terça-feira, setembro 24, 2013

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Uma visita ao fecundo reino da mininarrativa portuguesa

Corria o ano de 1984, e a Rolim estava no segundo ano da sua Coleção Fantástico, uma coleção de livros quase sempre bastante curtos, onde se misturavam velhos clássicos do fantástico português, muitos deles republicados da Antologia do Conto Fantástico Português, com obras contemporâneas. O âmbito era o de um fantástico mais chegado ao mainstream, com pouca tolerância para coisas mais esquisitas. A ficção científica, por exemplo, praticamente não tinha nela lugar. Mas o insólito tinha, o surrealismo também, e uma certa espécie de horror igualmente.

É aí que se enquadra esta A Condecoração de Orlando Neves. Um livro finiho, apenas com 55 páginas, que apesar disso se subdividem em 20 pequenas histórias, com tamanhos entre o mini-conto e a vinheta. Mário-Henrique Leiria é nelas uma influência clara, quer no tocante à dimensão, quer no que diz respeito a toda a abordagem literária: o pendor pela ironia, o surrealismo de alguns deles, o macabro de outros (ou dos mesmos), o insólito. E Orlando Neves, que foi, na literatura portuguesa, mais poeta do que contista, não é tão bom. Mas vamos por partes.

Literalmente. Falemos dos contos, embora sem entrar em grandes detalhes.

A Condecoração começa com... A Condecoração, uma vinheta insólita e macabra sobre uma peculiar condecoração oferecida a um brigadeiro por feitos de bravura em combate. É um continho que consegue ser arrepiante. Segue-se A Caridade, outro conto insólito e macabro que faz lembrar o ambiente das coisas do João Seixas publicadas no E-nigma. Vem depois O Carteiro, mais um continho insólito, ainda que desta vez não muito macabro, que se debruça sobre um carteiro sem vida própria.

Na sucessão de histórias chega em seguida O Natal, um pequeno conto algo surrealista sobre a inversão de papéis humano/não-humano. Um conto bastante bem construído. Depois, O Homem Apressado é um conto surrealista com toques de horror sobre um homem que se vai devorando aos poucos a si mesmo. Um Bom Pai é outro conto com toques de horror sobre o regresso a casa de um pai de família psicologicamente pouco estável. E A Sombra, é um conto fantástico sobre a morte. Todas estas histórias estão bem conseguidas.

Segue-se O Asseio, um conto muito pequeno que consegue a proeza de ser ao mesmo tempo surrealista, macabro e divertidíssimo. Digo-vos apenas que é sobre um nariz. Isso mesmo: um nariz. Muito bom. Também bastante bom é Os Pés, mais um conto insólito e algo macabro sobre um homem que meteu na cabeça que iria arranjar maneira de se ver todo e completo ao mesmo tempo.

Depois chega O Espelho, uma variação bem concebida daquelas histórias em que o espelho não se comporta exatamente como é suposto. E As Luvas, um conto subversivo sobre um presidente arrivista de que não gostei grandemente, pois a comparação com Mário-Henrique Leiria é inevitável, e neste tipo de conto o Mário-Henrique é imbatível. Mas melhora logo: A Mãe é um conto fantástico e bastante bom sobre um homem de meia-idade que se vê de súbito transplantado para a infância.

Em seguida chega A Fuga, um conto brilhante, o melhor de todo o livro, entre o surrealista e o horror, sobre um condenado que foge da prisão de uma forma inédita. Apetece contá-lo, mas não é possível: cada bocadinho adicional de informação que seja dado é um pouco do impacto do conto que se perde.

O Comboio é surrealismo puro, mas não gostei muito: pareceu-me que a ideia exigia um texto maior, talvez com o dobro ou o triplo da extensão. Os Destroços, é um excelente conto de fantasmas, em que o horror (embora bem-humorado) se exerce não sobre quem os vê, como o cliché manda, mas sim sobre o próprio fantasma.

Daqui para a frente, infelizmente, a qualidade geral cai um pouco. Por outro lado, já só faltam cinco histórias.

