quinta-feira, outubro 10, 2013

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As furtivas pegadas da serpente

A ficção científica lusitana tem, inegavelmente, um padrão muito elegante e criativo. Os autores portugueses de fc&f que chegaram a publicação em seu país e aos quais tivemos acesso no Brasil, demonstram que há por lá uma vigorosa escola estilística, além de uma preocupação detalhista com a qualidade do seus escritos.
Dentre esses autores portugueses, e não são poucos, destaca-se a obra de António de Macedo, que há muitos anos logra colocar seus trabalhos nas estantes das livrarias portuguesas. Macedo tem uma carreira sólida no cinema, com nada menos que onze longas-metragens realizados, além de muitos curtas, telefilmes e séries para a TV. São seus, além de vários volumes com ensaios e peças teatrais, oito livros de fc&f, coletâneas e romances que trafegam por todos os gêneros fantásticos com igual desenvoltura, tais como O limite de Rudzki (contos, 1992), Contos do Androthélys (romance, 1993), Sulphira &Lucyphur (romance, 1995), A sonata de cristal (romance, 1996), Erotosofia (romance, 1998) e O cipreste apaixonado (contos, 2000), os dois últimos já resenhados neste blogue.
Estudioso da história portuguesa e das artes esotéricas da alquimia, Macedo aproveita toda a sua experiência para dar às suas criações um conteúdo diversificado e saboroso, no qual não se encontra qualquer descaso para com a originalidade dos enredos, a profundidade dos personagens e a qualidade literária. Não há lugar para  clichês na narração de Macedo, que demonstra não necessitar dos famosos "Protocolos de FC&F" que tanto deslumbram a maioria dos autores iniciantes - e alguns dos experientes também. As furtivas pegadas da serpente (Caminho, 2004) é, também, um trabalho emocionante e original.
O romance conta duas histórias paralelas e intercaladas. Uma mostra o dia a dia de uma equipe de filmagem a preparar um longa-metragem de ficção histórica, que é justamente a segunda história que se enlaça a primeira, sobre os dias de arrependimento do santo Frei Gil de Santarém - o médico e fidalgo Dom Gil Rodrigues – que viveu no Século XIII.
A lenda conta que esse católico fervoroso teve um passado herético, devasso e libertino, e teria em sua juventude feito um trato com o demônio, do qual se arrependeu mais tarde, atingindo dessa forma a santidade. Macedo sugere que foi o mito de Frei Gil, contado pelo Frei Batazar de São João em 1537, que inspirou o escritor alemão Goethe no seu clássico Fausto, escrito alguns séculos mais tarde e, por sua vez, também baseado na mitologia de um homem real, o Dr. Johann Faustus, que viveu no Século XVI.
Apropriando-se assim do mito faustiano, Macedo reconstrói os dias de arrependimento de Gil Rodrigues, a enfrentar os fantasmas de seu passado e a pessoa do demônio a atormentar-lhe. Além disso, tem que encarar a Santa Inquisição, que dá seus primeiros passos para eliminar a concorrência na Europa e está de olho em D. Gil, por conta de seu passado obscuro e seu inconveniente conhecimento alquímico.
Mas é a história da filmagem que de fato conduz a narrativa objetiva do romance. A roteirista Acácia é casada com Orlando, o diretor do filme e com quem Acácia digladia-se na elaboração dos personagens. Ele padece de esgotamento progressivo, na ânsia de atingir em sua criação artística os detalhes fugazes e transcendentais que lhe vão no espírito indeciso. Enquanto isso, os atores que representam os personagens no filme, incorporando o caráter de seus papéis, aprofundam ainda mais o conflito do casal levando-o a um impasse também no seu relacionamento íntimo.
As histórias não chegam a se concluir e não vão satisfazer o leitor mais acostumado com a fc&f de entretenimento, em que tudo se explica, o culpado é o mordomo etc. Não há veredito final, não saberemos de que forma o casal de artistas vai superar e conviver posteriormente aos acontecimentos dessa jornada, tampouco como teria sido a sequência da vida de Gil Rodrigues. São janelas abertas para o leitor ponderar.
António aproveita toda a sua capacidade como escritor e pesquisador na elaboração desta trama, que envolve magia, alquimia, história, filosofia, romance, drama e a sempre presente tragicomédia humana. Tudo é muito bem elaborado em se tratando de uma reconstrução épica, sobre a qual o autor mantém vigilante autocrítica na figura de uma personagem do staff  cinematográfico, uma especialista em história medieval que continuamente apresenta suas discordâncias com relação às soluções adotadas por Orlando na elaboração de seu filme, num curioso efeito metalinguístico.
As furtivas pegadas da serpente colabora com elementos valiosos para a construção de uma fc&f lusófona original, revelando o medievalismo ibérico que mal foi aproveitado pelos autores de ambos os lados do Atlântico.
Sem falar no enorme prazer que é reencontrar o modelo original da língua portuguesa, tão sofisticada e elegante, que dá um sabor especial a qualquer narrativa. O autor preocupou-se em me fornecer em privado uma chave para a tradução dos termos técnicos de cinema usados em Portugal, mas nem precisei dela, tudo é perfeitamente legível e há muitos mais pontos de identificação do que de estranhamento, o que reforça a tese que não é absolutamente necessário, quando da publicação no Brasil, "traduzir" o português lusitano para o brasileiro. Do jeito que é, está perfeito.

