sexta-feira, fevereiro 28, 2014

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Kalum, Menotti Del Picchia

Em 1940, dez anos após a primeira publicação de A filha do inca, Menotti Del Picchia retornou ao universo da República 3000 em Kalum, esta também uma história de aventuras na selva brasileira, "para recreio da nossa juventude", como diz o autor em seu prefácio.
Kalum repete a estrutura usada no livro anterior e, de forma geral, é um livro mais regular que aquele. Mas é lamentável que seja assim, pois as imagens de A filha do inca emocionam muito mais e fixam-se de forma mais profunda na memória do leitor. Desse modo, Kalum soa anticlimático, ainda que tenha muitas sequências emocionantes.
A história de Kalum inicia com uma expedição alemã, científica e cinematográfica, que pretende filmar os rituais canibalescos de uma tribo de índios da Amazônia, os kurongangs, intocada pela civilização. A tribo habita uma área de difícil acesso e a jornada é longa, ainda que não tão desastrada quanto aquela comandada pelo Capitão Fragoso. Esta expedição é chefiada por Karl Sopof, um tipo atlético e esperto que acredita que é sua melhor chance de ficar rico, pois tem certeza que o filme que pretende fazer vai ser um sucesso na Europa.
Os mateiros que guiam a expedição têm medo, pois conhecem a selvageria dos kurongangs, especialmente seu líder, o cacique Kalum, O Sangrento. A certa altura, os expedicionários são surpreendidos pelos kurongangs e levados prisioneiros. Quando se aproximam da taba dos indígenas antropófagos, numa clareira de acesso difícil entre montanhas altas e escarpadas, Karl surpreende-se com a arquitetura de algumas ocas, que se parecem com casas urbanas, porém erguidas com bambu e barro.
Ao confrontarem Kalum, todos percebem porque ele é tão temido. Trata-se de uma figura um tanto cômica, de pequena estatura, ainda que fortíssimo e de aparência feroz. Mas o que realmente assusta é que Kalum demonstra ser psicológica e emocionalmente instável, com toda certeza um psicopata. Kalum decreta que todos os prisioneiros deverão ser sacrificados mas, antes disso, devem ser purificados pelo pajé, um tipo misterioso chamado de Bogum. Karl é levado a sua presença justamente numa das choças de aparência familiar, e se depara com outra criatura bizarra, barbada e vestida em andrajos, mas que fala sua língua e sabe exatamente o que ele pretendia fazer ali com seus equipamentos estranhos. Alguns mistérios desfazem-se quando Bogum revela a Karl que ele é, na verdade, o padre D. Rui Colaço, que sobrevive entre os kurongangs pois impressionou-os com truques de mágica, enquanto seus companheiros, de uma malfadada missão de catequese, foram todos mortos.
Bogum sabe que não pode fazer muito pelos prisioneiros sem arriscar sua própria vida mas, junto com Karl, elabora um plano para intimidar Kalum, que consiste em filmá-lo, exibir o filme realizado e convencê-lo que Karl também é um feiticeiro poderoso e que aprisionou sua alma.
O plano funciona parcialmente pois, dessa forma, Karl e Bogum conseguem livrar os demais prisioneiros que rapidamente abandonam a taba. Porém, Bogum e Karl são retidos pelo desconfiado Kalum, que exige a devolução de sua alma. Quando percebem que nunca sairão vivos da tribo kurongang, ambos decidem fugir pela única saída possível, uma passagem secreta sob as montanhas, que Bogum descobriu através de um mapa que encontrou junto a um esqueleto do que ele julgara ser uma criança. Na proteção da noite, ambos esgueiram-se em direção as escarpas, mas são descobertos e caçados pelos índios. Já próximos do paredão de rocha, o velho padre é abatido mortalmente por uma flexada, enquanto Karl, ao tropeçar numa pedra, aciona o mecanismo que abre o portal secreto na parede montanhosa, através do qual ele se atira precipitadamente. Os kurongangs ficam assustados com o poder do estranho feiticeiro que fugiu para dentro da montanha, mas Kalum não está com medo. Promove um dos feiticeiros menores ao posto do falecido Bogum e exige, sob pena de morte, que ele descubra uma maneira de também abrir a montanha, para recapturar o feiticeiro branco que lhe roubou a alma.
Enquanto o aterrorizado feiticeiro tenta desesperadamente descobrir como se abre uma montanha, Karl tateia na escuridão de uma caverna colossal que se aprofunda mais e mais para dentro da rocha. Milhares de metros abaixo do solo, descobre uma cidade futurista habitada por mulheres pequeninas como crianças, lindas, louras e idênticas que, ainda por cima, falam sua língua. Bem recebido, Karl se depara com uma versão ampliada das pequenas mulheres, a única entre elas que tem a altura normal, chamada Elinor. Ela lhe conta que os habitantes daquela cidade, que também se chama Elinor, descende de viajantes cretenses que naufragaram na Ilha de Marajó, os mesmos navegantes dos quais outro ramo de descendentes fundou, em local mais favorável, a mítica República 3000. Nas cavernas, seu povo encontrou abrigo e segurança, pois na floresta eram hostilizados pelos kurongangs, que os caçavam sem trégua. Lacraram a entrada da caverna, aprofundaram as galerias e erigiram ali sua cidade, com sofisticados sistemas de iluminação e circulação de ar. Através de receptores de rádio-televisão, acompanharam a evolução dos povos do mundo, aprendendo suas línguas e absorvendo seu conhecimento. Sua estatura foi se reduzindo ao longo das gerações e, sem a luz natural do sol, o ar fresco e o céu aberto, uma desgraça terrível se abateu sobre o povo de Elinor. Uma infelicidade existencial profunda vitimou principalmente os homens, que se suicidaram aos milhares. As mulheres resistiram melhor, mas tornaram-se infantis e fúteis. Aos poucos, a população foi se reduzindo e naquele momento encontra-se à beira da extinção.
Elinor lidera os últimos homens remanescentes numa investida desesperada em escavar, a partir dos níveis mais profundos da caverna, uma passagem para o exterior, longe dos ferozes kurongangs. O trabalho é lento e imprevisível, mas há esperança que seja finalizado em breve.
As pequenas mulheres não se importam com a escavação e em nada ajudam os trabalhos, passando seu dias em absoluta improdutividade. Volúveis e medrosas, logo voltam-se contra Karl, temendo que ele traga os kurongangs até ali. Os ânimos exaltam-se e, quando parece que nem Karl nem Elinor poderão contê-las, soam os alarmes: os kurongangs finalmente abriram o portal e a luta final tem início.
Como se percebe, a história de Kalum é muito mais elaborada que a vista em A filha do inca. Há mais detalhes, os personagens são individualmente mais trabalhados, os conceitos de uma história de aventuras são melhor instalados e mesmo as estruturas de gênero parecem melhor arranjadas, ainda que muita coisa pareça absurda ao leitor moderno. Mas falta o toque de maturidade que A filha do inca tem de sobra. Falta, sobretudo, um personagem carismático como o Maneco, tão bem colocado na história anterior. Parece, a princípio, que um dos muitos companheiros de Karl, especialmente o grandalhão e sentimental Fritz, poderia assumir esse posto, mas todos são removidos da trama antes de sua metade.
Kalum ainda tem a seu desfavor o fato de ser uma história muito mais sombria se comparada a A filha do inca. Enquanto em A filha do inca os autômatos da República 3000 sobem em revoada para as estrelas, numa cena emocionante e transcendental que levaria qualquer fã de hard fiction às lágrimas, Kalum só tem sangue e destruição a oferecer. Para compensar, Kalum apresenta um epílogo lírico e belíssimo de efusividade tropical, em si uma peça à parte, com seu colorido contrastando ao preto e branco predominante da história. Decerto que Del Picchia já sabia disso tudo. Ele mesmo diz, em seu prefácio, que se entregara "à volúpia de imaginar coisas absurdas que fizessem sentido pelo menos como hipóteses de um futuro maravilhoso".
Cabe a nós percebermos que esse maravilhoso não tem que ser, invariavelmente, positivista. No caso de Kalum, é o maravilhoso do horror que se apresenta muito mais exposto do que o maravilhoso científico. Comparado à pobreza de ideias que cerca o gênero do horror no Brasil, que se volta insistentemente para um gótico superado e enfadonho, Kalum mostra que Menotti Del Picchia estava adiante de todos nós tanto na ficção científica quanto no horror.

quarta-feira, janeiro 01, 2014

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A filha do inca

A filha do inca, Menotti Del Picchia. Edição original de 1930.

