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domingo, maio 04, 2014

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A literatura portuguesa de Ficção Científica, por Jorge Guerra (1988)

Texto de Jorge Guerra, publicado no Diário de Lisboa, 16 de Junho de 1988, suplemento «Ler e Escrever», p. 3. Reproduzido na íntegra a partir do fac-símile do arquivo digital do jornal.

A literatura portuguesa de Ficção Científica


“Produtos característicos da civilização americana, estes dois géneros (o Jazz e a Ficção Científica) dispõem na Europa Ocidental (à excepção da Península Ibérica e provavelmente da Irlanda) de um vasto auditório e de um número crescente de adeptos”, assim escrevia o romancista inglês Kinsgley Amis [1]. Esta observação pode ser confirmada entre nós, mas não cabe aqui justificá-la.

Na verdade, se foi com a revista «Amazing Stories», em 1926 nos EUA, que se formaram os moldes da moderna Ficção Científica, só em fins da década de 50 apareceram as primeiras incursões portuguesas no género, sem, todavia, um posterior percurso ampliado ou implantado.

As experiências genuínas e de culto reduziram-se a esporádicas edições de autor, não havendo sequer na Imprensa ressonâncias críticas da produção nacional e internacional.

Ultimamente tem-se escrito sobre João Aniceto e o seu «O Quarto Planeta» (1986); o autor estreou-se em 1983 com «Os Caminhos Nunca Acabam», premiado com Daniel Tércio («A Vocação do Círculo») no Concurso de FC da Editorial Caminho. Sobre eles escreveu-se não muito favoravelmente numa coluna, aliás já extinta, do Jornal de Letras [2].

Num outro raríssimo texto sobre este tema, Fernando Saldanha [3] revela que conhecidos escritores dedicaram-se à FC; são os casos de Carlos Macedo, Fernando Melin, Maria Judite de Carvalho e Romeu de Melo [4]. Saldanha afirma ainda ser autor de um romance do género, «O Planeta Prometido», sob o pseudónimo de Jack Sawan [sic – o pseudónimo é Jack Swann].

Também obras como «O Grande Cidadão» (Arcádia, Lx.ª 1963) de Virgílio Martinho e “Jánika” (Círculo de Leitores, Lx.ª 1981) de Vitório Kali podem ter afinidades com a linha orwelliana e a «fantasy».

De referir também o volume Antologia Panorama de Antecipação (Galeria Panorama, Lx.ª 1968), que além dos consagrados norte-americanos, inclui contos de Dórdio Guimarães, F. Saldanha, Hélia, Lima Rodrigues, Luis Campos, Manuela Montenegro e Natália Correia.

Um romance auto-intitulado de FC, mas de uma ligeireza própria de alguém que pretende veicular a defesa do ultramar português, é “Um Homem de Outro Mundo” (Pax, Braga 1968) de Reis Ventura. Um ET aterra em Luanda e desde aí é escoltado pelas autoridades portuguesas, que logo o terão de subtrair às manigâncias das duas potências mundiais. Apercebendo-se do isoladamente (sic) de Portugal no contexto diplomático, o ET decide intervir na ONU a favor da questão colonial.

Eis a seguir os livros que mais rigorosamente seguem os modelos clássicos de FC, seja a “heroic fantasy” ou a “space opera”.

Em “A Morte da Terra” (Sociedade de Expansão Cultural, Lx.ª 1969) de Alves Morgado, os planetas do Sistema Solar estão colonizados pela Terra e sujeitos a um regime despótico. Há, contudo, um foco de rebelião em Ganímedes, satélite de Júpiter, para onde se dirige em missão um membro do Império; aí, este é seduzido pelos ideais rebeldes e participa na batalha pela libertação, facto de súbito consumado pela explosão do Sol que aniquila a Terra. A partir de Júpiter propaga-se, então, a “democracia mais pura que já houve algum dia”, onde a transmissão da história humana seja abolida.

“Em Busca de Novos Mundos” (Ed. Autor, Lx.ª 1965) de Oliveira de Fontemar é um livro bem escrito e estruturado, com acção e intensidade dramática, que nos conta a visita de uma tripulação terrestre a alguns planetas situados fora da Via Láctea e os seus esforços para compreender as suas formas de pensamento.

Luís de Mesquita, professor de bioquímica da Universidade de Lisboa, escreveu “A Ameaça Cósmica” (Liv. Sampedro Ed., Lx.ª s/d), confirmando o talento de narrador que já exibira em “O Mensageiro do Espaço”. Um cientista descobre que grandes cataclismos ocorrerão na Terra durante a passagem próxima de um cometa, procurando por isso alertar os mais poderosos governos, que não chegam a entendimento estratégico. Até ao instante fatal, sucedem-se vários desenlaces particulares entre personagens cujas relações ambíguas caminham para uma urgente redefinição.

Um caleidoscópio de situações é “Vieram do Infinito” (Minerva, Lx.ª 1955) de Eric Prince, pseudónimo de A. Maldonado Rodrigues, uma narrativa que transborda visualidade. Num distante e avançado planeta, um grupo de nativos tenta quebrar a monotonia quotidiana e o policiamento emocional de um “big brother”, teletransportando-se para a Terra de 1979 e tomando parte em envolvimentos desconhecidos.

Finalmente, “Canopus 98” (Ed. Autor, Lx.ª 1969) de Carlos Moutinho, é certamente aquele que melhor fundiu a FC clássica e potética (sic); dezena e meia de contos bem escritos numa confluência surrealista e bradburyana. Um grande autor!



NOTAS:
[1] “L’Univers de la Science-Fiction” (“New Maps of Hell”), Payol, Paris, 1962
[2]  J. Santandré, “JL”, n.º 130, Ano IV, 1-1-85
[3] “Breve Nota Sobre a Literatura Portuguesa de FC”, in “Selecções Mistério”, n.º 6, Lx.ª Nov 1981.
[4] De Romeu de Melo: “AK”, 1959; “Não Lhes Faremos a Vontade”, 1970; “Buzina”, 1972; “Factor Genético”, 1973.

sexta-feira, fevereiro 28, 2014

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Kalum, Menotti Del Picchia

Em 1940, dez anos após a primeira publicação de A filha do inca, Menotti Del Picchia retornou ao universo da República 3000 em Kalum, esta também uma história de aventuras na selva brasileira, "para recreio da nossa juventude", como diz o autor em seu prefácio.
Kalum repete a estrutura usada no livro anterior e, de forma geral, é um livro mais regular que aquele. Mas é lamentável que seja assim, pois as imagens de A filha do inca emocionam muito mais e fixam-se de forma mais profunda na memória do leitor. Desse modo, Kalum soa anticlimático, ainda que tenha muitas sequências emocionantes.
A história de Kalum inicia com uma expedição alemã, científica e cinematográfica, que pretende filmar os rituais canibalescos de uma tribo de índios da Amazônia, os kurongangs, intocada pela civilização. A tribo habita uma área de difícil acesso e a jornada é longa, ainda que não tão desastrada quanto aquela comandada pelo Capitão Fragoso. Esta expedição é chefiada por Karl Sopof, um tipo atlético e esperto que acredita que é sua melhor chance de ficar rico, pois tem certeza que o filme que pretende fazer vai ser um sucesso na Europa.
Os mateiros que guiam a expedição têm medo, pois conhecem a selvageria dos kurongangs, especialmente seu líder, o cacique Kalum, O Sangrento. A certa altura, os expedicionários são surpreendidos pelos kurongangs e levados prisioneiros. Quando se aproximam da taba dos indígenas antropófagos, numa clareira de acesso difícil entre montanhas altas e escarpadas, Karl surpreende-se com a arquitetura de algumas ocas, que se parecem com casas urbanas, porém erguidas com bambu e barro.
Ao confrontarem Kalum, todos percebem porque ele é tão temido. Trata-se de uma figura um tanto cômica, de pequena estatura, ainda que fortíssimo e de aparência feroz. Mas o que realmente assusta é que Kalum demonstra ser psicológica e emocionalmente instável, com toda certeza um psicopata. Kalum decreta que todos os prisioneiros deverão ser sacrificados mas, antes disso, devem ser purificados pelo pajé, um tipo misterioso chamado de Bogum. Karl é levado a sua presença justamente numa das choças de aparência familiar, e se depara com outra criatura bizarra, barbada e vestida em andrajos, mas que fala sua língua e sabe exatamente o que ele pretendia fazer ali com seus equipamentos estranhos. Alguns mistérios desfazem-se quando Bogum revela a Karl que ele é, na verdade, o padre D. Rui Colaço, que sobrevive entre os kurongangs pois impressionou-os com truques de mágica, enquanto seus companheiros, de uma malfadada missão de catequese, foram todos mortos.
Bogum sabe que não pode fazer muito pelos prisioneiros sem arriscar sua própria vida mas, junto com Karl, elabora um plano para intimidar Kalum, que consiste em filmá-lo, exibir o filme realizado e convencê-lo que Karl também é um feiticeiro poderoso e que aprisionou sua alma.
O plano funciona parcialmente pois, dessa forma, Karl e Bogum conseguem livrar os demais prisioneiros que rapidamente abandonam a taba. Porém, Bogum e Karl são retidos pelo desconfiado Kalum, que exige a devolução de sua alma. Quando percebem que nunca sairão vivos da tribo kurongang, ambos decidem fugir pela única saída possível, uma passagem secreta sob as montanhas, que Bogum descobriu através de um mapa que encontrou junto a um esqueleto do que ele julgara ser uma criança. Na proteção da noite, ambos esgueiram-se em direção as escarpas, mas são descobertos e caçados pelos índios. Já próximos do paredão de rocha, o velho padre é abatido mortalmente por uma flexada, enquanto Karl, ao tropeçar numa pedra, aciona o mecanismo que abre o portal secreto na parede montanhosa, através do qual ele se atira precipitadamente. Os kurongangs ficam assustados com o poder do estranho feiticeiro que fugiu para dentro da montanha, mas Kalum não está com medo. Promove um dos feiticeiros menores ao posto do falecido Bogum e exige, sob pena de morte, que ele descubra uma maneira de também abrir a montanha, para recapturar o feiticeiro branco que lhe roubou a alma.
Enquanto o aterrorizado feiticeiro tenta desesperadamente descobrir como se abre uma montanha, Karl tateia na escuridão de uma caverna colossal que se aprofunda mais e mais para dentro da rocha. Milhares de metros abaixo do solo, descobre uma cidade futurista habitada por mulheres pequeninas como crianças, lindas, louras e idênticas que, ainda por cima, falam sua língua. Bem recebido, Karl se depara com uma versão ampliada das pequenas mulheres, a única entre elas que tem a altura normal, chamada Elinor. Ela lhe conta que os habitantes daquela cidade, que também se chama Elinor, descende de viajantes cretenses que naufragaram na Ilha de Marajó, os mesmos navegantes dos quais outro ramo de descendentes fundou, em local mais favorável, a mítica República 3000. Nas cavernas, seu povo encontrou abrigo e segurança, pois na floresta eram hostilizados pelos kurongangs, que os caçavam sem trégua. Lacraram a entrada da caverna, aprofundaram as galerias e erigiram ali sua cidade, com sofisticados sistemas de iluminação e circulação de ar. Através de receptores de rádio-televisão, acompanharam a evolução dos povos do mundo, aprendendo suas línguas e absorvendo seu conhecimento. Sua estatura foi se reduzindo ao longo das gerações e, sem a luz natural do sol, o ar fresco e o céu aberto, uma desgraça terrível se abateu sobre o povo de Elinor. Uma infelicidade existencial profunda vitimou principalmente os homens, que se suicidaram aos milhares. As mulheres resistiram melhor, mas tornaram-se infantis e fúteis. Aos poucos, a população foi se reduzindo e naquele momento encontra-se à beira da extinção.
Elinor lidera os últimos homens remanescentes numa investida desesperada em escavar, a partir dos níveis mais profundos da caverna, uma passagem para o exterior, longe dos ferozes kurongangs. O trabalho é lento e imprevisível, mas há esperança que seja finalizado em breve.
As pequenas mulheres não se importam com a escavação e em nada ajudam os trabalhos, passando seu dias em absoluta improdutividade. Volúveis e medrosas, logo voltam-se contra Karl, temendo que ele traga os kurongangs até ali. Os ânimos exaltam-se e, quando parece que nem Karl nem Elinor poderão contê-las, soam os alarmes: os kurongangs finalmente abriram o portal e a luta final tem início.
Como se percebe, a história de Kalum é muito mais elaborada que a vista em A filha do inca. Há mais detalhes, os personagens são individualmente mais trabalhados, os conceitos de uma história de aventuras são melhor instalados e mesmo as estruturas de gênero parecem melhor arranjadas, ainda que muita coisa pareça absurda ao leitor moderno. Mas falta o toque de maturidade que A filha do inca tem de sobra. Falta, sobretudo, um personagem carismático como o Maneco, tão bem colocado na história anterior. Parece, a princípio, que um dos muitos companheiros de Karl, especialmente o grandalhão e sentimental Fritz, poderia assumir esse posto, mas todos são removidos da trama antes de sua metade.
Kalum ainda tem a seu desfavor o fato de ser uma história muito mais sombria se comparada a A filha do inca. Enquanto em A filha do inca os autômatos da República 3000 sobem em revoada para as estrelas, numa cena emocionante e transcendental que levaria qualquer fã de hard fiction às lágrimas, Kalum só tem sangue e destruição a oferecer. Para compensar, Kalum apresenta um epílogo lírico e belíssimo de efusividade tropical, em si uma peça à parte, com seu colorido contrastando ao preto e branco predominante da história. Decerto que Del Picchia já sabia disso tudo. Ele mesmo diz, em seu prefácio, que se entregara "à volúpia de imaginar coisas absurdas que fizessem sentido pelo menos como hipóteses de um futuro maravilhoso".
Cabe a nós percebermos que esse maravilhoso não tem que ser, invariavelmente, positivista. No caso de Kalum, é o maravilhoso do horror que se apresenta muito mais exposto do que o maravilhoso científico. Comparado à pobreza de ideias que cerca o gênero do horror no Brasil, que se volta insistentemente para um gótico superado e enfadonho, Kalum mostra que Menotti Del Picchia estava adiante de todos nós tanto na ficção científica quanto no horror.

