sábado, maio 17, 2014

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«Observações a respeito da ficção-cientifica», por Lúcio Câmara, in JLA (1966)

Texto publicado no Jornal de Letras e Artes, Ano V, n.º 231, de 2 de Março de 1966, nas pp. 5-6.

Transcreve-se para efeitos de memória bibliográfica.

Fez-se a (reduzida) actualização da ortografia (mas não para o AO 1990). Manteve-se o duplo uso da designação de «ficção científica», com e sem hífen.


Observações a respeito da ficção-cientifica

por Lúcio Câmara

A suspeita com que se tem encarado tanto o romance policial como a ficção-científica (admitindo dentro desta designação o romance de antecipação), coloca-nos perante uma situação singular, que consiste no desprezo a que está votada uma produção literária de grande volume e de grande influência. Poder-se-à dizer, e não sem razão, que o problema da quantidade não encontra correspondência na qualidade. Com efeito dificilmente se poderá apontar um romance policial que seja, ao mesmo tempo, um grande romance (a não ser quando é transcendido pela obra romanesca de qualidade, como pode suceder em «L’Inquisitoire» de Robert Pinget).

Ora se o romance policial é essencialmente o romance da razão, um romance de formação caracterizadamente positivista, qual a posição que vem ocupar, no quadro das literatura populares, o romance de ficção científica? É que se, na verdade, o romance policial procura submeter o comportamento humano a exames, a mensurações, a regras de construção que se racionalizam, a ficção científica procura antes uma expansão dos sentimentos num espaço novo, buscando por conseguinte uma penetração em meios ainda inexistentes, mas encarados como de provável existência.

Assim sendo, enquanto o romance policial parte de hipóteses plausíveis para uma prova organizada racionalmente, na medida em que pondera os dados do problema (o que, neste sentido, pode afoitamente dizer-se que o romance policial acredita, como Leibnitz, na existência de constantes sociais que fornecem à sociedade uma organização científica), a ficção científica processa-se em sentido contrário: parte de um dado racional para as hipóteses plausíveis que nos fornecem um universo completamente novo.

Pode constatar-se assim que tanto o romance policial como a ficção científica possuem um dado comum: a sua construção literária está sempre estreitamente ligada à vida, de modo que só os comportamentos vividos, experimentados, fornecem a trama espessa na qual se enredam todos os movimentos, todas as pessoas. No que eles se afastam do romance tradicional é no facto de a experiência dos ramancistas (sic) tradicionais se estribar acima de tudo numa educação estética que os corta, em parte não dispicienda, dos factores mais relevantes da vida moderna.

Considere-se o menosprezo a que estão votados, por quase todos os romancistas do nosso tempo, os problemas cientificos, e até os do progresso técnico. O romance continua apegado a dogmas e a valores que eram válidos para Balzac no tempo em que um tanoeiro podia fazer fortuna administrando com prudência (com avareza) os proventos da sua pequena actividade artesanal, enquanto hoje será muito difícil ao artesão conseguir chegar aos mesmos resultados pelos mesmos processos, na medida em que interveio uma organização de produção, que deriva directamente da aplicação prática de conhecimentos técnico-científicos.

Ora praticamente desde 1800 (data em que começa a desenhar-se, com o seu perfil actual, a chamada revolução industrial) que o homem vê constantemente alterados os dados essenciais da sua vida por via de processos técnicos completamente novos e que, por sua vez, se baseiam numa organização científica, de investigação, que não conhece fronteiras e que tem tendência a alargar-se sempre mais. Ora sucede que sendo o factor cientifico um dos mais influentes na caracterização da nossa vida moderna, os romancistas tradicionais se furtam a considerá-lo, na medida em que a sua escrita se baseia antes de mais em dados de sensibilidade e de ideias.

A contribuição mais importante, portanto, da ficção científica, assenta no alargamento dos quadros literários graças à introdução de elementos novos que têm a sua raíz no domínio da tecnologia. A sua imaginação baseia-se sobretudo nas conquistas e nas hipóteses sugeridas pela ciência moderna e não será inútil, por isso, frisar que alguns dos seus melhores cultores são professores universitários. É o caso de Isaac Asimov (de resto um dos autores mais traduzidos em português), que é professor assistente de bioquímica na Faculdade de Medicina de Boston). Assim os elementos novos introduzidos no sangue rico e fremente da literatura, derivam de um contacto íntimo com o próprio domínio cientifico.

Isto não evita, é evidente, que se possam fazer acusações à ficção científica, na medida em que ela nos não deu ainda um grande romance, nem sequer aquele tipo de romance derivado, como sucede no policial com Robert Pinget. A psicologia é muitas vezes primária, para não dizer simplesmente ingénua, o estilo não tem qualidade literária e a complexidade das formas de existência reduz-se a uma simplicidade que em nada acompanha as formas complicadas da nossa existência quotidiana.

Todavia estes defeitos são facilmente compensados pelo conhecimento que os romancistas de ficção científica revelam do seu mundo próprio, pela maneira apaixonante como articulam os dados da tecnologia, procurando desvendar as influências que ela terá no futuro, tanto no nosso mundo terrestre como nos outros mundos de que o homem se for aproximando, e que acaso venha a ocupar. É neste campo específico que devemos considerar a ficção científica para lhe não exigir aquilo que ela ainda não pode dar, pois se deve considerar que se trata de um género literário novo. Decerto possui ela os seus antecessores, como é o caso de Júlio Verne, de Poe, de Wells, de Aldous Huxley. Mas na verdade só depois de Hugo Gernsback ter publicado em 1926 a primeira revista consagrada à ficção científica é que se viu aparecer uma produção avultada de romances que apenas se podem classificar dentro desta rubrica e de autores que não escrevem senão ficção científica.

Por outro lado constatamos que surgiu rapidamente um público e podemos fazer corresponder facilmente os dois fenómenos, na medida em que a tecnologia moderna provou mudanças profundas no substracto da vida social tanto no plano estético, como no plano ético. Baste pensar-se que a política de pleno emprego, que hoje os governos de quase todo o mundo põem na primeira linha das suas preocupações, deriva da pressão exercida pelo operariado a partir do craque de Nova Iorque (1929), mas também, e talvez sobretudo, das imensas possibilidades de emprego da mão-de-obra qualificada que foram abertas pela aplicação dos conhecimentos cientificos à produção de artigos de consumo corrente.

Assim os progressos espectaculares que se verificam no domínio da física, da química, da electrónica, provocam o aparecimento de novos produtos, a organização de novas organizações de produção, criam novos laços entre o homem e a técnica; do mesmo passo a estética organiza-se num sentido diferente daquele que era o tradicional, pois que os tecidos tornados possíveis pelas fibras sintéticas (por exemplo), possuem gamas e qualidades muito diversas dos tecidos tradicionais, etc. O homem está assim enredado numa teia de conquistas que pouco a pouco o modelam de forma diversa da tradicional.

