sábado, maio 24, 2014

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Carta de leitor sobre edição de obra de Ray Bradbury, in JLA (1966)

Carta de um leitor ao Jornal de Letras e Artes, n.º 256, 16 de Novembro de 1966, pp. 2 e 19.

Transcrito para efeitos de memória bibliográfica. Respeitou-se a diferença de grafias do termo «Ficção Cientifica», com e sem hífen, ambas constantes no texto original, e assinalam-se as gralhas mais evidentes.

Cuidado com Bradbury

Sr. Director:

Desculpe V. Ex.ª se venho incomodá-lo com rótulos. Mas é que os escritores têm rótulos. Por exemplo: O Sr. X há-de ser policial mesmo que depois não seja, o Sr. Y nunca será policial mesmo que depois seja. Tudo rotulado para se tornar simples e não causar maçadas nem confusões. E nos rótulos há os maiores e os menores. De acordo com isto um escritor de rótulo maior pode ser encacifado no cacifo dos rótulos menores, e vice-versa, tudo para defesa perfeita dos nomes e tranquilidade dos leitores. V. Ex.ª já estará por certo a ver que rótulos menores são esses: os da Aventura, os do Policial, os da Ficção-Científica, entre outros que ainda menores poderão ser, e que menores se tornaram pela inflacção, pela facilidade com que através deles se trataram temas, esquematizaram situações e personagens, pela tão frequente decisão de opiar aquele viajante de autocarros e comboios, aquele frequentador de praias. Apesar disto estou em dizer que mal vamos com os rótulos. Entretanto repare também V. Ex.ª que existe a tendência oposta, da qual será entre nós exemplo toda a empolgante aventura do fecundo antologiador Ross Pynn. Não duvidemos que o antologiador Ross Pynn possui um cacifo policial dos mais vastos. De acordo com um cirtério [sic] tão amplo como democrático, o antologiador Ross Pynn faz alinhar os Kafka, os Luís Borges, os Baudelaire, com os mais corriqueiros e legítimos representantes do género. Mais alguns anos de afincado labor antologiante e lá poderemos ter tudo: o Zaidig do Voltaire no cacifo policial, A Tempestade do venerando Shakespeare no cacifo da Ficção-Científica. E não serei eu, Senhor Director, quem se encarnice contra a implícita largueza de vistas destas recolhas, contra a vontade legítima de acabar com o estigma da menoridade que pesa sobre certos rótulos. (Pois não dizia eu que mal íamos com os rótuols [sic]?) Se me servir das compilações de Pynn, foi para provar a V. Ex.ª que erro seria o admitirmos como universal aquele critério de menoridade de certos rótulos, e demonstrar que também há gente a trabalhar no pólo oposto.

V. Ex.ª vai agora desculpar-me que lhe pergunte se alguma vez reparou na tão grande amplitude de critérios que revela a Coelcção [sic] Dois Mundos da editora Livros do Brasil. É que tanto ali se trapeça [sic] no romanesco fútil e mal-amanhado de Daphe [sic] du Maurier (vidé Rebeca e O outro Eu), no novelissimo frouxo da pior fase da nobel Pearl Buck (vidé A Flor Oculta, Preconceito Racial, etc.), como, e ainda de respiração cortada pelas mudanças bruscas, nos Joyce, nos Kafka, nos Mann, nos Bellow, nos Lorwy [sic]. Abraçam-se gregos e troianos e por isso mesmo, na Colecção Dois Mundos como em Giraudoux, la Guerre de Troie n’aura pas lieu. Tudo está bem como está e não serei eu a guerrilhar contra a coexistência pacífica dos medíocres e não-medíocres nos reinos da literatura. Louvemos pois a máxima e arejada amplitude da Colecção Dois Mundos, que apenas aqui nos serve para um reparo: imagine V. Ex.ª que o flagrante arejamento da Colecção Dois Mundos, que tão facilmente predispõe a selecção dos mais díspares valores literários, não impede afinal que dentro da mesma editora se pratique a desarejada política do rótulo, e esta com um recente e lamentável caso grave: O Caso Bradbury.

Ray Bradbury, todos sabemos, optou pelo mundo da Ficção-Científica. Facto inegável. A esse mundo tem servido com a sua mão de poeta, com os seus dotes de invulgar escritor. Bradbury é um autor de Ficção-Científica típico e, exceptuando as suas Crónicas Marcianas (O Mundo Marciano na edição portuguesa) que alguns editores estrangeiros incluiram em colecções de grande responsabilidade (veja-se o caso da edição italiana), e cuja importância pode muito justamente fazê-las arrastar-se para fora de uma selecção do tipo da Colecção Argonauta, do cacifo da Ficção Científica, não iremos ao ponto de pretender erra [sic] e destruidora a inclusão dos seus habituais títulos dentro do referido cacifo. No caso de O Mundo Marciano apenas haveria a lamentar que não tivesse conseguido adequadas mãos, refugiado como andou numa colecção que divulga em doses industriais nomes e obras cujos elementos de interesse nem sempre têm lugar junto dessa outra camada de leitores onde tal Bradbury havia de constituir notável revelação. Mas imagine V. Ex.ª que Bradbury certo dia resolveu escrever um romance que nada tem a ver com Ficção-Científica. Essa obra chama-se A Cidade Fantástica ou Vinho de Dentes-de-leão, como no original, em virtude de certo vinho citado em muitos passos do livro e que simboliza o esplendor dos dias encantados do Verão (por acaso referido em grande parte da tradução portuguesa como «vinho de dentes de leão» - sem hífens – o que significaria bem esquisita e diversa coisa). Mas continuando: por ser Bradbury um escritor com rótulo mais que definido, muito dificilmente haveria de furtar-se à política do rótulo. E sucedeu então que, embora revelando certa perplexidade, a editora portuguesa dos Dentes-de-leão programou este Bradbury ainda na Colecção Argonauta, fazendo a sua leitura por breve nota explicativa. E essa nota explica que as fronteiras da Ficção-Científica não se encontram delimitadas com rigorosa precisão; que a Ficção Científica não se caracteriza, se não está em erro, nem pela antecipação nem pelo facto de a acção – quando existente – se desenrolar em planetas diferentes da Terra ou em zonas do universo que se não confinam às nossas dimensões de seres terrestres; que tão pouco se caracteriza pelo tipo de episódios e de heróis que habitualmente e de forma predominante, povoam as criações dos seus cultores; (então o que é habitual e predominante não carateriza [sic]? Não se teria querido dizer, em vez de não se caracteriza, não se caracteriza apenas?) que além desse tipo de obras (...) há obras lidimamente de Ficção Científica que, representando uma incursão no reino do possível, do ainda não-realizado, podem com justos motivos incluir-se neste novo género literário. (O cacifo da Ficção-Científica alarga-se, e parece que muito legitimamente). Depois afirma-se ainda que estão neste caso os livros mais recentes de Ray Bradbury (aqui é de notar que A Cidade Fantástica completa neste 66 vinte anos de existência) e que o livro em questão parece mostrar até que ponto o real quotidiano esconde o maravilhoso e o possível, até que ponto a imaginação e a sensibilidade podem revelar o fantástico existente, sem disso nos apercebermos, na nossa experiência quotidiana. Parece. E até seria bom porque se continha A Cidade Fantástica na fronteira da Ficção-Científica. Pois eu diria, Senhor Director, que A Cidade Fantástica é muito mais ou muito menos do que isso mas exactamente o contrários, e que por sinal se escreve num processo inverso ao de toda a Ficção-Científica. Que A Cidade Fantástica é só o olhar maravilhado e poético de uma infância, capaz de emprestar fantástico ao real, capaz de descobrir maravilhoso aonde existe trivialidade. E assim se cria um novo e vivo mundo onde os adultos morreram, como por lá se diz em qualquer sítio. O próprio Bradbury é quem fornece a chave. Muitas das frases do romance dizem que só nele existe o real transfigurado, nunca o maravilhoso oculto. E até finaliza a sua bela obra de forma que a tal respeito se revela bem significativa (português meu): E se alguma vez ele se esquecesse, lá estava o vinho de dentes-de-leão na cave, com grandes números por cada dia vencido. Muitas vezes haveria de ir lá olhar o Sol de frente, até os olhos não suportarem mais, e depois contemplaria, com eles fechados, as manchas queimadas e as cicatrizes efémeras a dança [sic] nas suas pálpebras quentes, ordenando e voltando a ordenar cada chama, cada reflexo, até o desenho ficar nítido... Pois é, Senhor Director, desta vez Bradbury não foi escritor de Ficção-Científica e A Cidade Fantástica difcilmente [sic] terá que ver com a Colecção Argonauta, onde se encaixou a espernear. Foi tudo do rótulo. E usando uma fórmula paralela à que usou há tempos Rui Mário Gonçalves a propósito de Picabia, direi eu também agora, ainda que por razões diferentes: «Cuidado com Bradbury».