terça-feira, outubro 01, 2013

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Uma tentativa parcialmente bem sucedida para criar uma FC genuinamente portuguesa

Quatro Andamentos é dos tais títulos que nada dizem do conteúdo dos livros, além de tratar-se de uma coletânea de quatro histórias (neste caso, um conto, duas noveletas e uma novela) para as quais o autor não foi capaz de encontrar um elemento unificador suficientemente relevante para merecer um título genérico mais evocativo, nem achou que uma das histórias merecia o suficiente ser destacada das demais para atribuir o seu título ao conjunto.

Mas até há um fio condutor para estas quatro histórias. Há a voz do autor, claro, mas mais qualquer coisa. Uma tentativa, talvez deliberada, talvez fruto de algum acaso, para fazer uma ficção científica realmente portuguesa, com tudo o que isso tem de bom e também de mau. Uma das poucas, diga-se, visto que a ficção científica portuguesa se compraz em geral em transpor para a nossa língua e raramente para a nossa realidade temas e trejeitos típicos da FC anglo-saxónica (e tome-se aqui o termo "ficção científica" no seu sentido mais restritivo, visto que no fantástico e na fantasia as coisas são um pouco diferentes).

Basta isso para dar ao livro de Luís Richheimer de Sequeira um lugar muito próprio na FC nacional.

Mas no fim de todas as histórias, o que conta são os resultados. E há que admitir que aqui os resultados não são propriamente brilhantes.

O livro abre com a história mais curta, com o estranho título de «III». Trata-se de uma peça de FC clássica, ambientada num laboratório de investigação, parte civil, parte militar, onde se procura descobrir uma forma de tornar viável uma consciência artificial cibernética. Mas a realidade é que nas 26 páginas que o conto ocupa não se passa praticamente nada: como em muitas histórias semelhantes que nos vêm chegando pelo menos desde a golden age americana, aqui vamos descobrindo o que se passa, as motivações, as personagens, através de uma longa conversa que tem lugar entre os cientistas que desenvolvem o trabalho e um misterioso grupo que chega ao laboratório para proceder a uma inspeção. Não vemos acontecer nada: lemos apenas descrições. Só isso e apenas isso.

Na segunda história, Segunda Via, voltamos ao ambiente laboratorial, mas agora estamos num laboratório português de pesquisa em engenharia genética, que é contratado para um projeto militar da União Europeia que pretende investigar a possibilidade de reprogramar o cérebro humano. Nesta noveleta, no entanto, e ao contrário do que aconteceu no primeiro conto, o leitor segue, de facto, o desenrolar das coisas, deste o início até ao desenlace final em que nada é como se poderia supor à partida, muito embora continue a haver muita conversa, muita explicação técnica e muito pouca ação.

Depois vem a novela Ironias do Destino. Trata-se de uma história de primeiro contacto, que tem lugar entre uma nave portuguesa (chamada "D. Duarte II", o que faz supor que neste universo ficcional Portugal se teria tornado monárquico... e talvez com o atual pretendente no trono, por distópico que isso nos pareça) e uma misteriosa e extremamente avançada nave alienígena, em pleno hiperespaço. Embora lenta e semeada de apartes filosóficos e teológicos (o protagonista é o capelão da nave, um tal padre Dinis, que se vê vacilante na fé perante o que se vai desenrolando e a afirmação, por parte de uma das tripulantes, de que os alienígenas são anjos), trata-se de uma história bem construída e com um número de surpresas suficientemente elevado para prender a atenção do leitor.