O Telefone é a primeira dessas cinco; trata-se de um conto fantástico em que a personagem telefona (obviamente) e do lado de lá lhe responde alguém demasiado parecido consigo mesmo. Deste não gostei muito: achei-o demasiado previsível. Segue-se A Redução, mais um dos pequenos contos de Orlando Neves que se situam entre o horror, o fantástico e o surrealismo. Aqui vamos encontrar uma gravidez anormal, e, embora outros contos do livro sejam melhores, este também não é mau.

O Feliz Parto é um continho insólito sobre uma mulher cujas sucessivas gravidezes redundam sempre em abortos. Obsceno, o penúltimo conto do livro é também o maior, mesmo sem ultrapassar a dimensão de vinheta. Nele, um enviado do Vaticano comete um faux pas divertido num país de usos culturais muito peculiares. Ambos estes contos estão bem conseguidos, mas nenhum dos dois é tão bom como histórias anteriores. Por fim, O Homicídio é um pequeno conto fantástico e irónico que se lê bem mas não é nada do outro mundo.

Como se vê, A Condecoração é uma coletânea que contém alguns contos muito bons e é em geral uma boa leitura, apesar de fraquejar um pouco para o final, o que, em meu entender, é sintoma de deficiente organização dos contos, pois o impacto de um livro de contos também depende da forma como começa e acaba. Insere-se numa abordagem literária que tem dado muitos e bons frutos em Portugal, e que ainda hoje tem seguidores, embora talvez mais entre os escritores do que propriamente junto do público, que se mostra em geral avesso a contos e mais ainda, por maioria de razão, a contos muito curtos. Estes costumam mesmo ser mais apreciados pelo público de poesia do que pelo de prosa. E muitas vezes é pena, pois os escritores portugueses têm jeito para este tipo de coisa, e este livro é um bom exemplo. É divertido, é arrepiante, por vezes faz pensar, está bem escrito. O que há para não se gostar?

Texto original, baseado em notas deixadas na Lâmpada Mágica em 2008.

sexta-feira, setembro 20, 2013

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Retrato de Barreiros enquanto verde autor

Mais de uma década antes de O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, o primeiro livro "oficial" de João Barreiros, e meia década antes de outro João, o Aniceto, ter inaugurado a edição de ficção científica de língua portuguesa na Caminho com o seu romance premiado, Os Caminhos Nunca Acabam, saía para as mãos de uma seleta coleção de amigos, conhecidos e, provavelmente, alguns desconhecidos, uma ediçãozinha de autor com 34 páginas, feitas numa tipografia situada na mui distópica Reboleira Sul, embrulhadas numa capa pavorosa a preto e branco e divididas em dois contos: O Funcionário e O Sindroma do Pai Natal.

O ano era 1977 e Duas Fábulas Tecnocráticas, assim se chama o livrinho, marca a modesta estreia de João Barreiros na FC portuguesa. Modesta porque a edição é mesmo muito modesta, praticamente ao nível do que hoje qualquer um poderia fazer em casa com um computador e uma impressora barata. Modesta também porque o estilo do autor ainda não estava, nessa época, inteiramente definido. E modesta, ainda, porque passou quase completamente despercebida.

Estes dois contos, no entanto, são leitura muito interessante, quer para quem seguiu a trajetória do autor nos anos 80 e, principalmente, 90, quer para quem ainda não leu nada dele e quer ficar com uma ideia esquemática e bastante pálida daquilo que pode encontrar nos escritos de Barreiros.

É que nestes contos vamos já encontrar, embora em forma ainda algo bruta, muito do Barreiros posterior. Em O Funcionário encontramos violência extrema em cenário distópico e urbano, ao seguirmos o percurso de um assassino psicopático que mata mulheres grávidas num ritmo frenético, sem que se saiba bem por que razão não é apanhado. A tentativa de chocar o leitor é deliberada e propositada, como em toda a obra subsequente do autor. Já se nota a tendência para a referenciação subtil de toda uma atmosfera cultural onde Barreiros bebe, na qual a ficção científica, da mais intelectual à mais trash, é central. Os diálogos já têm a fluidez e caráter genuíno que são imagem de marca do autor. E etc.

