quarta-feira, outubro 16, 2013

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Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro

Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro (Brazilian science fiction: Cultural myths and nationhood in the land of the future), M. Elizabeth Ginway. Editora Devir, São Paulo. Tradução de Roberto de Sousa Causo. Capa de Gastão Esteves sobre ilustração de Ionaldo Cavalcanti, 296 páginas.


Para agradável surpresa da comunidade brasileira de ficção científica, o livro Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro, da acadêmica americana M. Elisabeth ‘Libby’ Ginway foi publicado no país, pela editora Devir, apenas um ano depois de seu lançamento nos Estados Unidos.

De início o que mais chama a atenção é o fato de a primeira obra importante, com chancela acadêmica, sobre a ficção científica brasileira atual tenha vindo do exterior e não de um dos seus participantes ou da crítica literária brasileira. Isso só vem a reforçar o clichê de que não valorizamos o que é nosso e de que só passamos a fazê-lo a partir do momento que é reconhecido por alguém do exterior.

Certamente este comentário não se refere à comunidade de fãs e escritores de ficção científica brasileira, que vem lutando pelo gênero em sua atual fase há pouco mais de duas décadas. Em todo caso, o estudo de ‘Libby' Ginway, professora de literatura da Universidade da Flórida, em Gainesville, tem seus méritos próprios. Tanto pelo tema em si que nós é caro, como pela qualidade e competência mostrada na obra.

Ficção científica brasileira enfoca o gênero dos anos 60 para cá, justamente os períodos históricos em que a memória da comunidade brasileira dedicada ao gênero tem mais lembrança e contato com pessoas ainda vivas. Nesse sentido ele faz uma espécie de diálogo cronológico com o outro livro recente sobre o gênero, Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950, de Roberto de Sousa Causo, de 2003.

E sim, a vinculação entre as duas obras é, obviamente, temática e também cronológica. Pois os ângulos de abordagens analíticos são distintos. Causo estrutura sua obra nas influências históricas e culturais da ficção científica estrangeira para o desenvolvimento do começo dos gêneros no Brasil, estabelecendo um contato direto com a crítica e tradição literária nacional. Já Libby enfoca sua obra como meio de compreensão da ficção científica como um fenômeno cultural e antropológico, tornando mais claro algumas das motivações e símbolos da identidade brasileira e seus processos de transformação.

O livro está dividido basicamente em três grandes capítulos, mas a introdução e o epílogo também merecem a devida consideração, o primeiro por apresentar os conceitos e justificativas da obra e o segundo pelas perspectivas que aponta para o futuro do gênero no Brasil.

Assim, temos em “Introdução: Ficção científica, desenvolvimento e mitos de identidade cultural”, um texto que já vale como uma espécie de primeiro capítulo. Ela apresenta os temas de seu livro em suas linhas gerais, abordando a ficção científica brasileira primeiramente em torno de seus mitos nacionais, como o ‘paraíso tropical’, ‘democracia racial’, ‘um povo dócio e sensual’[1] e o país com seu “potencial de grandeza”, por ser “abençoado pela Natureza”.

A partir da exposição destas mitologias, procura contextualizar o quadro sociopolítico no qual a obra se insere, ou seja a partir dos anos 60, com a ditadura militar de 1964 a 1985 e o período atual de democracia que vivemos. Já aqui o foco principal é o processo de transformação social e tecnológica que o país viveu durante os últimos 40 anos, ou seja sua transformação do tradicional para o moderno, do rural para o urbano, do pessoal para o impessoal, do autoritário para o democrático, do mágico para o racional, em um caminho sempre feito de nuances e contradições tão próprio de um país desigual como o Brasil.

E dentro deste contexto cultural e social maior, sua abordagem prioriza a ficção científica como parte de um discurso que se refere às questões nacionais e de identidade, procurando entender como o gênero pode iluminar estes temas e ainda se relacionar com os paradigmas da ficção científica anglo-americana. É uma linha interpretativa que se ensaia como das mais interessantes no início da obra, abrindo várias possibilidades de análise para além do gênero em si, a conectando com estudos de um caráter mais sócio-cultural.

O primeiro capítulo aborda a chamada “Geração GRD”. Em “A ficção científica dos anos sessenta: Mitos culturais no país do futuro” temos a apresentação da chamada ‘emergência da ficção científica no Brasil’, com suas características, principais autores e obras.

Nos anos 60 a ficção científica brasileira tem um forte caráter humanista e anti-tecnológico, além de, segundo a autora, reforçar certas tradições da cultura brasileira e a posição periférica do país em relação ao Primeiro Mundo. Ela segue os passos do crítico americano Gary K. Wolfe, da revista Locus, a partir de sua obra The known and the unknown: The iconografy os science fiction (1979), procurando analisar as obras de ficção científica, a partir dos temas-chave mais abordados na época entre nós: o robô, o alienígena (humanóide e não-humanóide), mutantes, a espaçonave, a cidade e a terra devastada (wasteland) e como cada um deles pode ser interpretado tanto em comparação com o que fazem os americanos, como em relação com os mitos e identidades nacionais. Assim, de acordo com ela, “a preocupação com a identidade brasileira vista nessas primeiras histórias de ficção científica funciona como uma espécie de resistência contra a cultura da tecnologia, que é percebida como não-brasileira. Ao recorrer a esses mitos culturais, contudo, a ficção científica brasileira reduz a identidade nacional a uma série de estereótipos, revelando a feição conservadora da sociedade brasileira.” (na página 91).

Ainda com relação a este primeiro capítulo é pertinente observar que talvez tenha faltado explorar um pouco mais um possível paralelismo com a New Wave, bem como a falta de vínculo dos autores brasileiros com os temas e tradições da ficção científica anglo-americana. Talvez a partir daí, fosse possível entender melhor esta priorização anti-hard e mais voltada a assuntos sociais e psicológicos da ficção científica brasileira da época, ainda que, concordando com a autora, fosse mais resignada do que contestadora da ordem vigente no Brasil.

Já o segundo capítulo, “Ficção distópica brasileira: Protestos contra a repressão, a modernização e a degradação ambiental”, é especialmente interessante por dois motivos. Primeiro porque aborda o período do regime autoritário brasileiro (meados dos 60 a meados dos 80) do ponto-de-vista da literatura brasileira. E segundo porque expõe e analisa um conjunto de obras raramente considerados como pertencendo ao gênero pelos fãs e especialistas brasileiros do gênero.