De V. Ex.ª atenciosamente,

Afonso A. Lemos

domingo, maio 18, 2014

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«A crise de crescimento da ficção-científica», por Michel Butor, in JLA (1966).

Texto publicado no Jornal de Letras e Artes de 20 Julho 1966, pp 2-3 e 14.

Transcrito aqui para efeitos de memória bibliográfica. Foi feita uma ligeira actualização ortográfica (mas não segundo o AO 1990). Mantiveram-se as gralhas e contradições de grafia presentes no original.


Antologia

A crise de crescimento da ficção-científica
por Michel Butor


I

Se o género da ficção-científica é bastante difícil de delimitar – as querelas dos especialistas provam-no superabundantemente -, ele é, pelo menos, dos mais fáceis de designar. Basta dizer: «Você sabe, essas narrativas em que se fala de foguetões interplanetários», para que o interlocutor menos preparado perceba imediatamente aquilo de que se trata. Isto não implica que em todas as narrativas da ficção-científica intervenha um tal aparelho; pode-se substitui-lo por outros acessórios que representam um papel comparável. Mas esse é o mais usual, o exemplo tipo, como a varinha mágina nos contos de fadas.

Podem-se fazer imediatamente duas notas:

1.º Não existe de momento nenhum foguetão interplanetário (1). Se alguma vez existiu, o leitor comum não sabe. Uma narrativa onde intervém um aparelho deste género é então uma narrativa fantástica.

2.º Mas nós acreditamos com muita firmeza que tais aparelhos vão existir em breve, que é apenas uma questão de alguns anos. Um tal aparelho é possível. Esta noção é fundamental e exige certo esclarecimento.

Pode-se pretender que para os narradores árabes, que acreditavam no poder dos mágicos, os tapetes voadores também eram «possíveis». Mas para a maior parte de nós essa possibilidade dos foguetões é de outra ordem. É garantida pelo que se pode chamar grosseiramente: a ciência moderna, um conjunto de doutrinas cuja validade nenhum ocidental põe seriamente em dúvida.

Se o autor duma narrativa teve o cuidado de introduzir um tal aparelho, é porque ele deseja não abandonar a realidade senão numa certa medida, quer prolongá-la, estendê-la, mas não separar-se dela. Quer dar-nos uma impressão de realismo, quer fazer entrar o imaginário no real, antecipando-se aos resultados adquiridos. Uma tal narrativa situa naturalmente a sua acção no futuro.

Podem-se imaginar, partindo da ciência moderna na sua acepção mais larga, não só outros aparelhos, mas técnicas de todas as espécies, psicológicas, pedagógicas, sociais, etc. Esta garantia científica pode tornar-se cada vez mais diluída, mas é ela que constitui a especificidade da ficção-científica que pode ser definida como: uma literatura que explora o campo do possível, tal como a ciência nos permite entrevê-lo.

É um fantástico enquadrado num realismo.

A obra de Júlio Verne é o melhor exemplo de uma ficção-científica em primeiro grau, que se justifica pelos resultados adquiridos e apenas antecipa sobre as aplicações. Wells inaugura uma ficção-científica em segundo grau, muito mais audaciosa, mas muito menos convincente. Deixa-nos supor por detrás da máquina de Cavor, que vai levar os primeiros homens à lua, uma explicação de tipo científico, de acordo com uma ciência possível que se desenvolveria a partir da ciência do seu tempo.



II

A agência turistica ao serviço da ficção-científica propõe aos seus clientes três tipos principais de espectáculos que se podem agrupar sob as rubricas seguintes: a vida futura, os mundos desconhecidos, os visitantes inesperados.


1.º A VIDA FUTURA

Parte-se do mundo tal como o conhecemos, da sociedade que nos rodeia. Introduzem-se um certo número de mudanças cujas consequências se procuram prever. Pela projecção no futuro, multiplica-se a complexidade do presete, desenvolvem-se certos aspectos ainda larvares. A ficção-científica deste tipo é um notável instrumento de investigação metódica na tradição de Swift. Tem voluntariamente um aspecto satírico. Encontram-se excelentes exemplos nas obras de Huxley (Brave New World), Orwell (1984), Werfel (Stern der Ungeborene), Hesse (Das Glasperlenspie!), Bradbury, etc.


2.º OS MUNDOS DESCONHECIDOS

Basta mencionar o nome de Ray Bradbury, cuja obra mais conhecida se chama, na edição americana, Martian Chronicles, para ver que um elemento muito diferente se introduziu quase necessariamente.

O progresso técnico não tem por único fim transformar a nossa vida quotidiana mas também satisfazer a nossa curiosidade. Os novos instrumentos, as novas ciências devem permitir-nos descobrir domínios da realidade que nos estão vedados actualmente. No interior da representação científica do mundo, há imensos cantões que a imaginação é livre de povoar de paisagens e de seres estranhos a seu bel-prazer, sob a reserva de algumas restrições muito largas. Podemos projectar neles os nossos sonhos.

Este espectáculo da ficção-científica, quando coloca o seu inferno no interior do globo, o seu purgatório nos antípodas e o seu paraíso nos astros não faz mais do que projectar a sua teologia nos espaços livres que a cosmologia medieval reservava.

Assim, Júlio Verne inventariou cuidadosamente as lacunas da geografia do seu tempo, e preencheu-as com os mitos inscritos no prolongamento dos factos conhecidos realizando uma síntese que nos parece ingénua, mas supera pela sua amplitude e a sua harmonia tudo o que os seus sucessores tentaram.

Quando um autor do século XVIII queria dar uma aparência de realidade a uma fábula, tinha um lugar muito determinado para a situar: as ilhas do Pacífico. (Cf. Diderot: Supplément au Voyage de Bougainville). Agora, que a exploração da superfície terrestre é muito avançada, prefere-se colocar as ilhas no céu. Mas se naturalmente nada se conhecia ainda dos arquipélagos que ainda não estavam descobertos, estava-se pelo menos certo que, fora algumas peculiaridades notáveis, não podiam ser muito diferentes dos que já eram conhecidos. Estava-se sempre sobre a mesma Terra, com as mesmas condições geras. [sic]

Pelo contráro [sic], o pouco que se sabe actualmente das ilhas do céu prova-nos que tudo deve ser muito diferente. Sabe-se que a gravidade é mais forte em Vénus, mais fraca em Marte, do que na Terra, etc. Estes reduzidos elementos obrigam o escritor que os respeita a um esforço imenso de imaginação, forçam-no a inventar algo de verdadeiramente novo. Infelizmente, a criação duma outra «natureza», mesmo baseando-se apenas em conhecimentos elementares, é uma tarefa tão árdua que nenhum autor, até ao presente, tentou empreendê-la metodicamente.

Para não se confessar vencido, vai-se superenriquecer. Em vez de descrever o que se poderia passar em Marte e Vénus, vai saltar de golpe para o terceiro planeta do sistema tal, ou então, já que nada o impede de prosseguir em tão bom caminho, para o planeta n da estrela n da galáxia n. O leitor fica em primeiro lugar impressionado por estas cascatas de anos de luz; decididamente, o sistema solar era uma aldeia bem pobre, eis-nos lançads no grande universo. Mas apercebe-se rapidamente de que esses planetas ultra-longínquos se assemelham muito mais à Terra do que aos seus vizinhos. No número imenso de astros que povoam o espaço, é sempre plausível encontrar um em que as condições de vida sejam muito próximas das que conhecemos. Os autores encontraram as ilhas do século XVIII. Empregam um calão vagamente científico e decoram o céu com fantasias encantadoras.