A ficção científica não se dará ainda conta de todos os matizes, muitas destas vezes subtilíssimos, destas alterações surgidas na estrutura psicológica, mas é capaz de compreender e descrever o impacto destas mudanças no sentido mais grosseiro, deixando-nos compreender os elementos que intervêm directamente nas alterações. E, sobretudo, sabem dirigir-se ao futuro e ao espaço para se interrogaram quanto ao que será a evolução do homem, dado o contínuo progrsso tecnológico que distingue a nossa vida da vida dos nossos antepassados (dos nossos antepassados próximos, note-se bem; bastará comparar a vida dos nossos dias com a da metade deste século XX, bastando para isso assistir à passagem de alguns documentários cinematográficos dos anos 20).

Quando nos debruçamos sobre alguns dos problemas que preocupam os romancistas da ficção científica encontramo-nos perante inquietações que são as nossas de todos os dias; consequências provocadas pela cibernética, por exemplo, que virão alterar, no tempo e no espaço, as nossas concepções morais e políticas (logo económicas, visto que alterarão todo o circuito clássico da produção); governo mundial, opondo-se a tentativas de aniquilação tornadas possíveis pela fragilidade da inteligência de alguns governantes que podem controlar meios de acção demasiado poderosos; conquista da lua e de outros planetas, provocando uma rearticulação nova do homem com o espaço sideral (e rearticulação tão cheia de consequências como a que deriva das conquistas de Galileu, de Newton, etc.)

É assim que ganha corpo a ficção científica: o avião supersónico é uma realização cujas consequências ainda não podemos medir inteiramente, mas o romancista procura já articulá-lo com um futuro próximo, extrair da sua aplicação as regras mais apreciáveis e não deixa de fazer tentativas para conseguir uma ampla caracterização da vida humana a partir deste dado inicial. Nem sempre o conseguira (na verdade nem todos os autores da ficção científica possuem a qualidade literária de Ray Bradbury), mas enuncia problemas novos, que todos pressentimos e por vezes meditamos.

O interesse que se regista pela ficção científica tem por consequência a sua base num mundo contemporâneo que trouxe a ciência para o domínio público. O que fora, por exemplo durante a Idade Média, actividade secreta, amaldiçoada, é hoje mundo conhecido, claro, inteligível. O que foi domínio de bruxas, duendes, fantasmas, forças demoniacas, é hoje razão, conhecimento preciso, aplicação prática. Deste modo a ficção científica furta-se a um mundo infantil para procurar um plano judicativo, onde o encadeamento causa-efeito é considerado no seu justo valor.


quarta-feira, maio 14, 2014

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Nota de Abertura à antologia «De Júlio Verne aos Astronautas», org. Lima de Freitas, 1965

http://coleccaoargonauta.blogspot.pt/2011/09/n-100-os-melhores-contos-de-ficcao.html


O n.º 100 da colecção Argonauta, publicado em 1965, consiste num volume duplo comemorativo (conforme indicado na capa e ficha técnica) designado por Os Melhores Contos de FC – De Júlio Verne aos Astronautas. Uma «antologia» que apresenta o «panorama das diversas tendências da ficção científica numa selecção dos escritores mundialmente representativos» (o sub-título consta apenas da ficha técnica). A selecção e tradução é de Lima de Freitas, que também assina a ilustração da capa.

O texto da contracapa elabora: «Comemorando o n.º 100 da Colecção Argonauta, uma iniciativa editorial sem precedentes. Pela primeira vez em Portugal, num volume duplo e pelo preço de um volume simples, um panorama completo da evolução da Ficção Científica desde Júlio Verne aos Astronautas. Entre centenas de autores, entre milhares de obras, foram seleccionados os contos dos escritores mundialmente mais representativos, formando uma antologia das diversas tendências do género literário mais significativo da nossa época.»

Os contos são, pela ordem com que surgem no livro: «O Eterno Adão» de Júlio Verne, «A Estrela» de H. G. Wells, «Um Outro Mundo» de J. H. Rosny Aîné, «O Templo» de H. P. Lovecraft, «R.U.R. Comédia utópica em três anos e um prólogo» de Karel Capek, «A Virgem dos Rochedos» de Poul Anderson, «Flores para Algernon» de Daniel Keyes, «Do Tempo e da Terceira Avenida» de Alfred Bester, «As Ruínas Circulares» de Jorge Luís Borges, «A Estrela» de Arthur C. Clarke, «Cor Serpentis» de Ivan Efrémov, «O Dragão» de Ray Bradbury, «A Arma» de Frederic Brown, «Instinto» de Lester del Rey, antecidos pela nota de abertura do organizador, que a seguir se apresenta na íntegra para fins de memória bibliográfica.

Nota de Abertura
Esta antologia de «ficção científica» foi feita para dar ao leitor o prazer delicioso de saborear umas quantas histórias engenhosas, originais e cheias de arrojada fantasia. O prazer da boa leitura será o seu maior mérito. O que não impede que certas linhas de pensamento sejam ilustradas ao longo do presente volume e proponham, ao amador de interrogações, vários tópicos para uma meditação proveitosa.

O Eterno Adão, trabalho póstumo do venerável Júlio Verne, abre a discussão da sobrevivência das civilizações, à mercê das forças da Natureza; H. G. Wells vai mais longe, em A Estrela, ao sugerir que não apenas a civilização pode desaparecer num cataclismo, mas o próprio planeta. O conto de Arthur Clarke, que também se chama A Estrela, por curiosa coincidência, fecha o ciclo das ameaças cósmicas com o aniquilamento de um sistema solar: está posta a questão da sobrevivência. Às forças naturais, de cuja grandeza inimaginável vamos tendo uma consciência cada vez maior, juntam-se as forças que o Homem pode desencadear: ameaça de que toda a gente tem hoje uma noção inquietante e que Frederic Brown considera, no seu breve conto A Arma, sob o ponto de vista da ética do cientista.

Quando o clássico chego Karel Capek escreveu a sua célebre peça «R.U.R.» (levada à cena, pela primeira vez, no teatro da Comédie des Champs-Elysées em 1924 e já representada em Portugal por um grupo de teatro dos estudantes da Universidade de Coimbra) ainda se ignorava o perigo atómico. Mas Capek – que nesta peça criou a palavra robot  - tinha consciência dos perigos que advêm para a Humanidade da utilização amoral de certas possibilidades técnicas oferecidas pela Ciência. Que o Homem sobreviva no robot é um arrojo inesperado (sobretudo em 1920), fértil em implicações de toda a ordem. Lester del Rey, com o seu Instinto, acrescenta uma espécie de post-facio a Capek, cheio de inteligente ironia.