A noveleta que encerra o volume, Terra Lusa, é talvez a melhor das quatro histórias. Irónica e politicamente incorreta, conta a história de um planeta situado perto da fronteira entre a área da galáxia colonizada pela Humanidade e uma área colonizada por uma espécie alienígena, os "bicharocos", com quem se prevê que a todo o momento rebente uma guerra. O planeta, originalmente chamado Omicron Seis, é atribuído para colonização à África Central mas com uma nação supervisora, que neste caso, e porque o planeta não interessa a mais ninguém, é Portugal. A primeira leva de colonos é assim composta por trinta mil africanos, dez mil portugueses e ainda outros dez mil... timorenses. E claro que as coisas começam por correr pessimamente, com declarações de independência pelos não-portugueses e um poder fraco e ineficiente mesmo nas zonas controladas pelo governador português da colónia, mas depois o espírito comercial que a lenda nacionalista atribui aos portugueses vem ao de cima e tudo entra nos eixos quase miraculosamente. Além do humor presente nesta noveleta, ela é interessante também por ser talvez o primeiro texto na FC portuguesa a reaproveitar algo do passado colonial do país para o projectar no futuro ou, até, para construir uma ficção científica em torno dele. Politicamente, os resultados são no mínimo dúbios, mas a tentativa é, em si mesma, interessante.

Em geral, o livro tem vários pecados. É muito lento, de tal modo que por vezes se torna aborrecido, todas as histórias são bastante clássicas quer na estrutura quer até, por vezes, nos temas, indo buscar referências a formas bastante antigas de olhar para a FC e de a produzir, e a qualidade do português tem algumas falhas. Mas estas acabam por ser naturais num primeiro livro, e os elementos de novidade que contém acabam por compensar parcialmente esses pecados. Pesando-se todos os prós e contras, chega-se à conclusão de que se trata de um livro que, embora nunca chegue a chegar sequer perto do estatuto de clássico, e embora nem seja propriamente bom, merece uma leitura por quem se interessa pela FC portuguesa.

Republicado, com alterações, de E-nigma (2005).

domingo, setembro 29, 2013

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A FC e a lusofonia

Sendo esta minha primeira colaboração para este blog, imaginei que seria oportuno escrever não propriamente sobre a FC lusófona, mas sobre alguns aspectos da relação entre FC e lusofonia. O mundo da FC é um universo em língua inglesa, entrelaçado ao nosso de portugueses e brasileiros, mas ao qual dificilmente temos acesso ativo. Somos apenas observadores, espectadores e compradores. Os mais empolgados tornam-se fãs, divulgadores, entusiastas, aficionados, e em última análise garotos-propaganda voluntários das editoras e dos estúdios. Mas é um mundo onde se fala língua inglesa, como o mundo do rock. Tudo circula e se energiza na ponte US/UK. O restante do mundo produz até coisas eventualmente do mesmo nível, mas ninguém fica sabendo. FC brasileira ou portuguesa é como rock turco ou argentino.

Para muitos leitores da minha geração a FC está inextricavelmente ligada à lusofonia, por obra e graça da Colecção Argonauta, que é um objeto de culto em nosso país. Devido a sua antiguidade, regularidade e escolha de títulos geralmente boa, impelia ao ato de colecionar propriamente dito. Conheci a Argonauta no número 55, Os Frutos Dourados do Sol de Bradbury, e daí em diante comecei a comprar tudo que encontrava pela frente. Isso fez com que para todos nós o vocabulário da ciência e da FC ficasse contaminado de protões, foguetões, fatos espaciais e outros termos portugueses.

A psicologia atual tem afirmado que textos literários de alto nível de estranheza (poesia surrealista dos anos 1920, por exemplo) fazem bem ao cérebro, certamente porque acionam todos os seus recursos para explicar o inexplicável. Os romances de FC da Argonauta eram cheios de palavras e construções estranhas que não sabíamos a quem atribuir, se aos portugueses, se aos nativos de Fomalhaut-450. Esse efeito de estranhamento verbal, essa sabotagem permanente das nossas categorias de pensamento consecutivo e de verbalização, esse ver-e-não-ver o que estava sendo dito, passou a fazer parte da FC. Voltei a ter essa sensação quando li a série do The Book of the New Sun de Gene Wolfe, cheio de arcaísmos preciosos e de termos inventados. Parecia um livro de Portugal traduzido ao inglês.

Essa prosa (fosse ela norte-americana, inglesa, não importa o quê) fazia da estranheza uma beleza a mais, como nesta inesquecível abertura de Ortog de Kurt Steiner (número 66 da Argonauta):

O sol acabava de desaparecer por de trás dos fetos arborescentes. Do humus subia um vapor onde turbilhonavam moscas douradas do tamanho da palma da mão.