Esta liberdade infinita é uma liberdade falsa. Se nos afastamos para indefinidamente longe no espaço ou no tempo, entramos numa região onde tudo é possível, em que a imaginação não terá mesmo de fazer um esforço de coordenação. O resultado será uma duplicação empobrecida da realidade quotidiana. Fala-se-nos de uma guerra imensa entre civilizações galáctivas, mas vemos logo que a liga dos planetas se assemelha estranhamente à O.N.U. e o império da nebulosa de Andrómeda à União Soviética tal como um leitor de Reader’s Digest a concebe, e assim por diante. O autor não faz mais do que traduzir em linguagem de ficção-científica um artigo de jornal lido ao serão. Se tivesse permanecido no planeta Marte, ter-lhe-ia sido necessario inventar.

Nos seus melhores momentos, a ficção-científica que descreve os mundos desconhecidos torna-se um instrumento de uma extraordinária agilidade, graças ao qual todos os géneros de fábulas políticas e morais, de contos de fadas, de mitos, podem ser transpostos e adaptados aos leitores modernos. A antecipação criou uma linguagem com a ajuda da qual se pode, em princípio, exprimir tudo.


3.º OS VISITANTES INESPERADOS

Em ficção-científica, a descrição dos mundos desconhecidos integra-se forçosamente numa antecipação, por rudimentar que seja; é natural que ela reaja sobre esta. Não foi pela melhoria das relações comerciais que a invenção da bússola transformou o mundo, mas pela descoberta da América. A descrição dos mundos e seres desconhecidos leva à descrição da sua intervenção na história futura da humanidade.

Pode-se imaginar facilmente que os habitantes de outros planetas tenham uma civilização em avanço sobre a nossa, que tenham então um raio de acção superior ao nosso, que nos precedam na descoberta.

O espaço inteiro torna-se ameaçador; seres estranhos podem intervir antes mesmo de os conhecermos. A maioria dos precolumbianos não esperava que uma invasão assassina viesse do oriente.

É em A Guerra dos Mundos de H. G. Wells, que se encontra este tema pela primeira vez, e os seus inúmeros imitadores não lhe acrescentaram grande coisa. É um tema profundamente moderno (não veio à ideia de nenhum homem do século XVI que a Europa pudesse ser descoberta por sua vez) e extremamente poderoso (algumas emissões radiofónicas atestam-no).

Graças a esta noção de intervenção, a ficção-científica pode integrar os aspectos do fantástico que, à primeira vista, parecem os mais opostos: tudo o que se pode enfileirar sob o título: «superstições».

Em A Divina Comédia Beatriz transporta Dante de planeta em planeta, em Inter Extaticum do Padre Kircher, é um anjo; nós não estamos ainda na ficção-científica que implica que a viagem se opera graças a uma técnica desenvolvida pelo homem. Mas esta técnica permitir-nos-á entrar em contacto com seres aos quais se podem supor conhecimentos que não temos, técnicas que não compreendemos. Pode, por certo, dar a fantasia a um deles de vir à terra, agarrar em um de nós, e transportá-lo para algures por meios que não é sequer necessário explicar. A diferença entre um tal ser e o anjo de Kircher torna-se ínfima: apenas a linguagem mudou. Com efeito, é preciso agora para obter uma credulidade suficiente que o ser seja descrito do mesmo modo que um ser que o homem tivesse descoberto noutro planeta. Assim, poder-se-iam integrar no interior da ficção científica todas as narrativas de fantasmas e demónios, todos os velhos mitos que falam de seres superiores que intervêm na vida dos homens. Certas narrativas de H. P. Lovecraft ilustram esta possibilidade.

C. S. Lewis começa a sua curiosa trilogia anti-moderna por um romance que tem todas as características da ficção-científica: Out of the Silent Planet. Dois sábios transportam um jovem filólogo para o planeta Marte, graças a um space ship última palavra. No segundo tomo: Perelandra, o autor tira a máscara: é um anjo quem transporta o folólogo para Vénus; quando aos sábios, são hipóteses de Satan.


III

Vê-se que sob a etiqueta ficção-científica pode passar toda a mercadoria; e que todo o género de mercadoria experimenta a necessidade de passar sob esta etiqueta. Parece então que a ficção-científica representa a forma normal da mitologia do nosso tempo: uma forma que, não só e capaz de revelar temas profundamente novos, mas que é capaz de integrar a totalidade dos temas da literatura antiga.

Mau graudo algumas belas realizações, não pode deixar de se pensar que a ficção-científica tem cumprido mal as suas promessas.

É que, ao alargar-se, a ficção-científica desnatura-se; perde pouco a pouco a especialidade. Comporta um elemento de credulidade muito particular; esse elemento enfraquece cada vez mais quando é usado sem discernimento. A ficção-científica é frágil, e a enorme difusão que conquistou nestes últimos anos não faz senão torná-la ainda mais frágil.

Já vimos que a fuga para os planetas e as épocas ultra-longínquas, que a princípio parece uma conquista, na realidade mascara a incapacidade dos autores para imaginar de um modo coerente conforme às exigências da «ciência» os planetas ou as épocas mais próximos. Da mesma maneira, a adivinhação de uma ciência futura traz, é certo, uma grande liberdade, mas vê-se logo que é sobretudo uma vingança dos autores pela sua incapacidade de dominar o conjunto da ciência contemporânea.

Acabou o tempo em que um Aristóteles podia ser o primeiro investigador do seu tempo em todos os domínios, e aquele em que um Pic pretendia sustentar uma tese De omni re scibili; mas também terminou o tempo em que um Júlio Verne podia manejar facilmente as noções implicadas em todas as aplicações técnicas realizadas na sua época e antecipar outras aplicações, permanecendo perfeitamente claro para os alunos das escolas secundárias que formavam o seu público.

Hoje as noções implicadas nos aparelhos tão correntes como o posto de rádio ou a bomba atómica superam largamente o nível de cultura científica do leitor médio. Ele utiliza sem compreender; admite sem pedir explicações; e o autor beneficia disso, o que o leva com frequência a acumular disparates, pois não conhece suficientemente, em geral, as noções de que é obrigado a servir-se, sob pena de passar por retardatário, o que é uma acusação muito grave quando se pretende desvelar os mistérios dos anos 200 000.

Daí resulta que a ficção-científica, que devia alcançar parte do seu prestígio pela sua precisão, permanece vaga. A história não chega verdadeiramente a tomar forma. E quando os sábios se propõem escrever, provam muitas vezes a sua ignorância das disciplinas que não lhes são familiares e a sua dificuldade em divulgar a sua especialidade.

A ficção-científica distingue-se dos outros géneros do fantastico pelo tipo especial de plausibilidade que introduz. Essa plausibilidade está em proporção directa dos elementos científicos sólidos que o autor introduziu. Se eles faltam, a ficção-científica torna-se uma forma morta.


IV

Compreende-se, agora, que poucos autores se arrisquem a precisar a sua imagem de um mundo transformado. Com efeito, é um empreendimento que supõe, não só uma cultura científica muito acima da média, mas também um conhecimento da realidade presente comparável à suposta por um romance do tipo realista, e enfim um esforço enorme de coordenação. Habitualmente o autor conteenta-se [sic] em evocar um mundo futuro «em geral», que pode situa-se tanto em 1975 como em 19750, caracterizado pela difusão das matérias plásticas, da televisão e do foguetão de motor atómico. É no interior desse cenário que desenvolverá resumidamente uma ideia por vezes muito engenhosa. Noutra novela, tomará esse mesmo fundo para desenvolver outra ideia, sem se dar ao cuidado de as coordenar. Daí resultarão uma infinidade de futuros esboçados, todos independentes uns dos outros e na maior parte contraditórios. Haverá mesmo uma infinidade de planetas Marte, de que cada um diminui a plausiblidade dos outros.

