quarta-feira, setembro 11, 2013

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Erotosofia

Quarto romance do escritor e cineasta português António de Macedo, Erotosofia foi publicado em 1998 pela Editorial Caminho, de Lisboa.
Conta uma história algo vinculada ao universo criado pelo escritor norte-americano H. P. Lovecraft (1890-1937) – notadamente aos Mitos de Cthulhu –, com um texto elaborado no estilo dos relatos oníricos do mestre do horror, porém com uma poética mais eficaz, uma vez que originalmente desenvolvida em língua portuguesa. Uma boa dose de humor personaliza o texto, escapando meritoriamente do pastiche comum aos que arriscam imitar o cavalheiro de Providence. O volume tem mais de 300 páginas e uma bonita capa, com um detalhe da pintura "O julgamento de Páris", de Watteau.
O romance inicia de modo delicioso, tal como uma história da mitologia grega, com a cena tórrida de amor entre deuses que, por descuido da luxúria, acaba gerando potestades monstruosas. Daí, passa aos problemas dos administradores cosmogônicos – cada um mais estranho que o outro devido a suas existências em onze dimensões –, dedicados a dificultar o avanço das hordas demoníacas quando, em seus domínios, surgem, do nada, dois seres humanos.
A história gira em torno dessas duas pessoas: Irene, uma jovem e mal-amada agente de seguros que é enviada, às vésperas do Natal, à pequena vila de Monte Maior para resolver um problema burocrático, e Ricardo, respeitável professor de Monte Maior, estudioso de mitologia, que enfrenta estoicamente um casamento fracassado. Ambos acabam encontrando na infelicidade do outro o complemento para suas vidas vazias.
Mas o que pode sugerir uma história rosa de amor, vira um pandemônio nas mãos de Macedo. A presença dos Mitos de Cthulhu é apenas um detalhe entre um emaranhado de situações surrealistas. Irene e Ricardo, na busca pela verdade sobre o desaparecimento e possível morte de um velho esquisito há exato um ano, acabam devorados por uma singularidade mágica que, em todas as noites de Natal, surge no alto de uma colina assombrada: a abertura, em plena rocha, revela uma caverna repleta de objetos apenas sonhados pelos homens. Mas ela se fecha em 36 segundos, não permitindo ao visitante tempo maior que o necessário para apenas admirar o tesouro, o que ninguém consegue cumprir... nem mesmo nossos infelizes heróis, é claro.
Começa então o torvelinho de acontecimentos que passam do absurdo ao cômico, do terror a ficção científica, quando Irene e Ricardo são levados à presença dos administradores cósmicos e, com
isso, desestabilizam a estrutura do universo ao ponto de permitir a invasão da Suprema Ponte de Comando por hordas de monstros, justamente quando os supremos administradores aguardam a geração de uma molécula perfeita... E como loucura pouca é bobagem, com todos os problemas que causaram, os heróis apaixonados voltam à Terra cada qual no corpo do pior inimigo do outro...
Macedo constrói toda essa cosmologia para contar sua história de amores e desamores, emulando humor e tragédia em doses perfeitas. Apresenta personagens marcantes e bem construídos que, ao final da história, nos convidam a releitura, só pelo prazer de desfrutar de suas companhias. Acima de tudo, apresenta uma estrutura madura de fantasia portuguesa, moderna e tradicional ao mesmo tempo.
A ficção científica (e o horror e a fantasia) de cada povo têm que encontrar seu caminho particular. A fantasia de Macedo ecoa a antropofagia brasileira, devorando a influência estrangeira, digerindo-a e regurgitando uma arte repleta de personalidade lusitana. Erotosofia é o produto acabado da antropofagia portuguesa. Uma lição para todos nós, leitores e autores da arte fantástica em língua portuguesa.