quarta-feira, janeiro 01, 2014

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A filha do inca

A filha do inca, Menotti Del Picchia. Edição original de 1930.

Entre os leitores brasileiros de ficção científica existe uma indisfarçada má vontade para com os romances clássicos da fantasia nacional. Supõem que são textos rasos, de pouca ou nenhuma qualidade, seja literária, seja nos parâmetros da ficção de gênero. Afinal, o que poderia um matuto no início do século XX produzir de significativo para um gênero que mal engatinhava em seus mercados mais importantes, se até neles os autores tinham dificuldades em encontrar o tom e o espaço correto desses protocolos?
A dificuldade de acesso a esses livros mais antigos, que não se encontram nas livrarias há décadas, também contribui para que sejam preteridos e, muitas vezes, esquecidos. Por preconceito e distanciamento, os primeiros exemplos da ficção científica brasileira vão sendo empurrados para a vala comum do que não tem valor. É o caso do romance A filha do inca ou A República 3000, do modernista Menotti Del Picchia (1892-1988).
Mais conhecido por seus textos realistas, como Juca Mulato (1917) e Laís (1931), Del Picchia nasceu em São Paulo/SP, iniciou como jornalista em Pouso Alegre, dirigiu o jornal A Tribuna de Santos e trabalhou em diversos periódicos importantes de São Paulo. Participou ativamente da Semana de Arte Moderna de 1922 e, mais tarde, chegou a criticar os excessos do Modernismo. O que ficou marcado na obra de Menotti Del Picchia foi sua ânsia por uma literatura iminentemente brasileira, para o que lançou mão de mitologias indígenas e imagens da flora e da fauna nacionais. De certa forma, Del Picchia foi o primeiro interlocutor de um debate conceitual que, nos anos 1980, viria a ser conhecido como Movimento Antropofágico da ficção científica brasileira.
Contudo, até isso reforça o preconceito dos leitores de hoje pois há tantas correntes críticas restringindo o espectro da ficção científica ao ponto de quase nada se enquadrar nele e qualquer contexto culturalmente definido, como o sugerido pelo Modernismo, é suficiente para que a obra seja retirada do balaio.
No prefácio, assinado pelo autor, Del Picchia assume sua motivação de escrever  "à nossa mocidade que procura uma leitura imaginosa que raramente lhe oferecem nossos melhores escritores, pois talvez achem o gênero puramente lúdico."  Ainda diz que se lançou à escrita de A filha do inca como uma forma de superar os traumas de A tormenta, livro sobre a Revolução de Isidoro em 1924, que ele testemunhou. Era de se esperar, portanto, uma novela leve e juvenil, que realmente justificasse o preconceito com relação a seriedade do autor brasileiro para com os gêneros fantásticos. Ledo engano.
A filha do inca inicia num frenesi devastador. Talvez as memórias sangrentas do autor fossem tão fortes que ele não conseguiu purgá-las todas redigindo A tormenta. As primeiras oitenta páginas de A filha do inca são de um furor pouco comum em toda a literatura fantástica, brasileira ou não.
Um grupo de militares, comandado pelo capitão Paulo Fragoso, está em missão de cartografia nos confins da Serra do Caiapó. A tropa enfrenta problemas sérios com doenças e acidentes. A mata fechada e o terreno acidentado atrasam a missão, que vai perdendo homens ao longo do caminho.
A certa altura, a tropa é atacada por uma tribo de selvagens que mata a maioria dos soldados e captura outros, ficando livres apenas o próprio Fragoso e um de seus comandados, o inábil e pouco valente Maneco, além do cão Faísca. A sequência de combate entre os índios e a tropa é de vigor e realismo espetaculares, em alguns momentos beirando à sanguinolência explícita.
Mesmo sem munição e mantimentos, Fragoso e Maneco tentam resgatar seus companheiros da sanha antropófaga dos indígenas, mas fracassam na tentativa. Exaustos e em frangalhos, a única chance de sobreviver é chegar ao ponto de encontro onde um avião viria resgatar a tropa.
Com dificuldades, o trio consegue chegar a uma planície castigada pelo sol, onde encontram uma tétrica muralha que parecia seguir em linha reta de horizonte a horizonte, formada por ossos calcinados de todos os tipos de animais conhecidos e desconhecidos, esqueletos humanos e um sem número de armamentos primitivos, trabalhados em ouro, prata e pedras preciosas.
Nesse momento, percebem a aproximação do avião de resgate mas, ao sobrevoar a muralha de ossos, os motores do aparelho falham. Dos destroços fumegantes, nada se pode aproveitar.
Desanimados, Fragoso, Maneco exploram a estranha barreira, que desperta a cobiça de Maneco. Cruzam-na sem problemas mas, ao tentar pular de volta, o cão morre eletrocutado. Os dois homens são capturados e conduzidos por uma estranha energia que os faz caminhar até um edifício onde são confrontados por um autômato antropomórfico que os leva para a mais estranha das nações sobre a face da Terra: a República 3000.
Ali vivem descendentes de homens vindo da Grécia há milênios, cuja embarcação naufragou na Ilha de Marajó. Depois de muita atribulação nas terras de uma América selvagem, fixaram-se naquela planície rica em minérios e alimentos, e desenvolveram-se para além do mais avançado sonho tecnológico. Fecharam seu perímetro com uma barreira eletrônica que impede qualquer invasão, trocaram seus corpos mortais pelos de autômatos e ali estabeleceram uma utopia que está prestes a dar um novo e grandioso salto evolutivo. Mas a sorte de Fragoso e Maneco está selada: eles substituirão os dois últimos remanescentes de uma tribo inca escravizada pela República 3000: Capac e Raymi – "a filha do inca" –, por quem Fragoso se apaixona e é correspondido. Contudo, a substituição implica no sacrifício ritual de Raymi e Capac, sendo que suas mortes devem vir pelas mãos do pobre Maneco. Parece não haver futuro para o romance entre Fragoso e Raymi, a não ser que os sábios da República descubram a equação final que procuram e fará deles cidadãos do universo.
A filha do inca apresenta duas partes bem distintas: a primeira é um relato realista da malfadada missão militar, com descrições vivas da geografia, flora e fauna brasileiras. A segunda, uma história fantasiosa e romântica, na tradição das aventuras de H. Rider Haggard, com ambientes áridos e minimalistas arrematados por um final positivista que cumpre a intenção do autor em realizar um texto para jovens. Entretanto, a parte inicial é tão pungente que agrada também ao leitor adulto.
Não há preconceito que resista a leitura do texto vigoroso de A filha do inca. Quem quer que o faça vai, imediatamente, defender que seja relacionado entre as melhores obras da ficção científica brasileira, com admiração por saber que foi redigido em época anterior a maioria dos grandes clássicos internacionais da ficção científica, antecipando em muito a consciência do gênero no Brasil.

sexta-feira, novembro 22, 2013

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Fazenda Modelo: Novela pecuária

Fazenda Modelo: Novela pecuária, Chico Buarque.
Editora Civilização Brasileira.Rio de Janeiro, 1974, 140 páginas.