Esta dispersão tem como consequência directa a monotonia, pois os autores, já que renunciam a construir sistematicamente, não podem descrever senão de maneira rudimentar e não podem fugir à banalidade.

Parece que a ficção-científica comeu o seu pão branco. Ela tinha um ponto de partida muito belo. Basta falar de marcianos para apaixonar o leitor. Mas aproxima-se o tempo em que ele se aperceberá de que a maioria desses monstros, apesar das crostas, são muito menos diferentes do americano médio do que um simples mexicano. A ficção-científica calcou a erva sob os seus pés, gastou milhares de ideias. Abriram-se portas muito grandes a fim de partir para a aventura, e apercebemo-nos de que se regressa a casa. Se os autores abastardam os seus textos é porque se dão conta de que um esforço de melhoria os levaria um impasse.

As narrativas de ficção-científica tiram o seu poder de um grande sonho comum que temos, mas, de momento, são incapazes de lhe dar uma forma unificada. É uma mitologia impotente, incapaz de orientar de modo preciso a nossa acção.

(1)    Este artigo é anterior ao envio de foguetões à Lua.

sábado, maio 17, 2014

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«Observações a respeito da ficção-cientifica», por Lúcio Câmara, in JLA (1966)

Texto publicado no Jornal de Letras e Artes, Ano V, n.º 231, de 2 de Março de 1966, nas pp. 5-6.

Transcreve-se para efeitos de memória bibliográfica.

Fez-se a (reduzida) actualização da ortografia (mas não para o AO 1990). Manteve-se o duplo uso da designação de «ficção científica», com e sem hífen.


Observações a respeito da ficção-cientifica

por Lúcio Câmara

A suspeita com que se tem encarado tanto o romance policial como a ficção-científica (admitindo dentro desta designação o romance de antecipação), coloca-nos perante uma situação singular, que consiste no desprezo a que está votada uma produção literária de grande volume e de grande influência. Poder-se-à dizer, e não sem razão, que o problema da quantidade não encontra correspondência na qualidade. Com efeito dificilmente se poderá apontar um romance policial que seja, ao mesmo tempo, um grande romance (a não ser quando é transcendido pela obra romanesca de qualidade, como pode suceder em «L’Inquisitoire» de Robert Pinget).

Ora se o romance policial é essencialmente o romance da razão, um romance de formação caracterizadamente positivista, qual a posição que vem ocupar, no quadro das literatura populares, o romance de ficção científica? É que se, na verdade, o romance policial procura submeter o comportamento humano a exames, a mensurações, a regras de construção que se racionalizam, a ficção científica procura antes uma expansão dos sentimentos num espaço novo, buscando por conseguinte uma penetração em meios ainda inexistentes, mas encarados como de provável existência.

Assim sendo, enquanto o romance policial parte de hipóteses plausíveis para uma prova organizada racionalmente, na medida em que pondera os dados do problema (o que, neste sentido, pode afoitamente dizer-se que o romance policial acredita, como Leibnitz, na existência de constantes sociais que fornecem à sociedade uma organização científica), a ficção científica processa-se em sentido contrário: parte de um dado racional para as hipóteses plausíveis que nos fornecem um universo completamente novo.

Pode constatar-se assim que tanto o romance policial como a ficção científica possuem um dado comum: a sua construção literária está sempre estreitamente ligada à vida, de modo que só os comportamentos vividos, experimentados, fornecem a trama espessa na qual se enredam todos os movimentos, todas as pessoas. No que eles se afastam do romance tradicional é no facto de a experiência dos ramancistas (sic) tradicionais se estribar acima de tudo numa educação estética que os corta, em parte não dispicienda, dos factores mais relevantes da vida moderna.

Considere-se o menosprezo a que estão votados, por quase todos os romancistas do nosso tempo, os problemas cientificos, e até os do progresso técnico. O romance continua apegado a dogmas e a valores que eram válidos para Balzac no tempo em que um tanoeiro podia fazer fortuna administrando com prudência (com avareza) os proventos da sua pequena actividade artesanal, enquanto hoje será muito difícil ao artesão conseguir chegar aos mesmos resultados pelos mesmos processos, na medida em que interveio uma organização de produção, que deriva directamente da aplicação prática de conhecimentos técnico-científicos.

Ora praticamente desde 1800 (data em que começa a desenhar-se, com o seu perfil actual, a chamada revolução industrial) que o homem vê constantemente alterados os dados essenciais da sua vida por via de processos técnicos completamente novos e que, por sua vez, se baseiam numa organização científica, de investigação, que não conhece fronteiras e que tem tendência a alargar-se sempre mais. Ora sucede que sendo o factor cientifico um dos mais influentes na caracterização da nossa vida moderna, os romancistas tradicionais se furtam a considerá-lo, na medida em que a sua escrita se baseia antes de mais em dados de sensibilidade e de ideias.

A contribuição mais importante, portanto, da ficção científica, assenta no alargamento dos quadros literários graças à introdução de elementos novos que têm a sua raíz no domínio da tecnologia. A sua imaginação baseia-se sobretudo nas conquistas e nas hipóteses sugeridas pela ciência moderna e não será inútil, por isso, frisar que alguns dos seus melhores cultores são professores universitários. É o caso de Isaac Asimov (de resto um dos autores mais traduzidos em português), que é professor assistente de bioquímica na Faculdade de Medicina de Boston). Assim os elementos novos introduzidos no sangue rico e fremente da literatura, derivam de um contacto íntimo com o próprio domínio cientifico.

Isto não evita, é evidente, que se possam fazer acusações à ficção científica, na medida em que ela nos não deu ainda um grande romance, nem sequer aquele tipo de romance derivado, como sucede no policial com Robert Pinget. A psicologia é muitas vezes primária, para não dizer simplesmente ingénua, o estilo não tem qualidade literária e a complexidade das formas de existência reduz-se a uma simplicidade que em nada acompanha as formas complicadas da nossa existência quotidiana.

Todavia estes defeitos são facilmente compensados pelo conhecimento que os romancistas de ficção científica revelam do seu mundo próprio, pela maneira apaixonante como articulam os dados da tecnologia, procurando desvendar as influências que ela terá no futuro, tanto no nosso mundo terrestre como nos outros mundos de que o homem se for aproximando, e que acaso venha a ocupar. É neste campo específico que devemos considerar a ficção científica para lhe não exigir aquilo que ela ainda não pode dar, pois se deve considerar que se trata de um género literário novo. Decerto possui ela os seus antecessores, como é o caso de Júlio Verne, de Poe, de Wells, de Aldous Huxley. Mas na verdade só depois de Hugo Gernsback ter publicado em 1926 a primeira revista consagrada à ficção científica é que se viu aparecer uma produção avultada de romances que apenas se podem classificar dentro desta rubrica e de autores que não escrevem senão ficção científica.

Por outro lado constatamos que surgiu rapidamente um público e podemos fazer corresponder facilmente os dois fenómenos, na medida em que a tecnologia moderna provou mudanças profundas no substracto da vida social tanto no plano estético, como no plano ético. Baste pensar-se que a política de pleno emprego, que hoje os governos de quase todo o mundo põem na primeira linha das suas preocupações, deriva da pressão exercida pelo operariado a partir do craque de Nova Iorque (1929), mas também, e talvez sobretudo, das imensas possibilidades de emprego da mão-de-obra qualificada que foram abertas pela aplicação dos conhecimentos cientificos à produção de artigos de consumo corrente.

Assim os progressos espectaculares que se verificam no domínio da física, da química, da electrónica, provocam o aparecimento de novos produtos, a organização de novas organizações de produção, criam novos laços entre o homem e a técnica; do mesmo passo a estética organiza-se num sentido diferente daquele que era o tradicional, pois que os tecidos tornados possíveis pelas fibras sintéticas (por exemplo), possuem gamas e qualidades muito diversas dos tecidos tradicionais, etc. O homem está assim enredado numa teia de conquistas que pouco a pouco o modelam de forma diversa da tradicional.