Entre os leitores brasileiros de ficção científica existe uma indisfarçada má vontade para com os romances clássicos da fantasia nacional. Supõem que são textos rasos, de pouca ou nenhuma qualidade, seja literária, seja nos parâmetros da ficção de gênero. Afinal, o que poderia um matuto no início do século XX produzir de significativo para um gênero que mal engatinhava em seus mercados mais importantes, se até neles os autores tinham dificuldades em encontrar o tom e o espaço correto desses protocolos?
A dificuldade de acesso a esses livros mais antigos, que não se encontram nas livrarias há décadas, também contribui para que sejam preteridos e, muitas vezes, esquecidos. Por preconceito e distanciamento, os primeiros exemplos da ficção científica brasileira vão sendo empurrados para a vala comum do que não tem valor. É o caso do romance A filha do inca ou A República 3000, do modernista Menotti Del Picchia (1892-1988).
Mais conhecido por seus textos realistas, como Juca Mulato (1917) e Laís (1931), Del Picchia nasceu em São Paulo/SP, iniciou como jornalista em Pouso Alegre, dirigiu o jornal A Tribuna de Santos e trabalhou em diversos periódicos importantes de São Paulo. Participou ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922 e, mais tarde, chegou a criticar os excessos do Modernismo. O que ficou marcado na obra de Menotti Del Picchia foi sua ânsia por uma literatura iminentemente brasileira, para o que lançou mão de mitologias indígenas e imagens da flora e da fauna nacionais. De certa forma, Del Picchia foi o primeiro interlocutor de um debate conceitual que, nos anos 1980, viria a ser conhecido como Movimento Antropofágico da ficção científica brasileira.
Contudo, até isso reforça o preconceito dos leitores de hoje pois há tantas correntes críticas restringindo o espectro da ficção científica ao ponto de quase nada se enquadrar nele e qualquer contexto culturalmente definido, como o sugerido pelo Modernismo, é suficiente para que a obra seja retirada do balaio.
No prefácio, assinado pelo autor, Del Picchia assume sua motivação de escrever  "à nossa mocidade que procura uma leitura imaginosa que raramente lhe oferecem nossos melhores escritores, pois talvez achem o gênero puramente lúdico."  Ainda diz que se lançou à escrita de A filha do inca como uma forma de superar os traumas de A tormenta, livro sobre a Revolução de Isidoro em 1924, que ele testemunhou. Era de se esperar, portanto, uma novela leve e juvenil, que realmente justificasse o preconceito com relação a seriedade do autor brasileiro para com os gêneros fantásticos. Ledo engano.
A filha do inca inicia num frenesi devastador. Talvez as memórias sangrentas do autor fossem tão fortes que ele não conseguiu purgá-las todas redigindo A tormenta. As primeiras oitenta páginas de A filha do inca são de um furor pouco comum em toda a literatura fantástica, brasileira ou não.
Um grupo de militares, comandado pelo capitão Paulo Fragoso, está em missão de cartografia nos confins da Serra do Caiapó. A tropa enfrenta problemas sérios com doenças e acidentes. A mata fechada e o terreno acidentado atrasam a missão, que vai perdendo homens ao longo do caminho.
A certa altura, a tropa é atacada por uma tribo de selvagens que mata a maioria dos soldados e captura outros, ficando livres apenas o próprio Fragoso e um de seus comandados, o inábil e pouco valente Maneco, além do cão Faísca. A sequência de combate entre os índios e a tropa é de vigor e realismo espetaculares, em alguns momentos beirando à sanguinolência explícita.
Mesmo sem munição e mantimentos, Fragoso e Maneco tentam resgatar seus companheiros da sanha antropófaga dos indígenas, mas fracassam na tentativa. Exaustos e em frangalhos, a única chance de sobreviver é chegar ao ponto de encontro onde um avião viria resgatar a tropa.
Com dificuldades, o trio consegue chegar a uma planície castigada pelo sol, onde encontram uma tétrica muralha que parecia seguir em linha reta de horizonte a horizonte, formada por ossos calcinados de todos os tipos de animais conhecidos e desconhecidos, esqueletos humanos e um sem número de armamentos primitivos, trabalhados em ouro, prata e pedras preciosas.
Nesse momento, percebem a aproximação do avião de resgate mas, ao sobrevoar a muralha de ossos, os motores do aparelho falham. Dos destroços fumegantes, nada se pode aproveitar.
Desanimados, Fragoso, Maneco exploram a estranha barreira, que desperta a cobiça de Maneco. Cruzam-na sem problemas mas, ao tentar pular de volta, o cão morre eletrocutado. Os dois homens são capturados e conduzidos por uma estranha energia que os faz caminhar até um edifício onde são confrontados por um autômato antropomórfico que os leva para a mais estranha das nações sobre a face da Terra: a República 3000.
Ali vivem descendentes de homens vindo da Grécia há milênios, cuja embarcação naufragou na Ilha de Marajó. Depois de muita atribulação nas terras de uma América selvagem, fixaram-se naquela planície rica em minérios e alimentos, e desenvolveram-se para além do mais avançado sonho tecnológico. Fecharam seu perímetro com uma barreira eletrônica que impede qualquer invasão, trocaram seus corpos mortais pelos de autômatos e ali estabeleceram uma utopia que está prestes a dar um novo e grandioso salto evolutivo. Mas a sorte de Fragoso e Maneco está selada: eles substituirão os dois últimos remanescentes de uma tribo inca escravizada pela República 3000: Capac e Raymi – "a filha do inca" –, por quem Fragoso se apaixona e é correspondido. Contudo, a substituição implica no sacrifício ritual de Raymi e Capac, sendo que suas mortes devem vir pelas mãos do pobre Maneco. Parece não haver futuro para o romance entre Fragoso e Raymi, a não ser que os sábios da República descubram a equação final que procuram e fará deles cidadãos do universo.
A filha do inca apresenta duas partes bem distintas: a primeira é um relato realista da malfadada missão militar, com descrições vivas da geografia, flora e fauna brasileiras. A segunda, uma história fantasiosa e romântica, na tradição das aventuras de H. Rider Haggard, com ambientes áridos e minimalistas arrematados por um final positivista que cumpre a intenção do autor em realizar um texto para jovens. Entretanto, a parte inicial é tão pungente que agrada também ao leitor adulto.
Não há preconceito que resista a leitura do texto vigoroso de A filha do inca. Quem quer que o faça vai, imediatamente, defender que seja relacionado entre as melhores obras da ficção científica brasileira, com admiração por saber que foi redigido em época anterior a maioria dos grandes clássicos internacionais da ficção científica, antecipando em muito a consciência do gênero no Brasil.

sexta-feira, novembro 22, 2013

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Fazenda Modelo: Novela pecuária

Fazenda Modelo: Novela pecuária, Chico Buarque.
Editora Civilização Brasileira.Rio de Janeiro, 1974, 140 páginas.