No segundo conto, além da hiperviolência e demais características de O Funcionário, vamos encontrar um tema aparentemente obsessivo em João Barreiros: a desconstrução subversiva de todos os mitos de infância. Neste conto, é o Pai Natal o sacrificado (à semelhança de um outro conto, Noite de Paz, curiosamente o conto de Barreiros que foi mais vezes traduzido e publicado lá fora). De novo (sempre) em cenário catastrófico, de uma distopia hiperviolenta e total, O Sindroma do Pai Natal põe a nu a crueldade das crianças, atacando de passagem, mas sem contemplações, as pedagogias "boazinhas" que tratam os miúdos como seres fundamentalmente doces, por entre "carrinhas de eutanásia" enlouquecidas (a fazer lembrar o cliché das carrinhas de gelados dos filmes de terror série B) e corporações sem mais escrúpulos do que os necessários para salvar a própria pele.

Apesar de ser Barreiros em bruto, apesar de a edição, nas suas características físicas, ser horrível, apesar de necessitar de uma revisão profissional, o conteúdo deste livrinho consegue ser melhor do que muita da FC portuguesa publicada desde então. E isto não deixa de ter algo de deprimente.

Republicado, com alterações, do E-nigma.

terça-feira, setembro 17, 2013

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A Conspiração dos Abandonados



António de Macedo (2007). A Conspiração dos Abandonados: Contos Neogóticos. Sintra: Zéfiro.

O sentimento de abandono dá o mote deste livro de contos do escritor e cineasta António de Macedo, atrevido autor de uma vasta e única obra que tem no oculto e sobrenatural a inspiração para deliciosos voos de imaginação. Abandono, mas não no sentido de desprezo ou renúncia. Aqui abandono significa mistério oculto, esquecido pela passagem do tempo, empoeirado pelos lustres, reduzido a ruínas de pedras dispersas, fragmentos de histórias condenadas ao oblívio. Destinos imprevistos aguardam aqueles que incautos ou por determinação se cruzam com estes segredos esquecidos pelo tempo contados em seis sólidos contos que são ao mesmo tempo intrigantes, soturnos, excitantes e escritos numa linguagem clara que sublinha a dramaturgia cinematográfica de Macedo.

O Mosteiro Abandonado: Este primeiro conto de A Conspiração dos Abandonados recordou-me Jan Potocki e o seu Manuscrito Encontrado em Saragoça pelo seu lado de mistério feérico num ambiente peninsular. Durante a guerra da restauração uma tropa castelhana entra pelo Alentejo dentro para saquear aldeias e pilhar gado. Os soldados vão desaparecendo misteriosamente, engolidos um a um por um lodaçal, até que restam o capitão e o capelão, que procuram abrigo num mosteiro arruinado. Sendo acolhidos por uma bela e misteriosa anfitriã, depois de uma lauta refeição são levados a conhecer o mistério da casa: três fontes que podem conceder a juventude, o regresso à vida ou a imortalidade. Só se pode escolher uma, e o capitão escolhe a imortalidade. Após beber das águas, tem um vislumbre de uma outra realidade: emboscados por soldados portugueses junto à fronteira, o capitão e o capelão são as únicas vítimas mortais da escaramuça que coloca em fuga as tropas castelhanas. É um conto que se destaca por um onirismo tenebroso onde a magia revela facetas obscuras.

A Noiva Abandonada: É curioso o contraste com o conto anterior. Onde O Mosteiro Abandonado era obscuro com a sua ambiência de trevas góticas, esta é uma história luminosa, escrita com uma marcante clareza pictórica. Lê-se como um possível argumento televisivo, aventura fantástica em que três amigos arqueólogos lutam contra o espírito de uma monja amaldiçoada que tenta reencarnar no corpo da noiva de um dos amigos, numa corrida contra o tempo onde a ciência se alia ao ocultismo para derrotar forças malévolas. É curiosa a justaposição entre a banalidade arquitectónica do urbanismo de classe média alta e a riqueza simbólica dos locais arqueológicos imaginados.

A Cadeira Abandonada: Uma fábula negra, ensaio ficcional sobre o poder das ideias num conto irónico onde pôr a cabeça a funcionar leva literalmente à loucura. A aquisição de conhecimento rouba-nos a inocência, como mostra o mito da maçã nas mãos de Eva e aqui a cadeira que provoca ideias na mente de quem nela se senta.

