sábado, setembro 28, 2013

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O cipreste apaixonado

O cipreste apaixonado é uma antologia de contos e novelas do escritor e cineasta português António de Macedo publicado em 2000 pela editora Caminho, de Lisboa.
Cinco trabalhos compõe o volume: "O cipreste apaixonado", "So long Clementine", "Senhoras partem tão tristes", "As baratas morrem de costas" e "Terminus Peripherium". Cada um deles tem seu próprio universo, variando em gênero e entonação, mas o estilo de Macedo dá conjunto a obra.
"O cipreste apaixonado" abre a antologia e toma quase a metade do volume. Conta a história misteriosa de uma jovem senhora chamada Natália, recém-divorciada, que se instala numa casa de campo antiga, mas bem cuidada, cercada por um jardim amplo e viçoso, com árvores centenárias e uma fonte algo tenebrosa. A história começa quando Natália decide consultar um amigo psicólogo e contar-lhe sobre alguns distúrbios que lhe assaltam, sonhos violentos e desenfreados que parecem seguir um padrão coerente. Uma vizinha, versada em artes místicas, também se interessa pelos surtos de Natália e as investigações vão levar todos os personagens a um torvelinho de forças poderosas descendentes de dramas antigos e alimentadas por terrores e tragédias ao longo dos tempos.
O segundo trabalho da antologia é "So long Clementine", a história mais aproximada da ficção científica, com uma curiosa estrutura pós-moderna. Não há uma introdução tradicional e a história começa em ação plena, com um casal humano em fuga desesperada por um complexo labiríntico árido e absolutamente escuro. Paredes nuas, chão metálico, escadarias gigantes, montanhas de esqueletos, becos sem saída e, a persegui-los, uma horda de monstros e máquinas de extermínio armada até os dentes, dos quais os fugitivos apenas escutam os sons aterrorizantes cada vez mais próximos. Aos poucos o panorama se descortina enquanto a fuga vai ficando mais e mais alucinante, com confrontos entre os fugitivos e seus algozes em escaramuças de tirar o fôlego.
A seguir aparece "Senhoras partem tão tristes", um conto delirante sobre um contato imediato que se emaranha com o drama romântico de um casal de cientistas numa viagem de automóvel. A cada corte narrativo, um novo panorama se abre, numa história enigmática. Viagem no tempo, espiritismo, multidimensionalismo, história alternativa e muitas outras explicações são sugeridas pelo autor.
A quarta história é "As baratas morrem de costas", sátira tecnofóbica narrada em primeira pessoa, na qual o que é aparentemente um cientista conta como o mundo acabou a partir do momento em que a humanidade instalou máquinas de viagem por teletransporte. Aconteceu que os corpos teletransportados perdiam a ligação com suas almas humanas no processo e estes eram tomados por demônios que passavam a realizar todo o tipo de coisas absurdas próprias dos demônios. O narrador da história conta que criou então um método alternativo que, ao realizar o transporte, substituía o ferro do sangue por cobre, impedindo a invasão demoníaca. Mas a substituição causou efeitos colaterais ainda mais indesejáveis. 
Fechando a antologia temos "Terminus Peripherium", versão revisada de um trabalho publicado na antologia bilíngue Inconsequências na periferia do império, de 1996. O conto usa da metalinguagem, mesclando duas narrativas: uma em terceira pessoa (a narrativa do autor) e outra em primeira pessoa, que é uma história que está sendo escrita pelo protagonista, autor profissional de histórias de terror pressionado pelo prazo de entrega. Mas a história começa a extrapolar e os personagens por ele imaginados começam a se materializar, rompendo a membrana que separa a realidade objetiva da imaginada.
Para contextualizar o fenômeno, Macedo distribui uma série de argumentos metafísicos através das falas de estudiosos que participam de um encontro periódico de especialistas no oculto, que soa muito parecido com certas reuniões de um outro tipo de especialistas. Metalinguagem dupla.
O cipreste apaixonado é um livro agradável, divertido e muito equilibrado: todos os contos são bons ou ótimos. O autor não assumiu o universo lovecraftiano, mas pode-se identificar sua influência na construção de alguns dos cenários e climas.
Um livro que eu recomendo, embora de aquisição difícil no Brasil.

sexta-feira, setembro 27, 2013

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Sobre juventude, inexperiência, ficção curta e oportunidades mal aproveitadas

Em 2003, um jovem de nome Nuno Neves atirou o barro à parede, arriscou-se a apanhar uma nega, e conseguiu publicar pela Presença, à época a mais importante editora portuguesa presente no mercado da FC, um romance relativamente curto a que deu o nome de O Sentido Latente. Um romance, pelo menos em teoria, de ficção científica.