A ficção científica não se dará ainda conta de todos os matizes, muitas destas vezes subtilíssimos, destas alterações surgidas na estrutura psicológica, mas é capaz de compreender e descrever o impacto destas mudanças no sentido mais grosseiro, deixando-nos compreender os elementos que intervêm directamente nas alterações. E, sobretudo, sabem dirigir-se ao futuro e ao espaço para se interrogaram quanto ao que será a evolução do homem, dado o contínuo progrsso tecnológico que distingue a nossa vida da vida dos nossos antepassados (dos nossos antepassados próximos, note-se bem; bastará comparar a vida dos nossos dias com a da metade deste século XX, bastando para isso assistir à passagem de alguns documentários cinematográficos dos anos 20).

Quando nos debruçamos sobre alguns dos problemas que preocupam os romancistas da ficção científica encontramo-nos perante inquietações que são as nossas de todos os dias; consequências provocadas pela cibernética, por exemplo, que virão alterar, no tempo e no espaço, as nossas concepções morais e políticas (logo económicas, visto que alterarão todo o circuito clássico da produção); governo mundial, opondo-se a tentativas de aniquilação tornadas possíveis pela fragilidade da inteligência de alguns governantes que podem controlar meios de acção demasiado poderosos; conquista da lua e de outros planetas, provocando uma rearticulação nova do homem com o espaço sideral (e rearticulação tão cheia de consequências como a que deriva das conquistas de Galileu, de Newton, etc.)

É assim que ganha corpo a ficção científica: o avião supersónico é uma realização cujas consequências ainda não podemos medir inteiramente, mas o romancista procura já articulá-lo com um futuro próximo, extrair da sua aplicação as regras mais apreciáveis e não deixa de fazer tentativas para conseguir uma ampla caracterização da vida humana a partir deste dado inicial. Nem sempre o conseguira (na verdade nem todos os autores da ficção científica possuem a qualidade literária de Ray Bradbury), mas enuncia problemas novos, que todos pressentimos e por vezes meditamos.

O interesse que se regista pela ficção científica tem por consequência a sua base num mundo contemporâneo que trouxe a ciência para o domínio público. O que fora, por exemplo durante a Idade Média, actividade secreta, amaldiçoada, é hoje mundo conhecido, claro, inteligível. O que foi domínio de bruxas, duendes, fantasmas, forças demoniacas, é hoje razão, conhecimento preciso, aplicação prática. Deste modo a ficção científica furta-se a um mundo infantil para procurar um plano judicativo, onde o encadeamento causa-efeito é considerado no seu justo valor.


quarta-feira, maio 14, 2014

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Nota de Abertura à antologia «De Júlio Verne aos Astronautas», org. Lima de Freitas, 1965

http://coleccaoargonauta.blogspot.pt/2011/09/n-100-os-melhores-contos-de-ficcao.html


O n.º 100 da colecção Argonauta, publicado em 1965, consiste num volume duplo comemorativo (conforme indicado na capa e ficha técnica) designado por Os Melhores Contos de FC – De Júlio Verne aos Astronautas. Uma «antologia» que apresenta o «panorama das diversas tendências da ficção científica numa selecção dos escritores mundialmente representativos» (o sub-título consta apenas da ficha técnica). A selecção e tradução é de Lima de Freitas, que também assina a ilustração da capa.

O texto da contracapa elabora: «Comemorando o n.º 100 da Colecção Argonauta, uma iniciativa editorial sem precedentes. Pela primeira vez em Portugal, num volume duplo e pelo preço de um volume simples, um panorama completo da evolução da Ficção Científica desde Júlio Verne aos Astronautas. Entre centenas de autores, entre milhares de obras, foram seleccionados os contos dos escritores mundialmente mais representativos, formando uma antologia das diversas tendências do género literário mais significativo da nossa época.»

Os contos são, pela ordem com que surgem no livro: «O Eterno Adão» de Júlio Verne, «A Estrela» de H. G. Wells, «Um Outro Mundo» de J. H. Rosny Aîné, «O Templo» de H. P. Lovecraft, «R.U.R. Comédia utópica em três anos e um prólogo» de Karel Capek, «A Virgem dos Rochedos» de Poul Anderson, «Flores para Algernon» de Daniel Keyes, «Do Tempo e da Terceira Avenida» de Alfred Bester, «As Ruínas Circulares» de Jorge Luís Borges, «A Estrela» de Arthur C. Clarke, «Cor Serpentis» de Ivan Efrémov, «O Dragão» de Ray Bradbury, «A Arma» de Frederic Brown, «Instinto» de Lester del Rey, antecidos pela nota de abertura do organizador, que a seguir se apresenta na íntegra para fins de memória bibliográfica.

Nota de Abertura
Esta antologia de «ficção científica» foi feita para dar ao leitor o prazer delicioso de saborear umas quantas histórias engenhosas, originais e cheias de arrojada fantasia. O prazer da boa leitura será o seu maior mérito. O que não impede que certas linhas de pensamento sejam ilustradas ao longo do presente volume e proponham, ao amador de interrogações, vários tópicos para uma meditação proveitosa.

O Eterno Adão, trabalho póstumo do venerável Júlio Verne, abre a discussão da sobrevivência das civilizações, à mercê das forças da Natureza; H. G. Wells vai mais longe, em A Estrela, ao sugerir que não apenas a civilização pode desaparecer num cataclismo, mas o próprio planeta. O conto de Arthur Clarke, que também se chama A Estrela, por curiosa coincidência, fecha o ciclo das ameaças cósmicas com o aniquilamento de um sistema solar: está posta a questão da sobrevivência. Às forças naturais, de cuja grandeza inimaginável vamos tendo uma consciência cada vez maior, juntam-se as forças que o Homem pode desencadear: ameaça de que toda a gente tem hoje uma noção inquietante e que Frederic Brown considera, no seu breve conto A Arma, sob o ponto de vista da ética do cientista.

Quando o clássico chego Karel Capek escreveu a sua célebre peça «R.U.R.» (levada à cena, pela primeira vez, no teatro da Comédie des Champs-Elysées em 1924 e já representada em Portugal por um grupo de teatro dos estudantes da Universidade de Coimbra) ainda se ignorava o perigo atómico. Mas Capek – que nesta peça criou a palavra robot  - tinha consciência dos perigos que advêm para a Humanidade da utilização amoral de certas possibilidades técnicas oferecidas pela Ciência. Que o Homem sobreviva no robot é um arrojo inesperado (sobretudo em 1920), fértil em implicações de toda a ordem. Lester del Rey, com o seu Instinto, acrescenta uma espécie de post-facio a Capek, cheio de inteligente ironia.

Mas não se trata, apenas, de saber como sobreviver, trata-se, também, de saber conviver. O célebre Efrémov – que é, também, um grande cientista (ou talvez fosse melhor dizer: que é, também, um célebre escritor) – aborda, de maneira emocionante, o contacto com outras inteligências e, mais do que isso, a colaboração das inteligências através do espaço e do tempo. Depois do pungente Flores para Algernon, solidão de uma fugaz inteligência, a proposta optimista de Efrémov é o sonho de uma vitória definitiva da sobrevivência através da convivência.

Os cavaleiros do passado, que atacam um futuro que não compreendem, estão condenados à derrota, como o ilustra O Dragão, do grande Bradbury;  somos responsáveis pelo futuro, perante o futuro (Alfred Bester di-lo de um modo original e inesperado). Assim, pela utopia se tece a crítica do presente, pela fronteira estreme da fantasia se faz a prospeção dos grandes sonhos do Homem, pelo maravilhoso se procede à psicanálise do real quotidiano. Que é o real? Que mundos insuspeitos oculta a nossa miopia sensata? J. H. Rosny-Aîné, que foi da Academia Congourt [sic], melhor do que um longo ensaio filosófico, sugere-nos que espécie de mundos outros podem coexistir ao nosso, no seu conto Um outro Mundo. Lovecraft, mestre do fantástico, desce aos abismos submarinos do inconsciente. E o argentino Luís Borges, que foi proposto para o Prémio Nobel, pergunta se não seremos o sonho de outros. Talvez a razão seja o sonho da matéria; o que parece inegável é que o Homem cresce sonhando-se.