Os anos 1970 foram uma espécie de interregno entre as duas principais gerações de escritores brasileiros que se dedicaram aos gêneros fantásticos e, mais especificamente, à ficção científica. Até 1969, tivemos uma boa quantidade de livros escritos pelos autores da chamada Primeira Onda da ficção científica brasileira, carinhosamente conhecida como Geração GRD, ainda que nem todos tenham realmente surgido sob a égide da legendária editora GRD: André Carneiro, Fausto Cunha, Dinah Silveira de Queiroz, Rubens Teixeira Scavone, Jeronymo Monteiro, Rachel de Queiroz, Nilson Martello, Guido Wilmar Sassi, Antonio Olinto, Levy Menezes e muitos outros. Muitos destes não construíram suas obras exclusivamente na fc&c, e no mainstream conquistaram reconhecimento de público e crítica, emprestando prestígio ao fantástico brasileiro.
A Segunda Onda de autores ensaiou seus primeiros passos a partir de 1982 no Boletim Antares, publicado pelo Clube de Ficção Científica Antares de Porto Alegre: Simone Saueressig, Gerson Lodi-Ribeiro, Miguel Carqueija, Jorge Luiz Calife e Roberto de Sousa Causo foram os nomes dessa turma que se firmaram nas páginas de fanzines e boletins de clubes de fãs, unindo-se a outros tantos, tais como José dos Santos Fernandes, Ivan Carlos Regina, Carlos Orsi Martinho, José Carlos Neves, Braulio Tavares, Finisia Fideli, Fabio Fernandes, Roberto Schima e muitos outros.
Entretanto, nesses dez ou doze anos de intervalo, a fc&f brasileira não foi abandonada totalmente. Apesar dos especialistas terem reduzido sua presença editorial durante os piores anos da ditadura militar, outros escritores não necessariamente identificados com o gênero perceberam na literatura de fantasia uma ótima maneira de contornar as redes da censura e dizer o que pensavam a respeito daquele período tenebroso, uma vez que os órgãos de comunicação de massa eram bem mais vigiados do que os livros.
Chico Buarque de Holanda era então um compositor de sucesso, respeitado e prestigiado tanto pela elite intelectual quanto pelo povão, no Brasil e no exterior. Sua poesia de sentidos múltiplos agradava pela qualidade da composição e pela identificação imediata com o jeito brasileiro, somada a musicalidade criativa, belos arranjos e harmonias. Chico Buarque fazia então o que alguns classificavam como "música de protesto", embora sua responsabilidade artística não permitisse que o panfletarismo simplório dominasse o conteúdo criativo, como acontecia com outros compositores menos brilhantes.
Em 1974, no auge da repressão política, a editora carioca Civilização Brasileira, que já publicava o fantasista goiano José J. Veiga, levou às livrarias a primeira novela de Chico Buarque, Fazenda Modelo: Novela pecuária.
Trata-se de um texto obviamente alegórico, tal como também são suas poesias, que conta a ascensão e a queda de um projeto econômico e social dirigido por tecnocratas e financiado pelo capital estrangeiro.
A Fazenda Modelo era, a princípio, uma propriedade rural que, embora de grandes dimensões, não diferia em nada de qualquer outra propriedade agropecuária, com a boiada solta no pasto descuidado, sem nenhuma tecnologia ou acompanhamento técnico. A vida dos bois e vacas não era fácil, mas era tranquila e sem percalços. As rezes nasciam naturalmente, alguns meses depois de coitos igualmente naturais, a comida vinha diretamente do chão inculto, os carrapatos e as doenças eram um grande incômodo mas, enfim, não é assim em toda parte?
Então Juvenal, o bom boi, elegante e educado filho da pátria, é elevado a posição de conselheiro-mor da Fazenda Modelo e aos poucos implanta nela o milagre econômico que vai tirar a boiada do atoleiro e arremessá-la para o futuro glorioso. Assessorado por técnicos especialistas importados (todos curiosamente tendo o nome iniciados pela letra "K") Juvenal elege Abá como o semental-mor da Fazenda Modelo: boi forte e viril, apaixonado pela vaca Aurora, que viria ser a matriz criadora mais importante do projeto. Abá é isolado da vacada em um galpão absolutamente limpo e somente durante os períodos propícios de cobertura são trazidas as vacas para que ele as emprenhe. Alucinado de desejo por Aurora, que é a primeira vaca a entrar no touril, Abá vai trepando em cada uma das vacas que vem depois e garante dessa forma o sucesso da primeira geração de bezerros cientificamente selecionados da Fazenda.
Com o bom desempenho da vacada nas exposições, o sêmen de Abá torna-se o ouro branco de exportação da Fazenda Modelo, que passa a usar um processo eletrônico, sem contato físico, para colher o líquido de Abá, sendo as vacas  fertilizadas artificialmente.
Enquanto a Fazenda Modelo cresce e se desenvolve, com a instalação de fábricas de todos os tipos, estádios de primeiro mundo, monumentos a Juvenal, praças e fontes grandiosas, a vacada vai ficando cada vez mais triste. A poluição começa a envenenar a boiada mais simples, as reprodutoras entram em depressão pelo desaparecimento inexplicável de seus filhos, parando de aleitar e de emprenhar, e até Abá, viciado no aparelho de coleta de sêmen, envelhece precocemente. Lubino, seu sucessor, é apressadamente escolhido entre os touros da primeira geração. Mas Lubino não estava ainda preparado e a tragédia vai se abater sobre a Fazenda Modelo e seu grande projeto de desenvolvimento.
É interessante deixar-se levar pela fantasia de Chico Buarque, que modula a humanização/bovinização dos personagens conforme as circunstâncias dramáticas exigem.
Está claro que esta novela é uma alegoria da situação política brasileira em 1974, não muito disfarçada pelo cenário da Fazenda Modelo. Frases e atos de Juvenal têm paralelos óbvios na realidade histórica, e muitos leitores experientes na fc anglo-americana podem achar a leitura um tanto ingênua e previsível.
Mas Fazenda Modelo exemplifica uma das mais imediatas missões da arte e da literatura, qual seja, levar o leitor a refletir sobre a sua realidade objetiva. Nesse aspecto, é amplamente bem sucedida, pois a mensagem é clara e a leitura é facilitada por um texto que fala muito bem ao leitor comum que, em tese, é o seu público alvo. Contudo, Fazenda Modelo preserva os ideais do Modernismo e utiliza uma redação elaborada repleta de estruturas literárias criativas e coloquialismos intraduzíveis, que agradam também ao leitor sofisticado.
Ainda mais significativo é o fato de Fazenda Modelo ter aparecido em pleno cenário dos fatos que motivaram a sua composição. Não há dúvida que Chico Buarque e a editora Civilização Brasileira correram riscos sérios ao ousar sua publicação. Pode ser que Buarque tenha se escudado em sua fama maiúscula ou no auto-exílio que cumpriu no exterior. Mesmo assim, é espantoso que assim tenha sido.
Geralmente, espera-se que um autor literário demonstre alguma coragem para atacar os seus alvos e que, eventualmente, ponha a cabeça para fora da trincheira e dispare um tiro na direção deles. Isso já é suficiente para dar significado à obra para além do entretenimento frívolo e descartável ou do formalismo acadêmico, principalmente no caso da fc, tida como um gênero alheio à realidade. Ainda que possamos pinçar uns tantos bons exemplos, entre eles o próprio Fazenda Modelo, no que se refere a fc&f brasileira percebe-se que o preconceito justifica-se, infelizmente.
Apesar da tendência natural e quase inevitável da fc&f para o simbolismo, a caricatura e a alegoria, os autores brasileiros sempre demonstraram interesse especial pelo entretenimento do gênero, evitando a discussão de problemas contemporâneos em seus trabalhos. Investem na elaboração de utopias e conceitos tecnológicos fantásticos, lançando suas histórias em tempos distantes no passado ou no futuro, com protagonistas mitológicos, mecânicos ou alienígenas, de forma a fugir o mais possível do problemas do presente e dos mistérios da alma humana, alienando-se já no ato da composição da obra que, desse modo, distancia-se do leitor que não se identifica com ela quando publicada.
Um e outro ainda demonstram, eventualmente, coragem suficiente para dar aquela olhadela acima da trincheira, mas a grande maioria satisfaz-se em sentar num canto retirado, jogar baralho e apostar cigarros. Para eles a batalha, a realidade, sequer existe.
Exatamente por isso, Fazenda Modelo é leitura importante num gênero que ainda carece de uma profunda discussão existencial no País.

quinta-feira, novembro 14, 2013

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Comba Malina, Dinah Silveira de Queiroz