Era iniciante nestas lides: nunca se tinha visto o seu nome por lado nenhum nos meios ligados à FC portuguesa, e a verdade é que nunca se voltou a ver. Do seu nome, a notícia que se tem vem de um punhado de traduções, de outro de ilustrações e de alguns textos ligados a sistemas de informação geográfica. Estranha mistura, dirão. Mas Nuno Neves é um nome razoavelmente comum em Portugal. Nada garante que tradutor, ilustrador e engenheiro sejam a mesma pessoa que um dia tentou escrever ficção científica.

Não, não me enganei. A palavra certa é mesmo tentou.

O Sentido Latente é um romance de estreia. Não só é um romance de estreia, como o seu autor era quando o escreveu muito novo, com tanta inexperiência como atrevimento. Ora, se o atrevimento é de saudar, se costuma ser construtivo, a inexperiência tem o desagradável hábito de levar a erros mais ou menos graves, de fazer estragos. E é precisamente isso que acontece com este livro. O Sentido Latente, mais do que um romance de ficção científica é um excelente exemplo do mal que faz escrever romances sem passar antes pelo tirocínio dos contos e aprender neles a gerir coisas tão fundamentais para um escritor como o ritmo narrativo e o desenvolvimento do enredo. Entre outras coisas.

Não me entendam mal: Nuno Neves é claramente talentoso. O problema básico deste livro não reside na ausência de talento, ou mesmo em alguma espécie de incapacidade no manuseio da língua portuguesa, pois se Neves não escreve particularmente bem naquilo que diz apenas respeito ao texto em si, também não escreve mal. Há ali algo de valioso, um potencial, e terá provavelmente sido por isso que conseguiu ser publicado. Mas a verdade é que o livro é mauzinho, revelando com demasiada clareza a verdura do autor, tanto na conceção da narrativa, como na parte ciencioficcional da história, como nos diálogos, como até numa grande confusão sobre qual é, afinal, o tema básico da história que pretende contar.

Se um autor pretende escrever ficção científica, não é bom restringir a FC a uma fina película superficial até pelo menos metade do livro, só começando depois disso a aprofundar mais o futurismo das ideias. Ou seja, não convém reduzir a FC a folclore algo incongruente, e para mais bastante antiquado, mostrando que Neves até pode ter tido algum contacto com a ficção científica através do cinema e da televisão, mas com toda a certeza não leu muitos livros do género antes de arregaçar as mangas para escrever o seu.

Se um autor pretende escrever histórias protagonizadas por investigadores policiais tarimbados e eficientes, os melhores disponíveis para investigações delicadas, não convém pô-los a falar como miúdos do secundário. Se o faz, não há credibilidade que resista. Porque a credibilidade das personagens começa no que fazem, mas logo depois vem o que dizem e como dizem o que dizem. Ninguém acreditaria num campónio analfabeto a recitar lírica camoniana, não é verdade? Pois polícias de topo a conversar como miúdos de 16 anos é parecido.

Para piorar as coisas, há questões graves com a estrutura narrativa, e deixemos para outras conversas o ritmo narrativo. Se o tema de um romance, aquilo que lhe confere o título, é um tal sentido latente e a sua natureza, é muito má ideia dedicar-lhe uma dúzia de páginas, se tanto, ocupando as outras duzentas com uma investigação policial sobre o assassínio do filho de um magnata da engenharia genética, sem que por um só momento sequer se sugira algo levemente relacionado com o suposto tema do livro. Ainda por cima, uma investigação policial feita quase inteiramente de conversas, quase desprovida de qualquer tipo de ação, o que não será um problema em si mesmo mas acaba por exacerbar as outras falhas.