Mas não se trata, apenas, de saber como sobreviver, trata-se, também, de saber conviver. O célebre Efrémov – que é, também, um grande cientista (ou talvez fosse melhor dizer: que é, também, um célebre escritor) – aborda, de maneira emocionante, o contacto com outras inteligências e, mais do que isso, a colaboração das inteligências através do espaço e do tempo. Depois do pungente Flores para Algernon, solidão de uma fugaz inteligência, a proposta optimista de Efrémov é o sonho de uma vitória definitiva da sobrevivência através da convivência.

Os cavaleiros do passado, que atacam um futuro que não compreendem, estão condenados à derrota, como o ilustra O Dragão, do grande Bradbury;  somos responsáveis pelo futuro, perante o futuro (Alfred Bester di-lo de um modo original e inesperado). Assim, pela utopia se tece a crítica do presente, pela fronteira estreme da fantasia se faz a prospeção dos grandes sonhos do Homem, pelo maravilhoso se procede à psicanálise do real quotidiano. Que é o real? Que mundos insuspeitos oculta a nossa miopia sensata? J. H. Rosny-Aîné, que foi da Academia Congourt [sic], melhor do que um longo ensaio filosófico, sugere-nos que espécie de mundos outros podem coexistir ao nosso, no seu conto Um outro Mundo. Lovecraft, mestre do fantástico, desce aos abismos submarinos do inconsciente. E o argentino Luís Borges, que foi proposto para o Prémio Nobel, pergunta se não seremos o sonho de outros. Talvez a razão seja o sonho da matéria; o que parece inegável é que o Homem cresce sonhando-se.

Que o leitor, ao longo desta antologia, possa sentir o prazer de ler e o prazer de sonhar, são os nossos votos.

terça-feira, maio 13, 2014

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Prefácio e posfácio a «O Que É a "Ficção Científica"?», org. Victor Palla, 1959




A antologia O Que é a “Ficção Científica”?, organizada por Victor Palla e publicada em 1959 sob a chancela da editora Atlântida (Coimbra), contém os seguintes contos: «A Longa Velada de Armas» de Robert Heinlein, «Quem Parte Leva Saudades» de Jacques Sternberg, «Cidadão no Espaço» de Robert Sheckley, «Interlúdio nas Trevas» de Mack Reynolds e Frederic Brown, «Cair da Noite» de Isaac Asimov, «Senão» de Henry Kuttner, «Lição de História» de Arthur C. Clarke, «A Sombra do Passado» de Ivan Efremov, «A Descoberta de Morniel Mathaway» de Willam Tenn, «Noite» de Chad Oliver, sendo antecedidos por um prefário do organizador e seguidos também por um «postfácio» [sic] da sua autoria.

Transcrevemos na íntegra os textos de Victor Palla para efeitos de memória bibliográfica:

Prefácio


«Mas o sistema solar!» protestei.
«Que diabo me interessa isso?» interrompeu ele, impaciente. «Diz você que andamos à roda do Sol. Se andássemos à roda da Lua, isso não me faria a mínima diferença, nem a mim nem ao meu trabalho.»

Exteriormente, o fenómeno – que alastra pelos escaparates das revistas e livros de bolso – lembra dum modo flagrante o advento e a difusão, ainda relativamente recentes, dum outro fenómeno literário. Centenas de títulos são publicados anualmente; milhões de leitores ávidos devoram indistintamente tudo quanto aparece; outros escolhem, comentam e fundam clubes e tertúlias; o cinema aproveita a moda e produz filmes comerciais estupidamente aterrorizantes e aterrorizantemente estúpidos; aparecem revists populares da especialidade, e esotéricas little reviews; determinado tipo de intelectuais «não lê tal coisa»; políticos, homens de ciência, primeiras-damas confessam, um tudo-nada apologeticamente, que não têm outra leitura favorita, «para distrair o espírito».

Eis, não há dúvida, uma moldura singularmente parecida à do retrato que há um bom par de dezenas de anos se traçava do «livro policial».

Mas a impaciente resposta de Holmes ao bom do Dr. Watson define a diferença fundamental. Ao romance de polícias e ladrões tanto se lhe dá como se lhe deu que a Terra ande à volta do Sol, que se lancem satélites artificiais e bombas atómicas. A «ficção científica» faz de tudo isso (e de muito mais) o seu pão de cada dia. No mundo de regras fixas do romance policial, tudo o que esteja para fora do palco arrisca-se a perturbar grandemente um equilíbrio estático do jogo convencional, tão estático que tem vindo a condená-lo aos poucos à decadência e à morte – destino idêntico ao dos romances franceses de capa-e-espada ou dos Gothic novels ingleses. Em determinadas épocas da história literária aparecem estes subgéneros da ficção romanesca, muito caracterizados; por vezes simples «modas», eles são no entanto instrutivos – porque o êxito dum livro em grande escala é, evidentemente, fenómeno social e não literário. Ora tudo o que afecta milhões de pessoas merece ser conhecido, em vez de recusado sumariamente. Assim aparece este livro.

Ele não é, no entanto, um tratado sobre o assunto, nem uma História da Ficção Científica Desde as Suas Origens Até aos Nossos Dias. Apresenta, mais modestamente, uma dezena de contos, que se escolheram variados, e cuja leitura (e não os comentários do antologista) se espera que dê resposta à pergunta do título. Julga-se que será bem mais esclarecedor, para quem nunca leu f. c., este mergulho de cabeça nos labirintos do género, do que um longo e abstracto artigo teórico, ou, por outro lado, a leitura dum romance (que tem alta probabilidade de ser muito mau). Aqui encontrará o leitor problemas de exploração astral; especulações sobre o viajar no tempo; o desenvolvimento de hipóteses físicas; crítica social, sátira política; e humor à custa dos próprios poncifs da f. c.. Faltam-nos, é certo, robots, mutantes, telepatas; mas para que tudo figurasse seria necessário um bem maior volume. Também não aparecem alguns contos que o organizador gostaria de incluir, mas se encontram já traduzidos e acessíveis: recorda-se particularmente esse extraordinário «A Terra dos Cegos», de Wells (1), e muitas das histórias curtas do grande escritor que é Bradbury (2).