O Códice Abandonado: Novamente, um conto cristalino de fantástico onde um velho professor de línguas com pendor ocultista se vê mergulhado numa corrida para salvar Lisboa de um devastador terramoto. O decifrar de um livro abandonado encontrado por um casal singular, em que ela é uma sílfide humanizada e ele uma reencarnação de um feiticeiro romano apaixonado pela sílfide há  mais de dois mil anos leva à descoberta de um segredo: forças ocultas sob o subsolo lisboeta utilizam o manuscrito secreto para sacrifícios telúricos, que se não forem cumpridos obrigam a violentos tremores de terra. Conhecido o segredo, resta ao singular casal aventurar-se nas arquitecturas fantásticas de uma cidade mítica que surge nalgumas noites de lua cheia num mouchão do Tejo para travar o relógio do tempo. Se o conto é uma aventura no fantástico de pendor ocultista e iniciático, é na descrição da cidade féerica que a luz lunar revela existir nas lezírias que a imaginação de Macedo mais se revela. Cidade de geometrias impossíveis e mecanismos intricados, deixa o leitor a imaginar um híbrido das arquitecturas lovecraftianas com o urbanismo poético de Calvino e o mecanicismo da relojoaria intricada.

O Caixão Abandonado: Conto de horror perfeitamente escrito, directo e tenebroso. Ao acordar, o amargurado jardineiro de um convento descobre um caixão no jardim que mal trata, e acaba por descobrir o real segredo do convento onde afinal as freiras já há muito faleceram e resta ao jardineiro ocupar o lugar que falta no sepulcro. Terror simples, eficaz e muito bem contado, uma brincadeira de mestre com o estilismo do conto clássico de terror com ambientes de mistério e finais surpreendentes.

A Cidade Abandonada: termina muito bem este livro de contos sobrenaturais com esta divertida história que consegue misturar mitologia suméria, a guerra no iraque e os mistérios históricos que alguns interpretam à luz das teorias dos antigos astronautas. Um grupo de arqueólogos portugueses desloca-se a ruínas iraquianas com uma intenção oculta: provar que certos artefactos misteriosos são vestígios de armas criadas por uma ciência antiga e avançada, interpretados pelos antigos sumérios como objectos mágicos. Ao penetrar nas ruínas, são arrastados no tempo para um passado longínquo onde assistem às lutas titânicas de seres de poderes incompreensíveis mas interpretáveis como aplicações de clonagem, armamento avançado e computação pelos olhos dos arquéologos perdidos numa cidade esquecida e num tempo antediluviano.

domingo, setembro 15, 2013

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Outro romance de estreia: o de Daniel Tércio

A Vocação do Círculo foi o segundo livro de ficção científica portuguesa (embora a esta designação devam ser por vezes acrescentadas aspas) a ser publicado na sua casa de eleição ao longo dos anos 80 e 90, a Editorial Caminho, e não se atrasou muito relativamente ao primeiro: o romance de estreia de João Aniceto, Os Caminhos Nunca Acabam. Editado no já longínquo ano de 1984, marca também a estreia de um dos autores mais interessantes da ficção científica e fantástico portugueses, embora a sua obra acabe por ser comparativamente escassa e, dada a sua ausência total há mais de uma década, pareça ter chegado ao fim, tendo-se o autor, Daniel Tércio, afastado do género quiçá definitivamente para se dedicar a uma carreira académica no âmbito da dança.

Mas enquanto durou foi interessante, e esse interesse surge logo no primeiro livro. De facto, e mostrando embora ainda alguma imaturidade estilística, A Vocação do Círculo é já um romance com alguma qualidade, e já revela as características principais do universo do autor, que seriam desenvolvidas com maior profundidade em livros posteriores. Nomeadamente: uma abordagem à ficção científica que tem mais de fantasista do que de científico, preocupações estilísticas bem marcadas e alguma fragilidade consistente nos remates das histórias.

Trata-se de um romance de realidades paralelas. Começa na Lisboa do nosso universo, ou pelo menos de um universo em tudo semelhante ao nosso, na qual o protagonista, Licínio Campos, descobre que tem um duplo que chega mesmo a usar o seu próprio nome. Os dois acabam por encontrar-se, trocam algumas explicações, mas tudo muda de repente quando se tocam e o Licínio original do universo em que a história começa se vê projetado para a Lisboa de um universo paralelo onde as coisas são em parte muito semelhante às que conhecia, mas por outro lado muito diferentes.