Quanto mais romances destes leio mais firme se torna a minha convicção de que é absolutamente fundamental que os escritores que pretendem dedicar-se à FC comecem a treinar em ficção curta, porque só na ficção curta podem fazer experiências (e falhar, pois falhar é inevitável por maior que seja o talento com que se parte), dedicando a elas um investimento razoável de tempo e esforço. E mais firme se torna a minha convicção de que vale muito mais que as editoras invistam na publicação e os leitores na leitura de coletâneas, antologias, revistas ou contos individuais do que de romances como este. Especialmente os leitores. São eles o fulcro de tudo. São eles o mercado. E se houver mercado, as editoras vão atrás. Leiam contos. É melhor ler bons contos que maus romances.

Porque é isso que aqui temos: um mau romance. Um mau romance fruto do esforço honesto de um jovem talentoso, que nele terá certamente investido meses da sua vida e que, provavelmente, se queimou como escritor ao fazê-lo. E é pena. É sempre pena quando se perde talento. A Nuno Neves bastar-lhe-ia, julgo, escrever alguns contos, testar ideias, aprender a encadeá-las melhor em ficções curtas, pois os textos curtos simplificam a tarefa. E ouvir as pessoas a falar. Não os seus amigos da escola, mas as pessoas de outras idades e de outros ambientes sociais. Bastar-lhe-ia isso para poder desenvolver o talento que tem e produzir material válido para a FC portuguesa, ou talvez até para a literatura em geral.

Assim, tão depressa chegou como desapareceu, deixando para trás um mau romance. Duvido que ele próprio ache que valeu a pena.

Texto original, concebido a partir de notas deixadas na Lâmpada Mágica em 2009.

quarta-feira, setembro 25, 2013

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Ficções Científicas e Fantásticas


Edições Chimpanzé Intelectual

Portugal é um país inclemente para os fãs de Ficção Científica, com um panorama editorial de edições de obras traduzidas quase inexistente, salvo honrosas excepções, e um núcleo importante de bons autores nacionais de FC que vai publicando quando tem raras oportunidades. Resta ao amante da literatura que ousa pensar em frente limitar-se às edições estrangeiras, à importação de livros e correr para as livrarias sempre que surge algo de novo editado por editoras nacionais. O que, como bem sabemos, é raro, apesar dos esforços das comunidades de fãs e as suas inúmeras mas pontuais iniciativas.

Antologias de contos de FC são obras perfeitamente banais em mercados onde a FC assume importância comercial. Banais não pelos conteúdos mas pela elevada quantidade de obras disponíveis. Estas assumem muitas vezes o papel de divulgadoras de novos autores, reunindo obras de autores mais consagrados com contos de autores desconhecidos. Mas isso é noutros lados. Cá pelos nossos,sempre que alguma coisa nova sai para os escaparates até se lançam foguetes.

Editada em 2006 pela Chimpanzé Intelectual, a antologia Ficções Científicas e Fantásticas reúne contos de FC e Fantástico de autores portugueses, provando, mais uma vez, que existe uma vibrante comunidade de autores que se dedicam estoicamente à FC como forma de expressão literária. Fiel ao espírito das antologias, reúne contos de autores consagrados de FC e Fantástico com contos de outros autores, geralmente ligados às andanças de literaturas mais convencionais que para esta antologia deram uma mãozinha ou desencantaram experiências do fundo da gaveta.

Entre os autores que dedicam a sua carreira à literatura fantástica, destacam-se as excelentes contribuições de David Soares, o escatológico Allan Poe dos tempos contemporâneos portugueses, Luís Filipe Silva, cuja prosa concisa nunca deixa de me surpreender pela clareza, e João Barreiros, possivelmente o grande mestre da FC portuguesa, com os seus habituais maquiavelismos imaginativos. Autores menos conhecidos, como Miguel Vale de Almeida e Miguel Neto, mostram novas promessas da literatura fantástica nacional, talvez ainda a precisar de alguns acertos, mas a abrir o apetite para novas experiências. Já nas contribuições de autores ligados a outros géneros literários, nota-se um certo espírito leve que trai uma profunda falta de seriedade que se traduz uma abordagem light à literatura fantástica. Nota-se nos contos de Rui Zink e Clara Pinto Correia, e é perfeitamente assumida no puro nonsense de Manuel João Vieira. Surpreendeu a contribuição de Luísa Costa Gomes, uma autora que eu imaginava a anos-luz (trocadilho propositado) das literaturas fantásticas, com um conto assumido como uma juvenilia, etiqueta que caracteriza bem a percepção cultural sobre a literatura fantástica.