Qualquer obra que tenha ultrapassado os vinte anos tem seu valor histórico e ainda mais importante se torna quando o seu autor demonstrou capacidades literárias amplas dentro e fora dos gêneros fantásticos, como é o caso de Dinah Silveira de Queiroz, autora consagrada no mainstream, que tem em sua bibliografia textos importantes como Floradas na serra (1939) e A muralha (1954).
Dinah era uma escritora consagrada quando decidiu escrever fantasia, iniciando com o romance Margarida La Rocque (A ilha dos demônios), cuja primeira edição é de 1949 pela Livraria José Olympio Editora, e que, mais tarde, teria traduções em vários países. Não por acaso, Margarida La Rocque é o primeiro volume da Coleção Dinah Fantástica, que teve em seguida a edição de Comba Malina, coletânea de contos de ficção científica que é o assunto desta resenha.
A coletânea apresenta oito contos da autora, sendo três inéditos até então, nesta ordem: "Comba Malina", "Os possessos de Núbia", "O céu anterior", "A universidade marciana", "Anima", "A Ficcionista", "Eles herdarão a Terra" e "O Carioca".
O conto de abertura, que dá nome ao livro, é o melhor de todos. Escrito em 1968 para esta antologia, é o relato, em primeira pessoa, de um faxineiro cujo nome não nos é revelado. Por necessidade financeira, o narrador procura uma residência mais próxima ao banco onde cumpre expediente, e é atraído para um beco por uma insidiosa sequência musical. Quando se dá conta, está batendo à porta de um casario, que se trata justamente de uma pensão que tem uma vaga disponível a um preço muito baixo. O protagonista vê-se então colega de quarto do cientista aposentado Professor Sarmento, que desenvolve uma pesquisa histórica sobre o passado daquele velho casarão que, 250 anos antes, fora a Bodega da Comba Malina, uma cigana belíssima pela qual o Professor parecia ter fixação.
Ao longo dos dias e noites que ambos compartilham, o faxineiro começa a participar das investigações do cientista, que tem uma teoria inusitada sobre o tempo e desenvolveu um dispositivo que permite a visualização do passado. Quando o protagonista finalmente experimenta a viagem e vê Comba Malina, apaixona-se perdidamente por ela, o que será a sua ruína. O desfecho assemelha-se a algumas histórias do escritor americano H. P. Lovecraft, porém com amplas referências ao candomblé, que dá um charme especial ao conto, numa das mais pioneiras manifestações da antropofagia modernista na fc brasileira.
A seguir temos "Os possessos de Núbia", também um conto inédito escrito em 1968 para esta antologia. Bruno é um imigrante em Núbia, planeta inóspito que abriga uma colônia de humanos. Ele foi para lá para dar a sua família uma vida melhor, uma vez que os imigrantes recebiam uma generosa indenização pelos vinte anos, no mínimo, que cada colono teria de passar no planeta. Porém Bruno não foi só pelo dinheiro. Ele se sentia incomodado com os desejos da esposa em ter filhos de forma natural, quando há muito tempo isso não era mais o costume, sendo as crianças todas geradas em úteros artificiais de porcelana.
Núbia apresentava sempre a mesma face para o sol local. Era impossível viver tanto na sua face iluminada, muito quente, quanto no lado escuro, muito frio. A colônia situava-se, portanto, numa estreita faixa de crepúsculo, onde as temperaturas eram suportáveis. A colônia nunca fizera contato com qualquer forma de vida local, mas isso iria mudar quando uma inesperada onda de calor intenso começou a varrer a superfície do planeta. Uma boa ideia desenvolvida nos moldes da Asimov e Bradbury. Porém, sem a precisão científica daquele e o lirismo deste, não repetiu o estilo brilhante visto no primeiro conto.
"O céu anterior" já havia sido publicado na antologia Histórias do acontecerá (GRD, 1961), e seria novamente compilado na antologia Enquanto houver Natal (GRD, 1989). No ano 3559, um astrônomo vê, através de um monitor especial, o céu do ano zero e fica perturbado ao ter uma visão mística com a imagem de uma "estrela que fala". Vai então passar férias num balneário subterrâneo, onde consultará um psiquiatra especialista em esgotamentos de astronautas. Como já se percebe, é uma história sobre o Natal, e seu final-surpresa não funciona porque é perfeitamente previsível antes da metade do conto.
Trata-se do conto mais fraco da antologia porque parte da premissa que dezesseis séculos no futuro ninguém mais se lembraria do Natal, sem dar uma explicação plausível de como isso poderia acontecer uma vez que o calendário usado ainda é o mesmo.
Muito melhor é o conto seguinte, "A universidade marciana", visto anteriormente na outra coletânea da autora, Eles herdarão a Terra (GRD, 1960).  O protagonista narrador também não tem seu nome revelado na história, mas trata-se de um morador da cidade do Rio de Janeiro, residindo no décimo andar de um prédio em ruínas numa Copacabana arrasada pela elevação do nível do mar. Em sua andanças solitárias pela orla decadente, é contatado por uma entidade alienígena que, entretanto, não lhe revela muita coisa.  Ele desenvolve uma filosofia sobre o modo de ser do homem brasileiro, a qual chama de "Carioquismo" e, por conta de sua repercussão, é convocado para ir ao Vaticano unir-se a um grupo heterogêneo formado por dezenove homens e mulheres cuidadosamente escolhidos para serem instruídos por seres superiores vindos do espaço, possivelmente marcianos – os mesmos que o contaram na praia. O Papa Pio XIII, um chinês, é um dos poucos líderes políticos do mundo a acreditar nos bons préstimos desses alienígenas e aproveita o fato do Vaticano ser o único estado murado do mundo para abrigar, sob sigilo, essa verdadeira universidade. Esses vinte homens e mulheres serão confrontados aos alienígenas e suas estranhas filosofias, mas os marcianos também serão irremediavelmente afetados pelos conceitos humanos.
A autora constrói uma bela narrativa, com descrições vivas e detalhadas do Vaticano e, sem apelar para qualquer dos recursos costumazes da ficção científica, elabora um trabalho perturbador e de profundo lirismo.
"Anima" é o terceiro conto inédito da coletânea, tal como os outros escrito em 1968. Jorge Alves é um cientista pesquisador da alma humana, que propõe na Assembleia Geral da ONU que a comunidade internacional participe do esforço brasileiro em enviar uma missão "espiritual" ao planeta Vênus. A princípio ridicularizado, o método demonstra-se eficiente e uma equipe de cinco astronautas, entre eles o próprio Jorge Alves, despacha seus espíritos para Vênus e lá passam três dias em expedições de reconhecimento visual, uma vez que não podem interagir fisicamente. Entre esses astronautas está uma jovem que sofre de uma doença terminal e, no momento da volta, ela decide permanecer em Vênus, abandonando a existência física que, de qualquer forma, seria bastante breve, e com isso desequilibra toda a equipe. Uma ideia interessante, ainda que não de todo original, desenvolvida com sensibilidade porém sem apresentar uma personalidade mais definida.
"A Ficcionista" é o conto mais longo do livro, já visto na Antologia brasileira de ficção científica (GRD, 1961). É narrado em primeira pessoa por um homem criado em laboratório, um cidadão de segunda classe adotado como assistente pelo cientista e engenheiro Jonas André Camp, que desenvolve um sistema de comunicação audiovisual que fala diretamente ao cérebro, conseguindo dessa forma uma integração quase real com o expectador. O invento entusiasma Sálvio Marconi, proprietário de uma das maiores emissoras de tv concreta (uma espécie de tv 3D), que financia a instalação da máquina, chamada de Ficcionista. A nova mídia é um sucesso de público e crítica, e rapidamente fagocita todas as outras. levando a humanidade para uma existência passiva de tragédia iminente.
O conto apresenta a função de amarragem do livro, pois alguns dos seus elementos principais, como a tv concreta, por exemplo, aparecem nos demais. Também é metalinguístico, uma vez que trata do trabalho do escritor, da maneira como os escritores se comportam e da relação da arte de massa com o público consumidor. Há muitos mais conceitos filosóficos que, embora não se aprofundem, não impedem que este seja um conto muito bom.
"Eles herdarão a Terra" é um conto de invasão marciana, o primeiro texto de ficção científica de Dinah, escrito em 1957 e primeiro publicado na revista Jóia, depois compilado na coletânea que lhe emprestou o nome, publicada em 1960 pela Editora GRD.
Marcos mora com seu idoso pai num farol isolado. O velho é fascinado por astronomia e passa as noites a observar o céu. Certo dia, o faroleiro decide trazer para o farol sua outra filha, Tuda, que será a catalisadora de uma tragédia cósmica. Quando o velho morre de infarto, Marcos assume suas funções até que seja nomeado um novo titular e, justamente num dia em que, depois de uma tempestade, o farol está mais isolado do que o normal, Marcos e Tuda recebem a visita de uma entidade estranha, bizarra, aparentemente pacífica mas que revela um sórdido plano de invasão e atira os irmãos num torvelinho de horror. Um conto perturbador, que dialoga com muitas outras obras da fc mundial.
O conto que fecha a edição é "O Carioca", que também faz parte da já citada coletânea Eles herdarão a Terra. O conto apresenta dois moradores do décimo segundo andar de um prédio recentemente construído, vazio de outros habitantes. O vigia do prédio, que ainda está em fase de acabamento, desliga a energia elétrica do prédio ao final do expediente e ambos têm de passar as noites sem luz e sem elevadores. Num desses dias, chegando atrasados, eles se conhecem ao subir os doze andares pelas escadas. Sendo um homem e uma mulher, ambos jovens, é fatal que se apaixonem. Ela é viúva e passou por uma séria provação quando da doença de seu falecido marido; ele é solteiro, mas tem uma profissão estranha: fabrica robôs e tem alguns deles em seu apartamento. A relação do casal de vizinhos é neurótica e as coisas se complicam mais quando o rapaz leva para casa seu robô mais sofisticado, o Carioca, que ele está prestes a vender para o exército. As máquinas são muito mais que simples mecanismos, tratam-se de inteligências artificiais primitivas e a convivência deles com a mulher vai trazer desentendimentos para a relação de ambos. Um conto maduro e muito bem realizado, como poucas vezes se viu na fc brasileira, com grandes doses de psicologia e drama humano.
Os jovens autores de fc teriam muito a ganhar com a leitura desta coletânea de uma das pioneiras da ficção científica brasileira que, não só, demonstra uma qualidade literária superior e sem pedantismo, um estilo amadurecido e o domínio dos conceitos e protocolos do gênero, mas inocula nos enredos altas doses de dramaticidade e psicologia, de problemas e preocupações humanas.
Não é, obviamente, uma fc de entretenimento, e isso vai desgostar aqueles que avaliam a qualidade de uma historia diretamente proporcional a sua capacidade de entreter, e inversamente a sua capacidade de perturbar. Dinah Silveira de Queiroz escreveu fc como gente grande e para gente grande.

Comba Malina, Dinah Silveira de Queiroz. Coleção Dinah Fantástica, Volume 2, Editora Loudes, Rio de Janeiro, 1969, 206 páginas.

sexta-feira, outubro 25, 2013

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Fantasia portuguesa antes de Tolkien: sim, existiu.

Uma das críticas mais frequentes que se faz à fantasia escrita em Portugal é inspirar-se em demasia em modelos estrangeiros. Em Tolkien, para começar, mas também em outros autores que dominam o mercado internacional, e em lendas e vivências que nos são alheias, de origem anglo-saxónica, germânica ou nórdica. E é uma crítica que me parece válida, até porque, embora a fantasia portuguesa anterior ao boom da fantasia comercial de finais do século XX não seja propriamente bem conhecida (com a possível exceção de O Físico Prodigioso, de Jorge de Sena, ou de A Dama Pé-de-Cabra, de Alexandre Herculano), ela existe. Mais: uma das principais inspirações da fantasia medieval, o romance de cavalaria, teve a sua origem precisamente entre nós, entendendo aqui "nós" no sentido de "Península Ibérica". Seria, portanto, de esperar que mais autores contemporâneos procurassem ler mais do que produziram os seus percursores em vez de se limitarem a importar e, eventualmente, adaptar.

Percursores como este Eduardo Augusto de Faria.

A Feiticeira do Douro é uma novela de fantasia já bastante vetusta, pois foi originalmente publicada há mais de cento e cinquenta anos. A história tem um ambiente medieval que só não é inteiramente banal porque para os leitores de fantasia de hoje os ambientes medievais típicos remetem para o norte da Europa e não para o norte de Portugal. Faria, como é óbvio, não se inspira em Tolkien e sucessores; antes faz o mesmo que estes autores fizeram, um século mais cedo, e vai beber diretamente às lendas da sua terra e aos cancioneiros.

Este livro, já o título o indica, passa-se na região do Douro, e centra-se numa velha bruxa que teria sido vítima de um hediondo crime passional muitas décadas antes e, depois de andar pelo mundo a alimentar o ódio, regressa para se vingar de quem cometeu o crime e da sua família, armada de feitiços.

Infelizmente, pese embora o pioneirismo, poucas qualidades encontrei em Faria e na sua prosa. Esta conta, claro está, uma grande tragédia, ao gosto romântico da época. Sentimentos superlativos e violentos, tiradas tonitruantes, muitos ohs, muita faca e muito alguidar. Quem sabe alguma coisa sobre os velhos clichés das histórias românticas cedo deduz todo o enredo quase aos mínimos detalhes, e Faria segue-o fielmente. Não é grande coisa como escritor, infelizmente, para não dizer que é francamente mau. Falta-lhe rasgo e sobra-lhe banalidade de ideias e de execução. E para piorar as coisas, os diálogos forçadíssimos de que faz uso talvez fossem ao gosto da época mas, pelo menos aos olhos deste leitor moderno, chegam a parecer ridículos. E há muitos, e confusos.

Em todo o caso há, ainda hoje, quem goste deste tipo de prosa. Há até quem a pratique. Portanto certamente haverá quem goste desde livrinho.