terça-feira, setembro 10, 2013

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Eurico O Presbítero

O sibilar das rajadas também cessou completamente. Parado sobre a face da terra, o ar era semelhante ao lençol do finado a quem recalcaram a gleba que o cobre, frio, úmido, pesado, sem ranger, sem o movimento, cosido sobre o peito, onde acabou o bater do coração e o arfar compassado dos pulmões.
Então, muito ao longe, uma vermelhidão tenuíssima foi avultando pouco a pouco, derramando-se pelo horizonte e repintando a abóbada imensa dos céus.
Depois, esse clarão sinistro reverberou na terra: as cimas agudas, dentadas, tortuosas, alvacentas das fragas marinhas tinham-se abatido e livelado, como os cerros informes de neve amontoada, que, derretidos nos primeiros dias do estio, vão, despenhando-se, formar um lago chão e morto na caldeira mais funda do vale fechado.
Tudo a meus pés era um plano uniforme, ermo, afogueado, como a atmosfera que pesava em cima dele: e, além, jazia o cadáver do mar.
Eu, o Silêncio e a Solidão éramos quem estava aí!


Parece estranho iniciar a participação neste espaço com um romance aparentemente afastado das ficções científicas, especulativas e fantásticas. Tem o seu quê de provocação. Alexandre Herculano tem obras que se inserem mais facilmente nestes géneros do que esta, como se observa pelos contos coligidos nos dois deliciosos volumes de Lendas e Narrativas com o seu um manancial de histórias fantásticas. Escolhi recordar este Eurico o Presbítero pela capacidade que este livro algo esquecido tem de transcender géneros, mergulhando o leitor numa ficção medievalista escrita com precisão histórica, descrita numa linguagem vívida. O que nos livros de história são parágrafos com uma certa aridez ganha nas mãos de Herculano inegável força narrativa. O facto histórico, mitificado pela imaginação do autor, ganha vida nestas páginas.

Na continuidade temporal das ficções dos géneros fantásticos o romance de aventura, pulp, histórica ou rocambolesca, tem sido uma constante. Hoje géneros como o capa e espada ou a gesta cavalheiresca estão esquecidos ou encontraram nova encarnação nas fantasias medievalistas, mas o seu papel de influência histórica reflecte-se nos temas e estruturas narrativas do género. Herculano está firmemente inserido no cânone da grande literatura portuguesa, afastado pelo nosso carácter periférico desta linha contínua de influências que vai dos romances medievais aos autores contemporâneos de fantasia passada em mundos fantásticos de sabor medieval. Os seus romances históricos, dos quais este é talvez o mais fascinante, partilham da mesma fonte que animou Walter Scott. Este poderia dar um belíssimo filme. É um romance cavalheiresco sem elfos e orcs, mas cairia perfeitamente dentro do imaginário cinematográfico à volta do qual rondam filmes como O Senhor dos AneisTróia ou Alexandre. Filmes exaltantes, onde as emoções de antanho, quer da antiguidade real ou imaginária, se recontam em imagens apaixonantes.

Alexandre Herculano foi uma das figuras maiores do século XIX português. Escritor e historiador, também se distingiu pela sua participação nas convulsões políticas da atribulada primeira metade do século XIX. Como romancista insere-se no romantismo, corrente literária que galvanizou a Europa do século XIX e que introduziu em Portugal através dos seus romances históricos. Estes são uma extensão lógica do seu trabalho como historiador, distinguindo-se pelo seu rigor histórico e carácter profundamente medievalista. Herculano buscava as raízes da portugalidade, procurando a confluência histórica dos primeiros tempos da nação, mitificando-a através da sua prosa rebuscada e hiperbólica, típica do sturm und drang do cânone romântico.

- Cristo e avante! - bradaram os godos: e os esquadrões de Roderico precipitaram-se ao encontro dos muçulmanos. São como dois bulcões enovelados, que, em vez de correrem pela atmosfera nas asas da procela, rolam na terra, que parece tremer e vergar debaixo do peso daquela tempestade de homens. O ruído abafado e bem distinto do mover dos dois exércitos vai-se gradualmente confundindo num som único, ao passo que o chão intermédio se embebe debaixo dos pés dos cavalos. Essa distância entre as duas muralhas de ferro estreita-se, estreita-se! É apenas uma faixa tortuosa lançada entre as duas nuvens de pó. Desapareceu! Como o estourar do rolo de mar encapelado, tombando de súbito sobre os alcantis de extensas ribas, as lanças cruzadas ferem quase a um tempo nos escudos, nos arneses, nos capacetes.