Os anos 1970 foram uma espécie de interregno entre as duas principais gerações de escritores brasileiros que se dedicaram aos gêneros fantásticos e, mais especificamente, à ficção científica. Até 1969, tivemos uma boa quantidade de livros escritos pelos autores da chamada Primeira Onda da ficção científica brasileira, carinhosamente conhecida como Geração GRD, ainda que nem todos tenham realmente surgido sob a égide da legendária editora GRD: André Carneiro, Fausto Cunha, Dinah Silveira de Queiroz, Rubens Teixeira Scavone, Jeronymo Monteiro, Rachel de Queiroz, Nilson Martello, Guido Wilmar Sassi, Antonio Olinto, Levy Menezes e muitos outros. Muitos destes não construíram suas obras exclusivamente na fc&c, e no mainstream conquistaram reconhecimento de público e crítica, emprestando prestígio ao fantástico brasileiro.
A Segunda Onda de autores ensaiou seus primeiros passos a partir de 1982 no Boletim Antares, publicado pelo Clube de Ficção Científica Antares de Porto Alegre: Simone Saueressig, Gerson Lodi-Ribeiro, Miguel Carqueija, Jorge Luiz Calife e Roberto de Sousa Causo foram os nomes dessa turma que se firmaram nas páginas de fanzines e boletins de clubes de fãs, unindo-se a outros tantos, tais como José dos Santos Fernandes, Ivan Carlos Regina, Carlos Orsi Martinho, José Carlos Neves, Braulio Tavares, Finisia Fideli, Fabio Fernandes, Roberto Schima e muitos outros.
Entretanto, nesses dez ou doze anos de intervalo, a fc&f brasileira não foi abandonada totalmente. Apesar dos especialistas terem reduzido sua presença editorial durante os piores anos da ditadura militar, outros escritores não necessariamente identificados com o gênero perceberam na literatura de fantasia uma ótima maneira de contornar as redes da censura e dizer o que pensavam a respeito daquele período tenebroso, uma vez que os órgãos de comunicação de massa eram bem mais vigiados do que os livros.
Chico Buarque de Holanda era então um compositor de sucesso, respeitado e prestigiado tanto pela elite intelectual quanto pelo povão, no Brasil e no exterior. Sua poesia de sentidos múltiplos agradava pela qualidade da composição e pela identificação imediata com o jeito brasileiro, somada a musicalidade criativa, belos arranjos e harmonias. Chico Buarque fazia então o que alguns classificavam como "música de protesto", embora sua responsabilidade artística não permitisse que o panfletarismo simplório dominasse o conteúdo criativo, como acontecia com outros compositores menos brilhantes.
Em 1974, no auge da repressão política, a editora carioca Civilização Brasileira, que já publicava o fantasista goiano José J. Veiga, levou às livrarias a primeira novela de Chico Buarque, Fazenda Modelo: Novela pecuária.
Trata-se de um texto obviamente alegórico, tal como também são suas poesias, que conta a ascensão e a queda de um projeto econômico e social dirigido por tecnocratas e financiado pelo capital estrangeiro.
A Fazenda Modelo era, a princípio, uma propriedade rural que, embora de grandes dimensões, não diferia em nada de qualquer outra propriedade agropecuária, com a boiada solta no pasto descuidado, sem nenhuma tecnologia ou acompanhamento técnico. A vida dos bois e vacas não era fácil, mas era tranquila e sem percalços. As rezes nasciam naturalmente, alguns meses depois de coitos igualmente naturais, a comida vinha diretamente do chão inculto, os carrapatos e as doenças eram um grande incômodo mas, enfim, não é assim em toda parte?
Então Juvenal, o bom boi, elegante e educado filho da pátria, é elevado a posição de conselheiro-mor da Fazenda Modelo e aos poucos implanta nela o milagre econômico que vai tirar a boiada do atoleiro e arremessá-la para o futuro glorioso. Assessorado por técnicos especialistas importados (todos curiosamente tendo o nome iniciados pela letra "K") Juvenal elege Abá como o semental-mor da Fazenda Modelo: boi forte e viril, apaixonado pela vaca Aurora, que viria ser a matriz criadora mais importante do projeto. Abá é isolado da vacada em um galpão absolutamente limpo e somente durante os períodos propícios de cobertura são trazidas as vacas para que ele as emprenhe. Alucinado de desejo por Aurora, que é a primeira vaca a entrar no touril, Abá vai trepando em cada uma das vacas que vem depois e garante dessa forma o sucesso da primeira geração de bezerros cientificamente selecionados da Fazenda.
Com o bom desempenho da vacada nas exposições, o sêmen de Abá torna-se o ouro branco de exportação da Fazenda Modelo, que passa a usar um processo eletrônico, sem contato físico, para colher o líquido de Abá, sendo as vacas  fertilizadas artificialmente.
Enquanto a Fazenda Modelo cresce e se desenvolve, com a instalação de fábricas de todos os tipos, estádios de primeiro mundo, monumentos a Juvenal, praças e fontes grandiosas, a vacada vai ficando cada vez mais triste. A poluição começa a envenenar a boiada mais simples, as reprodutoras entram em depressão pelo desaparecimento inexplicável de seus filhos, parando de aleitar e de emprenhar, e até Abá, viciado no aparelho de coleta de sêmen, envelhece precocemente. Lubino, seu sucessor, é apressadamente escolhido entre os touros da primeira geração. Mas Lubino não estava ainda preparado e a tragédia vai se abater sobre a Fazenda Modelo e seu grande projeto de desenvolvimento.
É interessante deixar-se levar pela fantasia de Chico Buarque, que modula a humanização/bovinização dos personagens conforme as circunstâncias dramáticas exigem.
Está claro que esta novela é uma alegoria da situação política brasileira em 1974, não muito disfarçada pelo cenário da Fazenda Modelo. Frases e atos de Juvenal têm paralelos óbvios na realidade histórica, e muitos leitores experientes na fc anglo-americana podem achar a leitura um tanto ingênua e previsível.
Mas Fazenda Modelo exemplifica uma das mais imediatas missões da arte e da literatura, qual seja, levar o leitor a refletir sobre a sua realidade objetiva. Nesse aspecto, é amplamente bem sucedida, pois a mensagem é clara e a leitura é facilitada por um texto que fala muito bem ao leitor comum que, em tese, é o seu público alvo. Contudo, Fazenda Modelo preserva os ideais do Modernismo e utiliza uma redação elaborada repleta de estruturas literárias criativas e coloquialismos intraduzíveis, que agradam também ao leitor sofisticado.
Ainda mais significativo é o fato de Fazenda Modelo ter aparecido em pleno cenário dos fatos que motivaram a sua composição. Não há dúvida que Chico Buarque e a editora Civilização Brasileira correram riscos sérios ao ousar sua publicação. Pode ser que Buarque tenha se escudado em sua fama maiúscula ou no auto-exílio que cumpriu no exterior. Mesmo assim, é espantoso que assim tenha sido.
Geralmente, espera-se que um autor literário demonstre alguma coragem para atacar os seus alvos e que, eventualmente, ponha a cabeça para fora da trincheira e dispare um tiro na direção deles. Isso já é suficiente para dar significado à obra para além do entretenimento frívolo e descartável ou do formalismo acadêmico, principalmente no caso da fc, tida como um gênero alheio à realidade. Ainda que possamos pinçar uns tantos bons exemplos, entre eles o próprio Fazenda Modelo, no que se refere a fc&f brasileira percebe-se que o preconceito justifica-se, infelizmente.
Apesar da tendência natural e quase inevitável da fc&f para o simbolismo, a caricatura e a alegoria, os autores brasileiros sempre demonstraram interesse especial pelo entretenimento do gênero, evitando a discussão de problemas contemporâneos em seus trabalhos. Investem na elaboração de utopias e conceitos tecnológicos fantásticos, lançando suas histórias em tempos distantes no passado ou no futuro, com protagonistas mitológicos, mecânicos ou alienígenas, de forma a fugir o mais possível do problemas do presente e dos mistérios da alma humana, alienando-se já no ato da composição da obra que, desse modo, distancia-se do leitor que não se identifica com ela quando publicada.
Um e outro ainda demonstram, eventualmente, coragem suficiente para dar aquela olhadela acima da trincheira, mas a grande maioria satisfaz-se em sentar num canto retirado, jogar baralho e apostar cigarros. Para eles a batalha, a realidade, sequer existe.
Exatamente por isso, Fazenda Modelo é leitura importante num gênero que ainda carece de uma profunda discussão existencial no País.

quinta-feira, novembro 14, 2013

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Comba Malina, Dinah Silveira de Queiroz