Mas eu não. Para mim, a maior curiosidade do livro residiu em algumas formas de organizar as frases, em expressões como "me faz", "me diz", esse tipo de coisa, que para a maioria dos leitores portugueses de hoje soa muito brasileira, mas não o é. É certo que Faria viveu no Rio de Janeiro (onde esteve envolvido numa série de falcatruas e de onde acabou por fugir para Londres), mas isso foi só depois de ter, em Portugal, malamanhado um dicionário de língua portuguesa, realizado um conjunto de traduções do francês que, ao que consta, eram horrendas, e escrito e publicado este livro. O homem era português, desonesto e incompetente, não necessariamente por esta ordem. Mas a forma de organizar as frases que muitas vezes apresenta tem, hoje, ressonância brasileira.

Curioso, não?

De resto, só encontrei no livro o inegável interesse histórico de mostrar que já em meados do século XIX se escrevia em Portugal fantasia de inspiração medieval. Fora isso... É um mau livro, com uma má história mal contada por um mau escritor. Está longe de ser o único. E mesmo sendo todas essas coisas pouco agradáveis poderia perfeitamente servir de base e inspiração para alguém mais competente criar algo de novo e decente. Para isso, contudo, seria necessário ser lido. E para isso seria preciso antes de mais nada estar mais disponível do que numa edição com vinte e tal anos, apenas possível de encontrar em alfarrabistas, geralmente a preços exorbitantes, em especial tendo em conta a exiguidade do volume e a fraca qualidade do que se encontra lá dentro.

Porque livros como este, sejam maus, sejam bons, sejam assim-assim, deveriam fazer parte da nossa memória coletiva enquanto povo. E para isso não podem estar trancafiados a sete chaves, especialmente nos tempos que correm, em que é demasiado fácil sermos invadidos pelo que outros produzem e distribuem vasta, fácil e tantas vezes gratuitamente. Evitaríamos ter de estar sempre a refazer experiências já feitas, a reinventar rodas que já se viu que tal funcionam. A acolher os outros com total ausência de referências próprias, apesar de estas existirem e até serem, por vezes (embora não desta), bastante melhores do que muito do que nos chega de fora.

Talvez um dia alguém pegue nesta história e a publique em ebook. Talvez um dia alguém leia o ebook e encontre nele material de base para desenvolver numa fantasia moderna mais sofisticada do que a romântica banalidade desta novela, ou pelo menos seja por ela levado a mergulhar nos cancioneiros em busca do nosso património lendário, que é bem menos pobre do que somos tantas vezes levados a supor, mesmo apesar da depredação causada por demasiados séculos de repressão inquisitorial e eclesiástica. Talvez um dia.

Texto republicado, com bastantes alterações, da Lâmpada Mágica (2011).

quarta-feira, outubro 16, 2013

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Contos Fantásticos Brasileiros

Páginas de Sombra Contos Fantásticos Brasileiros. Edição e apresentação de Braulio Tavares. Ilustrações de Romero Cavalcanti. Editora Casa da Palavra, Rio de Janeiro, 2003, 167 páginas.

Dois mil e cinco foi um bom ano para o escritor Braulio Tavares. Embora ele não tenha publicado um livro de ficção, compareceu ao mercado editorial com nada menos que quatro títulos, dois deles ligados à ficção científica e ao fantástico. O Rasgão no Real, um ensaio sobre a noção de realidade do ponto de vista da ficção científica (pela editora Marca de Fantasia) e a edição e organização da já celebrada antologia Contos Fantásticos no Labirinto de Borges, com ênfase em autores que seriam apreciados pelo mestre argentino.

Antes desta antologia, contudo, Braulio editou e organizou outra, há dois anos. Trata-se da antologia Páginas de Sombra: Contos Fantásticos Brasileiros, ambas publicadas pela editora carioca Casa da Palavra, em 2003. Na verdade as duas antologias são um projeto acalentado há anos que, entre uma atividade artística e outra, entre uma dificuldade aqui e acolá de publicação, finalmente apareceram para o encanto e deleite dos fãs de literatura fantástica.

Nesta oportunidade, comentaria o primeiro destes dois ótimos livros, especialmente importante por reunir autores brasileiros. Assim sendo, ao pegar o volume de Páginas de Sombra, já se percebe que o livro é especial. Não só pelos escritores selecionados, mas também pelo projeto gráfico bonito e arejado, enriquecido por ótimas ilustrações internas para cada história por Romero Cavalcanti.

O livro começa com um ensaio crítico chamado “Nas periferias do real ou O fantástico e seus arredores”, didático e ao mesmo tempo pessoal, apresentando alguns dos elementos centrais da chamada literatura fantástica, enriquecidas com uma interpretação própria do aqui crítico Braulio Tavares. Busca uma definição básica do fantástico, narra um pouco da trajetória e de algumas características do fantástico brasileiro, relacionando em seguida com o Horror e seus próprios pilares, como os fantasmas e o gótico. Para concluir com uma breve, mas instigante reflexão sobre a ausência de florescimento de uma literatura fantástica no Brasil, embora ela seja bem mais praticada em comparação com a ficção científica, por exemplo.

Ele argumenta que talvez seja porque a literatura brasileira ainda seja jovem – como o próprio país, aliás –, e que ela ainda está mais afeita por explicações calcadas no realismo, do que no fantástico, dada a urgência de problemas a serem resolvidos em nossa sociedade. É uma explicação pertinente mas que talvez seja insuficiente, especialmente se considerarmos como o Brasil vem mudando nestes últimos 25 anos, com uma profunda mudança em sua estrutura industrial e socioeconômica sem, contudo, alterar seu quadro de desigualdade social. E isto trouxe, será por coincidência?, em seu rastro, uma Segunda Onda da ficção científica, que tem sido a mais militante, produtiva e de melhor qualidade em comparação com qualquer outro momento histórico em nossa literatura, ainda que de alcance restrito no conjunto das letras nacionais.

De qualquer forma, uma antologia como esta ajuda a contextualizar o cenário histórico e recuperar algumas jóias esquecidas (ou pior) não conhecidas pelos fãs mais jovens de ficção científica e literatura fantástica.

Assim, este livro traz 16 histórias que vão de 1884 a 1995, cobrindo praticamente um século de produção. Obviamente, toda escolha é arbitrária mas o organizador Braulio Tavares procurou, até onde foi possível, equilibrar o gosto pessoal com a representatividade de uma história ou de seu autor. E estas duas características ficam explícitas na pequena introdução a cada história, onde o organizador já apresenta o autor e sua relação com o fantástico, bem como em que a sua literatura em geral dá mostra, ainda que implicitamente, de insights e especulações nada realistas.

O poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade abre a antologia com a despretenciosa “Flor, Telefone, Moça”, de 1951. Tem uma narrativa bela, melancólica e surpreendentemente sobrenatural, no relato de uma moça que retira uma flor de um jazigo e passa a receber estranhos telefonemas. O produtor e antologista da TV americana Rod Serling (1925-1975) certamente ficaria interessado em filmar o conto para uma de suas séries – Além da Imaginação ou Galeria do Terror – caso viesse a ler a história.

O conto a seguir é “A Podridão Viva”, de autoria de Amândio Sobral, um dos escritores esquecidos que são recuperados neste livro. A história, publicada originalmente em 1934, tem um clima bem construído, situando a ação no interior profundo de uma inexplorada e distante floresta africana. Uma das regiões mais exóticas do planeta – naquela época – e ainda hoje. O impacto dos detalhes da expedição e da aparição são muito reforçados pela adjetivação e pelo choque emocional sofrido pelo protagonista.

“Teleco, o Coelhinho” é o conto seguinte, assinado por um dos grandes fantasistas brasileiros, Murilo Rubião. Nesta história de 1965, uma fantasia em estilo clássico, muito bem narrada, com vívida imaginação e sentido alegórico. A situação absurda que se insere no cotidiano e passa a com ele conviver tem aqui um relato dramático e triste, mostrando personagens solitários em busca de compreensão e amizade.

Já o conto seguinte é de Berilo Neves, um escritor best-seller da literatura brasileira dos anos 30, hoje também relegado ao pó das estantes e à leitura eventual de um pesquisador mais dedicado. Um deles, o escritor Roberto de Sousa Causo contribuiu para dirimir um pouco este ocaso, publicando uma edição temática sobre ele no seu fanzine Papêra Uirandê, há alguns anos. Em todo caso, “A Última Eva” é mais um esforço de recuperação de um autor realmente curioso. Sua ficção científica não é mais do que sátiras relativamente superficiais sobre casais apaixonados em suas andanças pelos planetas do Sistema Solar.

Porém a esta aparente ingenuidade se insere uma temática extremamente machista e misógina, tal como mostrado neste conto, onde uma misteriosa epidemia varre as mulheres do mundo, num tema relativamente freqüente na ficção científica como, por exemplo, no instigante e irregular romance O Planeta Esparta, do americano A. Bertram Chandler, publicado no Brasil nos anos 70, pela editora Nosso Tempo. No fim das contas, a presença de Berilo Neves se justifica mais por sua representatividade histórica do que por sua qualidade temática ou literária, exemplificado neste conto com um enredo forçado tanto no humor, quanto no desdobramento das situações.

Lília Aparecida Pereira da Silva é outra autora relativamente esquecida que dá as caras no livro com o curtíssimo “A Máquina de Ler Pensamentos”. Não muito mais do que uma espécie de variação feminina para o monstro de Frankeinstein, com semelhantes descrições do que Braulio Tavares chama de ‘ciência gótica’ para textos deste tipo. Bizarro e com boa ambientação, não vai além da intenção de ser uma história efetiva, sendo verdadeiramente nada mais do que uma vinheta.

O que não é o caso, absolutamente, da história a seguir. Simplesmente “A Escuridão”, o maior clássico da ficção científica brasileira. André Carneiro consegue, com este texto de 1963, se ombrear com o que de melhor já se fez neste gênero em um nível internacional – tanto que é o seu texto mais publicado mundo afora.