Publicado em 1844 este romance histórico que vai beber a sua inspiração a uma época mais antanha do que a idade média portuguesa. A acção deste romance de perder o fôlego passa-se nos tempos da conquista árabe da península ibérica, com os reinos visigodos que se ergueram após o império romano a cederem perante a força das armas dos exércitos mouros.

Eurico, o Presbítero narra a torturada história de Eurico, presbítero de Carteia, pequena aldeia à beira daquele que é hoje conhecido como o penedo de Tárique. Este nem sempre foi um humilde e angustiado presbítero de paróquia isolada. Noutros tempos, mais gloriosos e luminosos, foi nobre e corajoso guerreiro ao serviço da coroa visigótica. A nobreza não lhe conferiu muitas posses e a sua paixão por Hermengarda, filha da alta nobreza goda é destruída pelo pai desta. De amores desfeitos, Eurico abandona a vida da corte e da espada, abraçando a vida eclesiástica. Este é um presbítero amargurado, que consome a sua dor interior em cânticos poéticos exaltados e em longo passeios pela paisagem selvagem dos rochedos de Gibraltar.

Algo se pressente no ar, os ventos de tempestade levantam-se. Uma onda abate-se sobre a Ibéria visigótica. Os exércitos árabes invadem a península, aliados a facções que disputam a coroa visigótica. No meio deste turbilhão de sangue e chamas, do refulgir das espadas e dos confrontos destruidores entre ferozes exércitos, Eurico pega em armas. Os anos de sacerdócio não lhe haviam apagado o amor pela pátria. Na sua hora de maior perigo não se recusa ao combate. Faz a sua aparição na mais decisiva das batalhas, Guadalquivir, onde o embate entre exércitos culmina numa aterradora derrota que faz cair o reino visigodo. Eurico é um misterioso cavaleiro negro, capaz de sozinho deter legiões mouras, e que vê desesperado a traição dos seus companheiros fazer cair a pátria pela qual tanto sangue derramou. Estes são factos históricos, aprendidos friamente nos bancos da escola, aos quais a mitificação de Herculano dá o sopro da vida, da grandeza, da traição, da violência e da morta em páginas de prosa grandiosa e apaixonante.

Séculos após a poeira apagar os traços das sangrentas batalhas, conhecemos a história e tradições herdadas da época árabe. Sabemos da queda dos reinos bárbaros às mãos mouriscas, das luzes da civilização do Al Andaluz, da queda desta às mãos dos reinos da reconquista cristã, saída directamente da resistência dos últimos nobres visigodos, refugiados nas altas serranias das Astúrias. Mas este é um romance desesperado, que nos conta a história dos derrotados. Eurico é um personagem da época, sublimemente retratado. Com a alma torturada pelo desgosto de amores, ainda acredita na sua pátria, mas cada novo embate, cada novo passo, trás consigo derrota e aniquilação de tudo o que sempre conheceu e admirou. À boa maneira dos personagens românticos, Eurico trilha o caminho entre a loucura e o desespero, enquanto se ergue contra vastas forças, maiores do que a pequenez da sua humanidade.

- Dez anos! ... Sabes tu, Hermengarda, o que é passar dez anos amarrado ao próprio cadáver? Sabes tu o que são mil e mil noites consumidas a espreitar em horizonte ilimitado a estrela polar da esperança e, quando, no fim, os olhos cansados e gastos se vão cerrar na morte, ver essa estrela reluzir um instante e, depois, desfechar do céu nas profundezas do nada? Sabes o que é caminhar sobre silvados pelo caminho da vida e achar ao cabo, em vez do marco miliário onde o peregrino de tréguas aos pés rasgados e sanguentos, a borda de um despenhadeiro, no qual é força precipitar-se? Sabes o que isto é? É minha triste história! Estrela momentânea que me iluminaste, caíste no abismo! Arbusto que me retiveste um instante, a minha mão desfalecida abandonou-te, e eu despenhei-me! Oh, quanto o meu fado foi negro!