Houve, além disso, a prudência de evitar contos demasiadamente «especializados». Explico melhor: qualquer assunto tem a sua linguagem: um conto sobre um desafio de base-ball pode resultar (e resulta, num caso de que me estou a lembrar) ininteligível ao leitor europeu. A f. c., pela necessidade de empregar os nomes dos objectos e fenómenos não usuais, utiliza uma terminologia própria, cuja estranheza o aficionado já não nota, mas que poderá desorientar o iniciando. O que é um «escafandro espacial»? um «campo de forças»? E que línguas se falarão no futuro? é inevitável que surjam termos novos; que algumas palavras de hoje evoluam, se contraiam. E os hábitos quotidianos das personagens, não deverão ser também diferentes? «Ler» um livro poderá passar a ser encostar aos olhos um visor de microfilmes. O leitor calejado de f. c. dá tudo isto como assente e nem pestaneja quando em vez de um Presidente aparece um Presidor, ou quando uma personagem que estava a ler «pousa o aparelho de leitura». (Estes exemplos não são ao acaso: aparecem no livro.) Mais: esse leitor habitual de f. c. tem já os seus conhecimentozinhos, superficiais mas suficientes, da astrofísica, de astronavegação; e é com um pequeno sorriso de superioridade que assiste, desde o Sputnik à vaga de artigos nos jornais diários vulgarizando assuntos que ele conhece como os seus dedos há muitos, muitos anos. Pois não foi já em 1920 que ele leu Aelita, de Alexis Tolstoi, que narra a chegada a Marte da primeira expedição terráquea? Há dezenas de anos que a sua moeda corrente são os satélites artificiais, as condições de vida nos outros planetas, o aproveitamento pacífico (ou não) da energia nuclear, as grandes evoluções sociais. Não é em vão que, com toda a seriedade, os franceses propõem para substituir o termo ficção científica um outro, antecipação; e em abono da verdade reconheça-se que esta nova Cassandra tem, por conhecimento de causa, premonição, esperançoso wishfull Thinking, ou simples coincidência, muito frequentemente justificado o nome. Ora tudo isto (para voltar ao tema) implica um glossário específico. Os contos deste volume não escapam por completo a essa pressuposição de conhecimentos prévios do leitor. Mas todos os meios de expressão os pressupõem. Passemos portanto à leitura e deixemos para o fim quaisquer comentários adicionais.

(1)    In «H. G. Wells», antologia do conto moderno, Atlântida.
(2)    In Colecção «Argonauta», Livros do Brasil, Lda.


Postfácio

Eis portanto o que é «ficção científica». Se necessária uma definição, podemos arriscar esta: «narrativa baseada deliberadamente na especulação romanesca sobre as consequências principais ou acessórias duma ou várias hipóteses científicas, prováveis ou não.» Talvez ela seja insuficiente a quem não conheça o definido, como quase todas as definições. Ajusta-se, é certo, à bravura de Heinlein, ao negro pessimismo francês de Sternberg, à fácil sátira americana de Sheckley, à crítica implícita em Reynolds & Brown, à poética especulação de Asimov, à ironia de Kuttner, ao sólido humor britânico de Clarke, à curiosidade científica do soviético Efremov, à anedota de Tenn e ao sentido humano de Chad Oliver. Mas ao recapitular estes contos, o antologista deve confessar leamente que receia eles não dêem da f. c. uma ideia muito correcta. As suas preferências pessoais levaram-no a traduzir exemplos menos maus do que a produção média deste género, pintando assim um retrato lisonjeiro e favorecido. É verdade que um género literário tem o direito de ser julgado pelas suas melhores obras. Mas também é verdade que muitas das consideradas «melhores obras» da f. c. são – também elas como as piores – pobres de estilo e composição, repetitivas, e grande parte das vezes duma profundidade psicológica nula – por pertinentes que sejam os seus temas (profecias de destruição, terror da bomba atómica), e justos alguns dos seus postulados (necessidade de colaboração entre todos os homens, anti-racismo). Refiro-me, evidentemente, aos Van Vogt, aos Leinster, àqueles tomados como «profissionais» da f. c.; não às obras ocasionais doutros autores, como 1984 ou Brave New World. (E, no entanto, estes dois exemplos lembram-nos que belo veículo de exame e crítica não poderia ser o género, fossem os seus profissionais melhores escritores! Recordo um único grande romance: o Farenheit 451 [sic] de Bradbury.)

Mas é talvez demasiado cedo para tentar surpreender uma evolução em pleno curso. Como diz Brunetière, os géneros literários nascem, crescem, estiolam-se e morrem; às vezes transformam-se noutros superiores e mais diferenciados, como as espécies na teoria darwiniana da evolução. Não nos precipitemos, pois, num julgamento que só ao futuro compete. Bem possível é que desta bizarra mistura de convencionalismo esquemático e sensação à outrance, de interesse científico e pseudo-ciência, de pessimismo e esperança, surjam, em linha directa ou colateral, grandes e perduráveis obras. Entretanto, das que se vão publicando, melhores ou piores, não vem mal ao mundo – nem a quem tenha a suficiente curiosidade para lê-las.

domingo, maio 04, 2014

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A literatura portuguesa de Ficção Científica, por Jorge Guerra (1988)

Texto de Jorge Guerra, publicado no Diário de Lisboa, 16 de Junho de 1988, suplemento «Ler e Escrever», p. 3. Reproduzido na íntegra a partir do fac-símile do arquivo digital do jornal.

A literatura portuguesa de Ficção Científica


“Produtos característicos da civilização americana, estes dois géneros (o Jazz e a Ficção Científica) dispõem na Europa Ocidental (à excepção da Península Ibérica e provavelmente da Irlanda) de um vasto auditório e de um número crescente de adeptos”, assim escrevia o romancista inglês Kinsgley Amis [1]. Esta observação pode ser confirmada entre nós, mas não cabe aqui justificá-la.

Na verdade, se foi com a revista «Amazing Stories», em 1926 nos EUA, que se formaram os moldes da moderna Ficção Científica, só em fins da década de 50 apareceram as primeiras incursões portuguesas no género, sem, todavia, um posterior percurso ampliado ou implantado.

As experiências genuínas e de culto reduziram-se a esporádicas edições de autor, não havendo sequer na Imprensa ressonâncias críticas da produção nacional e internacional.

Ultimamente tem-se escrito sobre João Aniceto e o seu «O Quarto Planeta» (1986); o autor estreou-se em 1983 com «Os Caminhos Nunca Acabam», premiado com Daniel Tércio («A Vocação do Círculo») no Concurso de FC da Editorial Caminho. Sobre eles escreveu-se não muito favoravelmente numa coluna, aliás já extinta, do Jornal de Letras [2].

Num outro raríssimo texto sobre este tema, Fernando Saldanha [3] revela que conhecidos escritores dedicaram-se à FC; são os casos de Carlos Macedo, Fernando Melin, Maria Judite de Carvalho e Romeu de Melo [4]. Saldanha afirma ainda ser autor de um romance do género, «O Planeta Prometido», sob o pseudónimo de Jack Sawan [sic – o pseudónimo é Jack Swann].

Também obras como «O Grande Cidadão» (Arcádia, Lx.ª 1963) de Virgílio Martinho e “Jánika” (Círculo de Leitores, Lx.ª 1981) de Vitório Kali podem ter afinidades com a linha orwelliana e a «fantasy».

De referir também o volume Antologia Panorama de Antecipação (Galeria Panorama, Lx.ª 1968), que além dos consagrados norte-americanos, inclui contos de Dórdio Guimarães, F. Saldanha, Hélia, Lima Rodrigues, Luis Campos, Manuela Montenegro e Natália Correia.