Qualquer obra que tenha ultrapassado os vinte anos tem seu valor histórico e ainda mais importante se torna quando o seu autor demonstrou capacidades literárias amplas dentro e fora dos gêneros fantásticos, como é o caso de Dinah Silveira de Queiroz, autora consagrada no mainstream, que tem em sua bibliografia textos importantes como Floradas na serra (1939) e A muralha (1954).
Dinah era uma escritora consagrada quando decidiu escrever fantasia, iniciando com o romance Margarida La Rocque (A ilha dos demônios), cuja primeira edição é de 1949 pela Livraria José Olympio Editora, e que, mais tarde, teria traduções em vários países. Não por acaso, Margarida La Rocque é o primeiro volume da Coleção Dinah Fantástica, que teve em seguida a edição de Comba Malina, coletânea de contos de ficção científica que é o assunto desta resenha.
A coletânea apresenta oito contos da autora, sendo três inéditos até então, nesta ordem: "Comba Malina", "Os possessos de Núbia", "O céu anterior", "A universidade marciana", "Anima", "A Ficcionista", "Eles herdarão a Terra" e "O Carioca".
O conto de abertura, que dá nome ao livro, é o melhor de todos. Escrito em 1968 para esta antologia, é o relato, em primeira pessoa, de um faxineiro cujo nome não nos é revelado. Por necessidade financeira, o narrador procura uma residência mais próxima ao banco onde cumpre expediente, e é atraído para um beco por uma insidiosa sequência musical. Quando se dá conta, está batendo à porta de um casario, que se trata justamente de uma pensão que tem uma vaga disponível a um preço muito baixo. O protagonista vê-se então colega de quarto do cientista aposentado Professor Sarmento, que desenvolve uma pesquisa histórica sobre o passado daquele velho casarão que, 250 anos antes, fora a Bodega da Comba Malina, uma cigana belíssima pela qual o Professor parecia ter fixação.
Ao longo dos dias e noites que ambos compartilham, o faxineiro começa a participar das investigações do cientista, que tem uma teoria inusitada sobre o tempo e desenvolveu um dispositivo que permite a visualização do passado. Quando o protagonista finalmente experimenta a viagem e vê Comba Malina, apaixona-se perdidamente por ela, o que será a sua ruína. O desfecho assemelha-se a algumas histórias do escritor americano H. P. Lovecraft, porém com amplas referências ao candomblé, que dá um charme especial ao conto, numa das mais pioneiras manifestações da antropofagia modernista na fc brasileira.
A seguir temos "Os possessos de Núbia", também um conto inédito escrito em 1968 para esta antologia. Bruno é um imigrante em Núbia, planeta inóspito que abriga uma colônia de humanos. Ele foi para lá para dar a sua família uma vida melhor, uma vez que os imigrantes recebiam uma generosa indenização pelos vinte anos, no mínimo, que cada colono teria de passar no planeta. Porém Bruno não foi só pelo dinheiro. Ele se sentia incomodado com os desejos da esposa em ter filhos de forma natural, quando há muito tempo isso não era mais o costume, sendo as crianças todas geradas em úteros artificiais de porcelana.
Núbia apresentava sempre a mesma face para o sol local. Era impossível viver tanto na sua face iluminada, muito quente, quanto no lado escuro, muito frio. A colônia situava-se, portanto, numa estreita faixa de crepúsculo, onde as temperaturas eram suportáveis. A colônia nunca fizera contato com qualquer forma de vida local, mas isso iria mudar quando uma inesperada onda de calor intenso começou a varrer a superfície do planeta. Uma boa ideia desenvolvida nos moldes da Asimov e Bradbury. Porém, sem a precisão científica daquele e o lirismo deste, não repetiu o estilo brilhante visto no primeiro conto.
"O céu anterior" já havia sido publicado na antologia Histórias do acontecerá (GRD, 1961), e seria novamente compilado na antologia Enquanto houver Natal (GRD, 1989). No ano 3559, um astrônomo vê, através de um monitor especial, o céu do ano zero e fica perturbado ao ter uma visão mística com a imagem de uma "estrela que fala". Vai então passar férias num balneário subterrâneo, onde consultará um psiquiatra especialista em esgotamentos de astronautas. Como já se percebe, é uma história sobre o Natal, e seu final-surpresa não funciona porque é perfeitamente previsível antes da metade do conto.
Trata-se do conto mais fraco da antologia porque parte da premissa que dezesseis séculos no futuro ninguém mais se lembraria do Natal, sem dar uma explicação plausível de como isso poderia acontecer uma vez que o calendário usado ainda é o mesmo.
Muito melhor é o conto seguinte, "A universidade marciana", visto anteriormente na outra coletânea da autora, Eles herdarão a Terra (GRD, 1960).  O protagonista narrador também não tem seu nome revelado na história, mas trata-se de um morador da cidade do Rio de Janeiro, residindo no décimo andar de um prédio em ruínas numa Copacabana arrasada pela elevação do nível do mar. Em sua andanças solitárias pela orla decadente, é contatado por uma entidade alienígena que, entretanto, não lhe revela muita coisa.  Ele desenvolve uma filosofia sobre o modo de ser do homem brasileiro, a qual chama de "Carioquismo" e, por conta de sua repercussão, é convocado para ir ao Vaticano unir-se a um grupo heterogêneo formado por dezenove homens e mulheres cuidadosamente escolhidos para serem instruídos por seres superiores vindos do espaço, possivelmente marcianos – os mesmos que o contaram na praia. O Papa Pio XIII, um chinês, é um dos poucos líderes políticos do mundo a acreditar nos bons préstimos desses alienígenas e aproveita o fato do Vaticano ser o único estado murado do mundo para abrigar, sob sigilo, essa verdadeira universidade. Esses vinte homens e mulheres serão confrontados aos alienígenas e suas estranhas filosofias, mas os marcianos também serão irremediavelmente afetados pelos conceitos humanos.
A autora constrói uma bela narrativa, com descrições vivas e detalhadas do Vaticano e, sem apelar para qualquer dos recursos costumazes da ficção científica, elabora um trabalho perturbador e de profundo lirismo.
"Anima" é o terceiro conto inédito da coletânea, tal como os outros escrito em 1968. Jorge Alves é um cientista pesquisador da alma humana, que propõe na Assembleia Geral da ONU que a comunidade internacional participe do esforço brasileiro em enviar uma missão "espiritual" ao planeta Vênus. A princípio ridicularizado, o método demonstra-se eficiente e uma equipe de cinco astronautas, entre eles o próprio Jorge Alves, despacha seus espíritos para Vênus e lá passam três dias em expedições de reconhecimento visual, uma vez que não podem interagir fisicamente. Entre esses astronautas está uma jovem que sofre de uma doença terminal e, no momento da volta, ela decide permanecer em Vênus, abandonando a existência física que, de qualquer forma, seria bastante breve, e com isso desequilibra toda a equipe. Uma ideia interessante, ainda que não de todo original, desenvolvida com sensibilidade porém sem apresentar uma personalidade mais definida.
"A Ficcionista" é o conto mais longo do livro, já visto na Antologia brasileira de ficção científica (GRD, 1961). É narrado em primeira pessoa por um homem criado em laboratório, um cidadão de segunda classe adotado como assistente pelo cientista e engenheiro Jonas André Camp, que desenvolve um sistema de comunicação audiovisual que fala diretamente ao cérebro, conseguindo dessa forma uma integração quase real com o expectador. O invento entusiasma Sálvio Marconi, proprietário de uma das maiores emissoras de tv concreta (uma espécie de tv 3D), que financia a instalação da máquina, chamada de Ficcionista. A nova mídia é um sucesso de público e crítica, e rapidamente fagocita todas as outras. levando a humanidade para uma existência passiva de tragédia iminente.
O conto apresenta a função de amarragem do livro, pois alguns dos seus elementos principais, como a tv concreta, por exemplo, aparecem nos demais. Também é metalinguístico, uma vez que trata do trabalho do escritor, da maneira como os escritores se comportam e da relação da arte de massa com o público consumidor. Há muitos mais conceitos filosóficos que, embora não se aprofundem, não impedem que este seja um conto muito bom.
"Eles herdarão a Terra" é um conto de invasão marciana, o primeiro texto de ficção científica de Dinah, escrito em 1957 e primeiro publicado na revista Jóia, depois compilado na coletânea que lhe emprestou o nome, publicada em 1960 pela Editora GRD.
Marcos mora com seu idoso pai num farol isolado. O velho é fascinado por astronomia e passa as noites a observar o céu. Certo dia, o faroleiro decide trazer para o farol sua outra filha, Tuda, que será a catalisadora de uma tragédia cósmica. Quando o velho morre de infarto, Marcos assume suas funções até que seja nomeado um novo titular e, justamente num dia em que, depois de uma tempestade, o farol está mais isolado do que o normal, Marcos e Tuda recebem a visita de uma entidade estranha, bizarra, aparentemente pacífica mas que revela um sórdido plano de invasão e atira os irmãos num torvelinho de horror. Um conto perturbador, que dialoga com muitas outras obras da fc mundial.
O conto que fecha a edição é "O Carioca", que também faz parte da já citada coletânea Eles herdarão a Terra. O conto apresenta dois moradores do décimo segundo andar de um prédio recentemente construído, vazio de outros habitantes. O vigia do prédio, que ainda está em fase de acabamento, desliga a energia elétrica do prédio ao final do expediente e ambos têm de passar as noites sem luz e sem elevadores. Num desses dias, chegando atrasados, eles se conhecem ao subir os doze andares pelas escadas. Sendo um homem e uma mulher, ambos jovens, é fatal que se apaixonem. Ela é viúva e passou por uma séria provação quando da doença de seu falecido marido; ele é solteiro, mas tem uma profissão estranha: fabrica robôs e tem alguns deles em seu apartamento. A relação do casal de vizinhos é neurótica e as coisas se complicam mais quando o rapaz leva para casa seu robô mais sofisticado, o Carioca, que ele está prestes a vender para o exército. As máquinas são muito mais que simples mecanismos, tratam-se de inteligências artificiais primitivas e a convivência deles com a mulher vai trazer desentendimentos para a relação de ambos. Um conto maduro e muito bem realizado, como poucas vezes se viu na fc brasileira, com grandes doses de psicologia e drama humano.
Os jovens autores de fc teriam muito a ganhar com a leitura desta coletânea de uma das pioneiras da ficção científica brasileira que, não só, demonstra uma qualidade literária superior e sem pedantismo, um estilo amadurecido e o domínio dos conceitos e protocolos do gênero, mas inocula nos enredos altas doses de dramaticidade e psicologia, de problemas e preocupações humanas.
Não é, obviamente, uma fc de entretenimento, e isso vai desgostar aqueles que avaliam a qualidade de uma historia diretamente proporcional a sua capacidade de entreter, e inversamente a sua capacidade de perturbar. Dinah Silveira de Queiroz escreveu fc como gente grande e para gente grande.

Comba Malina, Dinah Silveira de Queiroz. Coleção Dinah Fantástica, Volume 2, Editora Loudes, Rio de Janeiro, 1969, 206 páginas.

quarta-feira, outubro 16, 2013

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Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro

Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro (Brazilian science fiction: Cultural myths and nationhood in the land of the future), M. Elizabeth Ginway. Editora Devir, São Paulo. Tradução de Roberto de Sousa Causo. Capa de Gastão Esteves sobre ilustração de Ionaldo Cavalcanti, 296 páginas.


Para agradável surpresa da comunidade brasileira de ficção científica, o livro Ficção científica brasileira: Mitos culturais e nacionalidade no país do futuro, da acadêmica americana M. Elisabeth ‘Libby’ Ginway foi publicado no país, pela editora Devir, apenas um ano depois de seu lançamento nos Estados Unidos.

De início o que mais chama a atenção é o fato de a primeira obra importante, com chancela acadêmica, sobre a ficção científica brasileira atual tenha vindo do exterior e não de um dos seus participantes ou da crítica literária brasileira. Isso só vem a reforçar o clichê de que não valorizamos o que é nosso e de que só passamos a fazê-lo a partir do momento que é reconhecido por alguém do exterior.

Certamente este comentário não se refere à comunidade de fãs e escritores de ficção científica brasileira, que vem lutando pelo gênero em sua atual fase há pouco mais de duas décadas. Em todo caso, o estudo de ‘Libby' Ginway, professora de literatura da Universidade da Flórida, em Gainesville, tem seus méritos próprios. Tanto pelo tema em si que nós é caro, como pela qualidade e competência mostrada na obra.

Ficção científica brasileira enfoca o gênero dos anos 60 para cá, justamente os períodos históricos em que a memória da comunidade brasileira dedicada ao gênero tem mais lembrança e contato com pessoas ainda vivas. Nesse sentido ele faz uma espécie de diálogo cronológico com o outro livro recente sobre o gênero, Ficção científica, fantasia e horror no Brasil: 1875-1950, de Roberto de Sousa Causo, de 2003.

E sim, a vinculação entre as duas obras é, obviamente, temática e também cronológica. Pois os ângulos de abordagens analíticos são distintos. Causo estrutura sua obra nas influências históricas e culturais da ficção científica estrangeira para o desenvolvimento do começo dos gêneros no Brasil, estabelecendo um contato direto com a crítica e tradição literária nacional. Já Libby enfoca sua obra como meio de compreensão da ficção científica como um fenômeno cultural e antropológico, tornando mais claro algumas das motivações e símbolos da identidade brasileira e seus processos de transformação.

O livro está dividido basicamente em três grandes capítulos, mas a introdução e o epílogo também merecem a devida consideração, o primeiro por apresentar os conceitos e justificativas da obra e o segundo pelas perspectivas que aponta para o futuro do gênero no Brasil.

Assim, temos em “Introdução: Ficção científica, desenvolvimento e mitos de identidade cultural”, um texto que já vale como uma espécie de primeiro capítulo. Ela apresenta os temas de seu livro em suas linhas gerais, abordando a ficção científica brasileira primeiramente em torno de seus mitos nacionais, como o ‘paraíso tropical’, ‘democracia racial’, ‘um povo dócio e sensual’[1] e o país com seu “potencial de grandeza”, por ser “abençoado pela Natureza”.

A partir da exposição destas mitologias, procura contextualizar o quadro sociopolítico no qual a obra se insere, ou seja a partir dos anos 60, com a ditadura militar de 1964 a 1985 e o período atual de democracia que vivemos. Já aqui o foco principal é o processo de transformação social e tecnológica que o país viveu durante os últimos 40 anos, ou seja sua transformação do tradicional para o moderno, do rural para o urbano, do pessoal para o impessoal, do autoritário para o democrático, do mágico para o racional, em um caminho sempre feito de nuances e contradições tão próprio de um país desigual como o Brasil.

E dentro deste contexto cultural e social maior, sua abordagem prioriza a ficção científica como parte de um discurso que se refere às questões nacionais e de identidade, procurando entender como o gênero pode iluminar estes temas e ainda se relacionar com os paradigmas da ficção científica anglo-americana. É uma linha interpretativa que se ensaia como das mais interessantes no início da obra, abrindo várias possibilidades de análise para além do gênero em si, a conectando com estudos de um caráter mais sócio-cultural.

O primeiro capítulo aborda a chamada “Geração GRD”. Em “A ficção científica dos anos sessenta: Mitos culturais no país do futuro” temos a apresentação da chamada ‘emergência da ficção científica no Brasil’, com suas características, principais autores e obras.