 Repentinamente as luzes desaparecem e a civilização mergulha nas trevas. Wladas procura primeiro entender o absurdo, para aos poucos lutar desesperadamente para superá-lo. Como aponta Braulio Tavares, o estilo distanciado e atemporal só acentua a estranheza da narrativa, bem como sua intensidade humana e dramática. A história tem uma fluidez demorada, outra peculiaridade que transmite uma sensação de angústia não só aos personagens, mas também ao próprio leitor. Um texto realmente bem escrito, em seus detalhes, primoroso no tratamento dos personagens e com um final inesquecível. Disparada a melhor história deste volume.

O maranhense Coelho Neto foi colocado depois da obra-prima de Carneiro, o que dificulta uma boa avaliação de sua história – aliás, como seria com qualquer outra das histórias desta antologia. Em todo caso, Coelho Neto é um dos mais notórios esquecidos da literatura brasileira, extremamente influente entre seus pares e prolixo em seu tempo, da segunda metade do século XIX até as três primeiras décadas do século passado.

Seu romance A Esfinge (em 1908 a primeira aparição. A edição que eu tenho é da editora Lello & Irmão, Porto, 1925), deveria ser procurado e lido, pois é uma história forte e interessante, sobre um homem que recebe o transplante da cabeça de uma mulher, numa variação curiosa da chamada ‘ciência gótica’ à lá Frankeinstein. Para esta antologia, Braulio selecionou o conto “A Casa ‘Sem Sono’”, uma narrativa bem escrita e de tema misterioso, numa especulação diferente ao tema da casa assombrada. Poderia render mais, se tivesse explorado mais as situações apresentadas.

“A Gargalhada”, de Orígenes Lessa, mostra como uma situação banal se transforma de forma inexplicável e surpreendente em fantástica. Uma risada gereralizada, ininterrupta e coletiva acaba por se transformar num inusitado horror. Vale conhecer, ainda que como referência para a ficção científica, sua novela A Desintegração da Morte (1948, publicado, entre outras edições, pela Futurâmica, número 568), seja o seu texto principal e conhecido.

Adelpho Monjardim, outro autor pouco lembrado nos dias que correm, é ‘redescoberto’ neste livro com “O Satanás de Iglawaburg’, um conto que lembra bem o estilo das weird fictions publicadas nas pulp magazines norte-americanas dos anos 30 e 40 do século XX. O conto tem um estrutura gótica assumida, com resquícios reconhecíveis de Edgar Allan Poe e seu clássico “A Queda da Casa de Usher”. Obviamente, a qualidade literária do autor capixaba fica a anos-luz do norte-americano de Boston, mas o mais importante neste caso, é que a narrativa tem um bom nível de entretenimento, envolvendo o leitor e mostrando um horror que se assume muito mais no plano psicológico do que no sobrenatural.

Uma situação semelhante ocorre no conto seguinte, “As Academias de Sião”, de Machado de Assis. Só que aqui o fantástico explícito se traveste de situações alegóricas, um recurso muito usado pelo autor em suas intermitentes incursões ao fantástico. A intenção inicial, no caso, é satirizar as acadêmicas literárias e científicas, tão em voga em fins do século XIX, mas o conto acaba tendo mais efetividade na situação prática vivida pelos dois personagens principais. Pois eles resolvem ‘trocar’ se sexo: um rei passa a ser mulher e uma rainha assume o papel masculino dentro da trama. Contudo, ainda que seja interessante pelo fato de ser de Machado de Assis, a história não consegue ser nada além de chata e mal concatenada em seus objetivos temáticos.

O que não é o caso do texto de Rubens Figueiredo, a noveleta “O Caminho do Poço Verde”. Partindo de uma premissa simples, temos o choque civilizatório do ‘interior profundo’, na experiência de uma mochileira. A história é rica em seus detalhes, como a descrição da natureza, das pessoas do meio rural e seus costumes rudes, sua linguagem peculiar – que por vezes, beira a dialetos nesse ‘brazilsão' interminável e desconhecido –, sua interação quase mágica com crenças oriundas do imaginário da natureza. É interessante também o fato de que todas os personagens ativos são mulheres: da viajante Diana às ‘bruxas’ do mato. E o tal do Aruê, é um mal que não se anuncia, mas se pressente, em meio a uma atmosfera sobrenatural que se acentua paulatinamente. E para fechar, temos o tal do ‘poço verde, como um lugar mítico, onde o mal pode ser derrotado.

Publicado originalmente em 1994 na coletânea O Livro dos Lobos – conforme é informado na introdução da história –, poderia ter disputado fortemente o então Prêmio Nova. Dado o desconhecimento do fandom, a história só agora nos chega e se coloca como uma das melhores histórias curtas do gênero fantástico publicadas no Brasil em 2003.

Depois de uma travessia intensa e surpreendente com a noveleta de Figueiredo, a próxima história – como já havia ocorrido com o conto que sucedeu a obra-prima de André Carneiro –, de saída sai prejudicada. Mas desconfio que neste caso nada poderia ajudar a melhorar a condição de “Íblis”, de Heloísa Seixas. Contando basicamente a história de uma pesquisadora vítima de uma maldição, o texto peca pela chatisse e empolação. Seixas sabe escrever, mas transmite um pedantismo e uma futilidade à flor da pele, de tal forma que passei a torcer pelo destino funesto da personagem. A história mais fraca de todo o livro.

Justamente (quase) o oposto do conto de Lygia Fagundes Telles, “As Formigas”. Um conto muito bem construído em sua trama e desenvolvimento, bem como na ambigüidade entre o real e o irreal que transmite, gerando uma situação de indeterminação, tanto no leitor, como nos próprios personagens. O mistério propriamente dito está por se insinuar – e recua –, para depois se insinuar de novo, de forma mais sutil e efetiva, especialmente no trecho final da história. Competente.

Já a palavra para definir de saída o conto seguinte é sofisticação. Num texto muito bem trabalhado, tanto na forma, como nas imagens que transmite, o “Luvibórix”, de Carlos Emílio Corrêa Lima, tem uma narrativa que provoca estranhamento não apenas pelo tema em si, mas pela prosa intrincada e caprichada que estrutura a história. Mesmo assim, do ponto de vista de uma narrativa mais fluente e que pede uma certa linearidade causal, o texto não consegue se completar, ficando a sensação conclusiva de uma prosa sofisticada sim, mas sem um objetivo temático claro.

Humberto de Campos é outro autor recuperado pelo organizador da antologia, e que era, em seu tempo, possivelmente o mais popular e produtivo escritor brasileiro. Em “Os Olhos que Comiam Carne”, estamos diante de um tema muito bem explorado por um cineasta igualmente produtivo, o americano Roger Corman que produziu e dirigiu em 1963, o clássico B, O Homem dos Olhos de Raio X, numa interpretação classe A de Ray Milland. Se você já viu este filme, poderá esperar do conto de Campos uma temática e – principalmente –, um desfecho parecido. Mesmo sendo um motivo a menos para se surpreender, o texto vale uma lida pela maneira própria e singular que o autor brasileiro concebe uma interpretação para a história.

E fecha a antologia um clássico do horror brasileiro, “Demônios”, de Aluísio Azevedo. De um escritor que é considerado um dos principais expoentes do Naturalismo li, nos tempos do Segundo Grau, dois de seus principais livros dentro desta vertente, O Mulato (1881) e O Cortiço (1890). E depois de tantos anos, me recordo do quanto fiquei impressionado especialmente d’O Cortiço, pela verossimilhança dos personagens e pelo esforço bem-sucedido de ambientação social realizada pelo autor.

Já neste conto, temos a inversão desta lógica naturalista. Os caminhos aqui se esvaem de explicações cartesianas, vislumbrando um ambiente sombrio, nada aprazível. Numa narrativa carregada fortemente de dramaticidade, temos a construção de um complexo e profundo pesadelo, com a inevitável – porém descartável –, ‘pegadinha’ no fim. De novo, aqui – e bem antes do ponto de vista histórico, diga-se –, temos mais uma variação do ‘mundo da escuridão’, onde se dá total e inexplicável ausência de luz. E há momentos marcantes, como a seqüência das transformações físicas, impressionando e causando um eficaz sense of horror.

Páginas de Sombra: Contos Fantásticos Brasileiros é uma antologia da melhor qualidade em seu conjunto, fazendo frente a uma dos mais difíceis desafios a toda antologia: equilibrar a qualidade média das histórias. Goste-se mais ou menos de um texto, mais ou menos de um autor, a concepção da obra atinge seus objetivos de passar uma idéia geral da história e das principais características do chamado ‘fantástico’ feito no Brasil.

Contudo, dois tipos de ausência chamam a atenção. Embora a seleção dos autores tenha sido, em geral, bastante criteriosa, causa espanto que dois autores maiúsculos da literatura brasileira não apareçam: José J. Veiga e Guimarães Rosa. Quero crer que Braulio Tavares os selecionou, o problema deve ter sido com os direitos autorais. Veiga é um prosador e contista do mais alto nível – e diretamente voltado ao fantástico – e Rosa, além de ser um dos grandes nomes da literatura brasileira de qualquer época, também exprimiu-se em histórias fantásticas a certa altura de sua carreira. Aliás, o próprio Braulio tem se encarregado de divulgar esta temática do autor, publicando ensaios em jornais e fanzines sobre o assunto.