Um romance auto-intitulado de FC, mas de uma ligeireza própria de alguém que pretende veicular a defesa do ultramar português, é “Um Homem de Outro Mundo” (Pax, Braga 1968) de Reis Ventura. Um ET aterra em Luanda e desde aí é escoltado pelas autoridades portuguesas, que logo o terão de subtrair às manigâncias das duas potências mundiais. Apercebendo-se do isoladamente (sic) de Portugal no contexto diplomático, o ET decide intervir na ONU a favor da questão colonial.

Eis a seguir os livros que mais rigorosamente seguem os modelos clássicos de FC, seja a “heroic fantasy” ou a “space opera”.

Em “A Morte da Terra” (Sociedade de Expansão Cultural, Lx.ª 1969) de Alves Morgado, os planetas do Sistema Solar estão colonizados pela Terra e sujeitos a um regime despótico. Há, contudo, um foco de rebelião em Ganímedes, satélite de Júpiter, para onde se dirige em missão um membro do Império; aí, este é seduzido pelos ideais rebeldes e participa na batalha pela libertação, facto de súbito consumado pela explosão do Sol que aniquila a Terra. A partir de Júpiter propaga-se, então, a “democracia mais pura que já houve algum dia”, onde a transmissão da história humana seja abolida.

“Em Busca de Novos Mundos” (Ed. Autor, Lx.ª 1965) de Oliveira de Fontemar é um livro bem escrito e estruturado, com acção e intensidade dramática, que nos conta a visita de uma tripulação terrestre a alguns planetas situados fora da Via Láctea e os seus esforços para compreender as suas formas de pensamento.

Luís de Mesquita, professor de bioquímica da Universidade de Lisboa, escreveu “A Ameaça Cósmica” (Liv. Sampedro Ed., Lx.ª s/d), confirmando o talento de narrador que já exibira em “O Mensageiro do Espaço”. Um cientista descobre que grandes cataclismos ocorrerão na Terra durante a passagem próxima de um cometa, procurando por isso alertar os mais poderosos governos, que não chegam a entendimento estratégico. Até ao instante fatal, sucedem-se vários desenlaces particulares entre personagens cujas relações ambíguas caminham para uma urgente redefinição.

Um caleidoscópio de situações é “Vieram do Infinito” (Minerva, Lx.ª 1955) de Eric Prince, pseudónimo de A. Maldonado Rodrigues, uma narrativa que transborda visualidade. Num distante e avançado planeta, um grupo de nativos tenta quebrar a monotonia quotidiana e o policiamento emocional de um “big brother”, teletransportando-se para a Terra de 1979 e tomando parte em envolvimentos desconhecidos.

Finalmente, “Canopus 98” (Ed. Autor, Lx.ª 1969) de Carlos Moutinho, é certamente aquele que melhor fundiu a FC clássica e potética (sic); dezena e meia de contos bem escritos numa confluência surrealista e bradburyana. Um grande autor!



NOTAS:
[1] “L’Univers de la Science-Fiction” (“New Maps of Hell”), Payol, Paris, 1962
[2]  J. Santandré, “JL”, n.º 130, Ano IV, 1-1-85
[3] “Breve Nota Sobre a Literatura Portuguesa de FC”, in “Selecções Mistério”, n.º 6, Lx.ª Nov 1981.
[4] De Romeu de Melo: “AK”, 1959; “Não Lhes Faremos a Vontade”, 1970; “Buzina”, 1972; “Factor Genético”, 1973.