Nos anos 60 a ficção científica brasileira tem um forte caráter humanista e anti-tecnológico, além de, segundo a autora, reforçar certas tradições da cultura brasileira e a posição periférica do país em relação ao Primeiro Mundo. Ela segue os passos do crítico americano Gary K. Wolfe, da revista Locus, a partir de sua obra The known and the unknown: The iconografy os science fiction (1979), procurando analisar as obras de ficção científica, a partir dos temas-chave mais abordados na época entre nós: o robô, o alienígena (humanóide e não-humanóide), mutantes, a espaçonave, a cidade e a terra devastada (wasteland) e como cada um deles pode ser interpretado tanto em comparação com o que fazem os americanos, como em relação com os mitos e identidades nacionais. Assim, de acordo com ela, “a preocupação com a identidade brasileira vista nessas primeiras histórias de ficção científica funciona como uma espécie de resistência contra a cultura da tecnologia, que é percebida como não-brasileira. Ao recorrer a esses mitos culturais, contudo, a ficção científica brasileira reduz a identidade nacional a uma série de estereótipos, revelando a feição conservadora da sociedade brasileira.” (na página 91).

Ainda com relação a este primeiro capítulo é pertinente observar que talvez tenha faltado explorar um pouco mais um possível paralelismo com a New Wave, bem como a falta de vínculo dos autores brasileiros com os temas e tradições da ficção científica anglo-americana. Talvez a partir daí, fosse possível entender melhor esta priorização anti-hard e mais voltada a assuntos sociais e psicológicos da ficção científica brasileira da época, ainda que, concordando com a autora, fosse mais resignada do que contestadora da ordem vigente no Brasil.

Já o segundo capítulo, “Ficção distópica brasileira: Protestos contra a repressão, a modernização e a degradação ambiental”, é especialmente interessante por dois motivos. Primeiro porque aborda o período do regime autoritário brasileiro (meados dos 60 a meados dos 80) do ponto-de-vista da literatura brasileira. E segundo porque expõe e analisa um conjunto de obras raramente considerados como pertencendo ao gênero pelos fãs e especialistas brasileiros do gênero.

É fato que a comunidade brasileira de ficção científica da década de 60 (“O Primeiro Fandom”), arrefeceu com as conseqüências políticas e sociais do golpe militar de 1964. Em termos históricos, talvez seja possível esticar a existência desta comunidade até, digamos, novembro de 1971 com a publicação da vigésima e última edição do Magazine de Ficção Científica, da editora Globo de Porto Alegre, pois esta revista[2] era comandada pelo escritor Jerônymo Monteiro, que falecera em junho de 1970. Assim, durante toda a década de 70 não houve – até onde se sabe nos dias de hoje – uma comunidade de fãs e escritores dedicados prioritariamente à ficção científica[3], que só voltaria a ocorrer no início dos anos 80.

Mas se não houve um movimento organizado tivemos escritores que dedicaram atenção à ficção científica, ainda que de maneira duplamente indireta. Primeiro porque não eram obras de ficção científica com temas tradicionais da ficção científica (como aqueles abordados nos anos 60), e segundo porque tais obras utilizaram o gênero de uma maneira instrumental, para servir aos seus objetivos metafóricos de crítica à ditadura militar.

Embora escritas por autores vinculados ao chamado mainstream, são obras de ficção científica e neste particular discordo em parte da autora, quando ela procura diferenciar o gênero como um todo de um subgênero, que seria de ‘ficção distópica’. Ela justifica a distinção, argumentando que na ficção científica os enredos têm mais ação e aventura, enquanto no subgênero distópico há menos ação real. Concordo aqui de forma genérica. Mas a seguir, cita o crítico Keith Booker, que afirma: “a ficção distópica difere da ficção científica na especificidade de sua atenção à crítica social e política” (página 93). Tudo bem, mas será que não há também em obras de ficção científica este mesmo apuro crítico? Romances representativos de ficção científica escritos por autores diretamente vinculados ao gênero põe em dúvida esta assertiva, como por exemplo, Mundos fechados (The world inside), de Robert Silverberg (1971), Identidade perdida (Flow my tears, the policeman said), de Philip K. Dick (1974) e Os despossuídos (The dispossessed), de Ursula K. Le Guin (1974). Aliás, como indicado nas datas, escritos na primeira metade dos anos 70, só que nos Estados Unidos. A meu ver são obras de ficção científica que discutem a fundo os problemas sociais e políticos de sua época, construindo visões de mundo distópicas.

Prefiro, então, considerar as obras escritas no Brasil nos anos 70 como ‘ficção científica distópica’. Na visão da autora elas têm um estilo mais elaborado do ponto de vista literário e procuram extrapolar criticamente alguns aspectos subjacentes do regime militar, como a repressão política e a censura, a modernização industrial intensa, além de problemas conseqüentes, como a superpopulação, a massificação e perda da identidade individual, o papel contraditório da mulher (emancipador e moralmente reprimido), além de problemas ecológicos graves.

Assim, há romances importantes que, com o lançamento de Ficção científica brasileira, devem ganhar uma atenção maior do leitor mais tradicional de ficção científica como, por exemplo, Fazenda modelo, de Chico Buarque (1974),  O fruto do vosso ventre, de Herberto Salles (1976), Adaptação do funcionário Ruam, de Mauro Chaves (1975), Um dia vamos rir disso tudo, de Maria Alice Barroso (1976), Asilo nas torres, de Ruth Bueno (1979), Umbra, de Plínio Cabral (1977) e Não verás país nenhum, de Ignácio de Loyola Brandão (1981), autor que também tem analisado o conto “O homem que espalhou o deserto”, da coletânea Cadeiras proibidas (1977).

É provável que o conhecimento de obras como essas permitam uma maior abertura do leitor brasileiro de ficção científica com temas e/ou autores não diretamente vinculados ao gênero, abrindo o leque de opções e enriquecendo a compreensão do gênero em si, especialmente durante os ‘anos de chumbo’ de tão triste memória.

Para Lybby Ginway, de um modo geral, este conjunto de obras ‘distópicas’, contudo, a pretexto de criticar a situação social e política da época, terminam mais por reforçar os estereótipos nacionalistas elencados por ela na introdução de sua obra. E, observando de sua ótica feminina, tais obras colocariam a mulher numa situação mais paternalista, do que de emancipação de sua condição   subalterna na sociedade.

 O terceiro capítulo é o mais esperado, por nós contemporâneos deste período. Em “A geração pós-ditadura: Renovação, pós-modernidade e globalização”, a autora volta a se utilizar dos temas-chave mais escritos no período, como a ficção científica hard (ditadura e o legado do desenvolvimento), cyberpunk (crítica social ou novos mitos da identidade brasileira), robôs e computadores (examinando raça, classe e gênero), alienígenas (encontros alienígenas: reações brasileiras à globalização, com alienígenas invasores, alienígenas amigos e mentores, alienígenas enigmáticos), histórias alternativas e universos paralelos: herança do Brasil colonial, a mulher na ficção científica.

Esta geração das últimas duas décadas é conhecedora dos conceitos e principais obras e autores do cânone anglo-americano da ficção científica. Em sua maioria, são leitores ávidos do gênero que se transformaram em escritores trazendo, desta forma, uma bagagem ampla de leitura do gênero. Esta é uma das distinções desta geração, ao contrário das duas anteriores, de pouca leitura e identificação com o gênero em si – apesar de mais bagagem literária e cultural em geral. E, de acordo com Libby Ginway esta intimidade com o gênero, além do processo de modernização já estar adiantado em relação às décadas anteriores, permite a este conjunto de autores uma postura menos xenófoba em relação à ciência, rediscutindo os mitos da identidade nacional, de forma a atualizá-los e questioná-los, à luz da nova realidade política e social vivida pelo Brasil nos últimos do século XX.

Por este rol de assuntos e novas abordagens de aspectos da cultura nacional, bem se vê o quão complexo e diversificado tem sido, ao menos em termos temáticos, a ficção científica que ressurge na chamada ‘Segunda Onda’, nos primeiros anos dos anos 80.

Talvez por ser o capítulo que merece as maiores atenções, ao menos por um leitor-resenhador contemporâneo desta fase como eu, percebe-se a competência e a surpreendente sagacidade da autora, por aspectos e detalhes às vezes pouco notados – especialmente com respeito à crítica social das obras cyberpunks e da reconstrução crítica da História brasileira, a partir dos temas da história alternativa.

Sua análise merece destaque também pelo fato de que é feita por uma observadora “de fora”, equidistante e desapaixonada das polêmicas e problemas enfrentados no interior da ficção científica brasileira entre seus praticantes.

Suas análises, comparando aspectos da ficção científica dos anos 60 e também com a tradição anglo-americana chamam especialmente a atenção, pois mostram características instigantes do que ela nomeia de ‘ficção científica pós-ditadura’, a colocando a par com as profundas transformações políticas, sociais e tecnológicas vividas pelo Brasil. E também de como uma análise da perspectiva do ‘Outro’, ou seja de um país periférico – também na ficção científica –, pode ajudar a contrapor aspectos da própria ficção científica dominante, a anglo-americana.

Este capítulo é o texto mais importante já escrito sobre a atual geração da ficção científica brasileira. E, como apontei acima, por ser escrito por uma respeitada observadora estrangeira, lhe confere um status de centralidade muito bem-vindo em comparação com os textos por vezes competentes escritos pelos brasileiros, mas que perpassam o sentimento de inevitável influência e subjetividade de quem é observador e objeto ao mesmo tempo.

Para encerrar o livro, temos “Epílogo: O futuro da ficção científica brasileira”. A autora aborda alguns dos problemas centrais para um maior reconhecimento do gênero na literatura brasileira, acentuando seu caráter marginal, além do pouquíssimo espaço que lhe é conferido pelo mercado editorial.

Por estas dificuldades ela aponta que uma opção por uma ficção científica de maior apelo popular e de entretenimento seja uma saída mais rápida e ‘fácil' para uma maior aceitação de público do gênero. E, com esta observação, ela termina por adotar uma posição de relativo otimismo com respeito ao futuro do gênero do país.

Ao contrário, penso que esta opção recente por uma ficção científica mais pulp, superficial no tratamento de temas e personagens, com uma provável perda de melhora no estilo e na forma, aponta para um caminho de mais dificuldade, no qual à pretexto de se aproximar de um mercado que lhe é refratário, o gênero deixe de ter o papel crítico instigante por ela apontado em algumas das obras mais representativas destes anos 80 e 90, e ainda perca a oportunidade de um maior reconhecimento crítico, ao se fiar nesta opção mais comercialesca, tendência visível entre alguns dos autores mais importantes nestes últimos anos.

É de se observar ainda que o recorte da autora, especialmente neste terceiro capítulo tem gerado uma certa polêmica, entre os poucos que leram seu livro. É óbvio que toda escolha é arbitrária e a autora tem o direito de fazer as suas, especialmente se amparadas por uma boa estrutura de argumentos e de metodologia, como o seu caso. Mas ao menos dois autores ausentes poderiam ter ganhado certo espaço em sua análise, como Fábio Fernandes e Carlos Orsi Martinho. O primeiro por suas histórias paranóicas e socialmente contestadoras, especialmente no plano individual dos personagens, o que atestaria sua análise interessante do homem pós-moderno, sem rumo e à procura de libertação das amarras sociais aos quais está preso. O segundo por sua interessante conexão intergêneros, mais especificamente, a ficção científica e o horror – este um gênero de raízes tão fundas na cultura popular brasileira –, e de como coloca de forma competente uma vertente mais aventuresca do gênero. Mesmo que, seja oportuno ponderar, estes dos autores estejam recaindo demais nos aspectos ‘pulpescos’, que critiquei no parágrafo anterior, nos últimos anos.