A outra ausência é a de nenhum escritor do chamado fandom literário de ficção científica destes últimos 20 anos. Braulio Tavares até justificou, dizendo que inicialmente havia pensado em incluir um ou outro autor. Poderia, até para evitar o equívoco de incluir um conto ruim como “Íblis”, por exemplo. Duas boas histórias fantásticas que não fariam feio neste livro: “Aprendizado” (1993), de Carlos Orsi Martinho e “A Nuvem” (1993), de Ricardo Teixeira. Isso para não recomendar histórias do próprio Braulio, que ele já publicou ou poderia escrever. Fica para uma outra oportunidade uma nova versão desta antologia, que inclua os autores brasileiros contemporâneos voltados especificamente à ficção científica ou – de uma forma que soe melhor aos sensíveis ouvidos do mainstream – ao fantástico.


Marcello Simão Branco, co-autor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, é professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).
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Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro

Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro (Brazilian science fiction: Cultural myths and nationhood in the land of the future), M. Elizabeth Ginway. Editora Devir, São Paulo. Tradução de Roberto de Sousa Causo. Capa de Gastão Esteves sobre ilustração de Ionaldo Cavalcanti, 296 páginas.


Para agradável surpresa da comunidade brasileira de ficção científica, o livro Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro, da acadêmica americana M. Elisabeth ‘Libby’ Ginway foi publicado no país, pela editora Devir, apenas um ano depois de seu lançamento nos Estados Unidos.

De início o que mais chama a atenção é o fato de a primeira obra importante, com chancela acadêmica, sobre a ficção científica brasileira atual tenha vindo do exterior e não de um dos seus participantes ou da crítica literária brasileira. Isso só vem a reforçar o clichê de que não valorizamos o que é nosso e de que só passamos a fazê-lo a partir do momento que é reconhecido por alguém do exterior.

Certamente este comentário não se refere à comunidade de fãs e escritores de ficção científica brasileira, que vem lutando pelo gênero em sua atual fase há pouco mais de duas décadas. Em todo caso, o estudo de ‘Libby' Ginway, professora de literatura da Universidade da Flórida, em Gainesville, tem seus méritos próprios. Tanto pelo tema em si que nós é caro, como pela qualidade e competência mostrada na obra.

Ficção científica brasileira enfoca o gênero dos anos 60 para cá, justamente os períodos históricos em que a memória da comunidade brasileira dedicada ao gênero tem mais lembrança e contato com pessoas ainda vivas. Nesse sentido ele faz uma espécie de diálogo cronológico com o outro livro recente sobre o gênero, Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950, de Roberto de Sousa Causo, de 2003.

E sim, a vinculação entre as duas obras é, obviamente, temática e também cronológica. Pois os ângulos de abordagens analíticos são distintos. Causo estrutura sua obra nas influências históricas e culturais da ficção científica estrangeira para o desenvolvimento do começo dos gêneros no Brasil, estabelecendo um contato direto com a crítica e tradição literária nacional. Já Libby enfoca sua obra como meio de compreensão da ficção científica como um fenômeno cultural e antropológico, tornando mais claro algumas das motivações e símbolos da identidade brasileira e seus processos de transformação.

O livro está dividido basicamente em três grandes capítulos, mas a introdução e o epílogo também merecem a devida consideração, o primeiro por apresentar os conceitos e justificativas da obra e o segundo pelas perspectivas que aponta para o futuro do gênero no Brasil.

Assim, temos em “Introdução: Ficção científica, desenvolvimento e mitos de identidade cultural”, um texto que já vale como uma espécie de primeiro capítulo. Ela apresenta os temas de seu livro em suas linhas gerais, abordando a ficção científica brasileira primeiramente em torno de seus mitos nacionais, como o ‘paraíso tropical’, ‘democracia racial’, ‘um povo dócio e sensual’[1] e o país com seu “potencial de grandeza”, por ser “abençoado pela Natureza”.

A partir da exposição destas mitologias, procura contextualizar o quadro sociopolítico no qual a obra se insere, ou seja a partir dos anos 60, com a ditadura militar de 1964 a 1985 e o período atual de democracia que vivemos. Já aqui o foco principal é o processo de transformação social e tecnológica que o país viveu durante os últimos 40 anos, ou seja sua transformação do tradicional para o moderno, do rural para o urbano, do pessoal para o impessoal, do autoritário para o democrático, do mágico para o racional, em um caminho sempre feito de nuances e contradições tão próprio de um país desigual como o Brasil.

E dentro deste contexto cultural e social maior, sua abordagem prioriza a ficção científica como parte de um discurso que se refere às questões nacionais e de identidade, procurando entender como o gênero pode iluminar estes temas e ainda se relacionar com os paradigmas da ficção científica anglo-americana. É uma linha interpretativa que se ensaia como das mais interessantes no início da obra, abrindo várias possibilidades de análise para além do gênero em si, a conectando com estudos de um caráter mais sócio-cultural.

O primeiro capítulo aborda a chamada “Geração GRD”. Em “A ficção científica dos anos sessenta: Mitos culturais no país do futuro” temos a apresentação da chamada ‘emergência da ficção científica no Brasil’, com suas características, principais autores e obras.

Nos anos 60 a ficção científica brasileira tem um forte caráter humanista e anti-tecnológico, além de, segundo a autora, reforçar certas tradições da cultura brasileira e a posição periférica do país em relação ao Primeiro Mundo. Ela segue os passos do crítico americano Gary K. Wolfe, da revista Locus, a partir de sua obra The known and the unknown: The iconografy os science fiction (1979), procurando analisar as obras de ficção científica, a partir dos temas-chave mais abordados na época entre nós: o robô, o alienígena (humanóide e não-humanóide), mutantes, a espaçonave, a cidade e a terra devastada (wasteland) e como cada um deles pode ser interpretado tanto em comparação com o que fazem os americanos, como em relação com os mitos e identidades nacionais. Assim, de acordo com ela, “a preocupação com a identidade brasileira vista nessas primeiras histórias de ficção científica funciona como uma espécie de resistência contra a cultura da tecnologia, que é percebida como não-brasileira. Ao recorrer a esses mitos culturais, contudo, a ficção científica brasileira reduz a identidade nacional a uma série de estereótipos, revelando a feição conservadora da sociedade brasileira.” (na página 91).

Ainda com relação a este primeiro capítulo é pertinente observar que talvez tenha faltado explorar um pouco mais um possível paralelismo com a New Wave, bem como a falta de vínculo dos autores brasileiros com os temas e tradições da ficção científica anglo-americana. Talvez a partir daí, fosse possível entender melhor esta priorização anti-hard e mais voltada a assuntos sociais e psicológicos da ficção científica brasileira da época, ainda que, concordando com a autora, fosse mais resignada do que contestadora da ordem vigente no Brasil.

Já o segundo capítulo, “Ficção distópica brasileira: Protestos contra a repressão, a modernização e a degradação ambiental”, é especialmente interessante por dois motivos. Primeiro porque aborda o período do regime autoritário brasileiro (meados dos 60 a meados dos 80) do ponto-de-vista da literatura brasileira. E segundo porque expõe e analisa um conjunto de obras raramente considerados como pertencendo ao gênero pelos fãs e especialistas brasileiros do gênero.

É fato que a comunidade brasileira de ficção científica da década de 60 (“O Primeiro Fandom”), arrefeceu com as conseqüências políticas e sociais do golpe militar de 1964. Em termos históricos, talvez seja possível esticar a existência desta comunidade até, digamos, novembro de 1971 com a publicação da vigésima e última edição do Magazine de Ficção Científica, da editora Globo de Porto Alegre, pois esta revista[2] era comandada pelo escritor Jerônymo Monteiro, que falecera em junho de 1970. Assim, durante toda a década de 70 não houve – até onde se sabe nos dias de hoje – uma comunidade de fãs e escritores dedicados prioritariamente à ficção científica[3], que só voltaria a ocorrer no início dos anos 80.

Mas se não houve um movimento organizado tivemos escritores que dedicaram atenção à ficção científica, ainda que de maneira duplamente indireta. Primeiro porque não eram obras de ficção científica com temas tradicionais da ficção científica (como aqueles abordados nos anos 60), e segundo porque tais obras utilizaram o gênero de uma maneira instrumental, para servir aos seus objetivos metafóricos de crítica à ditadura militar.

Embora escritas por autores vinculados ao chamado mainstream, são obras de ficção científica e neste particular discordo em parte da autora, quando ela procura diferenciar o gênero como um todo de um subgênero, que seria de ‘ficção distópica’. Ela justifica a distinção, argumentando que na ficção científica os enredos têm mais ação e aventura, enquanto no subgênero distópico há menos ação real. Concordo aqui de forma genérica. Mas a seguir, cita o crítico Keith Booker, que afirma: “a ficção distópica difere da ficção científica na especificidade de sua atenção à crítica social e política” (página 93). Tudo bem, mas será que não há também em obras de ficção científica este mesmo apuro crítico? Romances representativos de ficção científica escritos por autores diretamente vinculados ao gênero põe em dúvida esta assertiva, como por exemplo, Mundos fechados (The world inside), de Robert Silverberg (1971), Identidade perdida (Flow my tears, the policeman said), de Philip K. Dick (1974) e Os despossuídos (The dispossessed), de Ursula K. Le Guin (1974). Aliás, como indicado nas datas, escritos na primeira metade dos anos 70, só que nos Estados Unidos. A meu ver são obras de ficção científica que discutem a fundo os problemas sociais e políticos de sua época, construindo visões de mundo distópicas.

Prefiro, então, considerar as obras escritas no Brasil nos anos 70 como ‘ficção científica distópica’. Na visão da autora elas têm um estilo mais elaborado do ponto de vista literário e procuram extrapolar criticamente alguns aspectos subjacentes do regime militar, como a repressão política e a censura, a modernização industrial intensa, além de problemas conseqüentes, como a superpopulação, a massificação e perda da identidade individual, o papel contraditório da mulher (emancipador e moralmente reprimido), além de problemas ecológicos graves.