É neste universo paralelo que se desenrola a maior parte do romance. Aí, a ciência encontra-se bastante subdesenvolvida, mas em compensação a magia é corriqueira. Mas isso não impede que nesse novo universo existam duplos de muitas das pessoas que Licínio conhecia no universo de origem — e onde teria havido também um Licínio, cujo lugar ele acaba por ocupar, sem que se fique a saber lá muito bem o que lhe poderia ter acontecido. Esta é, adiante-se desde já, a mais séria falha lógica no enredo do romance... e a prova definitiva de que estamos em territórios algo distantes da ficção científica propriamente dita.

Na realidade, embora Tércio seja alguém corriqueiramente conotado com a ficção científica nacional, alguém que frequentou durante largos anos os círculos da FC portuguesa e esteve no grupo que deu origem à primeira associação portuguesa do género, a Simetria, a verdade é que a sua obra só muito raramente chega a ser inteiramente ciencio-ficcional. Já neste seu primeiro romance se aproxima mais de registos a que o mainstream literário chama seus, e o mesmo aconteceu em livros posteriores. A Vocação do Círculo é um romance bem mais próximo, quer pela sua temática, quer até pela abordagem literária que Tércio lhe dá, de alguns livros de Saramago, nomeadamente O Homem Duplicado, do que dos representantes mais sólidos da ficção científica portuguesa como o Terrarium, de João Barreiros e Luís Filipe Silva. É um romance fantástico, com algo de realismo mágico, uma forte dose de fantasia e só leves pitadas de FC e história alternativa, que transporta o leitor — e o protagonista — pela Grande Lisboa de três universos paralelos, cada um mais afastado do que o anterior daquilo a que a nossa sociedade entende por progresso, e que termina numa nota bucólica e conformista, em pleno paradoxo por esse conformismo vir de mãos dadas com um processo revolucionário, num tom de regresso a uma certa pureza da vida simples, pobre e sem ambições.

Com efeito, o tom superficial do romance é de rejeição do conhecimento e da ambição. Ficamos a saber ao longo do livro que todas as peripécias que Licínio sofre, todos os seus saltos entre universos, foram provocados por uma manipulação da "teia cósmica", algo em que não se deve mexer sob pena de desencadear terríveis consequências. É, pois, necessário derrotar os imprudentes — ou malvados, ou talvez arrogantes — que a tal loucura se atrevem, a fim de que o Cosmos e, em consequência, as vidas das personagens do romance, regresse aos seus eixos. Mas, paradoxalmente, esse regresso só é possível graças aos conhecimentos e à visão do mundo que Licínio traz do seu universo de origem, injetando assim conhecimento novo nos universos que visita.

Este carácter paradoxal é, talvez, a faceta mais interessante de uma história que, embora já mostre com clareza o potencial do autor, está todavia ainda longe daquilo que ele mostrou mais tarde. Um estilo ainda frágil já referido acima, diálogos pouco credíveis ou algo pueris, algum desequilíbrio na estruturação do romance e um fim que não está inteiramente conseguido põem este livro um patamar abaixo de Pedra de Lúcifer ou O Demónio de Maxwell. Embora seja leitura agradável, que não envergonha ninguém, não chega a ultrapassar a mediania.

Republicado, com alterações, de E-nigma (2007)