É talvez mal nacional este desinteresse pelo que ultrapassa a normalidade, nos faz pensar em frente, desperta a luxúria pelo futuro, que para passar do imaginário ao real só necessita da nossa vontade e engenho. É um estado de alma nacional, e não creio que chuvas de computadores ou programas governamentais de intervenção o possam, algum dia, mudar. Registos como o Ficções Científicas e Fantásticas ou outras obras semelhantes afirmam que em portugal ainda há vontade de fazer qualquer coisa diferente.

terça-feira, setembro 24, 2013

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Uma visita ao fecundo reino da mininarrativa portuguesa

Corria o ano de 1984, e a Rolim estava no segundo ano da sua Coleção Fantástico, uma coleção de livros quase sempre bastante curtos, onde se misturavam velhos clássicos do fantástico português, muitos deles republicados da Antologia do Conto Fantástico Português, com obras contemporâneas. O âmbito era o de um fantástico mais chegado ao mainstream, com pouca tolerância para coisas mais esquisitas. A ficção científica, por exemplo, praticamente não tinha nela lugar. Mas o insólito tinha, o surrealismo também, e uma certa espécie de horror igualmente.

É aí que se enquadra esta A Condecoração de Orlando Neves. Um livro finiho, apenas com 55 páginas, que apesar disso se subdividem em 20 pequenas histórias, com tamanhos entre o mini-conto e a vinheta. Mário-Henrique Leiria é nelas uma influência clara, quer no tocante à dimensão, quer no que diz respeito a toda a abordagem literária: o pendor pela ironia, o surrealismo de alguns deles, o macabro de outros (ou dos mesmos), o insólito. E Orlando Neves, que foi, na literatura portuguesa, mais poeta do que contista, não é tão bom. Mas vamos por partes.

Literalmente. Falemos dos contos, embora sem entrar em grandes detalhes.

A Condecoração começa com... A Condecoração, uma vinheta insólita e macabra sobre uma peculiar condecoração oferecida a um brigadeiro por feitos de bravura em combate. É um continho que consegue ser arrepiante. Segue-se A Caridade, outro conto insólito e macabro que faz lembrar o ambiente das coisas do João Seixas publicadas no E-nigma. Vem depois O Carteiro, mais um continho insólito, ainda que desta vez não muito macabro, que se debruça sobre um carteiro sem vida própria.

Na sucessão de histórias chega em seguida O Natal, um pequeno conto algo surrealista sobre a inversão de papéis humano/não-humano. Um conto bastante bem construído. Depois, O Homem Apressado é um conto surrealista com toques de horror sobre um homem que se vai devorando aos poucos a si mesmo. Um Bom Pai é outro conto com toques de horror sobre o regresso a casa de um pai de família psicologicamente pouco estável. E A Sombra, é um conto fantástico sobre a morte. Todas estas histórias estão bem conseguidas.

Segue-se O Asseio, um conto muito pequeno que consegue a proeza de ser ao mesmo tempo surrealista, macabro e divertidíssimo. Digo-vos apenas que é sobre um nariz. Isso mesmo: um nariz. Muito bom. Também bastante bom é Os Pés, mais um conto insólito e algo macabro sobre um homem que meteu na cabeça que iria arranjar maneira de se ver todo e completo ao mesmo tempo.

Depois chega O Espelho, uma variação bem concebida daquelas histórias em que o espelho não se comporta exatamente como é suposto. E As Luvas, um conto subversivo sobre um presidente arrivista de que não gostei grandemente, pois a comparação com Mário-Henrique Leiria é inevitável, e neste tipo de conto o Mário-Henrique é imbatível. Mas melhora logo: A Mãe é um conto fantástico e bastante bom sobre um homem de meia-idade que se vê de súbito transplantado para a infância.

Em seguida chega A Fuga, um conto brilhante, o melhor de todo o livro, entre o surrealista e o horror, sobre um condenado que foge da prisão de uma forma inédita. Apetece contá-lo, mas não é possível: cada bocadinho adicional de informação que seja dado é um pouco do impacto do conto que se perde.