Assim, há romances importantes que, com o lançamento de Ficção científica brasileira, devem ganhar uma atenção maior do leitor mais tradicional de ficção científica como, por exemplo, Fazenda modelo, de Chico Buarque (1974),  O fruto do vosso ventre, de Herberto Salles (1976), Adaptação do funcionário Ruam, de Mauro Chaves (1975), Um dia vamos rir disso tudo, de Maria Alice Barroso (1976), Asilo nas torres, de Ruth Bueno (1979), Umbra, de Plínio Cabral (1977) e Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981), autor que também tem analisado o conto “O homem que espalhou o deserto”, da coletânea Cadeiras proibidas (1977).

É provável que o conhecimento de obras como essas permitam uma maior abertura do leitor brasileiro de ficção científica com temas e/ou autores não diretamente vinculados ao gênero, abrindo o leque de opções e enriquecendo a compreensão do gênero em si, especialmente durante os ‘anos de chumbo’ de tão triste memória.

Para Lybby Ginway, de um modo geral, este conjunto de obras ‘distópicas’, contudo, a pretexto de criticar a situação social e política da época, terminam mais por reforçar os estereótipos nacionalistas elencados por ela na introdução de sua obra. E, observando de sua ótica feminina, tais obras colocariam a mulher numa situação mais paternalista, do que de emancipação de sua condição   subalterna na sociedade.

 O terceiro capítulo é o mais esperado, por nós contemporâneos deste período. Em “A geração pós-ditadura: Renovação, pós-modernidade e globalização”, a autora volta a se utilizar dos temas-chave mais escritos no período, como a ficção científica hard (ditadura e o legado do desenvolvimento), cyberpunk (crítica social ou novos mitos da identidade brasileira), robôs e computadores (examinando raça, classe e gênero), alienígenas (encontros alienígenas: reações brasileiras à globalização, com alienígenas invasores, alienígenas amigos e mentores, alienígenas enigmáticos), histórias alternativas e universos paralelos: herança do Brasil colonial, a mulher na ficção científica.

Esta geração das últimas duas décadas é conhecedora dos conceitos e principais obras e autores do cânone anglo-americano da ficção científica. Em sua maioria, são leitores ávidos do gênero que se transformaram em escritores trazendo, desta forma, uma bagagem ampla de leitura do gênero. Esta é uma das distinções desta geração, ao contrário das duas anteriores, de pouca leitura e identificação com o gênero em si – apesar de mais bagagem literária e cultural em geral. E, de acordo com Libby Ginway esta intimidade com o gênero, além do processo de modernização já estar adiantado em relação às décadas anteriores, permite a este conjunto de autores uma postura menos xenófoba em relação à ciência, rediscutindo os mitos da identidade nacional, de forma a atualizá-los e questioná-los, à luz da nova realidade política e social vivida pelo Brasil nos últimos do século XX.

Por este rol de assuntos e novas abordagens de aspectos da cultura nacional, bem se vê o quão complexo e diversificado tem sido, ao menos em termos temáticos, a ficção científica que ressurge na chamada ‘Segunda Onda’, nos primeiros anos dos anos 80.

Talvez por ser o capítulo que merece as maiores atenções, ao menos por um leitor-resenhador contemporâneo desta fase como eu, percebe-se a competência e a surpreendente sagacidade da autora, por aspectos e detalhes às vezes pouco notados – especialmente com respeito à crítica social das obras cyberpunks e da reconstrução crítica da História brasileira, a partir dos temas da história alternativa.

Sua análise merece destaque também pelo fato de que é feita por uma observadora “de fora”, equidistante e desapaixonada das polêmicas e problemas enfrentados no interior da ficção científica brasileira entre seus praticantes.

Suas análises, comparando aspectos da ficção científica dos anos 60 e também com a tradição anglo-americana chamam especialmente a atenção, pois mostram características instigantes do que ela nomeia de ‘ficção científica pós-ditadura’, a colocando a par com as profundas transformações políticas, sociais e tecnológicas vividas pelo Brasil. E também de como uma análise da perspectiva do ‘Outro’, ou seja de um país periférico – também na ficção científica –, pode ajudar a contrapor aspectos da própria ficção científica dominante, a anglo-americana.

Este capítulo é o texto mais importante já escrito sobre a atual geração da ficção científica brasileira. E, como apontei acima, por ser escrito por uma respeitada observadora estrangeira, lhe confere um status de centralidade muito bem-vindo em comparação com os textos por vezes competentes escritos pelos brasileiros, mas que perpassam o sentimento de inevitável influência e subjetividade de quem é observador e objeto ao mesmo tempo.

Para encerrar o livro, temos “Epílogo: O futuro da ficção científica brasileira”. A autora aborda alguns dos problemas centrais para um maior reconhecimento do gênero na literatura brasileira, acentuando seu caráter marginal, além do pouquíssimo espaço que lhe é conferido pelo mercado editorial.

Por estas dificuldades ela aponta que uma opção por uma ficção científica de maior apelo popular e de entretenimento seja uma saída mais rápida e ‘fácil' para uma maior aceitação de público do gênero. E, com esta observação, ela termina por adotar uma posição de relativo otimismo com respeito ao futuro do gênero do país.

Ao contrário, penso que esta opção recente por uma ficção científica mais pulp, superficial no tratamento de temas e personagens, com uma provável perda de melhora no estilo e na forma, aponta para um caminho de mais dificuldade, no qual à pretexto de se aproximar de um mercado que lhe é refratário, o gênero deixe de ter o papel crítico instigante por ela apontado em algumas das obras mais representativas destes anos 80 e 90, e ainda perca a oportunidade de um maior reconhecimento crítico, ao se fiar nesta opção mais comercialesca, tendência visível entre alguns dos autores mais importantes nestes últimos anos.

É de se observar ainda que o recorte da autora, especialmente neste terceiro capítulo tem gerado uma certa polêmica, entre os poucos que leram seu livro. É óbvio que toda escolha é arbitrária e a autora tem o direito de fazer as suas, especialmente se amparadas por uma boa estrutura de argumentos e de metodologia, como o seu caso. Mas ao menos dois autores ausentes poderiam ter ganhado certo espaço em sua análise, como Fábio Fernandes e Carlos Orsi Martinho. O primeiro por suas histórias paranóicas e socialmente contestadoras, especialmente no plano individual dos personagens, o que atestaria sua análise interessante do homem pós-moderno, sem rumo e à procura de libertação das amarras sociais aos quais está preso. O segundo por sua interessante conexão intergêneros, mais especificamente, a ficção científica e o horror – este um gênero de raízes tão fundas na cultura popular brasileira –, e de como coloca de forma competente uma vertente mais aventuresca do gênero. Mesmo que, seja oportuno ponderar, estes dos autores estejam recaindo demais nos aspectos ‘pulpescos’, que critiquei no parágrafo anterior, nos últimos anos.

Em suma, a obra não faz uma crítica literária no sentido estrito, ou seja, não analisa os aspectos formais, mas sim o conteúdo, os temas das histórias ficcionais. E esta análise temática sempre está remetidas às comparações da ficção científica brasileira com as principais tradições do gênero, a dos Estados Unidos e da Inglaterra. Mas o alcance não termina aí. Num meritório e competente esforço de análise social e cultural, o livro leva os temas das histórias de ficção científica a uma relação com a identidade histórica, de um viés, diria antropológico, de compreensão do ser brasileiro, de como ele se comporta e sua visão de mundo a partir de seu país.

E a partir deste ponto, procura entender como a ficção científica brasileira dialoga e reflete em torno da transformação do mundo tradicional para o moderno, com a ascensão da ciência e da tecnologia na vida cotidiana e no destino futuro da sociedade brasileira. Assim, o livro faz uma leitura instigante e particular não só da ficção científica com olhar brasileiro mas, e principalmente, das luzes que o gênero lança sobre a compreensão da identidade e da cultura brasileira, e de como eles também vão se modificando ao longo da história do país.

O trabalho chama a atenção também por não se fiar às tradições da ficção científica em si, isto é, não ser um estudo hermético, auto-referente às concepções do gênero em termos comparados. Esta linha, vá lá, até é apresentada, mas dentro do panorama maior de entender as transformações da sociedade brasileira, de um ponto de vista, mais multicultural.

A revista americana Locus, de fevereiro de 2005, incluiu Ficção científica brasileira entre os principais lançamentos na área de ‘não-ficção’ nos Estados Unidos em 2004. Isso é um sinal de que a obra chamou a atennção também no principal mercado produtor e consumidor do gênero no mundo. E é mais um indicativo de que o lançamento desta obra no Brasil é um acontecimento importante para a compreensão do gênero, mesmo que o livro tenha recebido uma atenção crítica muito pequena dos meios acadêmicos e jornalísticos brasileiros, o que só mostra o quanto o gênero ainda tem de percorrer para ser reconhecido entre nós.

Marcello Simão Branco, co-autor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, é professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

[1] Aqui estabelecendo referência ao conceito de “homem cordial”, do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em sua obra-prima Raízes do Brasil (1936). (voltar)
[2] Versão brasileira de The Magazine of Fantasy & Science Fiction, uma das principais da literatura norte-americana de ficção científica e fantasia. (voltar)
[3] Emblemático deste fato é o título do artigo seminal do escritor Fausto Cunha, “Ficção científica brasileira: um planeta quase desabitado”, publicado dentro do livro No mundo da ficção científica, de L. David Allen, de 1977. (voltar)