Que o leitor, ao longo desta antologia, possa sentir o prazer de ler e o prazer de sonhar, são os nossos votos.

terça-feira, maio 13, 2014

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Prefácio e posfácio a «O Que É a "Ficção Científica"?», org. Victor Palla, 1959




A antologia O Que é a “Ficção Científica”?, organizada por Victor Palla e publicada em 1959 sob a chancela da editora Atlântida (Coimbra), contém os seguintes contos: «A Longa Velada de Armas» de Robert Heinlein, «Quem Parte Leva Saudades» de Jacques Sternberg, «Cidadão no Espaço» de Robert Sheckley, «Interlúdio nas Trevas» de Mack Reynolds e Frederic Brown, «Cair da Noite» de Isaac Asimov, «Senão» de Henry Kuttner, «Lição de História» de Arthur C. Clarke, «A Sombra do Passado» de Ivan Efremov, «A Descoberta de Morniel Mathaway» de Willam Tenn, «Noite» de Chad Oliver, sendo antecedidos por um prefário do organizador e seguidos também por um «postfácio» [sic] da sua autoria.

Transcrevemos na íntegra os textos de Victor Palla para efeitos de memória bibliográfica:

Prefácio


«Mas o sistema solar!» protestei.
«Que diabo me interessa isso?» interrompeu ele, impaciente. «Diz você que andamos à roda do Sol. Se andássemos à roda da Lua, isso não me faria a mínima diferença, nem a mim nem ao meu trabalho.»

Exteriormente, o fenómeno – que alastra pelos escaparates das revistas e livros de bolso – lembra dum modo flagrante o advento e a difusão, ainda relativamente recentes, dum outro fenómeno literário. Centenas de títulos são publicados anualmente; milhões de leitores ávidos devoram indistintamente tudo quanto aparece; outros escolhem, comentam e fundam clubes e tertúlias; o cinema aproveita a moda e produz filmes comerciais estupidamente aterrorizantes e aterrorizantemente estúpidos; aparecem revists populares da especialidade, e esotéricas little reviews; determinado tipo de intelectuais «não lê tal coisa»; políticos, homens de ciência, primeiras-damas confessam, um tudo-nada apologeticamente, que não têm outra leitura favorita, «para distrair o espírito».

Eis, não há dúvida, uma moldura singularmente parecida à do retrato que há um bom par de dezenas de anos se traçava do «livro policial».

Mas a impaciente resposta de Holmes ao bom do Dr. Watson define a diferença fundamental. Ao romance de polícias e ladrões tanto se lhe dá como se lhe deu que a Terra ande à volta do Sol, que se lancem satélites artificiais e bombas atómicas. A «ficção científica» faz de tudo isso (e de muito mais) o seu pão de cada dia. No mundo de regras fixas do romance policial, tudo o que esteja para fora do palco arrisca-se a perturbar grandemente um equilíbrio estático do jogo convencional, tão estático que tem vindo a condená-lo aos poucos à decadência e à morte – destino idêntico ao dos romances franceses de capa-e-espada ou dos Gothic novels ingleses. Em determinadas épocas da história literária aparecem estes subgéneros da ficção romanesca, muito caracterizados; por vezes simples «modas», eles são no entanto instrutivos – porque o êxito dum livro em grande escala é, evidentemente, fenómeno social e não literário. Ora tudo o que afecta milhões de pessoas merece ser conhecido, em vez de recusado sumariamente. Assim aparece este livro.

Ele não é, no entanto, um tratado sobre o assunto, nem uma História da Ficção Científica Desde as Suas Origens Até aos Nossos Dias. Apresenta, mais modestamente, uma dezena de contos, que se escolheram variados, e cuja leitura (e não os comentários do antologista) se espera que dê resposta à pergunta do título. Julga-se que será bem mais esclarecedor, para quem nunca leu f. c., este mergulho de cabeça nos labirintos do género, do que um longo e abstracto artigo teórico, ou, por outro lado, a leitura dum romance (que tem alta probabilidade de ser muito mau). Aqui encontrará o leitor problemas de exploração astral; especulações sobre o viajar no tempo; o desenvolvimento de hipóteses físicas; crítica social, sátira política; e humor à custa dos próprios poncifs da f. c.. Faltam-nos, é certo, robots, mutantes, telepatas; mas para que tudo figurasse seria necessário um bem maior volume. Também não aparecem alguns contos que o organizador gostaria de incluir, mas se encontram já traduzidos e acessíveis: recorda-se particularmente esse extraordinário «A Terra dos Cegos», de Wells (1), e muitas das histórias curtas do grande escritor que é Bradbury (2).

Houve, além disso, a prudência de evitar contos demasiadamente «especializados». Explico melhor: qualquer assunto tem a sua linguagem: um conto sobre um desafio de base-ball pode resultar (e resulta, num caso de que me estou a lembrar) ininteligível ao leitor europeu. A f. c., pela necessidade de empregar os nomes dos objectos e fenómenos não usuais, utiliza uma terminologia própria, cuja estranheza o aficionado já não nota, mas que poderá desorientar o iniciando. O que é um «escafandro espacial»? um «campo de forças»? E que línguas se falarão no futuro? é inevitável que surjam termos novos; que algumas palavras de hoje evoluam, se contraiam. E os hábitos quotidianos das personagens, não deverão ser também diferentes? «Ler» um livro poderá passar a ser encostar aos olhos um visor de microfilmes. O leitor calejado de f. c. dá tudo isto como assente e nem pestaneja quando em vez de um Presidente aparece um Presidor, ou quando uma personagem que estava a ler «pousa o aparelho de leitura». (Estes exemplos não são ao acaso: aparecem no livro.) Mais: esse leitor habitual de f. c. tem já os seus conhecimentozinhos, superficiais mas suficientes, da astrofísica, de astronavegação; e é com um pequeno sorriso de superioridade que assiste, desde o Sputnik à vaga de artigos nos jornais diários vulgarizando assuntos que ele conhece como os seus dedos há muitos, muitos anos. Pois não foi já em 1920 que ele leu Aelita, de Alexis Tolstoi, que narra a chegada a Marte da primeira expedição terráquea? Há dezenas de anos que a sua moeda corrente são os satélites artificiais, as condições de vida nos outros planetas, o aproveitamento pacífico (ou não) da energia nuclear, as grandes evoluções sociais. Não é em vão que, com toda a seriedade, os franceses propõem para substituir o termo ficção científica um outro, antecipação; e em abono da verdade reconheça-se que esta nova Cassandra tem, por conhecimento de causa, premonição, esperançoso wishfull Thinking, ou simples coincidência, muito frequentemente justificado o nome. Ora tudo isto (para voltar ao tema) implica um glossário específico. Os contos deste volume não escapam por completo a essa pressuposição de conhecimentos prévios do leitor. Mas todos os meios de expressão os pressupõem. Passemos portanto à leitura e deixemos para o fim quaisquer comentários adicionais.

(1)    In «H. G. Wells», antologia do conto moderno, Atlântida.
(2)    In Colecção «Argonauta», Livros do Brasil, Lda.