O Comboio é surrealismo puro, mas não gostei muito: pareceu-me que a ideia exigia um texto maior, talvez com o dobro ou o triplo da extensão. Os Destroços, é um excelente conto de fantasmas, em que o horror (embora bem-humorado) se exerce não sobre quem os vê, como o cliché manda, mas sim sobre o próprio fantasma.

Daqui para a frente, infelizmente, a qualidade geral cai um pouco. Por outro lado, já só faltam cinco histórias.

O Telefone é a primeira dessas cinco; trata-se de um conto fantástico em que a personagem telefona (obviamente) e do lado de lá lhe responde alguém demasiado parecido consigo mesmo. Deste não gostei muito: achei-o demasiado previsível. Segue-se A Redução, mais um dos pequenos contos de Orlando Neves que se situam entre o horror, o fantástico e o surrealismo. Aqui vamos encontrar uma gravidez anormal, e, embora outros contos do livro sejam melhores, este também não é mau.

O Feliz Parto é um continho insólito sobre uma mulher cujas sucessivas gravidezes redundam sempre em abortos. Obsceno, o penúltimo conto do livro é também o maior, mesmo sem ultrapassar a dimensão de vinheta. Nele, um enviado do Vaticano comete um faux pas divertido num país de usos culturais muito peculiares. Ambos estes contos estão bem conseguidos, mas nenhum dos dois é tão bom como histórias anteriores. Por fim, O Homicídio é um pequeno conto fantástico e irónico que se lê bem mas não é nada do outro mundo.

Como se vê, A Condecoração é uma coletânea que contém alguns contos muito bons e é em geral uma boa leitura, apesar de fraquejar um pouco para o final, o que, em meu entender, é sintoma de deficiente organização dos contos, pois o impacto de um livro de contos também depende da forma como começa e acaba. Insere-se numa abordagem literária que tem dado muitos e bons frutos em Portugal, e que ainda hoje tem seguidores, embora talvez mais entre os escritores do que propriamente junto do público, que se mostra em geral avesso a contos e mais ainda, por maioria de razão, a contos muito curtos. Estes costumam mesmo ser mais apreciados pelo público de poesia do que pelo de prosa. E muitas vezes é pena, pois os escritores portugueses têm jeito para este tipo de coisa, e este livro é um bom exemplo. É divertido, é arrepiante, por vezes faz pensar, está bem escrito. O que há para não se gostar?

Texto original, baseado em notas deixadas na Lâmpada Mágica em 2008.

sexta-feira, setembro 20, 2013

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Retrato de Barreiros enquanto verde autor

Mais de uma década antes de O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, o primeiro livro "oficial" de João Barreiros, e meia década antes de outro João, o Aniceto, ter inaugurado a edição de ficção científica de língua portuguesa na Caminho com o seu romance premiado, Os Caminhos Nunca Acabam, saía para as mãos de uma seleta coleção de amigos, conhecidos e, provavelmente, alguns desconhecidos, uma ediçãozinha de autor com 34 páginas, feitas numa tipografia situada na mui distópica Reboleira Sul, embrulhadas numa capa pavorosa a preto e branco e divididas em dois contos: O Funcionário e O Sindroma do Pai Natal.

O ano era 1977 e Duas Fábulas Tecnocráticas, assim se chama o livrinho, marca a modesta estreia de João Barreiros na FC portuguesa. Modesta porque a edição é mesmo muito modesta, praticamente ao nível do que hoje qualquer um poderia fazer em casa com um computador e uma impressora barata. Modesta também porque o estilo do autor ainda não estava, nessa época, inteiramente definido. E modesta, ainda, porque passou quase completamente despercebida.

Estes dois contos, no entanto, são leitura muito interessante, quer para quem seguiu a trajetória do autor nos anos 80 e, principalmente, 90, quer para quem ainda não leu nada dele e quer ficar com uma ideia esquemática e bastante pálida daquilo que pode encontrar nos escritos de Barreiros.