Dâl parou junto de um alto sigilário. Olhou a névoa vinda das profundezas vegetais e baixou para o rosto a máscara nocturna de três aplicações. Avançou então para a lomba, em direcção ao ponto donde parecia vir o urro.
 
Se um indivíduo não é capaz de transpor um texto assim, jamais será leitor de FC. Quando li isto pela primeira vez, eu certamente não sabia o que eram “fetos arborescentes”, “humus”, “sigilário” (não sei até agora) e “lomba”. Pelo que me dizia respeito, bem poderiam ser invenções guimarãesrosianas do autor. Mas havia antes dessa questão a questão da sonoridade das palavras e do modo como pareciam fazer bem à frase, independentemente do que significavam.

E, para além desse impacto imediato de um jorro de palavras oscilando freneticamente entre o comum, o não-comum e o insólito total, havia o quê? As imagens poderosas da FC, feitas de palavras absolutamente anódinas: “moscas douradas do tamanho da palma da mão”, “máscara nocturna de três aplicações”. Duas expressões tipicamente FC, uma da natureza, outra da tecnologia, sendo uma delas fantástica mas capaz de ser evocada imediatamente, e a outra algo cuja natureza apenas se entremostra, deixando em aberto essas “três aplicações”, cuja natureza é um desse mil pequenos mistérios que um texto de FC vai semeando e em seguida respondendo, sem cessar. (Sem falar nesse “urro” que atrai o personagem: o perigo, o mistério, a consciência de uma ominosa presença.)

Um texto de FC brasileiro talvez traga um número semelhante de sustos e incertezas (e de eventual triunfo cognitivo ou prazer estético) a um leitor português. Porque são três, os idiomas que se misturam: os dois dos países e o do gênero.

Quem já traduziu FC do inglês para o português já deve ter experimentado uma frequente sensação de inadequação, de falta de sintonia entre dois vocabulários. Muitos termos compostos em inglês soam maravilhosamente, mas se transpomos diretamente seu sentido para nossa língua isso às vezes resulta numa fórmula impronunciável, ou pelo menos de aparência canhestra. Isso não quer dizer, porém, que boas saídas não podem ser encontradas. Gostaria de saber quem foi o primeiro a traduzir “bug-eyed monster” (“monstro de olhos de inseto”) por “monstro de olhos esbugalhados”, forma menos literalmente fiel mas mais auditiva e mais visual.

Se coçamos a cabeça e passamos uma noite em claro buscando um termo equivalente a “conceptual breakthrough” ou a “sense of wonder”, deveríamos dar nossa própria contribuição, com termos portugeses e brasileiros, para esse linguajar. Seria honroso termos um conceito cujo nome original – em português – fosse aceito pelo banco-de-dados do gênero, e tivesse que ser traduzido para a sua língua oficial. Não somente a ficção lusófona mas a crítica lusófona tem o direito, a possibilidade e o dever intelectual de contribuir com esse diálogo multicultural trazendo novas palavras e novas expressões.