Hermengarda, a paixão de Eurico, é capturada por mouros após um tétrico momento. É possivelmente a passagem mais perturbadora do romance, numa abadia em que as religiosas preferem a morte ao cativeiro. Eurico oferece-se para a resgatar, e consegue-o, numa operação heróica digna das maiores gestas de cavalaria, que culmina com um exército mouro às portas das serranias asturianas, onde Pelágio, irmão de Hermengarda, lidera a resistência à invasão àrabe (que mais tarde originará a reconquista cristã). Aí, nas profundezas das cavernas da montanha, Eurico revela o seu segredo a Hermengarda, apenas para se deparar com um obstáculo inultrapassável. Qualquer esperança de felicidade é anulada pelo sacerdócio, ao qual Eurico é tão fiel como ao seu amor por Hermengarda e ao seu amor pela pátria. Tolhido, desesperado, Eurico oferece-se à morte num combate desesperado, enquanto Hermengarda enlouquece.

Os sentimentos exacerbados são dominantes nesta obra atravessada por duas correntes profundas de fidelidade - a fidelidade à pátria e a fidelidade à religião, os grandes motores por detrás desta trágica história.

Este é um romance que tem dentro de si todos os ingredientes românticos. Todo o ambiente a oscilar entre o belo e o horrível, toda a exaltação de sentimentos e emoções, as descrições majestosas, que tiram o fôlego ao leitor, os cumes filosóficos de extremos incomensuráveis, o desespero do momento histórico escolhido pelo livro. Toda a prosa acompanha estes sentimentos, tornado Eurico, o Presbítero numa obra empolgante e apaixonante.

Quem não conhece este livro será certamente surpreendido. Os amantes do fantástico ou do romance histórico encontrarão prosa digna das mais empolgantes obras do género, com momentos de profunda erudição que a tornam complexa aos nossos olhos modernos. O seu carácter canónico e imposições de obrigatoriedade de leitura escolar das obras provavelmente afastam leitores do prazer de mergulhar sem receios nas ficções de Herculano. Recomenda-se particularmente aos fãs de ficções medievalistas como símbolo de um género que influencia ficções modernas na linha que vai de Lord of the Rings a Game of Thrones. É certo que Eurico o Presbítero não tem dragões nem tronos disputados. Não tem encantamentos e feitiçarias, ou criaturas míticas. Os seus castelos não são arquitecturas de efabulação, a sua geografia não é imaginária. Mas no seu cerne é um romance de cavalaria puro, onde um herói de espírito puro e espada afiada é levado num périplo iniciático onde objectivos difíceis e amores impossíveis moldam a alma.

Livro canónico, é facilmente encontrado em diversas colecções editoriais. Ou então visitem o projecto Adamastor e descarreguem a edição de domínio público em epub. Pessoalmente recomendo esta via. Há um certo frisson de hipermodernidade futurista em ler palavras escritas no século XIX que nos remetem para o século VI num leitor de ebooks ou tablet.

segunda-feira, setembro 09, 2013

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Os Dois Lados da Moeda, Mas Não na Mesma Moeda...

Eis o tipo de tesouros inesperados que tornam os alfarrabistas em recursos insubstituíveis...

Numa pilha de velharias estrangeiras, entre outros volumes descartados e envelhecidos, encontro este Star Well, um romance de Alexei Panshin. O autor não é mau, mas a obra passou à história e a capa não inspira mais do que uma curiosidade passageira:


Na contracapa, um argumento característico da FC púlpica, embora tivesse sido publicado nos anos 70:


Contudo, abre-se a primeira página e ouve-se o primeiro acorde da banda sonora: suspense...


No rodapé, a indicação do principal (único) agente literário português em actividade há 40 anos, sob o que pode ser o carimbo de um contraparte estrangeiro nos EUA.

Em cima, alguém terá tido o trabalho de inscrever anotações... variações sobre uma designação... será... o título em português?

Um número... será o de uma colecção?...