É que nestes contos vamos já encontrar, embora em forma ainda algo bruta, muito do Barreiros posterior. Em O Funcionário encontramos violência extrema em cenário distópico e urbano, ao seguirmos o percurso de um assassino psicopático que mata mulheres grávidas num ritmo frenético, sem que se saiba bem por que razão não é apanhado. A tentativa de chocar o leitor é deliberada e propositada, como em toda a obra subsequente do autor. Já se nota a tendência para a referenciação subtil de toda uma atmosfera cultural onde Barreiros bebe, na qual a ficção científica, da mais intelectual à mais trash, é central. Os diálogos já têm a fluidez e caráter genuíno que são imagem de marca do autor. E etc.

No segundo conto, além da hiperviolência e demais características de O Funcionário, vamos encontrar um tema aparentemente obsessivo em João Barreiros: a desconstrução subversiva de todos os mitos de infância. Neste conto, é o Pai Natal o sacrificado (à semelhança de um outro conto, Noite de Paz, curiosamente o conto de Barreiros que foi mais vezes traduzido e publicado lá fora). De novo (sempre) em cenário catastrófico, de uma distopia hiperviolenta e total, O Sindroma do Pai Natal põe a nu a crueldade das crianças, atacando de passagem, mas sem contemplações, as pedagogias "boazinhas" que tratam os miúdos como seres fundamentalmente doces, por entre "carrinhas de eutanásia" enlouquecidas (a fazer lembrar o cliché das carrinhas de gelados dos filmes de terror série B) e corporações sem mais escrúpulos do que os necessários para salvar a própria pele.

Apesar de ser Barreiros em bruto, apesar de a edição, nas suas características físicas, ser horrível, apesar de necessitar de uma revisão profissional, o conteúdo deste livrinho consegue ser melhor do que muita da FC portuguesa publicada desde então. E isto não deixa de ter algo de deprimente.

Republicado, com alterações, do E-nigma.

terça-feira, setembro 17, 2013

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A Conspiração dos Abandonados



António de Macedo (2007). A Conspiração dos Abandonados: Contos Neogóticos. Sintra: Zéfiro.

O sentimento de abandono dá o mote deste livro de contos do escritor e cineasta António de Macedo, atrevido autor de uma vasta e única obra que tem no oculto e sobrenatural a inspiração para deliciosos voos de imaginação. Abandono, mas não no sentido de desprezo ou renúncia. Aqui abandono significa mistério oculto, esquecido pela passagem do tempo, empoeirado pelos lustres, reduzido a ruínas de pedras dispersas, fragmentos de histórias condenadas ao oblívio. Destinos imprevistos aguardam aqueles que incautos ou por determinação se cruzam com estes segredos esquecidos pelo tempo contados em seis sólidos contos que são ao mesmo tempo intrigantes, soturnos, excitantes e escritos numa linguagem clara que sublinha a dramaturgia cinematográfica de Macedo.

O Mosteiro Abandonado: Este primeiro conto de A Conspiração dos Abandonados recordou-me Jan Potocki e o seu Manuscrito Encontrado em Saragoça pelo seu lado de mistério feérico num ambiente peninsular. Durante a guerra da restauração uma tropa castelhana entra pelo Alentejo dentro para saquear aldeias e pilhar gado. Os soldados vão desaparecendo misteriosamente, engolidos um a um por um lodaçal, até que restam o capitão e o capelão, que procuram abrigo num mosteiro arruinado. Sendo acolhidos por uma bela e misteriosa anfitriã, depois de uma lauta refeição são levados a conhecer o mistério da casa: três fontes que podem conceder a juventude, o regresso à vida ou a imortalidade. Só se pode escolher uma, e o capitão escolhe a imortalidade. Após beber das águas, tem um vislumbre de uma outra realidade: emboscados por soldados portugueses junto à fronteira, o capitão e o capelão são as únicas vítimas mortais da escaramuça que coloca em fuga as tropas castelhanas. É um conto que se destaca por um onirismo tenebroso onde a magia revela facetas obscuras.