sexta-feira, setembro 13, 2013

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O Doutor Benignus

Quando foi relançado em 1994 pela Editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), O Doutor Benignus, romance de Augusto Emílio Zaluar publicado originalmente em 1875, ganhou evidência na mídia e foi muito comentado pelos participantes dos fandom brasileiro. Foi considerado um trabalho de arqueologia da ficção científica brasileira, contemporâneo das aventuras científicas de Júlio Verne, das quais recebeu forte influência.
Zaluar nasceu em Lisboa em 1826 e não completou os estudo em medicina para dedicar-se ao ofício de escrever, principalmente na área jornalística. Migrou para o Brasil em 1850, estabelecendo-se como jornalista. Seus interesses nas ciências, especialmente na antropologia, o levaram a se dedicar aos estudos sobre o homem brasileiro, e Zaluar acompanhava atentamente os trabalhos das missões científicas no Brasil, e isso fica claro na leitura de O Doutor Benignus, pois o autor faz questão de citar cada um dos seus inspiradores, inaugurando junto com o gênero uma mania cada vez mais em destaque entre os autores brasileiros de ficção científica e fantasia.
A história acompanha o sábio Dr. Benignus, que decide não mais viver em meio à corte brasileira no Rio de Janeiro e retira-se para uma fazenda em Minas Gerais. Lá, além da família, apenas alguns empregados. Durante uma incursão a um trecho de mata próximo a sua residência, Benignus encontra um pergaminho com o desenho do Sol e uma inscrição desconhecida. Obcecado com o achado, realiza amplas pesquisas até descobrir que a inscrição, em língua tupi, quer dizer “Aqui há habitantes”. A descoberta incute no sábio uma grande necessidade de provar a habitabilidade de outros mundos e, para isso, organiza uma expedição científica ao Brasil Central. Juntam-se a ele o cientista francês M. de Fronville e o jovem inglês chamado Jaime River, que pretende encontrar o pai, o pesquisador William River, desaparecido numa expedição à mesma região.
A comitiva reúne dezenas de pessoas e viaja pelas matas, sempre descritas como belas e hospitaleiras, evitando as estradas e os povoados para não assustar as pessoas. Pelo caminho, enfrentam diversas aventuras, como uma forte tempestade, a travessia de rios perigosos, o ataque de um jaguar negro (quando acontece a única baixa da expedição), a exploração de uma caverna – onde encontram o crânio fossilizado de um homem pré-histórico –, a queda de um meteorito e um incêndio florestal.
Seguindo as pistas do pesquisador desaparecido, a comitiva passa por Uberaba, Santa Rita de Paranaíba, Goiás, Jurupensém, Leopoldina e a Ilha do Bananal, onde acontece o grande desfecho. Ali, os aventureiros encontram uma nação carajá, cujo chefe Koinamam confirma a posse do pai de Jaime, mas recusa-se libertá-lo. A tensão aumenta, mas ocorre um incrível golpe de sorte: da floresta surge um balão de ar quente, conduzido por James Wathon, cientista norte-americano amigo pessoal do Dr. Benignus, alterando o destino fatalista da expedição.
O Doutor Benignus está longe de ser um livro de ficção científica e mal pode ser comparado às aventuras vernianas que o inspiraram. Trata-se apenas do relato de uma viagem de intelectuais ao planalto central do Brasil, sem muito apuro realista. O Brasil selvagem de Zaluar é um lugar de campos abertos, florestas limpas e rios navegáveis, sinal claro de que o autor nunca deve ter feito sequer uma incursão à Mata Atlântica.
O Brasil de O Doutor Benignus não parece ter muitos problemas além das dúvidas existenciais que incomodam o sábio. Colonialismo puro, é apenas um enorme parque de diversões para intelectuais entediados. Não há nada no romance, por exemplo, a respeito de questões dramáticas de sua época, como a escravidão, o preconceito racial e o movimento republicano. Os próprios cientistas da expedição carecem de credibilidade, pois suas considerações são sempre citações de cientistas mais afamados. Zaluar talvez não estivesse mesmo interessado em realizar um relato científico, como acontece com a fc de forma geral, mas a ciência de O Doutor Benignus resume-se a essas citações. Apenas durante um breve delírio onírico, no qual o sábio dialoga com um ser luminoso supostamente vindo do Sol, o texto consegue estabelecer um clima favorável ao fantástico mas, sendo apenas um sonho, não pode ser ponderado nesse contexto. Contudo, percebe-se nele alguma vontade em ser fantástico na medida em que tem seu gérmen no papiro misterioso que, na interpretação do Dr. Benignus, sugere a habitabilidade do Sol e, em suma, era o que o ele pretendia provar com sua viagem ao Planalto Central, mas que não tem maiores significados na trama.
A edição da UFRJ é bem cuidada e, ainda que tenha atualizado a grafia, manteve os maneirismos do autor. O livro tem nada menos que quatro prefácios, sendo um deles um glossário com explicações das idiossincrasias textuais. Fecham o volume, um grande caderno de notas comentando as muitas citações, e um posfácio assinado por Alba Zaluar, provável descendente do autor, com uma leitura crítica que destaca a forma descomprometida com que Zaluar tratou as figuras da mulher e do negro.
Podemos, é claro, chamar à ficção científica o mérito pioneiro de O Doutor Benignus, da mesma forma que tomamos textos de muitos outros autores que nunca imaginaram que o que escreveram seria um dia adotado como registros históricos de um gênero. Mas é preciso ser um tanto criativo para encontrar ficção científica em O Doutor Benignus.