Em suma, a obra não faz uma crítica literária no sentido estrito, ou seja, não analisa os aspectos formais, mas sim o conteúdo, os temas das histórias ficcionais. E esta análise temática sempre está remetidas às comparações da ficção científica brasileira com as principais tradições do gênero, a dos Estados Unidos e da Inglaterra. Mas o alcance não termina aí. Num meritório e competente esforço de análise social e cultural, o livro leva os temas das histórias de ficção científica a uma relação com a identidade histórica, de um viés, diria antropológico, de compreensão do ser brasileiro, de como ele se comporta e sua visão de mundo a partir de seu país.

E a partir deste ponto, procura entender como a ficção científica brasileira dialoga e reflete em torno da transformação do mundo tradicional para o moderno, com a ascensão da ciência e da tecnologia na vida cotidiana e no destino futuro da sociedade brasileira. Assim, o livro faz uma leitura instigante e particular não só da ficção científica com olhar brasileiro mas, e principalmente, das luzes que o gênero lança sobre a compreensão da identidade e da cultura brasileira, e de como eles também vão se modificando ao longo da história do país.

O trabalho chama a atenção também por não se fiar às tradições da ficção científica em si, isto é, não ser um estudo hermético, auto-referente às concepções do gênero em termos comparados. Esta linha, vá lá, até é apresentada, mas dentro do panorama maior de entender as transformações da sociedade brasileira, de um ponto de vista, mais multicultural.

A revista americana Locus, de fevereiro de 2005, incluiu Ficção científica brasileira entre os principais lançamentos na área de ‘não-ficção’ nos Estados Unidos em 2004. Isso é um sinal de que a obra chamou a atennção também no principal mercado produtor e consumidor do gênero no mundo. E é mais um indicativo de que o lançamento desta obra no Brasil é um acontecimento importante para a compreensão do gênero, mesmo que o livro tenha recebido uma atenção crítica muito pequena dos meios acadêmicos e jornalísticos brasileiros, o que só mostra o quanto o gênero ainda tem de percorrer para ser reconhecido entre nós.

Marcello Simão Branco, co-autor do Anuário Brasileiro de Literatura Fantástica, é professor da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

[1] Aqui estabelecendo referência ao conceito de “homem cordial”, do historiador Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) em sua obra-prima Raízes do Brasil (1936). (voltar)
[2] Versão brasileira de The Magazine of Fantasy & Science Fiction, uma das principais da literatura norte-americana de ficção científica e fantasia. (voltar)
[3] Emblemático deste fato é o título do artigo seminal do escritor Fausto Cunha, “Ficção científica brasileira: um planeta quase desabitado”, publicado dentro do livro No mundo da ficção científica, de L. David Allen, de 1977. (voltar)

terça-feira, outubro 15, 2013

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Um clássico da ficção científica brasileira

Rubens Teixeira Scavone (1925-2007) foi o mais erudito dos autores brasileiros de ficção científica e um dos pioneiros do gênero no país. Ele foi autor do romance O homem que viu o disco voador (1958), possivelmente o mais bem sucedido livro da fc brasileira, e da antologia O diálogo dos mundos (1963), entre outros trabalhos. Scavone recebeu o prestigioso Prêmio Jabuti em 1973 pelo romance mainstream Clube de campo e presidiu a Academia Paulista de Letras por vários mandatos.
Apaixonado pela literatura inglesa, Scavone  foi buscar inspiração no clássico Contos de Cantebury, de Geoffrey Chaucer, escrito há mais de 600 anos, para produzir o seu melhor livro: O 31º peregrino, publicado pela primeira vez em 1993 pela editora Estação Liberdade, com ilustrações de Giselda Leirner.
Trata-se de uma história significativa em termos humanos e emocionais. Tocante e de estilo incomum que, através de um instrumental exclusivamente léxico, transporta o leitor para seis séculos no passado com uma eficiência rara. Ainda mais porque não segue os parâmetros protocolares da fc convencional. As descrições são ligeiras e não há muitas explicações para situar o leitor. Toda a ambientação emana do estilo rebuscado, que lança mão de uma infinidade de palavras desusadas. Esse estilo, com um quê de barroco, pode parecer estranho ao leitor moderno, mas se deve a escolha do autor que se faz passar pelo próprio Chaucer.
Contos de Cantebury relata as histórias de trinta peregrinos (entre eles, o próprio Chaucer) a caminho da Catedral de Cantebury, ao sul de Londres, onde o santificado Arcebispo Becket foi imolado pelos cavaleiros de Henrique II. Cada um dos romeiros assume um arquétipo social e por ele é batizado. Por isso os personagens não têm nomes, mas classificações: o Pároco, o Padre da Freira, o Frade Mendicante, o Monge, a Prioresa, a Mulher de Bath, o Tecelão, o Tapeceiro e o Tintureiro (que formam uma trindade importante na narrativa de Scavone), o Mercador, o Vendedor de Indulgências, o Estudante de Oxford, o Cozinheiro, o Carpinteiro, o Magistrado, o Cavaleiro, o Escudeiro, o Moleiro, o Cônego e seu Criado, o Médico, o Provedor, o Lavrador, a Freira, o Homem do Mar, o Feitor, o Proprietário Rural, o Beleguim e o Estalajadeiro.
Scavone aproveita a narrativa para fazer considerações muito interessantes sobre o Roteiro dos Peregrinos (há um mapa do mesmo na quarta capa do livro, desenhado por James Scavone) que guarda ligações com a mitologia de São Tiago e, por sua vez, remete aos primórdios de outro caminho de peregrinação, Santiago de Compostela, com uma surpreendente explicação da origem desse termo que justifica perfeitamente a releitura fantástica que Scavone dá a obra de Chaucer.
Chaucer/Scavone conta a história de um até então não citado trigésimo primeiro peregrino, que se une aos romeiros a meio caminho. Trata-se da Mulher Grávida, cujo estado parece ter relação com o sobrenatural e alarma os peregrinos católicos que, naturalmente, são muito supersticiosos.
A história relatada pela Mulher Grávida é, em si, uma jóia do horror gótico medieval, que reporta aos clássicos do sobrenatural que formam o caldeirão no qual foram cozidos todos os gêneros fantásticos modernos.
Entretanto, O 31º peregrino é uma novela de fc. É claro que, para ser classificada assim, há que se encontrar nela algum componente explícito do gênero, e ele surge à altura devida, quando a Mulher Grávida abandona o grupo durante a noite e vai encontrar seu destino, que é testemunhado pelo narrador Chaucer/Scavone. Mas isso é menos importante que os conflitos humanos que emanam das relações entre os arquétipos definidos por Chaucer e das elucubrações filosóficas, históricas e sociológicas do autor/personagem.
O livro ainda guarda muitas outras qualidades. É uma novela que mergulha no cristianismo e dele faz um discurso ambivalente. Se o afirma ou o rejeita, fica ao leitor a responsabilidade por decidir.
O 31º peregrino está entre os melhores textos da fc brasileira, ao lado de "A escuridão", de André Carneiro, e A hora dos ruminantes, de José J. Veiga, e, como tais, é leitura obrigatória para aqueles que apreciam a literatura fantástica brasileira e querem experimentar seus limites.

terça-feira, outubro 01, 2013

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Uma tentativa parcialmente bem sucedida para criar uma FC genuinamente portuguesa

Quatro Andamentos é dos tais títulos que nada dizem do conteúdo dos livros, além de tratar-se de uma coletânea de quatro histórias (neste caso, um conto, duas noveletas e uma novela) para as quais o autor não foi capaz de encontrar um elemento unificador suficientemente relevante para merecer um título genérico mais evocativo, nem achou que uma das histórias merecia o suficiente ser destacada das demais para atribuir o seu título ao conjunto.

Mas até há um fio condutor para estas quatro histórias. Há a voz do autor, claro, mas mais qualquer coisa. Uma tentativa, talvez deliberada, talvez fruto de algum acaso, para fazer uma ficção científica realmente portuguesa, com tudo o que isso tem de bom e também de mau. Uma das poucas, diga-se, visto que a ficção científica portuguesa se compraz em geral em transpor para a nossa língua e raramente para a nossa realidade temas e trejeitos típicos da FC anglo-saxónica (e tome-se aqui o termo "ficção científica" no seu sentido mais restritivo, visto que no fantástico e na fantasia as coisas são um pouco diferentes).

Basta isso para dar ao livro de Luís Richheimer de Sequeira um lugar muito próprio na FC nacional.

Mas no fim de todas as histórias, o que conta são os resultados. E há que admitir que aqui os resultados não são propriamente brilhantes.

O livro abre com a história mais curta, com o estranho título de «III». Trata-se de uma peça de FC clássica, ambientada num laboratório de investigação, parte civil, parte militar, onde se procura descobrir uma forma de tornar viável uma consciência artificial cibernética. Mas a realidade é que nas 26 páginas que o conto ocupa não se passa praticamente nada: como em muitas histórias semelhantes que nos vêm chegando pelo menos desde a golden age americana, aqui vamos descobrindo o que se passa, as motivações, as personagens, através de uma longa conversa que tem lugar entre os cientistas que desenvolvem o trabalho e um misterioso grupo que chega ao laboratório para proceder a uma inspeção. Não vemos acontecer nada: lemos apenas descrições. Só isso e apenas isso.

Na segunda história, Segunda Via, voltamos ao ambiente laboratorial, mas agora estamos num laboratório português de pesquisa em engenharia genética, que é contratado para um projeto militar da União Europeia que pretende investigar a possibilidade de reprogramar o cérebro humano. Nesta noveleta, no entanto, e ao contrário do que aconteceu no primeiro conto, o leitor segue, de facto, o desenrolar das coisas, deste o início até ao desenlace final em que nada é como se poderia supor à partida, muito embora continue a haver muita conversa, muita explicação técnica e muito pouca ação.

Depois vem a novela Ironias do Destino. Trata-se de uma história de primeiro contacto, que tem lugar entre uma nave portuguesa (chamada "D. Duarte II", o que faz supor que neste universo ficcional Portugal se teria tornado monárquico... e talvez com o atual pretendente no trono, por distópico que isso nos pareça) e uma misteriosa e extremamente avançada nave alienígena, em pleno hiperespaço. Embora lenta e semeada de apartes filosóficos e teológicos (o protagonista é o capelão da nave, um tal padre Dinis, que se vê vacilante na fé perante o que se vai desenrolando e a afirmação, por parte de uma das tripulantes, de que os alienígenas são anjos), trata-se de uma história bem construída e com um número de surpresas suficientemente elevado para prender a atenção do leitor.

A noveleta que encerra o volume, Terra Lusa, é talvez a melhor das quatro histórias. Irónica e politicamente incorreta, conta a história de um planeta situado perto da fronteira entre a área da galáxia colonizada pela Humanidade e uma área colonizada por uma espécie alienígena, os "bicharocos", com quem se prevê que a todo o momento rebente uma guerra. O planeta, originalmente chamado Omicron Seis, é atribuído para colonização à África Central mas com uma nação supervisora, que neste caso, e porque o planeta não interessa a mais ninguém, é Portugal. A primeira leva de colonos é assim composta por trinta mil africanos, dez mil portugueses e ainda outros dez mil... timorenses. E claro que as coisas começam por correr pessimamente, com declarações de independência pelos não-portugueses e um poder fraco e ineficiente mesmo nas zonas controladas pelo governador português da colónia, mas depois o espírito comercial que a lenda nacionalista atribui aos portugueses vem ao de cima e tudo entra nos eixos quase miraculosamente. Além do humor presente nesta noveleta, ela é interessante também por ser talvez o primeiro texto na FC portuguesa a reaproveitar algo do passado colonial do país para o projectar no futuro ou, até, para construir uma ficção científica em torno dele. Politicamente, os resultados são no mínimo dúbios, mas a tentativa é, em si mesma, interessante.