É fato que a comunidade brasileira de ficção científica da década de 60 (“O Primeiro Fandom”), arrefeceu com as conseqüências políticas e sociais do golpe militar de 1964. Em termos históricos, talvez seja possível esticar a existência desta comunidade até, digamos, novembro de 1971 com a publicação da vigésima e última edição do Magazine de Ficção Científica, da editora Globo de Porto Alegre, pois esta revista[2] era comandada pelo escritor Jerônymo Monteiro, que falecera em junho de 1970. Assim, durante toda a década de 70 não houve – até onde se sabe nos dias de hoje – uma comunidade de fãs e escritores dedicados prioritariamente à ficção científica[3], que só voltaria a ocorrer no início dos anos 80.

Mas se não houve um movimento organizado tivemos escritores que dedicaram atenção à ficção científica, ainda que de maneira duplamente indireta. Primeiro porque não eram obras de ficção científica com temas tradicionais da ficção científica (como aqueles abordados nos anos 60), e segundo porque tais obras utilizaram o gênero de uma maneira instrumental, para servir aos seus objetivos metafóricos de crítica à ditadura militar.

Embora escritas por autores vinculados ao chamado mainstream, são obras de ficção científica e neste particular discordo em parte da autora, quando ela procura diferenciar o gênero como um todo de um subgênero, que seria de ‘ficção distópica’. Ela justifica a distinção, argumentando que na ficção científica os enredos têm mais ação e aventura, enquanto no subgênero distópico há menos ação real. Concordo aqui de forma genérica. Mas a seguir, cita o crítico Keith Booker, que afirma: “a ficção distópica difere da ficção científica na especificidade de sua atenção à crítica social e política” (página 93). Tudo bem, mas será que não há também em obras de ficção científica este mesmo apuro crítico? Romances representativos de ficção científica escritos por autores diretamente vinculados ao gênero põe em dúvida esta assertiva, como por exemplo, Mundos fechados (The world inside), de Robert Silverberg (1971), Identidade perdida (Flow my tears, the policeman said), de Philip K. Dick (1974) e Os despossuídos (The dispossessed), de Ursula K. Le Guin (1974). Aliás, como indicado nas datas, escritos na primeira metade dos anos 70, só que nos Estados Unidos. A meu ver são obras de ficção científica que discutem a fundo os problemas sociais e políticos de sua época, construindo visões de mundo distópicas.

Prefiro, então, considerar as obras escritas no Brasil nos anos 70 como ‘ficção científica distópica’. Na visão da autora elas têm um estilo mais elaborado do ponto de vista literário e procuram extrapolar criticamente alguns aspectos subjacentes do regime militar, como a repressão política e a censura, a modernização industrial intensa, além de problemas conseqüentes, como a superpopulação, a massificação e perda da identidade individual, o papel contraditório da mulher (emancipador e moralmente reprimido), além de problemas ecológicos graves.

Assim, há romances importantes que, com o lançamento de Ficção científica brasileira, devem ganhar uma atenção maior do leitor mais tradicional de ficção científica como, por exemplo, Fazenda modelo, de Chico Buarque (1974),  O fruto do vosso ventre, de Herberto Salles (1976), Adaptação do funcionário Ruam, de Mauro Chaves (1975), Um dia vamos rir disso tudo, de Maria Alice Barroso (1976), Asilo nas torres, de Ruth Bueno (1979), Umbra, de Plínio Cabral (1977) e Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981), autor que também tem analisado o conto “O homem que espalhou o deserto”, da coletânea Cadeiras proibidas (1977).

É provável que o conhecimento de obras como essas permitam uma maior abertura do leitor brasileiro de ficção científica com temas e/ou autores não diretamente vinculados ao gênero, abrindo o leque de opções e enriquecendo a compreensão do gênero em si, especialmente durante os ‘anos de chumbo’ de tão triste memória.

Para Lybby Ginway, de um modo geral, este conjunto de obras ‘distópicas’, contudo, a pretexto de criticar a situação social e política da época, terminam mais por reforçar os estereótipos nacionalistas elencados por ela na introdução de sua obra. E, observando de sua ótica feminina, tais obras colocariam a mulher numa situação mais paternalista, do que de emancipação de sua condição   subalterna na sociedade.

 O terceiro capítulo é o mais esperado, por nós contemporâneos deste período. Em “A geração pós-ditadura: Renovação, pós-modernidade e globalização”, a autora volta a se utilizar dos temas-chave mais escritos no período, como a ficção científica hard (ditadura e o legado do desenvolvimento), cyberpunk (crítica social ou novos mitos da identidade brasileira), robôs e computadores (examinando raça, classe e gênero), alienígenas (encontros alienígenas: reações brasileiras à globalização, com alienígenas invasores, alienígenas amigos e mentores, alienígenas enigmáticos), histórias alternativas e universos paralelos: herança do Brasil colonial, a mulher na ficção científica.

Esta geração das últimas duas décadas é conhecedora dos conceitos e principais obras e autores do cânone anglo-americano da ficção científica. Em sua maioria, são leitores ávidos do gênero que se transformaram em escritores trazendo, desta forma, uma bagagem ampla de leitura do gênero. Esta é uma das distinções desta geração, ao contrário das duas anteriores, de pouca leitura e identificação com o gênero em si – apesar de mais bagagem literária e cultural em geral. E, de acordo com Libby Ginway esta intimidade com o gênero, além do processo de modernização já estar adiantado em relação às décadas anteriores, permite a este conjunto de autores uma postura menos xenófoba em relação à ciência, rediscutindo os mitos da identidade nacional, de forma a atualizá-los e questioná-los, à luz da nova realidade política e social vivida pelo Brasil nos últimos do século XX.

Por este rol de assuntos e novas abordagens de aspectos da cultura nacional, bem se vê o quão complexo e diversificado tem sido, ao menos em termos temáticos, a ficção científica que ressurge na chamada ‘Segunda Onda’, nos primeiros anos dos anos 80.