Postfácio

Eis portanto o que é «ficção científica». Se necessária uma definição, podemos arriscar esta: «narrativa baseada deliberadamente na especulação romanesca sobre as consequências principais ou acessórias duma ou várias hipóteses científicas, prováveis ou não.» Talvez ela seja insuficiente a quem não conheça o definido, como quase todas as definições. Ajusta-se, é certo, à bravura de Heinlein, ao negro pessimismo francês de Sternberg, à fácil sátira americana de Sheckley, à crítica implícita em Reynolds & Brown, à poética especulação de Asimov, à ironia de Kuttner, ao sólido humor britânico de Clarke, à curiosidade científica do soviético Efremov, à anedota de Tenn e ao sentido humano de Chad Oliver. Mas ao recapitular estes contos, o antologista deve confessar leamente que receia eles não dêem da f. c. uma ideia muito correcta. As suas preferências pessoais levaram-no a traduzir exemplos menos maus do que a produção média deste género, pintando assim um retrato lisonjeiro e favorecido. É verdade que um género literário tem o direito de ser julgado pelas suas melhores obras. Mas também é verdade que muitas das consideradas «melhores obras» da f. c. são – também elas como as piores – pobres de estilo e composição, repetitivas, e grande parte das vezes duma profundidade psicológica nula – por pertinentes que sejam os seus temas (profecias de destruição, terror da bomba atómica), e justos alguns dos seus postulados (necessidade de colaboração entre todos os homens, anti-racismo). Refiro-me, evidentemente, aos Van Vogt, aos Leinster, àqueles tomados como «profissionais» da f. c.; não às obras ocasionais doutros autores, como 1984 ou Brave New World. (E, no entanto, estes dois exemplos lembram-nos que belo veículo de exame e crítica não poderia ser o género, fossem os seus profissionais melhores escritores! Recordo um único grande romance: o Farenheit 451 [sic] de Bradbury.)

Mas é talvez demasiado cedo para tentar surpreender uma evolução em pleno curso. Como diz Brunetière, os géneros literários nascem, crescem, estiolam-se e morrem; às vezes transformam-se noutros superiores e mais diferenciados, como as espécies na teoria darwiniana da evolução. Não nos precipitemos, pois, num julgamento que só ao futuro compete. Bem possível é que desta bizarra mistura de convencionalismo esquemático e sensação à outrance, de interesse científico e pseudo-ciência, de pessimismo e esperança, surjam, em linha directa ou colateral, grandes e perduráveis obras. Entretanto, das que se vão publicando, melhores ou piores, não vem mal ao mundo – nem a quem tenha a suficiente curiosidade para lê-las.

domingo, maio 04, 2014

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A literatura portuguesa de Ficção Científica, por Jorge Guerra (1988)

Texto de Jorge Guerra, publicado no Diário de Lisboa, 16 de Junho de 1988, suplemento «Ler e Escrever», p. 3. Reproduzido na íntegra a partir do fac-símile do arquivo digital do jornal.

A literatura portuguesa de Ficção Científica


“Produtos característicos da civilização americana, estes dois géneros (o Jazz e a Ficção Científica) dispõem na Europa Ocidental (à excepção da Península Ibérica e provavelmente da Irlanda) de um vasto auditório e de um número crescente de adeptos”, assim escrevia o romancista inglês Kinsgley Amis [1]. Esta observação pode ser confirmada entre nós, mas não cabe aqui justificá-la.

Na verdade, se foi com a revista «Amazing Stories», em 1926 nos EUA, que se formaram os moldes da moderna Ficção Científica, só em fins da década de 50 apareceram as primeiras incursões portuguesas no género, sem, todavia, um posterior percurso ampliado ou implantado.

As experiências genuínas e de culto reduziram-se a esporádicas edições de autor, não havendo sequer na Imprensa ressonâncias críticas da produção nacional e internacional.

Ultimamente tem-se escrito sobre João Aniceto e o seu «O Quarto Planeta» (1986); o autor estreou-se em 1983 com «Os Caminhos Nunca Acabam», premiado com Daniel Tércio («A Vocação do Círculo») no Concurso de FC da Editorial Caminho. Sobre eles escreveu-se não muito favoravelmente numa coluna, aliás já extinta, do Jornal de Letras [2].

Num outro raríssimo texto sobre este tema, Fernando Saldanha [3] revela que conhecidos escritores dedicaram-se à FC; são os casos de Carlos Macedo, Fernando Melin, Maria Judite de Carvalho e Romeu de Melo [4]. Saldanha afirma ainda ser autor de um romance do género, «O Planeta Prometido», sob o pseudónimo de Jack Sawan [sic – o pseudónimo é Jack Swann].

Também obras como «O Grande Cidadão» (Arcádia, Lx.ª 1963) de Virgílio Martinho e “Jánika” (Círculo de Leitores, Lx.ª 1981) de Vitório Kali podem ter afinidades com a linha orwelliana e a «fantasy».

De referir também o volume Antologia Panorama de Antecipação (Galeria Panorama, Lx.ª 1968), que além dos consagrados norte-americanos, inclui contos de Dórdio Guimarães, F. Saldanha, Hélia, Lima Rodrigues, Luis Campos, Manuela Montenegro e Natália Correia.

Um romance auto-intitulado de FC, mas de uma ligeireza própria de alguém que pretende veicular a defesa do ultramar português, é “Um Homem de Outro Mundo” (Pax, Braga 1968) de Reis Ventura. Um ET aterra em Luanda e desde aí é escoltado pelas autoridades portuguesas, que logo o terão de subtrair às manigâncias das duas potências mundiais. Apercebendo-se do isoladamente (sic) de Portugal no contexto diplomático, o ET decide intervir na ONU a favor da questão colonial.

Eis a seguir os livros que mais rigorosamente seguem os modelos clássicos de FC, seja a “heroic fantasy” ou a “space opera”.

Em “A Morte da Terra” (Sociedade de Expansão Cultural, Lx.ª 1969) de Alves Morgado, os planetas do Sistema Solar estão colonizados pela Terra e sujeitos a um regime despótico. Há, contudo, um foco de rebelião em Ganímedes, satélite de Júpiter, para onde se dirige em missão um membro do Império; aí, este é seduzido pelos ideais rebeldes e participa na batalha pela libertação, facto de súbito consumado pela explosão do Sol que aniquila a Terra. A partir de Júpiter propaga-se, então, a “democracia mais pura que já houve algum dia”, onde a transmissão da história humana seja abolida.

“Em Busca de Novos Mundos” (Ed. Autor, Lx.ª 1965) de Oliveira de Fontemar é um livro bem escrito e estruturado, com acção e intensidade dramática, que nos conta a visita de uma tripulação terrestre a alguns planetas situados fora da Via Láctea e os seus esforços para compreender as suas formas de pensamento.

Luís de Mesquita, professor de bioquímica da Universidade de Lisboa, escreveu “A Ameaça Cósmica” (Liv. Sampedro Ed., Lx.ª s/d), confirmando o talento de narrador que já exibira em “O Mensageiro do Espaço”. Um cientista descobre que grandes cataclismos ocorrerão na Terra durante a passagem próxima de um cometa, procurando por isso alertar os mais poderosos governos, que não chegam a entendimento estratégico. Até ao instante fatal, sucedem-se vários desenlaces particulares entre personagens cujas relações ambíguas caminham para uma urgente redefinição.

Um caleidoscópio de situações é “Vieram do Infinito” (Minerva, Lx.ª 1955) de Eric Prince, pseudónimo de A. Maldonado Rodrigues, uma narrativa que transborda visualidade. Num distante e avançado planeta, um grupo de nativos tenta quebrar a monotonia quotidiana e o policiamento emocional de um “big brother”, teletransportando-se para a Terra de 1979 e tomando parte em envolvimentos desconhecidos.

Finalmente, “Canopus 98” (Ed. Autor, Lx.ª 1969) de Carlos Moutinho, é certamente aquele que melhor fundiu a FC clássica e potética (sic); dezena e meia de contos bem escritos numa confluência surrealista e bradburyana. Um grande autor!



NOTAS:
[1] “L’Univers de la Science-Fiction” (“New Maps of Hell”), Payol, Paris, 1962
[2]  J. Santandré, “JL”, n.º 130, Ano IV, 1-1-85
[3] “Breve Nota Sobre a Literatura Portuguesa de FC”, in “Selecções Mistério”, n.º 6, Lx.ª Nov 1981.
[4] De Romeu de Melo: “AK”, 1959; “Não Lhes Faremos a Vontade”, 1970; “Buzina”, 1972; “Factor Genético”, 1973.