Em geral, o livro tem vários pecados. É muito lento, de tal modo que por vezes se torna aborrecido, todas as histórias são bastante clássicas quer na estrutura quer até, por vezes, nos temas, indo buscar referências a formas bastante antigas de olhar para a FC e de a produzir, e a qualidade do português tem algumas falhas. Mas estas acabam por ser naturais num primeiro livro, e os elementos de novidade que contém acabam por compensar parcialmente esses pecados. Pesando-se todos os prós e contras, chega-se à conclusão de que se trata de um livro que, embora nunca chegue a chegar sequer perto do estatuto de clássico, e embora nem seja propriamente bom, merece uma leitura por quem se interessa pela FC portuguesa.

Republicado, com alterações, de E-nigma (2005).

sábado, setembro 28, 2013

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O cipreste apaixonado

O cipreste apaixonado é uma antologia de contos e novelas do escritor e cineasta português António de Macedo publicado em 2000 pela editora Caminho, de Lisboa.
Cinco trabalhos compõe o volume: "O cipreste apaixonado", "So long Clementine", "Senhoras partem tão tristes", "As baratas morrem de costas" e "Terminus Peripherium". Cada um deles tem seu próprio universo, variando em gênero e entonação, mas o estilo de Macedo dá conjunto a obra.
"O cipreste apaixonado" abre a antologia e toma quase a metade do volume. Conta a história misteriosa de uma jovem senhora chamada Natália, recém-divorciada, que se instala numa casa de campo antiga, mas bem cuidada, cercada por um jardim amplo e viçoso, com árvores centenárias e uma fonte algo tenebrosa. A história começa quando Natália decide consultar um amigo psicólogo e contar-lhe sobre alguns distúrbios que lhe assaltam, sonhos violentos e desenfreados que parecem seguir um padrão coerente. Uma vizinha, versada em artes místicas, também se interessa pelos surtos de Natália e as investigações vão levar todos os personagens a um torvelinho de forças poderosas descendentes de dramas antigos e alimentadas por terrores e tragédias ao longo dos tempos.
O segundo trabalho da antologia é "So long Clementine", a história mais aproximada da ficção científica, com uma curiosa estrutura pós-moderna. Não há uma introdução tradicional e a história começa em ação plena, com um casal humano em fuga desesperada por um complexo labiríntico árido e absolutamente escuro. Paredes nuas, chão metálico, escadarias gigantes, montanhas de esqueletos, becos sem saída e, a persegui-los, uma horda de monstros e máquinas de extermínio armada até os dentes, dos quais os fugitivos apenas escutam os sons aterrorizantes cada vez mais próximos. Aos poucos o panorama se descortina enquanto a fuga vai ficando mais e mais alucinante, com confrontos entre os fugitivos e seus algozes em escaramuças de tirar o fôlego.
A seguir aparece "Senhoras partem tão tristes", um conto delirante sobre um contato imediato que se emaranha com o drama romântico de um casal de cientistas numa viagem de automóvel. A cada corte narrativo, um novo panorama se abre, numa história enigmática. Viagem no tempo, espiritismo, multidimensionalismo, história alternativa e muitas outras explicações são sugeridas pelo autor.
A quarta história é "As baratas morrem de costas", sátira tecnofóbica narrada em primeira pessoa, na qual o que é aparentemente um cientista conta como o mundo acabou a partir do momento em que a humanidade instalou máquinas de viagem por teletransporte. Aconteceu que os corpos teletransportados perdiam a ligação com suas almas humanas no processo e estes eram tomados por demônios que passavam a realizar todo o tipo de coisas absurdas próprias dos demônios. O narrador da história conta que criou então um método alternativo que, ao realizar o transporte, substituía o ferro do sangue por cobre, impedindo a invasão demoníaca. Mas a substituição causou efeitos colaterais ainda mais indesejáveis. 
Fechando a antologia temos "Terminus Peripherium", versão revisada de um trabalho publicado na antologia bilíngue Inconsequências na periferia do império, de 1996. O conto usa da metalinguagem, mesclando duas narrativas: uma em terceira pessoa (a narrativa do autor) e outra em primeira pessoa, que é uma história que está sendo escrita pelo protagonista, autor profissional de histórias de terror pressionado pelo prazo de entrega. Mas a história começa a extrapolar e os personagens por ele imaginados começam a se materializar, rompendo a membrana que separa a realidade objetiva da imaginada.
Para contextualizar o fenômeno, Macedo distribui uma série de argumentos metafísicos através das falas de estudiosos que participam de um encontro periódico de especialistas no oculto, que soa muito parecido com certas reuniões de um outro tipo de especialistas. Metalinguagem dupla.
O cipreste apaixonado é um livro agradável, divertido e muito equilibrado: todos os contos são bons ou ótimos. O autor não assumiu o universo lovecraftiano, mas pode-se identificar sua influência na construção de alguns dos cenários e climas.
Um livro que eu recomendo, embora de aquisição difícil no Brasil.

sexta-feira, setembro 27, 2013

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Sobre juventude, inexperiência, ficção curta e oportunidades mal aproveitadas

Em 2003, um jovem de nome Nuno Neves atirou o barro à parede, arriscou-se a apanhar uma nega, e conseguiu publicar pela Presença, à época a mais importante editora portuguesa presente no mercado da FC, um romance relativamente curto a que deu o nome de O Sentido Latente. Um romance, pelo menos em teoria, de ficção científica.

Era iniciante nestas lides: nunca se tinha visto o seu nome por lado nenhum nos meios ligados à FC portuguesa, e a verdade é que nunca se voltou a ver. Do seu nome, a notícia que se tem vem de um punhado de traduções, de outro de ilustrações e de alguns textos ligados a sistemas de informação geográfica. Estranha mistura, dirão. Mas Nuno Neves é um nome razoavelmente comum em Portugal. Nada garante que tradutor, ilustrador e engenheiro sejam a mesma pessoa que um dia tentou escrever ficção científica.

Não, não me enganei. A palavra certa é mesmo tentou.

O Sentido Latente é um romance de estreia. Não só é um romance de estreia, como o seu autor era quando o escreveu muito novo, com tanta inexperiência como atrevimento. Ora, se o atrevimento é de saudar, se costuma ser construtivo, a inexperiência tem o desagradável hábito de levar a erros mais ou menos graves, de fazer estragos. E é precisamente isso que acontece com este livro. O Sentido Latente, mais do que um romance de ficção científica é um excelente exemplo do mal que faz escrever romances sem passar antes pelo tirocínio dos contos e aprender neles a gerir coisas tão fundamentais para um escritor como o ritmo narrativo e o desenvolvimento do enredo. Entre outras coisas.

Não me entendam mal: Nuno Neves é claramente talentoso. O problema básico deste livro não reside na ausência de talento, ou mesmo em alguma espécie de incapacidade no manuseio da língua portuguesa, pois se Neves não escreve particularmente bem naquilo que diz apenas respeito ao texto em si, também não escreve mal. Há ali algo de valioso, um potencial, e terá provavelmente sido por isso que conseguiu ser publicado. Mas a verdade é que o livro é mauzinho, revelando com demasiada clareza a verdura do autor, tanto na conceção da narrativa, como na parte ciencioficcional da história, como nos diálogos, como até numa grande confusão sobre qual é, afinal, o tema básico da história que pretende contar.

Se um autor pretende escrever ficção científica, não é bom restringir a FC a uma fina película superficial até pelo menos metade do livro, só começando depois disso a aprofundar mais o futurismo das ideias. Ou seja, não convém reduzir a FC a folclore algo incongruente, e para mais bastante antiquado, mostrando que Neves até pode ter tido algum contacto com a ficção científica através do cinema e da televisão, mas com toda a certeza não leu muitos livros do género antes de arregaçar as mangas para escrever o seu.

Se um autor pretende escrever histórias protagonizadas por investigadores policiais tarimbados e eficientes, os melhores disponíveis para investigações delicadas, não convém pô-los a falar como miúdos do secundário. Se o faz, não há credibilidade que resista. Porque a credibilidade das personagens começa no que fazem, mas logo depois vem o que dizem e como dizem o que dizem. Ninguém acreditaria num campónio analfabeto a recitar lírica camoniana, não é verdade? Pois polícias de topo a conversar como miúdos de 16 anos é parecido.

Para piorar as coisas, há questões graves com a estrutura narrativa, e deixemos para outras conversas o ritmo narrativo. Se o tema de um romance, aquilo que lhe confere o título, é um tal sentido latente e a sua natureza, é muito má ideia dedicar-lhe uma dúzia de páginas, se tanto, ocupando as outras duzentas com uma investigação policial sobre o assassínio do filho de um magnata da engenharia genética, sem que por um só momento sequer se sugira algo levemente relacionado com o suposto tema do livro. Ainda por cima, uma investigação policial feita quase inteiramente de conversas, quase desprovida de qualquer tipo de ação, o que não será um problema em si mesmo mas acaba por exacerbar as outras falhas.

Quanto mais romances destes leio mais firme se torna a minha convicção de que é absolutamente fundamental que os escritores que pretendem dedicar-se à FC comecem a treinar em ficção curta, porque só na ficção curta podem fazer experiências (e falhar, pois falhar é inevitável por maior que seja o talento com que se parte), dedicando a elas um investimento razoável de tempo e esforço. E mais firme se torna a minha convicção de que vale muito mais que as editoras invistam na publicação e os leitores na leitura de coletâneas, antologias, revistas ou contos individuais do que de romances como este. Especialmente os leitores. São eles o fulcro de tudo. São eles o mercado. E se houver mercado, as editoras vão atrás. Leiam contos. É melhor ler bons contos que maus romances.

Porque é isso que aqui temos: um mau romance. Um mau romance fruto do esforço honesto de um jovem talentoso, que nele terá certamente investido meses da sua vida e que, provavelmente, se queimou como escritor ao fazê-lo. E é pena. É sempre pena quando se perde talento. A Nuno Neves bastar-lhe-ia, julgo, escrever alguns contos, testar ideias, aprender a encadeá-las melhor em ficções curtas, pois os textos curtos simplificam a tarefa. E ouvir as pessoas a falar. Não os seus amigos da escola, mas as pessoas de outras idades e de outros ambientes sociais. Bastar-lhe-ia isso para poder desenvolver o talento que tem e produzir material válido para a FC portuguesa, ou talvez até para a literatura em geral.

Assim, tão depressa chegou como desapareceu, deixando para trás um mau romance. Duvido que ele próprio ache que valeu a pena.

Texto original, concebido a partir de notas deixadas na Lâmpada Mágica em 2009.

quarta-feira, setembro 25, 2013

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Ficções Científicas e Fantásticas


Edições Chimpanzé Intelectual

Portugal é um país inclemente para os fãs de Ficção Científica, com um panorama editorial de edições de obras traduzidas quase inexistente, salvo honrosas excepções, e um núcleo importante de bons autores nacionais de FC que vai publicando quando tem raras oportunidades. Resta ao amante da literatura que ousa pensar em frente limitar-se às edições estrangeiras, à importação de livros e correr para as livrarias sempre que surge algo de novo editado por editoras nacionais. O que, como bem sabemos, é raro, apesar dos esforços das comunidades de fãs e as suas inúmeras mas pontuais iniciativas.