Talvez por ser o capítulo que merece as maiores atenções, ao menos por um leitor-resenhador contemporâneo desta fase como eu, percebe-se a competência e a surpreendente sagacidade da autora, por aspectos e detalhes às vezes pouco notados – especialmente com respeito à crítica social das obras cyberpunks e da reconstrução crítica da História brasileira, a partir dos temas da história alternativa.

Sua análise merece destaque também pelo fato de que é feita por uma observadora “de fora”, equidistante e desapaixonada das polêmicas e problemas enfrentados no interior da ficção científica brasileira entre seus praticantes.

Suas análises, comparando aspectos da ficção científica dos anos 60 e também com a tradição anglo-americana chamam especialmente a atenção, pois mostram características instigantes do que ela nomeia de ‘ficção científica pós-ditadura’, a colocando a par com as profundas transformações políticas, sociais e tecnológicas vividas pelo Brasil. E também de como uma análise da perspectiva do ‘Outro’, ou seja de um país periférico – também na ficção científica –, pode ajudar a contrapor aspectos da própria ficção científica dominante, a anglo-americana.

Este capítulo é o texto mais importante já escrito sobre a atual geração da ficção científica brasileira. E, como apontei acima, por ser escrito por uma respeitada observadora estrangeira, lhe confere um status de centralidade muito bem-vindo em comparação com os textos por vezes competentes escritos pelos brasileiros, mas que perpassam o sentimento de inevitável influência e subjetividade de quem é observador e objeto ao mesmo tempo.

Para encerrar o livro, temos “Epílogo: O futuro da ficção científica brasileira”. A autora aborda alguns dos problemas centrais para um maior reconhecimento do gênero na literatura brasileira, acentuando seu caráter marginal, além do pouquíssimo espaço que lhe é conferido pelo mercado editorial.

Por estas dificuldades ela aponta que uma opção por uma ficção científica de maior apelo popular e de entretenimento seja uma saída mais rápida e ‘fácil' para uma maior aceitação de público do gênero. E, com esta observação, ela termina por adotar uma posição de relativo otimismo com respeito ao futuro do gênero do país.

Ao contrário, penso que esta opção recente por uma ficção científica mais pulp, superficial no tratamento de temas e personagens, com uma provável perda de melhora no estilo e na forma, aponta para um caminho de mais dificuldade, no qual à pretexto de se aproximar de um mercado que lhe é refratário, o gênero deixe de ter o papel crítico instigante por ela apontado em algumas das obras mais representativas destes anos 80 e 90, e ainda perca a oportunidade de um maior reconhecimento crítico, ao se fiar nesta opção mais comercialesca, tendência visível entre alguns dos autores mais importantes nestes últimos anos.

É de se observar ainda que o recorte da autora, especialmente neste terceiro capítulo tem gerado uma certa polêmica, entre os poucos que leram seu livro. É óbvio que toda escolha é arbitrária e a autora tem o direito de fazer as suas, especialmente se amparadas por uma boa estrutura de argumentos e de metodologia, como o seu caso. Mas ao menos dois autores ausentes poderiam ter ganhado certo espaço em sua análise, como Fábio Fernandes e Carlos Orsi Martinho. O primeiro por suas histórias paranóicas e socialmente contestadoras, especialmente no plano individual dos personagens, o que atestaria sua análise interessante do homem pós-moderno, sem rumo e à procura de libertação das amarras sociais aos quais está preso. O segundo por sua interessante conexão intergêneros, mais especificamente, a ficção científica e o horror – este um gênero de raízes tão fundas na cultura popular brasileira –, e de como coloca de forma competente uma vertente mais aventuresca do gênero. Mesmo que, seja oportuno ponderar, estes dos autores estejam recaindo demais nos aspectos ‘pulpescos’, que critiquei no parágrafo anterior, nos últimos anos.

Em suma, a obra não faz uma crítica literária no sentido estrito, ou seja, não analisa os aspectos formais, mas sim o conteúdo, os temas das histórias ficcionais. E esta análise temática sempre está remetidas às comparações da ficção científica brasileira com as principais tradições do gênero, a dos Estados Unidos e da Inglaterra. Mas o alcance não termina aí. Num meritório e competente esforço de análise social e cultural, o livro leva os temas das histórias de ficção científica a uma relação com a identidade histórica, de um viés, diria antropológico, de compreensão do ser brasileiro, de como ele se comporta e sua visão de mundo a partir de seu país.

E a partir deste ponto, procura entender como a ficção científica brasileira dialoga e reflete em torno da transformação do mundo tradicional para o moderno, com a ascensão da ciência e da tecnologia na vida cotidiana e no destino futuro da sociedade brasileira. Assim, o livro faz uma leitura instigante e particular não só da ficção científica com olhar brasileiro mas, e principalmente, das luzes que o gênero lança sobre a compreensão da identidade e da cultura brasileira, e de como eles também vão se modificando ao longo da história do país.

O trabalho chama a atenção também por não se fiar às tradições da ficção científica em si, isto é, não ser um estudo hermético, auto-referente às concepções do gênero em termos comparados. Esta linha, vá lá, até é apresentada, mas dentro do panorama maior de entender as transformações da sociedade brasileira, de um ponto de vista, mais multicultural.

A revista americana Locus, de fevereiro de 2005, incluiu Ficção científica brasileira entre os principais lançamentos na área de ‘não-ficção’ nos Estados Unidos em 2004. Isso é um sinal de que a obra chamou a atennção também no principal mercado produtor e consumidor do gênero no mundo. E é mais um indicativo de que o lançamento desta obra no Brasil é um acontecimento importante para a compreensão do gênero, mesmo que o livro tenha recebido uma atenção crítica muito pequena dos meios acadêmicos e jornalísticos brasileiros, o que só mostra o quanto o gênero ainda tem de percorrer para ser reconhecido entre nós.