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

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Kalum, Menotti Del Picchia

Em 1940, dez anos após a primeira publicação de A filha do inca, Menotti Del Picchia retornou ao universo da República 3000 em Kalum, esta também uma história de aventuras na selva brasileira, "para recreio da nossa juventude", como diz o autor em seu prefácio.
Kalum repete a estrutura usada no livro anterior e, de forma geral, é um livro mais regular que aquele. Mas é lamentável que seja assim, pois as imagens de A filha do inca emocionam muito mais e fixam-se de forma mais profunda na memória do leitor. Desse modo, Kalum soa anticlimático, ainda que tenha muitas sequências emocionantes.
A história de Kalum inicia com uma expedição alemã, científica e cinematográfica, que pretende filmar os rituais canibalescos de uma tribo de índios da Amazônia, os kurongangs, intocada pela civilização. A tribo habita uma área de difícil acesso e a jornada é longa, ainda que não tão desastrada quanto aquela comandada pelo Capitão Fragoso. Esta expedição é chefiada por Karl Sopof, um tipo atlético e esperto que acredita que é sua melhor chance de ficar rico, pois tem certeza que o filme que pretende fazer vai ser um sucesso na Europa.
Os mateiros que guiam a expedição têm medo, pois conhecem a selvageria dos kurongangs, especialmente seu líder, o cacique Kalum, O Sangrento. A certa altura, os expedicionários são surpreendidos pelos kurongangs e levados prisioneiros. Quando se aproximam da taba dos indígenas antropófagos, numa clareira de acesso difícil entre montanhas altas e escarpadas, Karl surpreende-se com a arquitetura de algumas ocas, que se parecem com casas urbanas, porém erguidas com bambu e barro.
Ao confrontarem Kalum, todos percebem porque ele é tão temido. Trata-se de uma figura um tanto cômica, de pequena estatura, ainda que fortíssimo e de aparência feroz. Mas o que realmente assusta é que Kalum demonstra ser psicológica e emocionalmente instável, com toda certeza um psicopata. Kalum decreta que todos os prisioneiros deverão ser sacrificados mas, antes disso, devem ser purificados pelo pajé, um tipo misterioso chamado de Bogum. Karl é levado a sua presença justamente numa das choças de aparência familiar, e se depara com outra criatura bizarra, barbada e vestida em andrajos, mas que fala sua língua e sabe exatamente o que ele pretendia fazer ali com seus equipamentos estranhos. Alguns mistérios desfazem-se quando Bogum revela a Karl que ele é, na verdade, o padre D. Rui Colaço, que sobrevive entre os kurongangs pois impressionou-os com truques de mágica, enquanto seus companheiros, de uma malfadada missão de catequese, foram todos mortos.
Bogum sabe que não pode fazer muito pelos prisioneiros sem arriscar sua própria vida mas, junto com Karl, elabora um plano para intimidar Kalum, que consiste em filmá-lo, exibir o filme realizado e convencê-lo que Karl também é um feiticeiro poderoso e que aprisionou sua alma.
O plano funciona parcialmente pois, dessa forma, Karl e Bogum conseguem livrar os demais prisioneiros que rapidamente abandonam a taba. Porém, Bogum e Karl são retidos pelo desconfiado Kalum, que exige a devolução de sua alma. Quando percebem que nunca sairão vivos da tribo kurongang, ambos decidem fugir pela única saída possível, uma passagem secreta sob as montanhas, que Bogum descobriu através de um mapa que encontrou junto a um esqueleto do que ele julgara ser uma criança. Na proteção da noite, ambos esgueiram-se em direção as escarpas, mas são descobertos e caçados pelos índios. Já próximos do paredão de rocha, o velho padre é abatido mortalmente por uma flexada, enquanto Karl, ao tropeçar numa pedra, aciona o mecanismo que abre o portal secreto na parede montanhosa, através do qual ele se atira precipitadamente. Os kurongangs ficam assustados com o poder do estranho feiticeiro que fugiu para dentro da montanha, mas Kalum não está com medo. Promove um dos feiticeiros menores ao posto do falecido Bogum e exige, sob pena de morte, que ele descubra uma maneira de também abrir a montanha, para recapturar o feiticeiro branco que lhe roubou a alma.
Enquanto o aterrorizado feiticeiro tenta desesperadamente descobrir como se abre uma montanha, Karl tateia na escuridão de uma caverna colossal que se aprofunda mais e mais para dentro da rocha. Milhares de metros abaixo do solo, descobre uma cidade futurista habitada por mulheres pequeninas como crianças, lindas, louras e idênticas que, ainda por cima, falam sua língua. Bem recebido, Karl se depara com uma versão ampliada das pequenas mulheres, a única entre elas que tem a altura normal, chamada Elinor. Ela lhe conta que os habitantes daquela cidade, que também se chama Elinor, descende de viajantes cretenses que naufragaram na Ilha de Marajó, os mesmos navegantes dos quais outro ramo de descendentes fundou, em local mais favorável, a mítica República 3000. Nas cavernas, seu povo encontrou abrigo e segurança, pois na floresta eram hostilizados pelos kurongangs, que os caçavam sem trégua. Lacraram a entrada da caverna, aprofundaram as galerias e erigiram ali sua cidade, com sofisticados sistemas de iluminação e circulação de ar. Através de receptores de rádio-televisão, acompanharam a evolução dos povos do mundo, aprendendo suas línguas e absorvendo seu conhecimento. Sua estatura foi se reduzindo ao longo das gerações e, sem a luz natural do sol, o ar fresco e o céu aberto, uma desgraça terrível se abateu sobre o povo de Elinor. Uma infelicidade existencial profunda vitimou principalmente os homens, que se suicidaram aos milhares. As mulheres resistiram melhor, mas tornaram-se infantis e fúteis. Aos poucos, a população foi se reduzindo e naquele momento encontra-se à beira da extinção.
Elinor lidera os últimos homens remanescentes numa investida desesperada em escavar, a partir dos níveis mais profundos da caverna, uma passagem para o exterior, longe dos ferozes kurongangs. O trabalho é lento e imprevisível, mas há esperança que seja finalizado em breve.
As pequenas mulheres não se importam com a escavação e em nada ajudam os trabalhos, passando seu dias em absoluta improdutividade. Volúveis e medrosas, logo voltam-se contra Karl, temendo que ele traga os kurongangs até ali. Os ânimos exaltam-se e, quando parece que nem Karl nem Elinor poderão contê-las, soam os alarmes: os kurongangs finalmente abriram o portal e a luta final tem início.
Como se percebe, a história de Kalum é muito mais elaborada que a vista em A filha do inca. Há mais detalhes, os personagens são individualmente mais trabalhados, os conceitos de uma história de aventuras são melhor instalados e mesmo as estruturas de gênero parecem melhor arranjadas, ainda que muita coisa pareça absurda ao leitor moderno. Mas falta o toque de maturidade que A filha do inca tem de sobra. Falta, sobretudo, um personagem carismático como o Maneco, tão bem colocado na história anterior. Parece, a princípio, que um dos muitos companheiros de Karl, especialmente o grandalhão e sentimental Fritz, poderia assumir esse posto, mas todos são removidos da trama antes de sua metade.
Kalum ainda tem a seu desfavor o fato de ser uma história muito mais sombria se comparada a A filha do inca. Enquanto em A filha do inca os autômatos da República 3000 sobem em revoada para as estrelas, numa cena emocionante e transcendental que levaria qualquer fã de hard fiction às lágrimas, Kalum só tem sangue e destruição a oferecer. Para compensar, Kalum apresenta um epílogo lírico e belíssimo de efusividade tropical, em si uma peça à parte, com seu colorido contrastando ao preto e branco predominante da história. Decerto que Del Picchia já sabia disso tudo. Ele mesmo diz, em seu prefácio, que se entregara "à volúpia de imaginar coisas absurdas que fizessem sentido pelo menos como hipóteses de um futuro maravilhoso".
Cabe a nós percebermos que esse maravilhoso não tem que ser, invariavelmente, positivista. No caso de Kalum, é o maravilhoso do horror que se apresenta muito mais exposto do que o maravilhoso científico. Comparado à pobreza de ideias que cerca o gênero do horror no Brasil, que se volta insistentemente para um gótico superado e enfadonho, Kalum mostra que Menotti Del Picchia estava adiante de todos nós tanto na ficção científica quanto no horror.