o antologiador Ross Pynn possui um cacifo policial dos mais vastos. De acordo com um cirtério [sic] tão amplo como democrático, o antologiador Ross Pynn faz alinhar os Kafka, os Luís Borges, os Baudelaire, com os mais corriqueiros e legítimos representantes do género. Mais alguns anos de afincado labor antologiante e lá poderemos ter tudo: o Zaidig do Voltaire no cacifo policial, A Tempestade do venerando Shakespeare no cacifo da Ficção-Científica. E não serei eu, Senhor Director, quem se encarnice contra a implícita largueza de vistas destas recolhas, contra a vontade legítima de acabar com o estigma da menoridade que pesa sobre certos rótulos. (Pois não dizia eu que mal íamos com os rótuols [sic]?) Se me servir das compilações de Pynn, foi para provar a V. Ex.ª que erro seria o admitirmos como universal aquele critério de menoridade de certos rótulos, e demonstrar que também há gente a trabalhar no pólo oposto.

V. Ex.ª vai agora desculpar-me que lhe pergunte se alguma vez reparou na tão grande amplitude de critérios que revela a Coelcção [sic] Dois Mundos da editora Livros do Brasil. É que tanto ali se trapeça [sic] no romanesco fútil e mal-amanhado de Daphe [sic] du Maurier (vidé Rebeca e O outro Eu), no novelissimo frouxo da pior fase da nobel Pearl Buck (vidé A Flor Oculta, Preconceito Racial, etc.), como, e ainda de respiração cortada pelas mudanças bruscas, nos Joyce, nos Kafka, nos Mann, nos Bellow, nos Lorwy [sic]. Abraçam-se gregos e troianos e por isso mesmo, na Colecção Dois Mundos como em Giraudoux, la Guerre de Troie n’aura pas lieu. Tudo está bem como está e não serei eu a guerrilhar contra a coexistência pacífica dos medíocres e não-medíocres nos reinos da literatura. Louvemos pois a máxima e arejada amplitude da Colecção Dois Mundos, que apenas aqui nos serve para um reparo: imagine V. Ex.ª que o flagrante arejamento da Colecção Dois Mundos, que tão facilmente predispõe a selecção dos mais díspares valores literários, não impede afinal que dentro da mesma editora se pratique a desarejada política do rótulo, e esta com um recente e lamentável caso grave: O Caso Bradbury.

Ray Bradbury, todos sabemos, optou pelo mundo da Ficção-Científica. Facto inegável. A esse mundo tem servido com a sua mão de poeta, com os seus dotes de invulgar escritor. Bradbury é um autor de Ficção-Científica típico e, exceptuando as suas Crónicas Marcianas (O Mundo Marciano na edição portuguesa) que alguns editores estrangeiros incluiram em colecções de grande responsabilidade (veja-se o caso da edição italiana), e cuja importância pode muito justamente fazê-las arrastar-se para fora de uma selecção do tipo da Colecção Argonauta, do cacifo da Ficção Científica, não iremos ao ponto de pretender erra [sic] e destruidora a inclusão dos seus habituais títulos dentro do referido cacifo. No caso de O Mundo Marciano apenas haveria a lamentar que não tivesse conseguido adequadas mãos, refugiado como andou numa colecção que divulga em doses industriais nomes e obras cujos elementos de interesse nem sempre têm lugar junto dessa outra camada de leitores onde tal Bradbury havia de constituir notável revelação. Mas imagine V. Ex.ª que Bradbury certo dia resolveu escrever um romance que nada tem a ver com Ficção-Científica. Essa obra chama-se A Cidade Fantástica ou Vinho de Dentes-de-leão, como no original, em virtude de certo vinho citado em muitos passos do livro e que simboliza o esplendor dos dias encantados do Verão (por acaso referido em grande parte da tradução portuguesa como «vinho de dentes de leão» - sem hífens – o que significaria bem esquisita e diversa coisa). Mas continuando: por ser Bradbury um escritor com rótulo mais que definido, muito dificilmente haveria de furtar-se à política do rótulo. E sucedeu então que, embora revelando certa perplexidade, a editora portuguesa dos Dentes-de-leão programou este Bradbury ainda na Colecção Argonauta, fazendo a sua leitura por breve nota explicativa. E essa nota explica que as fronteiras da Ficção-Científica não se encontram delimitadas com rigorosa precisão; que a Ficção Científica não se caracteriza, se não está em erro, nem pela antecipação nem pelo facto de a acção – quando existente – se desenrolar em planetas diferentes da Terra ou em zonas do universo que se não confinam às nossas dimensões de seres terrestres; que tão pouco se caracteriza pelo tipo de episódios e de heróis que habitualmente e de forma predominante, povoam as criações dos seus cultores; (então o que é habitual e predominante não carateriza [sic]? Não se teria querido dizer, em vez de não se caracteriza, não se caracteriza apenas?) que além desse tipo de obras (...) há obras lidimamente de Ficção Científica que, representando uma incursão no reino do possível, do ainda não-realizado, podem com justos motivos incluir-se neste novo género literário. (O cacifo da Ficção-Científica alarga-se, e parece que muito legitimamente). Depois afirma-se ainda que estão neste caso os livros mais recentes de Ray Bradbury (aqui é de notar que A Cidade Fantástica completa neste 66 vinte anos de existência) e que o livro em questão parece mostrar até que ponto o real quotidiano esconde o maravilhoso e o possível, até que ponto a imaginação e a sensibilidade podem revelar o fantástico existente, sem disso nos apercebermos, na nossa experiência quotidiana. Parece. E até seria bom porque se continha A Cidade Fantástica na fronteira da Ficção-Científica. Pois eu diria, Senhor Director, que A Cidade Fantástica é muito mais ou muito menos do que isso mas exactamente o contrários, e que por sinal se escreve num processo inverso ao de toda a Ficção-Científica. Que A Cidade Fantástica é só o olhar maravilhado e poético de uma infância, capaz de emprestar fantástico ao real, capaz de descobrir maravilhoso aonde existe trivialidade. E assim se cria um novo e vivo mundo onde os adultos morreram, como por lá se diz em qualquer sítio. O próprio Bradbury é quem fornece a chave. Muitas das frases do romance dizem que só nele existe o real transfigurado, nunca o maravilhoso oculto. E até finaliza a sua bela obra de forma que a tal respeito se revela bem significativa (português meu): E se alguma vez ele se esquecesse, lá estava o vinho de dentes-de-leão na cave, com grandes números por cada dia vencido. Muitas vezes haveria de ir lá olhar o Sol de frente, até os olhos não suportarem mais, e depois contemplaria, com eles fechados, as manchas queimadas e as cicatrizes efémeras a dança [sic] nas suas pálpebras quentes, ordenando e voltando a ordenar cada chama, cada reflexo, até o desenho ficar nítido... Pois é, Senhor Director, desta vez Bradbury não foi escritor de Ficção-Científica e A Cidade Fantástica difcilmente [sic] terá que ver com a Colecção Argonauta, onde se encaixou a espernear. Foi tudo do rótulo. E usando uma fórmula paralela à que usou há tempos Rui Mário Gonçalves a propósito de Picabia, direi eu também agora, ainda que por razões diferentes: «Cuidado com Bradbury».

De V. Ex.ª atenciosamente,

Afonso A. Lemos