Marcello Simão Branco, co-autor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, é professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

[1] Aqui estabelecendo referência ao conceito de “homem cordial”, do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em sua obra-prima Raízes do Brasil (1936). (voltar)
[2] Versão brasileira de The Magazine of Fantasy & Science Fiction, uma das principais da literatura norte-americana de ficção científica e fantasia. (voltar)
[3] Emblemático deste fato é o título do artigo seminal do escritor Fausto Cunha, “Ficção científica brasileira: um planeta quase desabitado”, publicado dentro do livro No mundo da ficção científica, de L. David Allen, de 1977. (voltar)

terça-feira, outubro 15, 2013

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Um clássico da ficção científica brasileira

Rubens Teixeira Scavone (1925-2007) foi o mais erudito dos autores brasileiros de ficção científica e um dos pioneiros do gênero no país. Ele foi autor do romance O homem que viu o disco voador (1958), possivelmente o mais bem sucedido livro da fc brasileira, e da antologia O diálogo dos mundos (1963), entre outros trabalhos. Scavone recebeu o prestigioso Prêmio Jabuti em 1973 pelo romance mainstream Clube de campo e presidiu a Academia Paulista de Letras por vários mandatos.
Apaixonado pela literatura inglesa, Scavone  foi buscar inspiração no clássico Contos de Cantebury, de Geoffrey Chaucer, escrito há mais de 600 anos, para produzir o seu melhor livro: O 31º peregrino, publicado pela primeira vez em 1993 pela editora Estação Liberdade, com ilustrações de Giselda Leirner.
Trata-se de uma história significativa em termos humanos e emocionais. Tocante e de estilo incomum que, através de um instrumental exclusivamente léxico, transporta o leitor para seis séculos no passado com uma eficiência rara. Ainda mais porque não segue os parâmetros protocolares da fc convencional. As descrições são ligeiras e não há muitas explicações para situar o leitor. Toda a ambientação emana do estilo rebuscado, que lança mão de uma infinidade de palavras desusadas. Esse estilo, com um quê de barroco, pode parecer estranho ao leitor moderno, mas se deve a escolha do autor que se faz passar pelo próprio Chaucer.
Contos de Cantebury relata as histórias de trinta peregrinos (entre eles, o próprio Chaucer) a caminho da Catedral de Cantebury, ao sul de Londres, onde o santificado Arcebispo Becket foi imolado pelos cavaleiros de Henrique II. Cada um dos romeiros assume um arquétipo social e por ele é batizado. Por isso os personagens não têm nomes, mas classificações: o Pároco, o Padre da Freira, o Frade Mendicante, o Monge, a Prioresa, a Mulher de Bath, o Tecelão, o Tapeceiro e o Tintureiro (que formam uma trindade importante na narrativa de Scavone), o Mercador, o Vendedor de Indulgências, o Estudante de Oxford, o Cozinheiro, o Carpinteiro, o Magistrado, o Cavaleiro, o Escudeiro, o Moleiro, o Cônego e seu Criado, o Médico, o Provedor, o Lavrador, a Freira, o Homem do Mar, o Feitor, o Proprietário Rural, o Beleguim e o Estalajadeiro.
Scavone aproveita a narrativa para fazer considerações muito interessantes sobre o Roteiro dos Peregrinos (há um mapa do mesmo na quarta capa do livro, desenhado por James Scavone) que guarda ligações com a mitologia de São Tiago e, por sua vez, remete aos primórdios de outro caminho de peregrinação, Santiago de Compostela, com uma surpreendente explicação da origem desse termo que justifica perfeitamente a releitura fantástica que Scavone dá a obra de Chaucer.
Chaucer/Scavone conta a história de um até então não citado trigésimo primeiro peregrino, que se une aos romeiros a meio caminho. Trata-se da Mulher Grávida, cujo estado parece ter relação com o sobrenatural e alarma os peregrinos católicos que, naturalmente, são muito supersticiosos.
A história relatada pela Mulher Grávida é, em si, uma jóia do horror gótico medieval, que reporta aos clássicos do sobrenatural que formam o caldeirão no qual foram cozidos todos os gêneros fantásticos modernos.
Entretanto, O 31º peregrino é uma novela de fc. É claro que, para ser classificada assim, há que se encontrar nela algum componente explícito do gênero, e ele surge à altura devida, quando a Mulher Grávida abandona o grupo durante a noite e vai encontrar seu destino, que é testemunhado pelo narrador Chaucer/Scavone. Mas isso é menos importante que os conflitos humanos que emanam das relações entre os arquétipos definidos por Chaucer e das elucubrações filosóficas, históricas e sociológicas do autor/personagem.
O livro ainda guarda muitas outras qualidades. É uma novela que mergulha no cristianismo e dele faz um discurso ambivalente. Se o afirma ou o rejeita, fica ao leitor a responsabilidade por decidir.
O 31º peregrino está entre os melhores textos da fc brasileira, ao lado de "A escuridão", de André Carneiro, e A hora dos ruminantes, de José J. Veiga, e, como tais, é leitura obrigatória para aqueles que apreciam a literatura fantástica brasileira e querem experimentar seus limites.

quinta-feira, outubro 10, 2013

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As furtivas pegadas da serpente