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

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Kalum, Menotti Del Picchia

Em 1940, dez anos após a primeira publicação de A filha do inca, Menotti Del Picchia retornou ao universo da República 3000 em Kalum, esta também uma história de aventuras na selva brasileira, "para recreio da nossa juventude", como diz o autor em seu prefácio.
Kalum repete a estrutura usada no livro anterior e, de forma geral, é um livro mais regular que aquele. Mas é lamentável que seja assim, pois as imagens de A filha do inca emocionam muito mais e fixam-se de forma mais profunda na memória do leitor. Desse modo, Kalum soa anticlimático, ainda que tenha muitas sequências emocionantes.
A história de Kalum inicia com uma expedição alemã, científica e cinematográfica, que pretende filmar os rituais canibalescos de uma tribo de índios da Amazônia, os kurongangs, intocada pela civilização. A tribo habita uma área de difícil acesso e a jornada é longa, ainda que não tão desastrada quanto aquela comandada pelo Capitão Fragoso. Esta expedição é chefiada por Karl Sopof, um tipo atlético e esperto que acredita que é sua melhor chance de ficar rico, pois tem certeza que o filme que pretende fazer vai ser um sucesso na Europa.
Os mateiros que guiam a expedição têm medo, pois conhecem a selvageria dos kurongangs, especialmente seu líder, o cacique Kalum, O Sangrento. A certa altura, os expedicionários são surpreendidos pelos kurongangs e levados prisioneiros. Quando se aproximam da taba dos indígenas antropófagos, numa clareira de acesso difícil entre montanhas altas e escarpadas, Karl surpreende-se com a arquitetura de algumas ocas, que se parecem com casas urbanas, porém erguidas com bambu e barro.
Ao confrontarem Kalum, todos percebem porque ele é tão temido. Trata-se de uma figura um tanto cômica, de pequena estatura, ainda que fortíssimo e de aparência feroz. Mas o que realmente assusta é que Kalum demonstra ser psicológica e emocionalmente instável, com toda certeza um psicopata. Kalum decreta que todos os prisioneiros deverão ser sacrificados mas, antes disso, devem ser purificados pelo pajé, um tipo misterioso chamado de Bogum. Karl é levado a sua presença justamente numa das choças de aparência familiar, e se depara com outra criatura bizarra, barbada e vestida em andrajos, mas que fala sua língua e sabe exatamente o que ele pretendia fazer ali com seus equipamentos estranhos. Alguns mistérios desfazem-se quando Bogum revela a Karl que ele é, na verdade, o padre D. Rui Colaço, que sobrevive entre os kurongangs pois impressionou-os com truques de mágica, enquanto seus companheiros, de uma malfadada missão de catequese, foram todos mortos.
Bogum sabe que não pode fazer muito pelos prisioneiros sem arriscar sua própria vida mas, junto com Karl, elabora um plano para intimidar Kalum, que consiste em filmá-lo, exibir o filme realizado e convencê-lo que Karl também é um feiticeiro poderoso e que aprisionou sua alma.
O plano funciona parcialmente pois, dessa forma, Karl e Bogum conseguem livrar os demais prisioneiros que rapidamente abandonam a taba. Porém, Bogum e Karl são retidos pelo desconfiado Kalum, que exige a devolução de sua alma. Quando percebem que nunca sairão vivos da tribo kurongang, ambos decidem fugir pela única saída possível, uma passagem secreta sob as montanhas, que Bogum descobriu através de um mapa que encontrou junto a um esqueleto do que ele julgara ser uma criança. Na proteção da noite, ambos esgueiram-se em direção as escarpas, mas são descobertos e caçados pelos índios. Já próximos do paredão de rocha, o velho padre é abatido mortalmente por uma flexada, enquanto Karl, ao tropeçar numa pedra, aciona o mecanismo que abre o portal secreto na parede montanhosa, através do qual ele se atira precipitadamente. Os kurongangs ficam assustados com o poder do estranho feiticeiro que fugiu para dentro da montanha, mas Kalum não está com medo. Promove um dos feiticeiros menores ao posto do falecido Bogum e exige, sob pena de morte, que ele descubra uma maneira de também abrir a montanha, para recapturar o feiticeiro branco que lhe roubou a alma.
Enquanto o aterrorizado feiticeiro tenta desesperadamente descobrir como se abre uma montanha, Karl tateia na escuridão de uma caverna colossal que se aprofunda mais e mais para dentro da rocha. Milhares de metros abaixo do solo, descobre uma cidade futurista habitada por mulheres pequeninas como crianças, lindas, louras e idênticas que, ainda por cima, falam sua língua. Bem recebido, Karl se depara com uma versão ampliada das pequenas mulheres, a única entre elas que tem a altura normal, chamada Elinor. Ela lhe conta que os habitantes daquela cidade, que também se chama Elinor, descende de viajantes cretenses que naufragaram na Ilha de Marajó, os mesmos navegantes dos quais outro ramo de descendentes fundou, em local mais favorável, a mítica República 3000. Nas cavernas, seu povo encontrou abrigo e segurança, pois na floresta eram hostilizados pelos kurongangs, que os caçavam sem trégua. Lacraram a entrada da caverna, aprofundaram as galerias e erigiram ali sua cidade, com sofisticados sistemas de iluminação e circulação de ar. Através de receptores de rádio-televisão, acompanharam a evolução dos povos do mundo, aprendendo suas línguas e absorvendo seu conhecimento. Sua estatura foi se reduzindo ao longo das gerações e, sem a luz natural do sol, o ar fresco e o céu aberto, uma desgraça terrível se abateu sobre o povo de Elinor. Uma infelicidade existencial profunda vitimou principalmente os homens, que se suicidaram aos milhares. As mulheres resistiram melhor, mas tornaram-se infantis e fúteis. Aos poucos, a população foi se reduzindo e naquele momento encontra-se à beira da extinção.
Elinor lidera os últimos homens remanescentes numa investida desesperada em escavar, a partir dos níveis mais profundos da caverna, uma passagem para o exterior, longe dos ferozes kurongangs. O trabalho é lento e imprevisível, mas há esperança que seja finalizado em breve.
As pequenas mulheres não se importam com a escavação e em nada ajudam os trabalhos, passando seu dias em absoluta improdutividade. Volúveis e medrosas, logo voltam-se contra Karl, temendo que ele traga os kurongangs até ali. Os ânimos exaltam-se e, quando parece que nem Karl nem Elinor poderão contê-las, soam os alarmes: os kurongangs finalmente abriram o portal e a luta final tem início.
Como se percebe, a história de Kalum é muito mais elaborada que a vista em A filha do inca. Há mais detalhes, os personagens são individualmente mais trabalhados, os conceitos de uma história de aventuras são melhor instalados e mesmo as estruturas de gênero parecem melhor arranjadas, ainda que muita coisa pareça absurda ao leitor moderno. Mas falta o toque de maturidade que A filha do inca tem de sobra. Falta, sobretudo, um personagem carismático como o Maneco, tão bem colocado na história anterior. Parece, a princípio, que um dos muitos companheiros de Karl, especialmente o grandalhão e sentimental Fritz, poderia assumir esse posto, mas todos são removidos da trama antes de sua metade.
Kalum ainda tem a seu desfavor o fato de ser uma história muito mais sombria se comparada a A filha do inca. Enquanto em A filha do inca os autômatos da República 3000 sobem em revoada para as estrelas, numa cena emocionante e transcendental que levaria qualquer fã de hard fiction às lágrimas, Kalum só tem sangue e destruição a oferecer. Para compensar, Kalum apresenta um epílogo lírico e belíssimo de efusividade tropical, em si uma peça à parte, com seu colorido contrastando ao preto e branco predominante da história. Decerto que Del Picchia já sabia disso tudo. Ele mesmo diz, em seu prefácio, que se entregara "à volúpia de imaginar coisas absurdas que fizessem sentido pelo menos como hipóteses de um futuro maravilhoso".
Cabe a nós percebermos que esse maravilhoso não tem que ser, invariavelmente, positivista. No caso de Kalum, é o maravilhoso do horror que se apresenta muito mais exposto do que o maravilhoso científico. Comparado à pobreza de ideias que cerca o gênero do horror no Brasil, que se volta insistentemente para um gótico superado e enfadonho, Kalum mostra que Menotti Del Picchia estava adiante de todos nós tanto na ficção científica quanto no horror.

quarta-feira, janeiro 01, 2014

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A filha do inca

A filha do inca, Menotti Del Picchia. Edição original de 1930.