sábado, setembro 28, 2013

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O cipreste apaixonado

O cipreste apaixonado é uma antologia de contos e novelas do escritor e cineasta português António de Macedo publicado em 2000 pela editora Caminho, de Lisboa.
Cinco trabalhos compõe o volume: "O cipreste apaixonado", "So long Clementine", "Senhoras partem tão tristes", "As baratas morrem de costas" e "Terminus Peripherium". Cada um deles tem seu próprio universo, variando em gênero e entonação, mas o estilo de Macedo dá conjunto a obra.
"O cipreste apaixonado" abre a antologia e toma quase a metade do volume. Conta a história misteriosa de uma jovem senhora chamada Natália, recém-divorciada, que se instala numa casa de campo antiga, mas bem cuidada, cercada por um jardim amplo e viçoso, com árvores centenárias e uma fonte algo tenebrosa. A história começa quando Natália decide consultar um amigo psicólogo e contar-lhe sobre alguns distúrbios que lhe assaltam, sonhos violentos e desenfreados que parecem seguir um padrão coerente. Uma vizinha, versada em artes místicas, também se interessa pelos surtos de Natália e as investigações vão levar todos os personagens a um torvelinho de forças poderosas descendentes de dramas antigos e alimentadas por terrores e tragédias ao longo dos tempos.
O segundo trabalho da antologia é "So long Clementine", a história mais aproximada da ficção científica, com uma curiosa estrutura pós-moderna. Não há uma introdução tradicional e a história começa em ação plena, com um casal humano em fuga desesperada por um complexo labiríntico árido e absolutamente escuro. Paredes nuas, chão metálico, escadarias gigantes, montanhas de esqueletos, becos sem saída e, a persegui-los, uma horda de monstros e máquinas de extermínio armada até os dentes, dos quais os fugitivos apenas escutam os sons aterrorizantes cada vez mais próximos. Aos poucos o panorama se descortina enquanto a fuga vai ficando mais e mais alucinante, com confrontos entre os fugitivos e seus algozes em escaramuças de tirar o fôlego.
A seguir aparece "Senhoras partem tão tristes", um conto delirante sobre um contato imediato que se emaranha com o drama romântico de um casal de cientistas numa viagem de automóvel. A cada corte narrativo, um novo panorama se abre, numa história enigmática. Viagem no tempo, espiritismo, multidimensionalismo, história alternativa e muitas outras explicações são sugeridas pelo autor.
A quarta história é "As baratas morrem de costas", sátira tecnofóbica narrada em primeira pessoa, na qual o que é aparentemente um cientista conta como o mundo acabou a partir do momento em que a humanidade instalou máquinas de viagem por teletransporte. Aconteceu que os corpos teletransportados perdiam a ligação com suas almas humanas no processo e estes eram tomados por demônios que passavam a realizar todo o tipo de coisas absurdas próprias dos demônios. O narrador da história conta que criou então um método alternativo que, ao realizar o transporte, substituía o ferro do sangue por cobre, impedindo a invasão demoníaca. Mas a substituição causou efeitos colaterais ainda mais indesejáveis. 
Fechando a antologia temos "Terminus Peripherium", versão revisada de um trabalho publicado na antologia bilíngue Inconsequências na periferia do império, de 1996. O conto usa da metalinguagem, mesclando duas narrativas: uma em terceira pessoa (a narrativa do autor) e outra em primeira pessoa, que é uma história que está sendo escrita pelo protagonista, autor profissional de histórias de terror pressionado pelo prazo de entrega. Mas a história começa a extrapolar e os personagens por ele imaginados começam a se materializar, rompendo a membrana que separa a realidade objetiva da imaginada.
Para contextualizar o fenômeno, Macedo distribui uma série de argumentos metafísicos através das falas de estudiosos que participam de um encontro periódico de especialistas no oculto, que soa muito parecido com certas reuniões de um outro tipo de especialistas. Metalinguagem dupla.
O cipreste apaixonado é um livro agradável, divertido e muito equilibrado: todos os contos são bons ou ótimos. O autor não assumiu o universo lovecraftiano, mas pode-se identificar sua influência na construção de alguns dos cenários e climas.
Um livro que eu recomendo, embora de aquisição difícil no Brasil.

sexta-feira, setembro 27, 2013

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Sobre juventude, inexperiência, ficção curta e oportunidades mal aproveitadas

Em 2003, um jovem de nome Nuno Neves atirou o barro à parede, arriscou-se a apanhar uma nega, e conseguiu publicar pela Presença, à época a mais importante editora portuguesa presente no mercado da FC, um romance relativamente curto a que deu o nome de O Sentido Latente. Um romance, pelo menos em teoria, de ficção científica.

Era iniciante nestas lides: nunca se tinha visto o seu nome por lado nenhum nos meios ligados à FC portuguesa, e a verdade é que nunca se voltou a ver. Do seu nome, a notícia que se tem vem de um punhado de traduções, de outro de ilustrações e de alguns textos ligados a sistemas de informação geográfica. Estranha mistura, dirão. Mas Nuno Neves é um nome razoavelmente comum em Portugal. Nada garante que tradutor, ilustrador e engenheiro sejam a mesma pessoa que um dia tentou escrever ficção científica.

Não, não me enganei. A palavra certa é mesmo tentou.

O Sentido Latente é um romance de estreia. Não só é um romance de estreia, como o seu autor era quando o escreveu muito novo, com tanta inexperiência como atrevimento. Ora, se o atrevimento é de saudar, se costuma ser construtivo, a inexperiência tem o desagradável hábito de levar a erros mais ou menos graves, de fazer estragos. E é precisamente isso que acontece com este livro. O Sentido Latente, mais do que um romance de ficção científica é um excelente exemplo do mal que faz escrever romances sem passar antes pelo tirocínio dos contos e aprender neles a gerir coisas tão fundamentais para um escritor como o ritmo narrativo e o desenvolvimento do enredo. Entre outras coisas.