A ficção científica lusitana tem, inegavelmente, um padrão muito elegante e criativo. Os autores portugueses de fc&f que chegaram a publicação em seu país e aos quais tivemos acesso no Brasil, demonstram que há por lá uma vigorosa escola estilística, além de uma preocupação detalhista com a qualidade do seus escritos.
Dentre esses autores portugueses, e não são poucos, destaca-se a obra de António de Macedo, que há muitos anos logra colocar seus trabalhos nas estantes das livrarias portuguesas. Macedo tem uma carreira sólida no cinema, com nada menos que onze longas-metragens realizados, além de muitos curtas, telefilmes e séries para a TV. São seus, além de vários volumes com ensaios e peças teatrais, oito livros de fc&f, coletâneas e romances que trafegam por todos os gêneros fantásticos com igual desenvoltura, tais como O limite de Rudzki (contos, 1992), Contos do Androthélys (romance, 1993), Sulphira &Lucyphur (romance, 1995), A sonata de cristal (romance, 1996), Erotosofia (romance, 1998) e O cipreste apaixonado (contos, 2000), os dois últimos já resenhados neste blogue.
Estudioso da história portuguesa e das artes esotéricas da alquimia, Macedo aproveita toda a sua experiência para dar às suas criações um conteúdo diversificado e saboroso, no qual não se encontra qualquer descaso para com a originalidade dos enredos, a profundidade dos personagens e a qualidade literária. Não há lugar para  clichês na narração de Macedo, que demonstra não necessitar dos famosos "Protocolos de FC&F" que tanto deslumbram a maioria dos autores iniciantes - e alguns dos experientes também. As furtivas pegadas da serpente (Caminho, 2004) é, também, um trabalho emocionante e original.
O romance conta duas histórias paralelas e intercaladas. Uma mostra o dia a dia de uma equipe de filmagem a preparar um longa-metragem de ficção histórica, que é justamente a segunda história que se enlaça a primeira, sobre os dias de arrependimento do santo Frei Gil de Santarém - o médico e fidalgo Dom Gil Rodrigues – que viveu no Século XIII.
A lenda conta que esse católico fervoroso teve um passado herético, devasso e libertino, e teria em sua juventude feito um trato com o demônio, do qual se arrependeu mais tarde, atingindo dessa forma a santidade. Macedo sugere que foi o mito de Frei Gil, contado pelo Frei Batazar de São João em 1537, que inspirou o escritor alemão Goethe no seu clássico Fausto, escrito alguns séculos mais tarde e, por sua vez, também baseado na mitologia de um homem real, o Dr. Johann Faustus, que viveu no Século XVI.
Apropriando-se assim do mito faustiano, Macedo reconstrói os dias de arrependimento de Gil Rodrigues, a enfrentar os fantasmas de seu passado e a pessoa do demônio a atormentar-lhe. Além disso, tem que encarar a Santa Inquisição, que dá seus primeiros passos para eliminar a concorrência na Europa e está de olho em D. Gil, por conta de seu passado obscuro e seu inconveniente conhecimento alquímico.
Mas é a história da filmagem que de fato conduz a narrativa objetiva do romance. A roteirista Acácia é casada com Orlando, o diretor do filme e com quem Acácia digladia-se na elaboração dos personagens. Ele padece de esgotamento progressivo, na ânsia de atingir em sua criação artística os detalhes fugazes e transcendentais que lhe vão no espírito indeciso. Enquanto isso, os atores que representam os personagens no filme, incorporando o caráter de seus papéis, aprofundam ainda mais o conflito do casal levando-o a um impasse também no seu relacionamento íntimo.
As histórias não chegam a se concluir e não vão satisfazer o leitor mais acostumado com a fc&f de entretenimento, em que tudo se explica, o culpado é o mordomo etc. Não há veredito final, não saberemos de que forma o casal de artistas vai superar e conviver posteriormente aos acontecimentos dessa jornada, tampouco como teria sido a sequência da vida de Gil Rodrigues. São janelas abertas para o leitor ponderar.
António aproveita toda a sua capacidade como escritor e pesquisador na elaboração desta trama, que envolve magia, alquimia, história, filosofia, romance, drama e a sempre presente tragicomédia humana. Tudo é muito bem elaborado em se tratando de uma reconstrução épica, sobre a qual o autor mantém vigilante autocrítica na figura de uma personagem do staff  cinematográfico, uma especialista em história medieval que continuamente apresenta suas discordâncias com relação às soluções adotadas por Orlando na elaboração de seu filme, num curioso efeito metalinguístico.
As furtivas pegadas da serpente colabora com elementos valiosos para a construção de uma fc&f lusófona original, revelando o medievalismo ibérico que mal foi aproveitado pelos autores de ambos os lados do Atlântico.
Sem falar no enorme prazer que é reencontrar o modelo original da língua portuguesa, tão sofisticada e elegante, que dá um sabor especial a qualquer narrativa. O autor preocupou-se em me fornecer em privado uma chave para a tradução dos termos técnicos de cinema usados em Portugal, mas nem precisei dela, tudo é perfeitamente legível e há muitos mais pontos de identificação do que de estranhamento, o que reforça a tese que não é absolutamente necessário, quando da publicação no Brasil, "traduzir" o português lusitano para o brasileiro. Do jeito que é, está perfeito.

terça-feira, outubro 01, 2013

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Uma tentativa parcialmente bem sucedida para criar uma FC genuinamente portuguesa

Quatro Andamentos é dos tais títulos que nada dizem do conteúdo dos livros, além de tratar-se de uma coletânea de quatro histórias (neste caso, um conto, duas noveletas e uma novela) para as quais o autor não foi capaz de encontrar um elemento unificador suficientemente relevante para merecer um título genérico mais evocativo, nem achou que uma das histórias merecia o suficiente ser destacada das demais para atribuir o seu título ao conjunto.

Mas até há um fio condutor para estas quatro histórias. Há a voz do autor, claro, mas mais qualquer coisa. Uma tentativa, talvez deliberada, talvez fruto de algum acaso, para fazer uma ficção científica realmente portuguesa, com tudo o que isso tem de bom e também de mau. Uma das poucas, diga-se, visto que a ficção científica portuguesa se compraz em geral em transpor para a nossa língua e raramente para a nossa realidade temas e trejeitos típicos da FC anglo-saxónica (e tome-se aqui o termo "ficção científica" no seu sentido mais restritivo, visto que no fantástico e na fantasia as coisas são um pouco diferentes).

Basta isso para dar ao livro de Luís Richheimer de Sequeira um lugar muito próprio na FC nacional.

Mas no fim de todas as histórias, o que conta são os resultados. E há que admitir que aqui os resultados não são propriamente brilhantes.

O livro abre com a história mais curta, com o estranho título de «III». Trata-se de uma peça de FC clássica, ambientada num laboratório de investigação, parte civil, parte militar, onde se procura descobrir uma forma de tornar viável uma consciência artificial cibernética. Mas a realidade é que nas 26 páginas que o conto ocupa não se passa praticamente nada: como em muitas histórias semelhantes que nos vêm chegando pelo menos desde a golden age americana, aqui vamos descobrindo o que se passa, as motivações, as personagens, através de uma longa conversa que tem lugar entre os cientistas que desenvolvem o trabalho e um misterioso grupo que chega ao laboratório para proceder a uma inspeção. Não vemos acontecer nada: lemos apenas descrições. Só isso e apenas isso.