quinta-feira, setembro 12, 2013

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Uma máquina que voa através do tempo

Ao contrário do que possa pensar quem tem os olhos virados exclusivamente, ou quase, para as coleções de FC, o brasileiro Bráulio Tavares não publicou, em Portugal, só na coleção azul da Caminho, nem se limitou a editar entre nós as suas coletâneas de contos. Começou por fazê-lo, é certo, mas também produziu um romance, que os responsáveis da editora resolveram publicar em 1997 na coleção "Uma Terra sem Amos", coleção esta que se dedicava fundamentalmente ao mainstream, e na qual se editavam obras consideradas "mais literárias" do que as de FC.

Mas curiosamente, A Máquina Voadora está mais próxima da ficção científica do que algumas das obras incluídas na coleção de ficção científica. Refiro-me, entre outros livros, a Universal, Limitada, de Isabel Cristina Pires, ou aos de Terry Pratchett (As Três Bruxas e Mort).

Este romance de Bráulio Tavares, segundo o seu subtítulo, conta a "história do sapateiro Gamboa, e da sua maravilhosa máquina de voar". Nele, Bráulio regressa a um cenário que já tinha visitado pelo menos uma vez, quando contou a História de Maldun, o Mensageiro (conto incluído n'A Espinha Dorsal da Memória): a Serra do Calabouço, local inventado situado algures entre o sul de Portugal e a Andaluzia, na época em que cristãos ainda se iam cruzando com muçulmanos nesta zona do mundo.

A história que nos é contada é a do sapateiro Ramiro Gamboa, um homem que usa a sua arte para sobreviver mas tem os olhos postos muito longe dos seus horizontes rurais, um homem consumido por uma curiosidade insaciável que poucos conseguem compreender e que lhe condiciona uma parte significativa da vida. Gamboa sente-se fora do seu tempo, e tem visões de lugares muito diferentes, mas talvez não muito distantes.

A propósito da história de Gamboa, surgem também histórias protagonizadas por outros membros da família, especialmente o filho, Nuno, a sua mulher, Damiana, e o pai desta, Eleazar, um homem estranho que é, em muitos aspetos, semelhante a Ramiro, e ainda o pai deste, Jofre de seu nome.

Cruza-se também a história de Ramiro Gamboa com a da própria Serra do Calabouço e da cidade de Campinoigandres, também ela inventada, onde habita um grupo de nobres muçulmanos, núcleo central de uma espécie de sociedade secreta de protetores do conhecimento: os Pensadores.

Acabamos por descobrir que o conhecimento protegido pelos Pensadores tem em comum com aquele que Ramiro Gamboa persegue o facto de não pertencer ao tempo de ambos. Tudo acaba por desembocar na Máquina Voadora que dá nome ao romance. Esta fora inventada e construída por Jofre. Mas nunca é descrita com clareza, embora se sugira semelhante aos esboços de Da Vinci, ou até aos primeiros veículos voadores mais pesados do que o ar dos primórdios da aviação, no início do século passado.

Mas como haveria uma máquina voadora como aquela na Península Ibérica em plena época da Reconquista?

Viagens no tempo? Teria Jofre vindo do futuro? Ou teriam vindo do futuro os documentos em que ele se baseou para a conceção da sua máquina?

Não se percebe bem. O romance é ambíguo, e esse facto é causa de boa parte do seu fascínio.

De resto, trata-se de uma história muito bem construída e escrita, que em subtexto acaba por debruçar-se sobre a natureza do conhecimento, mostrando como ele é precioso, como encerra joias, e como pode ser também perigoso quando utilizado de forma inadequada. Uma história que prende o leitor aos mistérios que cria e vai desvendando, a pouco e pouco, nunca chegando, no entanto, a revelá-los por completo, deixando em vez disso que quem lê tire as suas próprias conclusões a partir das pistas que são espalhadas ao longo das quase 250 páginas que o livro tem de extensão. No ambiente, e também no tema, faz um pouco lembrar o Memorial do Convento, de José Saramago, embora a concretização seja muito diferente da deste êxito maior do nosso Nobel.