A Noiva Abandonada: É curioso o contraste com o conto anterior. Onde O Mosteiro Abandonado era obscuro com a sua ambiência de trevas góticas, esta é uma história luminosa, escrita com uma marcante clareza pictórica. Lê-se como um possível argumento televisivo, aventura fantástica em que três amigos arqueólogos lutam contra o espírito de uma monja amaldiçoada que tenta reencarnar no corpo da noiva de um dos amigos, numa corrida contra o tempo onde a ciência se alia ao ocultismo para derrotar forças malévolas. É curiosa a justaposição entre a banalidade arquitectónica do urbanismo de classe média alta e a riqueza simbólica dos locais arqueológicos imaginados.

A Cadeira Abandonada: Uma fábula negra, ensaio ficcional sobre o poder das ideias num conto irónico onde pôr a cabeça a funcionar leva literalmente à loucura. A aquisição de conhecimento rouba-nos a inocência, como mostra o mito da maçã nas mãos de Eva e aqui a cadeira que provoca ideias na mente de quem nela se senta.

O Códice Abandonado: Novamente, um conto cristalino de fantástico onde um velho professor de línguas com pendor ocultista se vê mergulhado numa corrida para salvar Lisboa de um devastador terramoto. O decifrar de um livro abandonado encontrado por um casal singular, em que ela é uma sílfide humanizada e ele uma reencarnação de um feiticeiro romano apaixonado pela sílfide há  mais de dois mil anos leva à descoberta de um segredo: forças ocultas sob o subsolo lisboeta utilizam o manuscrito secreto para sacrifícios telúricos, que se não forem cumpridos obrigam a violentos tremores de terra. Conhecido o segredo, resta ao singular casal aventurar-se nas arquitecturas fantásticas de uma cidade mítica que surge nalgumas noites de lua cheia num mouchão do Tejo para travar o relógio do tempo. Se o conto é uma aventura no fantástico de pendor ocultista e iniciático, é na descrição da cidade féerica que a luz lunar revela existir nas lezírias que a imaginação de Macedo mais se revela. Cidade de geometrias impossíveis e mecanismos intricados, deixa o leitor a imaginar um híbrido das arquitecturas lovecraftianas com o urbanismo poético de Calvino e o mecanicismo da relojoaria intricada.

O Caixão Abandonado: Conto de horror perfeitamente escrito, directo e tenebroso. Ao acordar, o amargurado jardineiro de um convento descobre um caixão no jardim que mal trata, e acaba por descobrir o real segredo do convento onde afinal as freiras já há muito faleceram e resta ao jardineiro ocupar o lugar que falta no sepulcro. Terror simples, eficaz e muito bem contado, uma brincadeira de mestre com o estilismo do conto clássico de terror com ambientes de mistério e finais surpreendentes.

A Cidade Abandonada: termina muito bem este livro de contos sobrenaturais com esta divertida história que consegue misturar mitologia suméria, a guerra no iraque e os mistérios históricos que alguns interpretam à luz das teorias dos antigos astronautas. Um grupo de arqueólogos portugueses desloca-se a ruínas iraquianas com uma intenção oculta: provar que certos artefactos misteriosos são vestígios de armas criadas por uma ciência antiga e avançada, interpretados pelos antigos sumérios como objectos mágicos. Ao penetrar nas ruínas, são arrastados no tempo para um passado longínquo onde assistem às lutas titânicas de seres de poderes incompreensíveis mas interpretáveis como aplicações de clonagem, armamento avançado e computação pelos olhos dos arquéologos perdidos numa cidade esquecida e num tempo antediluviano.

domingo, setembro 15, 2013

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Outro romance de estreia: o de Daniel Tércio

A Vocação do Círculo foi o segundo livro de ficção científica portuguesa (embora a esta designação devam ser por vezes acrescentadas aspas) a ser publicado na sua casa de eleição ao longo dos anos 80 e 90, a Editorial Caminho, e não se atrasou muito relativamente ao primeiro: o romance de estreia de João Aniceto, Os Caminhos Nunca Acabam. Editado no já longínquo ano de 1984, marca também a estreia de um dos autores mais interessantes da ficção científica e fantástico portugueses, embora a sua obra acabe por ser comparativamente escassa e, dada a sua ausência total há mais de uma década, pareça ter chegado ao fim, tendo-se o autor, Daniel Tércio, afastado do género quiçá definitivamente para se dedicar a uma carreira académica no âmbito da dança.