Na segunda história, Segunda Via, voltamos ao ambiente laboratorial, mas agora estamos num laboratório português de pesquisa em engenharia genética, que é contratado para um projeto militar da União Europeia que pretende investigar a possibilidade de reprogramar o cérebro humano. Nesta noveleta, no entanto, e ao contrário do que aconteceu no primeiro conto, o leitor segue, de facto, o desenrolar das coisas, deste o início até ao desenlace final em que nada é como se poderia supor à partida, muito embora continue a haver muita conversa, muita explicação técnica e muito pouca ação.

Depois vem a novela Ironias do Destino. Trata-se de uma história de primeiro contacto, que tem lugar entre uma nave portuguesa (chamada "D. Duarte II", o que faz supor que neste universo ficcional Portugal se teria tornado monárquico... e talvez com o atual pretendente no trono, por distópico que isso nos pareça) e uma misteriosa e extremamente avançada nave alienígena, em pleno hiperespaço. Embora lenta e semeada de apartes filosóficos e teológicos (o protagonista é o capelão da nave, um tal padre Dinis, que se vê vacilante na fé perante o que se vai desenrolando e a afirmação, por parte de uma das tripulantes, de que os alienígenas são anjos), trata-se de uma história bem construída e com um número de surpresas suficientemente elevado para prender a atenção do leitor.

A noveleta que encerra o volume, Terra Lusa, é talvez a melhor das quatro histórias. Irónica e politicamente incorreta, conta a história de um planeta situado perto da fronteira entre a área da galáxia colonizada pela Humanidade e uma área colonizada por uma espécie alienígena, os "bicharocos", com quem se prevê que a todo o momento rebente uma guerra. O planeta, originalmente chamado Omicron Seis, é atribuído para colonização à África Central mas com uma nação supervisora, que neste caso, e porque o planeta não interessa a mais ninguém, é Portugal. A primeira leva de colonos é assim composta por trinta mil africanos, dez mil portugueses e ainda outros dez mil... timorenses. E claro que as coisas começam por correr pessimamente, com declarações de independência pelos não-portugueses e um poder fraco e ineficiente mesmo nas zonas controladas pelo governador português da colónia, mas depois o espírito comercial que a lenda nacionalista atribui aos portugueses vem ao de cima e tudo entra nos eixos quase miraculosamente. Além do humor presente nesta noveleta, ela é interessante também por ser talvez o primeiro texto na FC portuguesa a reaproveitar algo do passado colonial do país para o projectar no futuro ou, até, para construir uma ficção científica em torno dele. Politicamente, os resultados são no mínimo dúbios, mas a tentativa é, em si mesma, interessante.

Em geral, o livro tem vários pecados. É muito lento, de tal modo que por vezes se torna aborrecido, todas as histórias são bastante clássicas quer na estrutura quer até, por vezes, nos temas, indo buscar referências a formas bastante antigas de olhar para a FC e de a produzir, e a qualidade do português tem algumas falhas. Mas estas acabam por ser naturais num primeiro livro, e os elementos de novidade que contém acabam por compensar parcialmente esses pecados. Pesando-se todos os prós e contras, chega-se à conclusão de que se trata de um livro que, embora nunca chegue a chegar sequer perto do estatuto de clássico, e embora nem seja propriamente bom, merece uma leitura por quem se interessa pela FC portuguesa.

Republicado, com alterações, de E-nigma (2005).

domingo, setembro 29, 2013

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A FC e a lusofonia

Sendo esta minha primeira colaboração para este blog, imaginei que seria oportuno escrever não propriamente sobre a FC lusófona, mas sobre alguns aspectos da relação entre FC e lusofonia. O mundo da FC é um universo em língua inglesa, entrelaçado ao nosso de portugueses e brasileiros, mas ao qual dificilmente temos acesso ativo. Somos apenas observadores, espectadores e compradores. Os mais empolgados tornam-se fãs, divulgadores, entusiastas, aficionados, e em última análise garotos-propaganda voluntários das editoras e dos estúdios. Mas é um mundo onde se fala língua inglesa, como o mundo do rock. Tudo circula e se energiza na ponte US/UK. O restante do mundo produz até coisas eventualmente do mesmo nível, mas ninguém fica sabendo. FC brasileira ou portuguesa é como rock turco ou argentino.

Para muitos leitores da minha geração a FC está inextricavelmente ligada à lusofonia, por obra e graça da Colecção Argonauta, que é um objeto de culto em nosso país. Devido a sua antiguidade, regularidade e escolha de títulos geralmente boa, impelia ao ato de colecionar propriamente dito. Conheci a Argonauta no número 55, Os Frutos Dourados do Sol de Bradbury, e daí em diante comecei a comprar tudo que encontrava pela frente. Isso fez com que para todos nós o vocabulário da ciência e da FC ficasse contaminado de protões, foguetões, fatos espaciais e outros termos portugueses.

A psicologia atual tem afirmado que textos literários de alto nível de estranheza (poesia surrealista dos anos 1920, por exemplo) fazem bem ao cérebro, certamente porque acionam todos os seus recursos para explicar o inexplicável. Os romances de FC da Argonauta eram cheios de palavras e construções estranhas que não sabíamos a quem atribuir, se aos portugueses, se aos nativos de Fomalhaut-450. Esse efeito de estranhamento verbal, essa sabotagem permanente das nossas categorias de pensamento consecutivo e de verbalização, esse ver-e-não-ver o que estava sendo dito, passou a fazer parte da FC. Voltei a ter essa sensação quando li a série do The Book of the New Sun de Gene Wolfe, cheio de arcaísmos preciosos e de termos inventados. Parecia um livro de Portugal traduzido ao inglês.

Essa prosa (fosse ela norte-americana, inglesa, não importa o quê) fazia da estranheza uma beleza a mais, como nesta inesquecível abertura de Ortog de Kurt Steiner (número 66 da Argonauta):

O sol acabava de desaparecer por de trás dos fetos arborescentes. Do humus subia um vapor onde turbilhonavam moscas douradas do tamanho da palma da mão.

Dâl parou junto de um alto sigilário. Olhou a névoa vinda das profundezas vegetais e baixou para o rosto a máscara nocturna de três aplicações. Avançou então para a lomba, em direcção ao ponto donde parecia vir o urro.
 