A pilha ao lado contém números antigos da Argonauta. Será que...


Incrível!...

Veja-se a página de título, para retirar dúvidas (repare-se na confirmação do número 166):


Poderia aquele ser o exemplar usado pelo tradutor da obra para publicação na Argonauta? Poderia ter sido usado pelo próprio Eurico da Fonseca?

Folheie-se a edição original. No interior, mais variações sobre o título. Aparentemente, deu algum trabalho. Contra a crença comum, se calhar não era assim tão fácil obter as traduções genéricas, desapaixonadas e distantes que enchem os volumes da colecção...


E aqui, como noutras páginas, uma marca de leitura ou, mais certo, de pausa no trabalho de tradução:


Eis a prova, como se fosse necessário obtê-la, de que a curiosidade bibliófica não se pode contentar com a superfície nem com o conhecido, e que requer alguma investigação adicional. Por outras palavras, mesmo para as edições antigas, convém passar ao lado da capa e dos sumários e não descartar o que parece irrelevante.

Sem dúvida, uma fortuita coincidência, a tempo da publicação iminente do meu artigo sobre a colecção Argonauta no número inaugural da Bang! versão brasileira (em breve, também na versão portuguesa).


Que outros segredos encerrará o Baú da FC?...

domingo, setembro 08, 2013

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O epifenómeno Artiauri

Um belo dia de 1997, Ana Godinho apareceu nas letras portuguesas com um romance chamado Artiauri. Não se sabe se estaria nevoeiro nesse dia, se haveria uma névoa a cobrir os lugares por onde a autora passou, mas o que é certo é que ela tão depressa apareceu como se desvaneceu de regresso ao sítio de onde veio, nunca mais tendo aparecido o seu nome nos círculos da ficção científica e do fantástico. A dar conta da sua passagem pelas literaturas da imaginação ficou apenas um romance com um título esquisito. E, em geral, pouco mais: um par de traduções, uma coautoria numa publicação de cariz académico e outra num livro infantil.

Artiauri passa-se num planeta distante, habitado por duas espécies de seres inteligentes: uma, humanoide, é composta pelos descendentes de uma nave que chegara muitas gerações antes, proveniente de um mundo destruído numa catástrofe natural, uma autêntica arca de Noé espacial que serviu (e continua a servir) como repositório do conhecimento da espécie e como fonte de organismos biocompatíveis com a espécie que a construiu, os artiauri. Mas no tempo que passou desde a sua chegada ao planeta, os artiauri regrediram até um estado de civilização dominado por tabus e superstições, para o que muito terá contribuído, decerto, o facto de serem dotados de uma série de capacidades extra-sensoriais: telepatia, telecinese, precognição, enfim, o arsenal completo.

A outra espécie é aracnoide, nativa do planeta e de civilização recente, subjugada por um dimorfismo sexual acentuado (e "di-intelectualismo sexual" mais acentuado ainda — só os machos são inteligentes, o que não deixa de ser curioso se tivermos em conta que a autora é mulher) e ciclos reprodutórios incontroláveis. As fêmeas, apesar de estúpidas, são fortíssimas telepatas e um perigo para os machos que tenham o azar de cair sob o seu domínio (à boa maneira das nossas aranhas). Chamam-se vulturs e, além de se dividirem em machos e fêmeas, também se dividem em raças, uma das quais se encontra em plena expansão.

É esta expansão de uma das raças de vulturs que vai desencadear os acontecimentos descritos no romance, ou seja, a luta dos artiauri pela sobrevivência.

A premissa é interessante, mas o diabo está nos pormenores. E não é sempre assim?

Ana Godinho escolheu não escrever ficção científica propriamente dita mas sim aquilo a que nos círculos anglófonos se chama sicence fantasy, uma espécie de híbrido que mistura elementos de FC e de fantasia, muito presente nas obras de Marion Zimmer Bradley, Anne McCaffrey, Andre Norton, Joan D. Vinge, etc. E fê-lo, aliás, de uma forma bastante típica, ao situar a sua história num planeta distante onde espécies alienígenas (mas muito semelhantes a nós em quase tudo) são dotadas de capacidades mágicas e místicas. Note-se que esta escolha é perfeitamente legítima, mas tem um problema: desagrada aos mais puristas leitores de FC (e também de fantasia), que encaram esta hibridização mais como uma bastardização dos géneros do que como algo que possa trazer alguma inovação.