Não me entendam mal: Nuno Neves é claramente talentoso. O problema básico deste livro não reside na ausência de talento, ou mesmo em alguma espécie de incapacidade no manuseio da língua portuguesa, pois se Neves não escreve particularmente bem naquilo que diz apenas respeito ao texto em si, também não escreve mal. Há ali algo de valioso, um potencial, e terá provavelmente sido por isso que conseguiu ser publicado. Mas a verdade é que o livro é mauzinho, revelando com demasiada clareza a verdura do autor, tanto na conceção da narrativa, como na parte ciencioficcional da história, como nos diálogos, como até numa grande confusão sobre qual é, afinal, o tema básico da história que pretende contar.

Se um autor pretende escrever ficção científica, não é bom restringir a FC a uma fina película superficial até pelo menos metade do livro, só começando depois disso a aprofundar mais o futurismo das ideias. Ou seja, não convém reduzir a FC a folclore algo incongruente, e para mais bastante antiquado, mostrando que Neves até pode ter tido algum contacto com a ficção científica através do cinema e da televisão, mas com toda a certeza não leu muitos livros do género antes de arregaçar as mangas para escrever o seu.

Se um autor pretende escrever histórias protagonizadas por investigadores policiais tarimbados e eficientes, os melhores disponíveis para investigações delicadas, não convém pô-los a falar como miúdos do secundário. Se o faz, não há credibilidade que resista. Porque a credibilidade das personagens começa no que fazem, mas logo depois vem o que dizem e como dizem o que dizem. Ninguém acreditaria num campónio analfabeto a recitar lírica camoniana, não é verdade? Pois polícias de topo a conversar como miúdos de 16 anos é parecido.

Para piorar as coisas, há questões graves com a estrutura narrativa, e deixemos para outras conversas o ritmo narrativo. Se o tema de um romance, aquilo que lhe confere o título, é um tal sentido latente e a sua natureza, é muito má ideia dedicar-lhe uma dúzia de páginas, se tanto, ocupando as outras duzentas com uma investigação policial sobre o assassínio do filho de um magnata da engenharia genética, sem que por um só momento sequer se sugira algo levemente relacionado com o suposto tema do livro. Ainda por cima, uma investigação policial feita quase inteiramente de conversas, quase desprovida de qualquer tipo de ação, o que não será um problema em si mesmo mas acaba por exacerbar as outras falhas.

Quanto mais romances destes leio mais firme se torna a minha convicção de que é absolutamente fundamental que os escritores que pretendem dedicar-se à FC comecem a treinar em ficção curta, porque só na ficção curta podem fazer experiências (e falhar, pois falhar é inevitável por maior que seja o talento com que se parte), dedicando a elas um investimento razoável de tempo e esforço. E mais firme se torna a minha convicção de que vale muito mais que as editoras invistam na publicação e os leitores na leitura de coletâneas, antologias, revistas ou contos individuais do que de romances como este. Especialmente os leitores. São eles o fulcro de tudo. São eles o mercado. E se houver mercado, as editoras vão atrás. Leiam contos. É melhor ler bons contos que maus romances.

Porque é isso que aqui temos: um mau romance. Um mau romance fruto do esforço honesto de um jovem talentoso, que nele terá certamente investido meses da sua vida e que, provavelmente, se queimou como escritor ao fazê-lo. E é pena. É sempre pena quando se perde talento. A Nuno Neves bastar-lhe-ia, julgo, escrever alguns contos, testar ideias, aprender a encadeá-las melhor em ficções curtas, pois os textos curtos simplificam a tarefa. E ouvir as pessoas a falar. Não os seus amigos da escola, mas as pessoas de outras idades e de outros ambientes sociais. Bastar-lhe-ia isso para poder desenvolver o talento que tem e produzir material válido para a FC portuguesa, ou talvez até para a literatura em geral.

Assim, tão depressa chegou como desapareceu, deixando para trás um mau romance. Duvido que ele próprio ache que valeu a pena.

Texto original, concebido a partir de notas deixadas na Lâmpada Mágica em 2009.

quarta-feira, setembro 25, 2013

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Ficções Científicas e Fantásticas


Edições Chimpanzé Intelectual

Portugal é um país inclemente para os fãs de Ficção Científica, com um panorama editorial de edições de obras traduzidas quase inexistente, salvo honrosas excepções, e um núcleo importante de bons autores nacionais de FC que vai publicando quando tem raras oportunidades. Resta ao amante da literatura que ousa pensar em frente limitar-se às edições estrangeiras, à importação de livros e correr para as livrarias sempre que surge algo de novo editado por editoras nacionais. O que, como bem sabemos, é raro, apesar dos esforços das comunidades de fãs e as suas inúmeras mas pontuais iniciativas.