Se um indivíduo não é capaz de transpor um texto assim, jamais será leitor de FC. Quando li isto pela primeira vez, eu certamente não sabia o que eram “fetos arborescentes”, “humus”, “sigilário” (não sei até agora) e “lomba”. Pelo que me dizia respeito, bem poderiam ser invenções guimarãesrosianas do autor. Mas havia antes dessa questão a questão da sonoridade das palavras e do modo como pareciam fazer bem à frase, independentemente do que significavam.

E, para além desse impacto imediato de um jorro de palavras oscilando freneticamente entre o comum, o não-comum e o insólito total, havia o quê? As imagens poderosas da FC, feitas de palavras absolutamente anódinas: “moscas douradas do tamanho da palma da mão”, “máscara nocturna de três aplicações”. Duas expressões tipicamente FC, uma da natureza, outra da tecnologia, sendo uma delas fantástica mas capaz de ser evocada imediatamente, e a outra algo cuja natureza apenas se entremostra, deixando em aberto essas “três aplicações”, cuja natureza é um desse mil pequenos mistérios que um texto de FC vai semeando e em seguida respondendo, sem cessar. (Sem falar nesse “urro” que atrai o personagem: o perigo, o mistério, a consciência de uma ominosa presença.)

Um texto de FC brasileiro talvez traga um número semelhante de sustos e incertezas (e de eventual triunfo cognitivo ou prazer estético) a um leitor português. Porque são três, os idiomas que se misturam: os dois dos países e o do gênero.

Quem já traduziu FC do inglês para o português já deve ter experimentado uma frequente sensação de inadequação, de falta de sintonia entre dois vocabulários. Muitos termos compostos em inglês soam maravilhosamente, mas se transpomos diretamente seu sentido para nossa língua isso às vezes resulta numa fórmula impronunciável, ou pelo menos de aparência canhestra. Isso não quer dizer, porém, que boas saídas não podem ser encontradas. Gostaria de saber quem foi o primeiro a traduzir “bug-eyed monster” (“monstro de olhos de inseto”) por “monstro de olhos esbugalhados”, forma menos literalmente fiel mas mais auditiva e mais visual.

Se coçamos a cabeça e passamos uma noite em claro buscando um termo equivalente a “conceptual breakthrough” ou a “sense of wonder”, deveríamos dar nossa própria contribuição, com termos portugeses e brasileiros, para esse linguajar. Seria honroso termos um conceito cujo nome original – em português – fosse aceito pelo banco-de-dados do gênero, e tivesse que ser traduzido para a sua língua oficial. Não somente a ficção lusófona mas a crítica lusófona tem o direito, a possibilidade e o dever intelectual de contribuir com esse diálogo multicultural trazendo novas palavras e novas expressões.

sábado, setembro 28, 2013

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O cipreste apaixonado

O cipreste apaixonado é uma antologia de contos e novelas do escritor e cineasta português António de Macedo publicado em 2000 pela editora Caminho, de Lisboa.
Cinco trabalhos compõe o volume: "O cipreste apaixonado", "So long Clementine", "Senhoras partem tão tristes", "As baratas morrem de costas" e "Terminus Peripherium". Cada um deles tem seu próprio universo, variando em gênero e entonação, mas o estilo de Macedo dá conjunto a obra.
"O cipreste apaixonado" abre a antologia e toma quase a metade do volume. Conta a história misteriosa de uma jovem senhora chamada Natália, recém-divorciada, que se instala numa casa de campo antiga, mas bem cuidada, cercada por um jardim amplo e viçoso, com árvores centenárias e uma fonte algo tenebrosa. A história começa quando Natália decide consultar um amigo psicólogo e contar-lhe sobre alguns distúrbios que lhe assaltam, sonhos violentos e desenfreados que parecem seguir um padrão coerente. Uma vizinha, versada em artes místicas, também se interessa pelos surtos de Natália e as investigações vão levar todos os personagens a um torvelinho de forças poderosas descendentes de dramas antigos e alimentadas por terrores e tragédias ao longo dos tempos.
O segundo trabalho da antologia é "So long Clementine", a história mais aproximada da ficção científica, com uma curiosa estrutura pós-moderna. Não há uma introdução tradicional e a história começa em ação plena, com um casal humano em fuga desesperada por um complexo labiríntico árido e absolutamente escuro. Paredes nuas, chão metálico, escadarias gigantes, montanhas de esqueletos, becos sem saída e, a persegui-los, uma horda de monstros e máquinas de extermínio armada até os dentes, dos quais os fugitivos apenas escutam os sons aterrorizantes cada vez mais próximos. Aos poucos o panorama se descortina enquanto a fuga vai ficando mais e mais alucinante, com confrontos entre os fugitivos e seus algozes em escaramuças de tirar o fôlego.
A seguir aparece "Senhoras partem tão tristes", um conto delirante sobre um contato imediato que se emaranha com o drama romântico de um casal de cientistas numa viagem de automóvel. A cada corte narrativo, um novo panorama se abre, numa história enigmática. Viagem no tempo, espiritismo, multidimensionalismo, história alternativa e muitas outras explicações são sugeridas pelo autor.
A quarta história é "As baratas morrem de costas", sátira tecnofóbica narrada em primeira pessoa, na qual o que é aparentemente um cientista conta como o mundo acabou a partir do momento em que a humanidade instalou máquinas de viagem por teletransporte. Aconteceu que os corpos teletransportados perdiam a ligação com suas almas humanas no processo e estes eram tomados por demônios que passavam a realizar todo o tipo de coisas absurdas próprias dos demônios. O narrador da história conta que criou então um método alternativo que, ao realizar o transporte, substituía o ferro do sangue por cobre, impedindo a invasão demoníaca. Mas a substituição causou efeitos colaterais ainda mais indesejáveis. 
Fechando a antologia temos "Terminus Peripherium", versão revisada de um trabalho publicado na antologia bilíngue Inconsequências na periferia do império, de 1996. O conto usa da metalinguagem, mesclando duas narrativas: uma em terceira pessoa (a narrativa do autor) e outra em primeira pessoa, que é uma história que está sendo escrita pelo protagonista, autor profissional de histórias de terror pressionado pelo prazo de entrega. Mas a história começa a extrapolar e os personagens por ele imaginados começam a se materializar, rompendo a membrana que separa a realidade objetiva da imaginada.
Para contextualizar o fenômeno, Macedo distribui uma série de argumentos metafísicos através das falas de estudiosos que participam de um encontro periódico de especialistas no oculto, que soa muito parecido com certas reuniões de um outro tipo de especialistas. Metalinguagem dupla.
O cipreste apaixonado é um livro agradável, divertido e muito equilibrado: todos os contos são bons ou ótimos. O autor não assumiu o universo lovecraftiano, mas pode-se identificar sua influência na construção de alguns dos cenários e climas.
Um livro que eu recomendo, embora de aquisição difícil no Brasil.