Entre os leitores brasileiros de ficção científica existe uma indisfarçada má vontade para com os romances clássicos da fantasia nacional. Supõem que são textos rasos, de pouca ou nenhuma qualidade, seja literária, seja nos parâmetros da ficção de gênero. Afinal, o que poderia um matuto no início do século XX produzir de significativo para um gênero que mal engatinhava em seus mercados mais importantes, se até neles os autores tinham dificuldades em encontrar o tom e o espaço correto desses protocolos?
A dificuldade de acesso a esses livros mais antigos, que não se encontram nas livrarias há décadas, também contribui para que sejam preteridos e, muitas vezes, esquecidos. Por preconceito e distanciamento, os primeiros exemplos da ficção científica brasileira vão sendo empurrados para a vala comum do que não tem valor. É o caso do romance A filha do inca ou A República 3000, do modernista Menotti Del Picchia (1892-1988).
Mais conhecido por seus textos realistas, como Juca Mulato (1917) e Laís (1931), Del Picchia nasceu em São Paulo/SP, iniciou como jornalista em Pouso Alegre, dirigiu o jornal A Tribuna de Santos e trabalhou em diversos periódicos importantes de São Paulo. Participou ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922 e, mais tarde, chegou a criticar os excessos do Modernismo. O que ficou marcado na obra de Menotti Del Picchia foi sua ânsia por uma literatura iminentemente brasileira, para o que lançou mão de mitologias indígenas e imagens da flora e da fauna nacionais. De certa forma, Del Picchia foi o primeiro interlocutor de um debate conceitual que, nos anos 1980, viria a ser conhecido como Movimento Antropofágico da ficção científica brasileira.
Contudo, até isso reforça o preconceito dos leitores de hoje pois há tantas correntes críticas restringindo o espectro da ficção científica ao ponto de quase nada se enquadrar nele e qualquer contexto culturalmente definido, como o sugerido pelo Modernismo, é suficiente para que a obra seja retirada do balaio.
No prefácio, assinado pelo autor, Del Picchia assume sua motivação de escrever  "à nossa mocidade que procura uma leitura imaginosa que raramente lhe oferecem nossos melhores escritores, pois talvez achem o gênero puramente lúdico."  Ainda diz que se lançou à escrita de A filha do inca como uma forma de superar os traumas de A tormenta, livro sobre a Revolução de Isidoro em 1924, que ele testemunhou. Era de se esperar, portanto, uma novela leve e juvenil, que realmente justificasse o preconceito com relação a seriedade do autor brasileiro para com os gêneros fantásticos. Ledo engano.
A filha do inca inicia num frenesi devastador. Talvez as memórias sangrentas do autor fossem tão fortes que ele não conseguiu purgá-las todas redigindo A tormenta. As primeiras oitenta páginas de A filha do inca são de um furor pouco comum em toda a literatura fantástica, brasileira ou não.
Um grupo de militares, comandado pelo capitão Paulo Fragoso, está em missão de cartografia nos confins da Serra do Caiapó. A tropa enfrenta problemas sérios com doenças e acidentes. A mata fechada e o terreno acidentado atrasam a missão, que vai perdendo homens ao longo do caminho.
A certa altura, a tropa é atacada por uma tribo de selvagens que mata a maioria dos soldados e captura outros, ficando livres apenas o próprio Fragoso e um de seus comandados, o inábil e pouco valente Maneco, além do cão Faísca. A sequência de combate entre os índios e a tropa é de vigor e realismo espetaculares, em alguns momentos beirando à sanguinolência explícita.
Mesmo sem munição e mantimentos, Fragoso e Maneco tentam resgatar seus companheiros da sanha antropófaga dos indígenas, mas fracassam na tentativa. Exaustos e em frangalhos, a única chance de sobreviver é chegar ao ponto de encontro onde um avião viria resgatar a tropa.
Com dificuldades, o trio consegue chegar a uma planície castigada pelo sol, onde encontram uma tétrica muralha que parecia seguir em linha reta de horizonte a horizonte, formada por ossos calcinados de todos os tipos de animais conhecidos e desconhecidos, esqueletos humanos e um sem número de armamentos primitivos, trabalhados em ouro, prata e pedras preciosas.
Nesse momento, percebem a aproximação do avião de resgate mas, ao sobrevoar a muralha de ossos, os motores do aparelho falham. Dos destroços fumegantes, nada se pode aproveitar.
Desanimados, Fragoso, Maneco exploram a estranha barreira, que desperta a cobiça de Maneco. Cruzam-na sem problemas mas, ao tentar pular de volta, o cão morre eletrocutado. Os dois homens são capturados e conduzidos por uma estranha energia que os faz caminhar até um edifício onde são confrontados por um autômato antropomórfico que os leva para a mais estranha das nações sobre a face da Terra: a República 3000.
Ali vivem descendentes de homens vindo da Grécia há milênios, cuja embarcação naufragou na Ilha de Marajó. Depois de muita atribulação nas terras de uma América selvagem, fixaram-se naquela planície rica em minérios e alimentos, e desenvolveram-se para além do mais avançado sonho tecnológico. Fecharam seu perímetro com uma barreira eletrônica que impede qualquer invasão, trocaram seus corpos mortais pelos de autômatos e ali estabeleceram uma utopia que está prestes a dar um novo e grandioso salto evolutivo. Mas a sorte de Fragoso e Maneco está selada: eles substituirão os dois últimos remanescentes de uma tribo inca escravizada pela República 3000: Capac e Raymi – "a filha do inca" –, por quem Fragoso se apaixona e é correspondido. Contudo, a substituição implica no sacrifício ritual de Raymi e Capac, sendo que suas mortes devem vir pelas mãos do pobre Maneco. Parece não haver futuro para o romance entre Fragoso e Raymi, a não ser que os sábios da República descubram a equação final que procuram e fará deles cidadãos do universo.
A filha do inca apresenta duas partes bem distintas: a primeira é um relato realista da malfadada missão militar, com descrições vivas da geografia, flora e fauna brasileiras. A segunda, uma história fantasiosa e romântica, na tradição das aventuras de H. Rider Haggard, com ambientes áridos e minimalistas arrematados por um final positivista que cumpre a intenção do autor em realizar um texto para jovens. Entretanto, a parte inicial é tão pungente que agrada também ao leitor adulto.
Não há preconceito que resista a leitura do texto vigoroso de A filha do inca. Quem quer que o faça vai, imediatamente, defender que seja relacionado entre as melhores obras da ficção científica brasileira, com admiração por saber que foi redigido em época anterior a maioria dos grandes clássicos internacionais da ficção científica, antecipando em muito a consciência do gênero no Brasil.

sexta-feira, novembro 22, 2013

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Fazenda Modelo: Novela pecuária

Fazenda Modelo: Novela pecuária, Chico Buarque.
Editora Civilização Brasileira.Rio de Janeiro, 1974, 140 páginas.