Antologias de contos de FC são obras perfeitamente banais em mercados onde a FC assume importância comercial. Banais não pelos conteúdos mas pela elevada quantidade de obras disponíveis. Estas assumem muitas vezes o papel de divulgadoras de novos autores, reunindo obras de autores mais consagrados com contos de autores desconhecidos. Mas isso é noutros lados. Cá pelos nossos,sempre que alguma coisa nova sai para os escaparates até se lançam foguetes.

Editada em 2006 pela Chimpanzé Intelectual, a antologia Ficções Científicas e Fantásticas reúne contos de FC e Fantástico de autores portugueses, provando, mais uma vez, que existe uma vibrante comunidade de autores que se dedicam estoicamente à FC como forma de expressão literária. Fiel ao espírito das antologias, reúne contos de autores consagrados de FC e Fantástico com contos de outros autores, geralmente ligados às andanças de literaturas mais convencionais que para esta antologia deram uma mãozinha ou desencantaram experiências do fundo da gaveta.

Entre os autores que dedicam a sua carreira à literatura fantástica, destacam-se as excelentes contribuições de David Soares, o escatológico Allan Poe dos tempos contemporâneos portugueses, Luís Filipe Silva, cuja prosa concisa nunca deixa de me surpreender pela clareza, e João Barreiros, possivelmente o grande mestre da FC portuguesa, com os seus habituais maquiavelismos imaginativos. Autores menos conhecidos, como Miguel Vale de Almeida e Miguel Neto, mostram novas promessas da literatura fantástica nacional, talvez ainda a precisar de alguns acertos, mas a abrir o apetite para novas experiências. Já nas contribuições de autores ligados a outros géneros literários, nota-se um certo espírito leve que trai uma profunda falta de seriedade que se traduz uma abordagem light à literatura fantástica. Nota-se nos contos de Rui Zink e Clara Pinto Correia, e é perfeitamente assumida no puro nonsense de Manuel João Vieira. Surpreendeu a contribuição de Luísa Costa Gomes, uma autora que eu imaginava a anos-luz (trocadilho propositado) das literaturas fantásticas, com um conto assumido como uma juvenilia, etiqueta que caracteriza bem a percepção cultural sobre a literatura fantástica.

É talvez mal nacional este desinteresse pelo que ultrapassa a normalidade, nos faz pensar em frente, desperta a luxúria pelo futuro, que para passar do imaginário ao real só necessita da nossa vontade e engenho. É um estado de alma nacional, e não creio que chuvas de computadores ou programas governamentais de intervenção o possam, algum dia, mudar. Registos como o Ficções Científicas e Fantásticas ou outras obras semelhantes afirmam que em portugal ainda há vontade de fazer qualquer coisa diferente.

terça-feira, setembro 24, 2013

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Uma visita ao fecundo reino da mininarrativa portuguesa

Corria o ano de 1984, e a Rolim estava no segundo ano da sua Coleção Fantástico, uma coleção de livros quase sempre bastante curtos, onde se misturavam velhos clássicos do fantástico português, muitos deles republicados da Antologia do Conto Fantástico Português, com obras contemporâneas. O âmbito era o de um fantástico mais chegado ao mainstream, com pouca tolerância para coisas mais esquisitas. A ficção científica, por exemplo, praticamente não tinha nela lugar. Mas o insólito tinha, o surrealismo também, e uma certa espécie de horror igualmente.

É aí que se enquadra esta A Condecoração de Orlando Neves. Um livro finiho, apenas com 55 páginas, que apesar disso se subdividem em 20 pequenas histórias, com tamanhos entre o mini-conto e a vinheta. Mário-Henrique Leiria é nelas uma influência clara, quer no tocante à dimensão, quer no que diz respeito a toda a abordagem literária: o pendor pela ironia, o surrealismo de alguns deles, o macabro de outros (ou dos mesmos), o insólito. E Orlando Neves, que foi, na literatura portuguesa, mais poeta do que contista, não é tão bom. Mas vamos por partes.

Literalmente. Falemos dos contos, embora sem entrar em grandes detalhes.