Uma coisa, entretanto, é certa: Bráulio Tavares é claramente um dos melhores escritores ligados à ficção científica de língua portuguesa, e este seu livro, talvez sem ser propriamente ficção científica mas não se afastando muito, é bem capaz de ser o seu melhor livro.

Republicado com alterações do e-zine E-nigma (2003)

quarta-feira, setembro 11, 2013

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Erotosofia

Quarto romance do escritor e cineasta português António de Macedo, Erotosofia foi publicado em 1998 pela Editorial Caminho, de Lisboa.
Conta uma história algo vinculada ao universo criado pelo escritor norte-americano H. P. Lovecraft (1890-1937) – notadamente aos Mitos de Cthulhu –, com um texto elaborado no estilo dos relatos oníricos do mestre do horror, porém com uma poética mais eficaz, uma vez que originalmente desenvolvida em língua portuguesa. Uma boa dose de humor personaliza o texto, escapando meritoriamente do pastiche comum aos que arriscam imitar o cavalheiro de Providence. O volume tem mais de 300 páginas e uma bonita capa, com um detalhe da pintura "O julgamento de Páris", de Watteau.
O romance inicia de modo delicioso, tal como uma história da mitologia grega, com a cena tórrida de amor entre deuses que, por descuido da luxúria, acaba gerando potestades monstruosas. Daí, passa aos problemas dos administradores cosmogônicos – cada um mais estranho que o outro devido a suas existências em onze dimensões –, dedicados a dificultar o avanço das hordas demoníacas quando, em seus domínios, surgem, do nada, dois seres humanos.
A história gira em torno dessas duas pessoas: Irene, uma jovem e mal-amada agente de seguros que é enviada, às vésperas do Natal, à pequena vila de Monte Maior para resolver um problema burocrático, e Ricardo, respeitável professor de Monte Maior, estudioso de mitologia, que enfrenta estoicamente um casamento fracassado. Ambos acabam encontrando na infelicidade do outro o complemento para suas vidas vazias.
Mas o que pode sugerir uma história rosa de amor, vira um pandemônio nas mãos de Macedo. A presença dos Mitos de Cthulhu é apenas um detalhe entre um emaranhado de situações surrealistas. Irene e Ricardo, na busca pela verdade sobre o desaparecimento e possível morte de um velho esquisito há exato um ano, acabam devorados por uma singularidade mágica que, em todas as noites de Natal, surge no alto de uma colina assombrada: a abertura, em plena rocha, revela uma caverna repleta de objetos apenas sonhados pelos homens. Mas ela se fecha em 36 segundos, não permitindo ao visitante tempo maior que o necessário para apenas admirar o tesouro, o que ninguém consegue cumprir... nem mesmo nossos infelizes heróis, é claro.
Começa então o torvelinho de acontecimentos que passam do absurdo ao cômico, do terror a ficção científica, quando Irene e Ricardo são levados à presença dos administradores cósmicos e, com
isso, desestabilizam a estrutura do universo ao ponto de permitir a invasão da Suprema Ponte de Comando por hordas de monstros, justamente quando os supremos administradores aguardam a geração de uma molécula perfeita... E como loucura pouca é bobagem, com todos os problemas que causaram, os heróis apaixonados voltam à Terra cada qual no corpo do pior inimigo do outro...
Macedo constrói toda essa cosmologia para contar sua história de amores e desamores, emulando humor e tragédia em doses perfeitas. Apresenta personagens marcantes e bem construídos que, ao final da história, nos convidam a releitura, só pelo prazer de desfrutar de suas companhias. Acima de tudo, apresenta uma estrutura madura de fantasia portuguesa, moderna e tradicional ao mesmo tempo.
A ficção científica (e o horror e a fantasia) de cada povo têm que encontrar seu caminho particular. A fantasia de Macedo ecoa a antropofagia brasileira, devorando a influência estrangeira, digerindo-a e regurgitando uma arte repleta de personalidade lusitana. Erotosofia é o produto acabado da antropofagia portuguesa. Uma lição para todos nós, leitores e autores da arte fantástica em língua portuguesa.