Os anos 1970 foram uma espécie de interregno entre as duas principais gerações de escritores brasileiros que se dedicaram aos gêneros fantásticos e, mais especificamente, à ficção científica. Até 1969, tivemos uma boa quantidade de livros escritos pelos autores da chamada Primeira Onda da ficção científica brasileira, carinhosamente conhecida como Geração GRD, ainda que nem todos tenham realmente surgido sob a égide da legendária editora GRD: André Carneiro, Fausto Cunha, Dinah Silveira de Queiroz, Rubens Teixeira Scavone, Jeronymo Monteiro, Rachel de Queiroz, Nilson Martello, Guido Wilmar Sassi, Antonio Olinto, Levy Menezes e muitos outros. Muitos destes não construíram suas obras exclusivamente na fc&c, e no mainstream conquistaram reconhecimento de público e crítica, emprestando prestígio ao fantástico brasileiro.
A Segunda Onda de autores ensaiou seus primeiros passos a partir de 1982 no Boletim Antares, publicado pelo Clube de Ficção Científica Antares de Porto Alegre: Simone Saueressig, Gerson Lodi-Ribeiro, Miguel Carqueija, Jorge Luiz Calife e Roberto de Sousa Causo foram os nomes dessa turma que se firmaram nas páginas de fanzines e boletins de clubes de fãs, unindo-se a outros tantos, tais como José dos Santos Fernandes, Ivan Carlos Regina, Carlos Orsi Martinho, José Carlos Neves, Braulio Tavares, Finisia Fideli, Fabio Fernandes, Roberto Schima e muitos outros.
Entretanto, nesses dez ou doze anos de intervalo, a fc&f brasileira não foi abandonada totalmente. Apesar dos especialistas terem reduzido sua presença editorial durante os piores anos da ditadura militar, outros escritores não necessariamente identificados com o gênero perceberam na literatura de fantasia uma ótima maneira de contornar as redes da censura e dizer o que pensavam a respeito daquele período tenebroso, uma vez que os órgãos de comunicação de massa eram bem mais vigiados do que os livros.
Chico Buarque de Holanda era então um compositor de sucesso, respeitado e prestigiado tanto pela elite intelectual quanto pelo povão, no Brasil e no exterior. Sua poesia de sentidos múltiplos agradava pela qualidade da composição e pela identificação imediata com o jeito brasileiro, somada a musicalidade criativa, belos arranjos e harmonias. Chico Buarque fazia então o que alguns classificavam como "música de protesto", embora sua responsabilidade artística não permitisse que o panfletarismo simplório dominasse o conteúdo criativo, como acontecia com outros compositores menos brilhantes.
Em 1974, no auge da repressão política, a editora carioca Civilização Brasileira, que já publicava o fantasista goiano José J. Veiga, levou às livrarias a primeira novela de Chico Buarque, Fazenda Modelo: Novela pecuária.
Trata-se de um texto obviamente alegórico, tal como também são suas poesias, que conta a ascensão e a queda de um projeto econômico e social dirigido por tecnocratas e financiado pelo capital estrangeiro.
A Fazenda Modelo era, a princípio, uma propriedade rural que, embora de grandes dimensões, não diferia em nada de qualquer outra propriedade agropecuária, com a boiada solta no pasto descuidado, sem nenhuma tecnologia ou acompanhamento técnico. A vida dos bois e vacas não era fácil, mas era tranquila e sem percalços. As rezes nasciam naturalmente, alguns meses depois de coitos igualmente naturais, a comida vinha diretamente do chão inculto, os carrapatos e as doenças eram um grande incômodo mas, enfim, não é assim em toda parte?
Então Juvenal, o bom boi, elegante e educado filho da pátria, é elevado a posição de conselheiro-mor da Fazenda Modelo e aos poucos implanta nela o milagre econômico que vai tirar a boiada do atoleiro e arremessá-la para o futuro glorioso. Assessorado por técnicos especialistas importados (todos curiosamente tendo o nome iniciados pela letra "K") Juvenal elege Abá como o semental-mor da Fazenda Modelo: boi forte e viril, apaixonado pela vaca Aurora, que viria ser a matriz criadora mais importante do projeto. Abá é isolado da vacada em um galpão absolutamente limpo e somente durante os períodos propícios de cobertura são trazidas as vacas para que ele as emprenhe. Alucinado de desejo por Aurora, que é a primeira vaca a entrar no touril, Abá vai trepando em cada uma das vacas que vem depois e garante dessa forma o sucesso da primeira geração de bezerros cientificamente selecionados da Fazenda.
Com o bom desempenho da vacada nas exposições, o sêmen de Abá torna-se o ouro branco de exportação da Fazenda Modelo, que passa a usar um processo eletrônico, sem contato físico, para colher o líquido de Abá, sendo as vacas  fertilizadas artificialmente.
Enquanto a Fazenda Modelo cresce e se desenvolve, com a instalação de fábricas de todos os tipos, estádios de primeiro mundo, monumentos a Juvenal, praças e fontes grandiosas, a vacada vai ficando cada vez mais triste. A poluição começa a envenenar a boiada mais simples, as reprodutoras entram em depressão pelo desaparecimento inexplicável de seus filhos, parando de aleitar e de emprenhar, e até Abá, viciado no aparelho de coleta de sêmen, envelhece precocemente. Lubino, seu sucessor, é apressadamente escolhido entre os touros da primeira geração. Mas Lubino não estava ainda preparado e a tragédia vai se abater sobre a Fazenda Modelo e seu grande projeto de desenvolvimento.
É interessante deixar-se levar pela fantasia de Chico Buarque, que modula a humanização/bovinização dos personagens conforme as circunstâncias dramáticas exigem.
Está claro que esta novela é uma alegoria da situação política brasileira em 1974, não muito disfarçada pelo cenário da Fazenda Modelo. Frases e atos de Juvenal têm paralelos óbvios na realidade histórica, e muitos leitores experientes na fc anglo-americana podem achar a leitura um tanto ingênua e previsível.
Mas Fazenda Modelo exemplifica uma das mais imediatas missões da arte e da literatura, qual seja, levar o leitor a refletir sobre a sua realidade objetiva. Nesse aspecto, é amplamente bem sucedida, pois a mensagem é clara e a leitura é facilitada por um texto que fala muito bem ao leitor comum que, em tese, é o seu público alvo. Contudo, Fazenda Modelo preserva os ideais do Modernismo e utiliza uma redação elaborada repleta de estruturas literárias criativas e coloquialismos intraduzíveis, que agradam também ao leitor sofisticado.
Ainda mais significativo é o fato de Fazenda Modelo ter aparecido em pleno cenário dos fatos que motivaram a sua composição. Não há dúvida que Chico Buarque e a editora Civilização Brasileira correram riscos sérios ao ousar sua publicação. Pode ser que Buarque tenha se escudado em sua fama maiúscula ou no auto-exílio que cumpriu no exterior. Mesmo assim, é espantoso que assim tenha sido.
Geralmente, espera-se que um autor literário demonstre alguma coragem para atacar os seus alvos e que, eventualmente, ponha a cabeça para fora da trincheira e dispare um tiro na direção deles. Isso já é suficiente para dar significado à obra para além do entretenimento frívolo e descartável ou do formalismo acadêmico, principalmente no caso da fc, tida como um gênero alheio à realidade. Ainda que possamos pinçar uns tantos bons exemplos, entre eles o próprio Fazenda Modelo, no que se refere a fc&f brasileira percebe-se que o preconceito justifica-se, infelizmente.
Apesar da tendência natural e quase inevitável da fc&f para o simbolismo, a caricatura e a alegoria, os autores brasileiros sempre demonstraram interesse especial pelo entretenimento do gênero, evitando a discussão de problemas contemporâneos em seus trabalhos. Investem na elaboração de utopias e conceitos tecnológicos fantásticos, lançando suas histórias em tempos distantes no passado ou no futuro, com protagonistas mitológicos, mecânicos ou alienígenas, de forma a fugir o mais possível do problemas do presente e dos mistérios da alma humana, alienando-se já no ato da composição da obra que, desse modo, distancia-se do leitor que não se identifica com ela quando publicada.
Um e outro ainda demonstram, eventualmente, coragem suficiente para dar aquela olhadela acima da trincheira, mas a grande maioria satisfaz-se em sentar num canto retirado, jogar baralho e apostar cigarros. Para eles a batalha, a realidade, sequer existe.
Exatamente por isso, Fazenda Modelo é leitura importante num gênero que ainda carece de uma profunda discussão existencial no País.