A Condecoração começa com... A Condecoração, uma vinheta insólita e macabra sobre uma peculiar condecoração oferecida a um brigadeiro por feitos de bravura em combate. É um continho que consegue ser arrepiante. Segue-se A Caridade, outro conto insólito e macabro que faz lembrar o ambiente das coisas do João Seixas publicadas no E-nigma. Vem depois O Carteiro, mais um continho insólito, ainda que desta vez não muito macabro, que se debruça sobre um carteiro sem vida própria.

Na sucessão de histórias chega em seguida O Natal, um pequeno conto algo surrealista sobre a inversão de papéis humano/não-humano. Um conto bastante bem construído. Depois, O Homem Apressado é um conto surrealista com toques de horror sobre um homem que se vai devorando aos poucos a si mesmo. Um Bom Pai é outro conto com toques de horror sobre o regresso a casa de um pai de família psicologicamente pouco estável. E A Sombra, é um conto fantástico sobre a morte. Todas estas histórias estão bem conseguidas.

Segue-se O Asseio, um conto muito pequeno que consegue a proeza de ser ao mesmo tempo surrealista, macabro e divertidíssimo. Digo-vos apenas que é sobre um nariz. Isso mesmo: um nariz. Muito bom. Também bastante bom é Os Pés, mais um conto insólito e algo macabro sobre um homem que meteu na cabeça que iria arranjar maneira de se ver todo e completo ao mesmo tempo.

Depois chega O Espelho, uma variação bem concebida daquelas histórias em que o espelho não se comporta exatamente como é suposto. E As Luvas, um conto subversivo sobre um presidente arrivista de que não gostei grandemente, pois a comparação com Mário-Henrique Leiria é inevitável, e neste tipo de conto o Mário-Henrique é imbatível. Mas melhora logo: A Mãe é um conto fantástico e bastante bom sobre um homem de meia-idade que se vê de súbito transplantado para a infância.

Em seguida chega A Fuga, um conto brilhante, o melhor de todo o livro, entre o surrealista e o horror, sobre um condenado que foge da prisão de uma forma inédita. Apetece contá-lo, mas não é possível: cada bocadinho adicional de informação que seja dado é um pouco do impacto do conto que se perde.

O Comboio é surrealismo puro, mas não gostei muito: pareceu-me que a ideia exigia um texto maior, talvez com o dobro ou o triplo da extensão. Os Destroços, é um excelente conto de fantasmas, em que o horror (embora bem-humorado) se exerce não sobre quem os vê, como o cliché manda, mas sim sobre o próprio fantasma.

Daqui para a frente, infelizmente, a qualidade geral cai um pouco. Por outro lado, já só faltam cinco histórias.

O Telefone é a primeira dessas cinco; trata-se de um conto fantástico em que a personagem telefona (obviamente) e do lado de lá lhe responde alguém demasiado parecido consigo mesmo. Deste não gostei muito: achei-o demasiado previsível. Segue-se A Redução, mais um dos pequenos contos de Orlando Neves que se situam entre o horror, o fantástico e o surrealismo. Aqui vamos encontrar uma gravidez anormal, e, embora outros contos do livro sejam melhores, este também não é mau.

O Feliz Parto é um continho insólito sobre uma mulher cujas sucessivas gravidezes redundam sempre em abortos. Obsceno, o penúltimo conto do livro é também o maior, mesmo sem ultrapassar a dimensão de vinheta. Nele, um enviado do Vaticano comete um faux pas divertido num país de usos culturais muito peculiares. Ambos estes contos estão bem conseguidos, mas nenhum dos dois é tão bom como histórias anteriores. Por fim, O Homicídio é um pequeno conto fantástico e irónico que se lê bem mas não é nada do outro mundo.

Como se vê, A Condecoração é uma coletânea que contém alguns contos muito bons e é em geral uma boa leitura, apesar de fraquejar um pouco para o final, o que, em meu entender, é sintoma de deficiente organização dos contos, pois o impacto de um livro de contos também depende da forma como começa e acaba. Insere-se numa abordagem literária que tem dado muitos e bons frutos em Portugal, e que ainda hoje tem seguidores, embora talvez mais entre os escritores do que propriamente junto do público, que se mostra em geral avesso a contos e mais ainda, por maioria de razão, a contos muito curtos. Estes costumam mesmo ser mais apreciados pelo público de poesia do que pelo de prosa. E muitas vezes é pena, pois os escritores portugueses têm jeito para este tipo de coisa, e este livro é um bom exemplo. É divertido, é arrepiante, por vezes faz pensar, está bem escrito. O que há para não se gostar?

Texto original, baseado em notas deixadas na Lâmpada Mágica em 2008.