sexta-feira, setembro 27, 2013

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Sobre juventude, inexperiência, ficção curta e oportunidades mal aproveitadas

Em 2003, um jovem de nome Nuno Neves atirou o barro à parede, arriscou-se a apanhar uma nega, e conseguiu publicar pela Presença, à época a mais importante editora portuguesa presente no mercado da FC, um romance relativamente curto a que deu o nome de O Sentido Latente. Um romance, pelo menos em teoria, de ficção científica.

Era iniciante nestas lides: nunca se tinha visto o seu nome por lado nenhum nos meios ligados à FC portuguesa, e a verdade é que nunca se voltou a ver. Do seu nome, a notícia que se tem vem de um punhado de traduções, de outro de ilustrações e de alguns textos ligados a sistemas de informação geográfica. Estranha mistura, dirão. Mas Nuno Neves é um nome razoavelmente comum em Portugal. Nada garante que tradutor, ilustrador e engenheiro sejam a mesma pessoa que um dia tentou escrever ficção científica.

Não, não me enganei. A palavra certa é mesmo tentou.

O Sentido Latente é um romance de estreia. Não só é um romance de estreia, como o seu autor era quando o escreveu muito novo, com tanta inexperiência como atrevimento. Ora, se o atrevimento é de saudar, se costuma ser construtivo, a inexperiência tem o desagradável hábito de levar a erros mais ou menos graves, de fazer estragos. E é precisamente isso que acontece com este livro. O Sentido Latente, mais do que um romance de ficção científica é um excelente exemplo do mal que faz escrever romances sem passar antes pelo tirocínio dos contos e aprender neles a gerir coisas tão fundamentais para um escritor como o ritmo narrativo e o desenvolvimento do enredo. Entre outras coisas.

Não me entendam mal: Nuno Neves é claramente talentoso. O problema básico deste livro não reside na ausência de talento, ou mesmo em alguma espécie de incapacidade no manuseio da língua portuguesa, pois se Neves não escreve particularmente bem naquilo que diz apenas respeito ao texto em si, também não escreve mal. Há ali algo de valioso, um potencial, e terá provavelmente sido por isso que conseguiu ser publicado. Mas a verdade é que o livro é mauzinho, revelando com demasiada clareza a verdura do autor, tanto na conceção da narrativa, como na parte ciencioficcional da história, como nos diálogos, como até numa grande confusão sobre qual é, afinal, o tema básico da história que pretende contar.

Se um autor pretende escrever ficção científica, não é bom restringir a FC a uma fina película superficial até pelo menos metade do livro, só começando depois disso a aprofundar mais o futurismo das ideias. Ou seja, não convém reduzir a FC a folclore algo incongruente, e para mais bastante antiquado, mostrando que Neves até pode ter tido algum contacto com a ficção científica através do cinema e da televisão, mas com toda a certeza não leu muitos livros do género antes de arregaçar as mangas para escrever o seu.

Se um autor pretende escrever histórias protagonizadas por investigadores policiais tarimbados e eficientes, os melhores disponíveis para investigações delicadas, não convém pô-los a falar como miúdos do secundário. Se o faz, não há credibilidade que resista. Porque a credibilidade das personagens começa no que fazem, mas logo depois vem o que dizem e como dizem o que dizem. Ninguém acreditaria num campónio analfabeto a recitar lírica camoniana, não é verdade? Pois polícias de topo a conversar como miúdos de 16 anos é parecido.

Para piorar as coisas, há questões graves com a estrutura narrativa, e deixemos para outras conversas o ritmo narrativo. Se o tema de um romance, aquilo que lhe confere o título, é um tal sentido latente e a sua natureza, é muito má ideia dedicar-lhe uma dúzia de páginas, se tanto, ocupando as outras duzentas com uma investigação policial sobre o assassínio do filho de um magnata da engenharia genética, sem que por um só momento sequer se sugira algo levemente relacionado com o suposto tema do livro. Ainda por cima, uma investigação policial feita quase inteiramente de conversas, quase desprovida de qualquer tipo de ação, o que não será um problema em si mesmo mas acaba por exacerbar as outras falhas.

Quanto mais romances destes leio mais firme se torna a minha convicção de que é absolutamente fundamental que os escritores que pretendem dedicar-se à FC comecem a treinar em ficção curta, porque só na ficção curta podem fazer experiências (e falhar, pois falhar é inevitável por maior que seja o talento com que se parte), dedicando a elas um investimento razoável de tempo e esforço. E mais firme se torna a minha convicção de que vale muito mais que as editoras invistam na publicação e os leitores na leitura de coletâneas, antologias, revistas ou contos individuais do que de romances como este. Especialmente os leitores. São eles o fulcro de tudo. São eles o mercado. E se houver mercado, as editoras vão atrás. Leiam contos. É melhor ler bons contos que maus romances.

Porque é isso que aqui temos: um mau romance. Um mau romance fruto do esforço honesto de um jovem talentoso, que nele terá certamente investido meses da sua vida e que, provavelmente, se queimou como escritor ao fazê-lo. E é pena. É sempre pena quando se perde talento. A Nuno Neves bastar-lhe-ia, julgo, escrever alguns contos, testar ideias, aprender a encadeá-las melhor em ficções curtas, pois os textos curtos simplificam a tarefa. E ouvir as pessoas a falar. Não os seus amigos da escola, mas as pessoas de outras idades e de outros ambientes sociais. Bastar-lhe-ia isso para poder desenvolver o talento que tem e produzir material válido para a FC portuguesa, ou talvez até para a literatura em geral.

Assim, tão depressa chegou como desapareceu, deixando para trás um mau romance. Duvido que ele próprio ache que valeu a pena.

Texto original, concebido a partir de notas deixadas na Lâmpada Mágica em 2009.