Antologias de contos de FC são obras perfeitamente banais em mercados onde a FC assume importância comercial. Banais não pelos conteúdos mas pela elevada quantidade de obras disponíveis. Estas assumem muitas vezes o papel de divulgadoras de novos autores, reunindo obras de autores mais consagrados com contos de autores desconhecidos. Mas isso é noutros lados. Cá pelos nossos,sempre que alguma coisa nova sai para os escaparates até se lançam foguetes.

Editada em 2006 pela Chimpanzé Intelectual, a antologia Ficções Científicas e Fantásticas reúne contos de FC e Fantástico de autores portugueses, provando, mais uma vez, que existe uma vibrante comunidade de autores que se dedicam estoicamente à FC como forma de expressão literária. Fiel ao espírito das antologias, reúne contos de autores consagrados de FC e Fantástico com contos de outros autores, geralmente ligados às andanças de literaturas mais convencionais que para esta antologia deram uma mãozinha ou desencantaram experiências do fundo da gaveta.

Entre os autores que dedicam a sua carreira à literatura fantástica, destacam-se as excelentes contribuições de David Soares, o escatológico Allan Poe dos tempos contemporâneos portugueses, Luís Filipe Silva, cuja prosa concisa nunca deixa de me surpreender pela clareza, e João Barreiros, possivelmente o grande mestre da FC portuguesa, com os seus habituais maquiavelismos imaginativos. Autores menos conhecidos, como Miguel Vale de Almeida e Miguel Neto, mostram novas promessas da literatura fantástica nacional, talvez ainda a precisar de alguns acertos, mas a abrir o apetite para novas experiências. Já nas contribuições de autores ligados a outros géneros literários, nota-se um certo espírito leve que trai uma profunda falta de seriedade que se traduz uma abordagem light à literatura fantástica. Nota-se nos contos de Rui Zink e Clara Pinto Correia, e é perfeitamente assumida no puro nonsense de Manuel João Vieira. Surpreendeu a contribuição de Luísa Costa Gomes, uma autora que eu imaginava a anos-luz (trocadilho propositado) das literaturas fantásticas, com um conto assumido como uma juvenilia, etiqueta que caracteriza bem a percepção cultural sobre a literatura fantástica.

É talvez mal nacional este desinteresse pelo que ultrapassa a normalidade, nos faz pensar em frente, desperta a luxúria pelo futuro, que para passar do imaginário ao real só necessita da nossa vontade e engenho. É um estado de alma nacional, e não creio que chuvas de computadores ou programas governamentais de intervenção o possam, algum dia, mudar. Registos como o Ficções Científicas e Fantásticas ou outras obras semelhantes afirmam que em portugal ainda há vontade de fazer qualquer coisa diferente.

sexta-feira, setembro 20, 2013

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Retrato de Barreiros enquanto verde autor

Mais de uma década antes de O Caçador de Brinquedos e Outras Histórias, o primeiro livro "oficial" de João Barreiros, e meia década antes de outro João, o Aniceto, ter inaugurado a edição de ficção científica de língua portuguesa na Caminho com o seu romance premiado, Os Caminhos Nunca Acabam, saía para as mãos de uma seleta coleção de amigos, conhecidos e, provavelmente, alguns desconhecidos, uma ediçãozinha de autor com 34 páginas, feitas numa tipografia situada na mui distópica Reboleira Sul, embrulhadas numa capa pavorosa a preto e branco e divididas em dois contos: O Funcionário e O Sindroma do Pai Natal.

O ano era 1977 e Duas Fábulas Tecnocráticas, assim se chama o livrinho, marca a modesta estreia de João Barreiros na FC portuguesa. Modesta porque a edição é mesmo muito modesta, praticamente ao nível do que hoje qualquer um poderia fazer em casa com um computador e uma impressora barata. Modesta também porque o estilo do autor ainda não estava, nessa época, inteiramente definido. E modesta, ainda, porque passou quase completamente despercebida.

Estes dois contos, no entanto, são leitura muito interessante, quer para quem seguiu a trajetória do autor nos anos 80 e, principalmente, 90, quer para quem ainda não leu nada dele e quer ficar com uma ideia esquemática e bastante pálida daquilo que pode encontrar nos escritos de Barreiros.

É que nestes contos vamos já encontrar, embora em forma ainda algo bruta, muito do Barreiros posterior. Em O Funcionário encontramos violência extrema em cenário distópico e urbano, ao seguirmos o percurso de um assassino psicopático que mata mulheres grávidas num ritmo frenético, sem que se saiba bem por que razão não é apanhado. A tentativa de chocar o leitor é deliberada e propositada, como em toda a obra subsequente do autor. Já se nota a tendência para a referenciação subtil de toda uma atmosfera cultural onde Barreiros bebe, na qual a ficção científica, da mais intelectual à mais trash, é central. Os diálogos já têm a fluidez e caráter genuíno que são imagem de marca do autor. E etc.

No segundo conto, além da hiperviolência e demais características de O Funcionário, vamos encontrar um tema aparentemente obsessivo em João Barreiros: a desconstrução subversiva de todos os mitos de infância. Neste conto, é o Pai Natal o sacrificado (à semelhança de um outro conto, Noite de Paz, curiosamente o conto de Barreiros que foi mais vezes traduzido e publicado lá fora). De novo (sempre) em cenário catastrófico, de uma distopia hiperviolenta e total, O Sindroma do Pai Natal põe a nu a crueldade das crianças, atacando de passagem, mas sem contemplações, as pedagogias "boazinhas" que tratam os miúdos como seres fundamentalmente doces, por entre "carrinhas de eutanásia" enlouquecidas (a fazer lembrar o cliché das carrinhas de gelados dos filmes de terror série B) e corporações sem mais escrúpulos do que os necessários para salvar a própria pele.

Apesar de ser Barreiros em bruto, apesar de a edição, nas suas características físicas, ser horrível, apesar de necessitar de uma revisão profissional, o conteúdo deste livrinho consegue ser melhor do que muita da FC portuguesa publicada desde então. E isto não deixa de ter algo de deprimente.

Republicado, com alterações, do E-nigma.

sexta-feira, setembro 13, 2013

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O Doutor Benignus

Quando foi relançado em 1994 pela Editora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), O Doutor Benignus, romance de Augusto Emílio Zaluar publicado originalmente em 1875, ganhou evidência na mídia e foi muito comentado pelos participantes dos fandom brasileiro. Foi considerado um trabalho de arqueologia da ficção científica brasileira, contemporâneo das aventuras científicas de Júlio Verne, das quais recebeu forte influência.
Zaluar nasceu em Lisboa em 1826 e não completou os estudo em medicina para dedicar-se ao ofício de escrever, principalmente na área jornalística. Migrou para o Brasil em 1850, estabelecendo-se como jornalista. Seus interesses nas ciências, especialmente na antropologia, o levaram a se dedicar aos estudos sobre o homem brasileiro, e Zaluar acompanhava atentamente os trabalhos das missões científicas no Brasil, e isso fica claro na leitura de O Doutor Benignus, pois o autor faz questão de citar cada um dos seus inspiradores, inaugurando junto com o gênero uma mania cada vez mais em destaque entre os autores brasileiros de ficção científica e fantasia.
A história acompanha o sábio Dr. Benignus, que decide não mais viver em meio à corte brasileira no Rio de Janeiro e retira-se para uma fazenda em Minas Gerais. Lá, além da família, apenas alguns empregados. Durante uma incursão a um trecho de mata próximo a sua residência, Benignus encontra um pergaminho com o desenho do Sol e uma inscrição desconhecida. Obcecado com o achado, realiza amplas pesquisas até descobrir que a inscrição, em língua tupi, quer dizer “Aqui há habitantes”. A descoberta incute no sábio uma grande necessidade de provar a habitabilidade de outros mundos e, para isso, organiza uma expedição científica ao Brasil Central. Juntam-se a ele o cientista francês M. de Fronville e o jovem inglês chamado Jaime River, que pretende encontrar o pai, o pesquisador William River, desaparecido numa expedição à mesma região.
A comitiva reúne dezenas de pessoas e viaja pelas matas, sempre descritas como belas e hospitaleiras, evitando as estradas e os povoados para não assustar as pessoas. Pelo caminho, enfrentam diversas aventuras, como uma forte tempestade, a travessia de rios perigosos, o ataque de um jaguar negro (quando acontece a única baixa da expedição), a exploração de uma caverna – onde encontram o crânio fossilizado de um homem pré-histórico –, a queda de um meteorito e um incêndio florestal.
Seguindo as pistas do pesquisador desaparecido, a comitiva passa por Uberaba, Santa Rita de Paranaíba, Goiás, Jurupensém, Leopoldina e a Ilha do Bananal, onde acontece o grande desfecho. Ali, os aventureiros encontram uma nação carajá, cujo chefe Koinamam confirma a posse do pai de Jaime, mas recusa-se libertá-lo. A tensão aumenta, mas ocorre um incrível golpe de sorte: da floresta surge um balão de ar quente, conduzido por James Wathon, cientista norte-americano amigo pessoal do Dr. Benignus, alterando o destino fatalista da expedição.
O Doutor Benignus está longe de ser um livro de ficção científica e mal pode ser comparado às aventuras vernianas que o inspiraram. Trata-se apenas do relato de uma viagem de intelectuais ao planalto central do Brasil, sem muito apuro realista. O Brasil selvagem de Zaluar é um lugar de campos abertos, florestas limpas e rios navegáveis, sinal claro de que o autor nunca deve ter feito sequer uma incursão à Mata Atlântica.
O Brasil de O Doutor Benignus não parece ter muitos problemas além das dúvidas existenciais que incomodam o sábio. Colonialismo puro, é apenas um enorme parque de diversões para intelectuais entediados. Não há nada no romance, por exemplo, a respeito de questões dramáticas de sua época, como a escravidão, o preconceito racial e o movimento republicano. Os próprios cientistas da expedição carecem de credibilidade, pois suas considerações são sempre citações de cientistas mais afamados. Zaluar talvez não estivesse mesmo interessado em realizar um relato científico, como acontece com a fc de forma geral, mas a ciência de O Doutor Benignus resume-se a essas citações. Apenas durante um breve delírio onírico, no qual o sábio dialoga com um ser luminoso supostamente vindo do Sol, o texto consegue estabelecer um clima favorável ao fantástico mas, sendo apenas um sonho, não pode ser ponderado nesse contexto. Contudo, percebe-se nele alguma vontade em ser fantástico na medida em que tem seu gérmen no papiro misterioso que, na interpretação do Dr. Benignus, sugere a habitabilidade do Sol e, em suma, era o que o ele pretendia provar com sua viagem ao Planalto Central, mas que não tem maiores significados na trama.
A edição da UFRJ é bem cuidada e, ainda que tenha atualizado a grafia, manteve os maneirismos do autor. O livro tem nada menos que quatro prefácios, sendo um deles um glossário com explicações das idiossincrasias textuais. Fecham o volume, um grande caderno de notas comentando as muitas citações, e um posfácio assinado por Alba Zaluar, provável descendente do autor, com uma leitura crítica que destaca a forma descomprometida com que Zaluar tratou as figuras da mulher e do negro.
Podemos, é claro, chamar à ficção científica o mérito pioneiro de O Doutor Benignus, da mesma forma que tomamos textos de muitos outros autores que nunca imaginaram que o que escreveram seria um dia adotado como registros históricos de um gênero. Mas é preciso ser um tanto criativo para encontrar ficção científica em O Doutor Benignus.