Mas enquanto durou foi interessante, e esse interesse surge logo no primeiro livro. De facto, e mostrando embora ainda alguma imaturidade estilística, A Vocação do Círculo é já um romance com alguma qualidade, e já revela as características principais do universo do autor, que seriam desenvolvidas com maior profundidade em livros posteriores. Nomeadamente: uma abordagem à ficção científica que tem mais de fantasista do que de científico, preocupações estilísticas bem marcadas e alguma fragilidade consistente nos remates das histórias.

Trata-se de um romance de realidades paralelas. Começa na Lisboa do nosso universo, ou pelo menos de um universo em tudo semelhante ao nosso, na qual o protagonista, Licínio Campos, descobre que tem um duplo que chega mesmo a usar o seu próprio nome. Os dois acabam por encontrar-se, trocam algumas explicações, mas tudo muda de repente quando se tocam e o Licínio original do universo em que a história começa se vê projetado para a Lisboa de um universo paralelo onde as coisas são em parte muito semelhante às que conhecia, mas por outro lado muito diferentes.

É neste universo paralelo que se desenrola a maior parte do romance. Aí, a ciência encontra-se bastante subdesenvolvida, mas em compensação a magia é corriqueira. Mas isso não impede que nesse novo universo existam duplos de muitas das pessoas que Licínio conhecia no universo de origem — e onde teria havido também um Licínio, cujo lugar ele acaba por ocupar, sem que se fique a saber lá muito bem o que lhe poderia ter acontecido. Esta é, adiante-se desde já, a mais séria falha lógica no enredo do romance... e a prova definitiva de que estamos em territórios algo distantes da ficção científica propriamente dita.

Na realidade, embora Tércio seja alguém corriqueiramente conotado com a ficção científica nacional, alguém que frequentou durante largos anos os círculos da FC portuguesa e esteve no grupo que deu origem à primeira associação portuguesa do género, a Simetria, a verdade é que a sua obra só muito raramente chega a ser inteiramente ciencio-ficcional. Já neste seu primeiro romance se aproxima mais de registos a que o mainstream literário chama seus, e o mesmo aconteceu em livros posteriores. A Vocação do Círculo é um romance bem mais próximo, quer pela sua temática, quer até pela abordagem literária que Tércio lhe dá, de alguns livros de Saramago, nomeadamente O Homem Duplicado, do que dos representantes mais sólidos da ficção científica portuguesa como o Terrarium, de João Barreiros e Luís Filipe Silva. É um romance fantástico, com algo de realismo mágico, uma forte dose de fantasia e só leves pitadas de FC e história alternativa, que transporta o leitor — e o protagonista — pela Grande Lisboa de três universos paralelos, cada um mais afastado do que o anterior daquilo a que a nossa sociedade entende por progresso, e que termina numa nota bucólica e conformista, em pleno paradoxo por esse conformismo vir de mãos dadas com um processo revolucionário, num tom de regresso a uma certa pureza da vida simples, pobre e sem ambições.

Com efeito, o tom superficial do romance é de rejeição do conhecimento e da ambição. Ficamos a saber ao longo do livro que todas as peripécias que Licínio sofre, todos os seus saltos entre universos, foram provocados por uma manipulação da "teia cósmica", algo em que não se deve mexer sob pena de desencadear terríveis consequências. É, pois, necessário derrotar os imprudentes — ou malvados, ou talvez arrogantes — que a tal loucura se atrevem, a fim de que o Cosmos e, em consequência, as vidas das personagens do romance, regresse aos seus eixos. Mas, paradoxalmente, esse regresso só é possível graças aos conhecimentos e à visão do mundo que Licínio traz do seu universo de origem, injetando assim conhecimento novo nos universos que visita.

Este carácter paradoxal é, talvez, a faceta mais interessante de uma história que, embora já mostre com clareza o potencial do autor, está todavia ainda longe daquilo que ele mostrou mais tarde. Um estilo ainda frágil já referido acima, diálogos pouco credíveis ou algo pueris, algum desequilíbrio na estruturação do romance e um fim que não está inteiramente conseguido põem este livro um patamar abaixo de Pedra de Lúcifer ou O Demónio de Maxwell. Embora seja leitura agradável, que não envergonha ninguém, não chega a ultrapassar a mediania.

Republicado, com alterações, de E-nigma (2007)