Apesar disso, se o livro tivesse sido bem concebido poderia ter sido bem acolhido. Infelizmente, Ana Godinho cometeu alguns erros graves que prejudicaram em muito este seu primeiro (único?) romance.

De longe o pior desses erros foi o modo como tentou dar um fundo alienígena à história não através da descrição de ambientes e vivências, mas sim pela invenção e utilização intensiva de palavras que tornam a prosa totalmente impenetrável caso não se recorra a um glossário.

É evidente que o neologismo é uma das características principais da FC e literaturas relacionadas, precisamente porque ao criar conceitos estranhos à experiência humana não existem palavras ou expressões que os designem. Assim, a FC tem de inventá-las e, quando a sociedade ou a ciência evoluem em sentidos que a ficção científica já explorou, não é raro que esses bizarros neologismos acabem por se integrar quase impercetivelmente no discurso quotidiano.

Mas isso é uma coisa, e outra bem diferente é esconder a falta de imaginação ou de técnica de criação de ambientes por trás de neologismos totalmente desnecessários. Para que fim se substitui "unidade familiar" por "toro"? Ou "engano" por "cacha"? Não há qualquer justificação, e muito menos quando estas palavras formam uma parte tão importante do texto.

Esta floresta impenetrável de neologismos prejudica seriamente a fluidez da leitura e, em consequência, o destrute da história. Também torna mais patentes os outros defeitos de que o romance sofre, como algumas oscilações na qualidade do português e uma estrutura global que nem sempre está particularmente bem conseguida (há trechos bastante dispensáveis e chatos, a conclusão é deixada tão em aberto que mais parece um fim de capítulo ou um gancho para uma sequela, etc.).

Seja como for, é preciso ter em conta que se trata de uma primeira obra e, com isso em mente, há que reconhecer que Artiauri mostra que a autora teria potencial para fazer bem melhor depois do primeiro romance, uma vez corrigidas todas as falhas e erros de que este padece. E talvez seja pena que isso não tenha acontecido.

Republicado, com alterações, do e-zine E-nigma (2003).

sábado, setembro 07, 2013

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O primeiro choro do recém-nascido

Nasce aqui, neste momento, o Baú da FC, um novo espaço dedicado à ficção científica e fantástico em língua portuguesa. Bem-vindos. A explicação completa do que cá nos traz pode encontrar-se aqui, mas em versão resumida posso dizer-vos que embora já existam, e ainda bem, muitos espaços dedicados às últimas novidades, a alguma divulgação e análise de obras recentes, não há os suficientes onde se resgate a um certo esquecimento aquilo que se fez e disse há algum tempo. Que faltam sítios onde contrapor ao imediatismo da internet algum sentido de profundidade no tempo, em especial se dedicados em exclusivo, como é o caso, à FC, fantasia, terror e géneros conexos produzidos em língua portuguesa.

Da equipa pouco falarei porque está longe de estar completa. Ainda há convites por fazer, convites à espera de resposta, provavelmente até convites por imaginar. Direi apenas que são pessoas que têm suficientes anos disto para possuírem o tipo de raízes que procuramos aqui desenvolver. Pessoas que têm vindo a produzir conteúdos ao longo dos anos, com consistência, e que portanto têm, na maioria dos casos, material já pronto para ser recuperado. Pessoas que, de certa forma, possam funcionar como arqueólogos, trazendo à superfície artefactos enterrados sob as camadas das novidades mais recentes.

Isto, bem entendido, após esta introdução. E talvez mais algumas, pois é mais que provável que vários de nós tenham algo a dizer sobre o baú da FC e como o entendem.

Seja como for, achamos o trabalho que nos propomos fazer útil e interessante. Esperamos que sintam o mesmo.

Até já.